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6ª Festa Literária de Porto Alegre
De 10 a 19 de maio
Um dos principais eventos culturais da cidade, a FestiPoa reúne uma programação artística variada e uma diversidade de escritores para debater e refletir sobre a produção literária contemporânea.
- Segunda, 13 de maio, às 19h – Poesia e tradução: Paulo Neves e Nicole Pegeron. Leitura bilíngue (português/francês) de
poemas de Paulo Neves e comentários sobre tradução de poesia. Local: Palavraria.
- Terça, 14 de maio, às 18h30 – Identidade de nós mesmos: Debate com Daniel Galera e Altair Martins. Mediação: Luciana Thomé. Local: Casa de Cultura Mario Quintana.
- Quinta, 16 de maio, às 18h30 – Reflexões de um escudeiro de Cervantes: Ernani Ssó comenta a tradução de Dom Quixote. Entrevistador: Reginaldo Pujol Filho. Local: Casa de Cultura Mario Quintana.
- Sábado, 18 de maio, às 10h30 – A literatura no jornalismo impresso: Ronaldo Bressane, Carlos André Moreira e Sérgio Rodrigues. Mediação: Claudiney Ferreira. Local: Casa de Cultura Mario Quintana.
- Sábado, 18 de maio, às 14h30 – Narrativas gráficas sequenciais: Bruno Azevedo, Ronaldo Bressane e Pedro Franz. Mediação: Augusto Paim.
- Sábado, 18 de maio, às 16h30 – Narrativas de vertigem e convulsão: João Gilberto Noll e Sérgio Sant’Anna. Mediação: Marcelo Freire.
- Quarta, 22 de maio, às 21h – Lançamento da HQ Guadalupe, de Angélica Freitas e Odyr Bernardi. Local: Tutti Giorni – Av. Borges de Medeiros, 1224, Centro.

Mário Magalhães em Santa Maria
Segunda-feira, 13 de maio, às 19h
Mário Magalhães participa de palestra e autografa a biografia Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo.
Local: Câmara de Vereadores de Santa Maria – Rua Vale Machado, 1415 – Centro – Santa Maria, RS

Sessão de autógrafos de Joca Reiners Terron
Terça-feira, 14 de maio, às 19h30
Joca Reiners Terron autografa seu novo romance, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves.
Local: Loja Companhia das Letras por Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073 – Conjunto Nacional – São Paulo, SP

Bate-papo com Rubens Figueiredo
Terça-feira, 14 de maio, às 19h
Rubens Figueiredo participa da mesa “O fascínio dos Russos”, no evento Babilônia na Travesa.
Local: Livraria da Travessa – Shopping Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290 – Rio de Janeiro, RJ

Daniel Galera em Natal
Sexta-feira, 17 de maio, às 19h
Daniel Galera participa de bate-papo e autografa Barba ensopada de sangue.
Local: Livraria Nobel – Av. Sen. Salgado Filho, 1782 – Lagoa Nova – Natal, RN

Lançamento infantil em São José dos Campos
Sábado, 18 de maio, às 17h
Lançamento do livro Sombrinhas, de Jean Galvão.
Local: Livraria Maxsigma – Vale Sul Shopping – São José dos Campos, SP

Encontro de leitores da Seguinte em Porto Alegre
Domingo, 19 de maio, às 16h
Participe do lançamento do livro juvenil A Elite e concorra a brindes exclusivos e um exemplar de A Seleção autografado por Kiera Cass.
Local: Saraiva MegaStore – Praia de Belas Shopping Center – Av. Praia de Belas, 1181 – Porto Alegre, RS

Semana cento e cinquenta e três

Os lançamentos desta semana são:

O diabo no corpo, de Raymond Radiguet (Trad. Paulo César de Souza)
Em meio ao sofrimento das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, a jovem esposa de um soldado em batalha inicia um caso com um adolescente de dezesseis anos, o narrador deste O diabo no corpo. O envolvimento entre os dois vai se tornando mais sério. Ela engravida. O falatório começa a se espalhar pela vizinhança. O cerco se fecha sobre os amantes. Um final trágico se anuncia. Quando publicado pela primeira vez, em 1923, o livro de estreia de Raymond Radiguet causou sensação nos círculos letrados de Paris — em parte por se tratar da produção de um prodígio, escrita quando seu autor tinha dezessete anos, em parte porque foi considerado uma obra-prima por autores como Jean Cocteau. Com tradução e posfácio de Paulo César de Souza, esta novela foi o único sucesso que Radiguet conheceu em vida. O autor faleceu poucos meses depois, de febre tifoide, aos vinte anos de idade.

Dix & Bisteca, de Rita Vidal e Alexandre Barbosa de Souza
Bisteca tem cor de caramelo, é vegetariano e passa horas a fio contemplando o vazio. Dix é preto, carnívoro e adora comer a ponta emborrachada dos grampos de cabelo. Do convívio apaixonado com os dois gatos e da observação fina de tantas manias curiosas nasceu este livro, que nos apresenta os dois felinos a partir de poemas inesperados e lindas ilustrações feitas com antigos papéis de parede.

Nova antologia pessoal, de Jorge Luis Borges (Trad. Davi Arrigucci Jr, Heloisa Jahn, Josely Vianna Baptista)
Nova antologia pessoal foi organizada pelo próprio Borges e publicada pela primeira vez em 1968. Em sua vasta atividade crítica, a organização de inúmeras antologias teve papel decisivo. Por meio delas, com os achados e a seleção de sua alta inteligência, fecundou seu ambiente literário, abrindo-o para traduções inéditas. Suscitou o diálogo com textos raros, desconhecidos ou reinventados; renovou o repertório dos autores considerados clássicos. Como antologista da própria obra, Borges não foi menos rigoroso. Tinha autocrítica severa com relação aos poemas da primeira juventude e vivia a reescrever os próprios textos. Esse trabalho pode ser visto na Antologia pessoal, originalmente de 1961, publicada pela Companhia das Letras na coleção Biblioteca Borges em 2008, e agora na Nova antologia pessoal. Mais generosa que a primeira, a Nova antologia traz um volume maior de textos e assuntos. A perplexidade metafísica, a memória dos mortos que se perpetua nos poemas, as imagens cifradas de uma língua pretérita, a linguagem, a pátria, o destino paradoxal dos poetas — esses e vários outros temas são nela recorrentes. A exemplo da anterior, esta antologia forma um caleidoscópio, em que pedacinhos de vidro recombináveis fantasiam as múltiplas faces da totalidade.

Os mortos, de James Joyce (Trad. Caetano W. Galindo)
Para um explorador da alma humana como James Joyce, o amor jamais poderia deixar de ser um tema de interesse. E, como não poderia deixar de ser no caso de um autor capaz de esmiuçar como ninguém a vida interior de seus personagens, suas visões sobre a experiência amorosa se descortinam por meio de reflexões reveladoras, suas tão comentadas epifanias. Como a de Gabriel Conroy — de “Os mortos”, conto que encerra a coletânea Dublinenses —, que numa festa descobre fatos novos sobre a vida afetiva pregressa da esposa e a partir de então começa a repensar sua relação conjugal e até mesmo seu próprio conceito de amor. Ou a epifania do protagonista de “Arábias”, outro conto do mesmo volume, um garoto que, incapaz de encontrar num bazar um presente para a menina por quem é apaixonado, descobre a falsidade por trás da ideia da idealização do amor romântico. Ou ainda a do célebre “sim” de Molly Bloom ao final de seu monólogo no último capítulo de Ulysses — um dos solilóquios mais lidos e admirados de todos os tempos —, aceitando Leopold Bloom em sua cama assim como a mítica Penélope acolheu de volta o herói da Guerra de Troia. Os mortos compreende três grandes momentos do amor na literatura, na prosa de um dos maiores escritores do século XX.

Lolô, de Grégoire Solotareff (Trad. Michaela Nanni)
O coelho Tom nunca tinha visto um lobo, e também não sabia que devia ter medo desse bicho que nós conhecemos tão bem e que aparece nas histórias como o senhor da braveza. Lolô, o lobo deste livro, também não tinha encontrado nenhum coelho na vida, tampouco sabia que deveria caçar esse animal tão bonzinho e saboroso. Assim, os dois se tornam melhores amigos e passam o dia se divertindo juntos. Mas, como sempre, uma coisa triste acontece e atrapalha tudo: Lolô inventa uma brincadeira chamada “medo-de-lobo” e assusta Tom além da conta. E agora?

Portfolio-Penguin:

Supertimes, de Khoi Tu (Trad. Peterso Rissatti)
O que a Pixar, os Rolling Stones, a Ferrari e a Cruz Vermelha têm em comum? Seu sucesso se deve a muito mais que o simples brilhantismo individual. Toda organização, seja uma empresa ou uma ONG, sobrevive ou desaparece pela qualidade de seu trabalho em equipe. A maioria dos desafios importantes exige uma reação coletiva e, embora a excelência individual seja essencial e necessária, a capacidade e a vontade de construir, liderar e trabalhar em equipe não raro representam a diferença entre sucesso e fracasso. Em Supertimes, Khoi Tu analisa os sete fatores que levam equipes a obter resultados sistematicamente extraordinários, emergindo ainda mais fortes das inevitáveis crises.

Cenas Literárias 1

Por Tony Bellotto

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(A cena que se segue é baseada em fatos reais e tem como um dos personagens um famoso escritor. Teste seus conhecimentos literários adivinhando que escritor é esse).

Cidade do México, 06 de setembro de 1951.

Quando Bill e Joan entraram no apartamento, Marker e Eddie estavam na mesa, bebendo. Sobre a mesa, além dos copos e da garrafa, Bill notou o revólver. John, o dono do bar que funcionava no térreo, frequentado por americanos, conseguira a arma que Bill procurava.

“Estou pensando em levar Joan e Billy Junior para a América do Sul. Vamos viver na floresta, caçando e pescando para sobreviver”, disse Bill, lembrando-se dos tempos que passara na selva equatoriana com Marker em busca de yagé.

“Se dependermos de você como caçador, a família vai morrer de fome…”, disse Joan, sarcástica, irritada com a atenção exagerada que o marido dispensava a Marker em especial e a garotos em geral.

“É? Deixa eu mostrar pros rapazes aqui como o velho Bill sabe atirar…”, disse Bill, pegando a arma sobre a mesa. “Joan, lembra do Guilherme Tell?”

Joan, que nos últimos tempos andava abusando da benzedrina e do gim, topou o desafio. Sentou-se numa cadeira, colocou o copo de gim tônica sobre a cabeça e fechou os olhos.

“Não vou olhar”, ela disse, sorrindo. “Você sabe que eu não posso ver sangue…”

Bill começou a fazer a mira e, antes que os dois garotos bêbados percebessem que aquilo não era uma brincadeira, disparou.

A cabeça de Joan tombou devagar contra o peito, enquanto o sangue escorria do ferimento.

“Acho que sua bala atingiu a Joan, Bill”, disse Marker, rompendo o silêncio que se instalara no pequeno apartamento.

Bill largou o revólver, pegou a mulher nos braços e começou a chamá-la, inutilmente: “Joan! Joan!”

O copo de gim tônica permanecia no chão, intacto.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, Machu Picchu, acaba de ser lançado.

Meia lua inteira (parte 1)

Por Luiz Schwarcz


Pilar del Río com José Saramago na noite de entrega do prêmio Nobel. (Foto por Jan Collsioo)

Como editores, nem sempre privamos da intimidade dos autores. Estas eventualidades surgem nas bordas de uma atividade cujo fim é público, e o fazer, coletivo. Momentos de intimidade entre editor e autor podem ocorrer durante o processo de edição, ou nos bastidores do lançamento de um livro — e em alguns casos permanecem para além desse momento. Talvez vocês já estejam cansados de me ouvir falar que, mesmo com escritores altamente profissionais, a publicação de um livro é uma atividade de grande importância simbólica e psicológica para os envolvidos. O editor que desconhecer esse aspecto, e não souber lidar com os espaços íntimos que se criam nessas situações — com grandes chances de evoluir para uma situação embaraçosa —, poderá perder a confiança de seus autores, ou mesmo ter de encerrar a carreira precocemente. Nesse caso, não há receita que eu possa ensinar a um jovem profissional interessado no assunto, a não ser a de buscar em sua alma a mistura de uma boa dose de sensibilidade com outra igual de delicadeza, aliadas a um controle do próprio ego. São oportunidades raras que um ego dilatado pode destruir. O editor precisa sempre saber ouvir, mais do que falar. Não deve querer se sobressair, confrontar, ou mesmo posteriormente fazer uso público de momentos essencialmente privados.

Falo com conhecimento adquirido por conta de erros acumulados, como os citados acima. Quem sabe numa outra ocasião poderei falar de situações de confronto entre autor e editor; de erros que cometi ao superestimar a amizade que privava com certos escritores; de como me esqueci dos limites que surgem no cruzamento das relações profissionais com as pessoais.

Também não quero fazer falsas promessas. Parte do que ocorre no convívio com autores está fadado a permanecer em minha memória, e apenas lá. Assim os “contos” aqui são parciais em vários sentidos, são as minhas meias-luas inteiras — o que posso lhes oferecer.

Pois se houve um autor com quem posso falar que tive certa intimidade, foi José Saramago. Intimidade construída através de várias visitas às suas casas — em Lisboa, em Lanzarote e em Lisboa novamente —, de viagens comuns, quando ele recebia alguns de seus incontáveis títulos de Doutor Honoris Causa em universidades espalhadas pelo mundo, antes do prêmio Nobel, ao qual Lili e eu comparecemos, ela com um vestido longo que lhe era pouco usual, eu um verdadeiro ET num fraque alugado para as festividades. Nesta ocasião frequentamos a suíte presidencial do agraciado com o Nobel de literatura, que ficava em andar isolado, ao lado apenas de outra igual, em que se hospedava ao mesmo tempo o astro pop Bruce Springsteen. Subíamos a chamado de Pilar, para aprovar seus trajes antes das diversas solenidades, para fazer companhia ao casal junto com outros amigos próximos, sempre nas horas vagas, entre uma solenidade e outra, ou para compartilhar com alegria, logo cedo pela manhã, o grande destaque da primeira página do jornal local dado à Pilar, elegantérrima em seu vestido vermelho balão, acompanhando José na noite de Estocolmo. Foi o único Nobel ao qual compareci. Fiquei chateado posteriormente por não ter sido convidado à premiação de Orhan Pamuk, até compreender que, sendo editor do escolhido, o que meus colegas faziam era escrever diretamente à Academia Sueca que confere o prêmio e se inscrever para a mesa dos editores do premiado. No caso de José Saramago não foi preciso, pois entramos na lista dos amigos ou familiares do autor.

No entanto, o que conferiu maior intimidade da minha família com o grande escritor português foram as inúmeras viagens pelo Brasil, que fizemos acompanhando o crescimento de sua popularidade nacional, e, principalmente, o fato de que, avesso a hotéis, Saramago pediu, logo no começo de nossa amizade, que o hospedasse em minha casa sempre que viesse a São Paulo. E assim foi. Por vezes meus filhos tiveram que dormir no mesmo quarto para que José e Pilar ficassem hospedados no quarto do Pedro — questão resolvida quando a Júlia saiu de casa e seu quarto virou a sede dos Saramagos a cada novo lançamento de obras do José.

Assim acompanhamos o casal a Tiradentes, pouco depois que sua obra veio para a Companhia das Letras — muito antes do prêmio Camões e do Nobel —, quando o fato de Saramago ser reconhecido nas ruas de uma pequena cidade histórica em Minas Gerais ainda causava espanto a todos nós. Em Tiradentes, compartilhamos o gosto por uma deliciosa sopa de abóbora com gengibre, feita por um dos recepcionistas da pousada Solar da Ponte, apenas a pedidos de hóspedes que não desejavam jantar fora. Saborear uma sopa juntos numa noite fria em Minas Gerais, zombar dos gostos alimentares alheios, como faziam José e Lili — o primeiro detestava todos os pratos feitos com coco, e ela desde sempre uma apreciadora fervorosa dos doces brasileiros —, acabou por gerar uma empatia e conhecimento mútuo que muitas discussões literárias ou filosóficas nem sonhariam proporcionar. A “dialética do coco”, fantasiosa e interminável discussão caseira que ocorria entre os dois, desenvolvida a cada visita, valeu mais que tantas outras dialéticas sobre as quais possivelmente também falamos, em oportunidades menos bem humoradas.

Saramago sabia ser soturno, mas tinha um senso de humor impagável, como sua obra mesmo atesta. Nos seus livros o humor surge quando menos se espera, principalmente na exasperação da lógica absurda da linguagem literária. Os livros de Saramago devem tanto a Cervantes como a Ionesco. Neles, estão presentes traços de um Franz Kafka zombador. Assim também era José na intimidade. Sua risada, nem sempre pública, era franca e cheia de ternura. Gostava de quem lhe fazia sorrir. Sorria com quem compartilhava princípios, afinidades e gostos pessoais. Em situações difíceis, como após uma seção de acupuntura em casa, para tratar de um sério tombo ocorrido no banheiro do hotel no Rio — com todos nós esperando do lado de fora do quarto, temerosos com a possibilidade da contusão ter sido mais grave —, sentindo-se melhor graças aos bons tratos do jovem acupunturista Marcus Prada, José chamou-nos e disse sorrindo sem parar:

— Pilar, Lili, Luiz, descobri que Deus existe. Mas não contem a ninguém que eu disse isso. Deus existe!

Foram anos e anos da convivência mais rica, de uma profunda amizade, que se provou ainda mais real quando tivemos uma discordância, sobre a qual achei que eu não deveria calar.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Minhas memórias sobre “Memória da pedra”

Por Mariana Mendes

Oh... my God ...!!!             ...........DSCF4995110507

Li Memória da pedra no carnaval, antes de ser publicado, por causa da Vanessa Ferrari, amiga e editora da Companhia. Ela estava com o primeiro romance do carioca Mauricio Lyrio impresso em word e veio me perguntar, na surdina, se eu não queria ler. Na verdade não foi tão na surdina assim. Em geral, tenho acesso aos livros da editora e acho que eles são muito bem compartilhados internamente por seus editores. Ela veio com charme e sedução, que é o modo preferido dos editores quando querem a minha opinião para pensar estratégias de divulgação do livro para o seu potencial leitor. Perguntei quem era o escritor, como o livro tinha chegado. Quis saber para estar em pé de igualdade de informações com ela, a editora. Quem trabalha no meio editorial sabe que às vezes informações prévias pesam, às vezes, não. A única certeza é que não existe ciência exata em se tratando de livros.

Sempre que na editora me pedem para ler algo, sei o que está em jogo. Em um primeiro momento, é a minha experiência de quinze anos trabalhando no departamento de educação e na divulgação dos livros entre professores. É claro que o meu olhar é para tentar extrair eventuais potencialidades da obra para este público. E ter acesso ao livro antes é o pulo do gato. Combinei com a Van que faria meus comentários na quarta-feira de cinzas. Ela me avisou que no dia seguinte o Mauricio estaria na editora.

Quando li, veio a paixão. Minha expectativa para o carnaval era alta, tinha a ambição de ler cinco livros. Não deu. Enquanto lia não parei de dizer, à minha volta, que estava impressionada, como eu estava gostando do romance, que não larguei até chegar ao fim. Sabe quando você termina um livro e precisa dar um tempo antes de pensar no próximo? É um misto de não ter disposição para mais nada com querer ficar revivendo a história. Li de domingo para segunda, com paradas necessárias para respirar e me situar, recobrar o fôlego. Com ritmo ágil, múltiplas tramas que se sustentam sem depender de explicações a todo o momento, personagens intensas.

O livro conta a história de Eduardo, professor de filosofia de universidade pública no Rio. Quando sai para dar aula fica observando no caminho uma turma de meninos pedindo dinheiro na rua. De digressão em digressão a respeito do seu passado, vai sendo levado a investigar se a morte de seu pai teria sido realmente acidental. O leitor é seduzido desde as primeiras páginas e a vontade é seguir em frente, de preferência correndo. Ao terminar, a sensação nebulosa de não saber se o que havia passado por mim era um filme, ou um livro. E as imagens do Rio de Janeiro como coadjuvante foram inspiradoras. Eu e o Luiz, aliás, elegemos uma preferida (leia o trecho abaixo). Na quarta-feira de cinzas a notícia de que eu tinha amado o livro se espalhou pela editora. Mentira, não foi assim tão rápido. Contei pra Van da minha empolgação com o livro e até me esqueci de dizer sobre a questão das adoções. “É um p… livro!”. Quando o Mauricio apareceu no dia seguinte conversamos um pouco. Pude dizer o quanto tinha gostado e que, com relação aos professores, era uma questão menor, o livro estaria aí para quem quisesse se aventurar.

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Trecho que começa na página 80:

Ao longo da subida, Eduardo e Laura pararam algumas vezes para olhar para trás. Viam o automóvel desaparecer na distância, o ponto de luz da carrocinha como referência do começo. Era preciso adaptar o passo aos degraus curtos, um degrau por vez parecia pouco, dois, um pouco demais. A escada fora projetada para os corpos menores de um século anterior, para penitentes que se dobravam com os olhos na pedra. A meio caminho, chegaram a um platô, uma espécie de mirante, que se abria para um pátio, um pequeno coreto, outra igreja. Começavam a avistar a cidade, as luzes que se estendiam sem limites em direção ao norte e só se interrompiam à direita, com as águas da Baía de Guanabara. Retomaram a subida, aproximaram-se da senhora que avançava de joelhos, coberta de branco, com seus movimentos lentos e regulares. A vela na mão iluminava a pedra manchada de antigos círculos de cera. Na outra mão, carregava um terço. Tinha o contentamento dos que pagam e a fadiga nas linhas grossas do rosto. Cumprimentaram-na discretamente.

Flutuando no alto, iluminada nos contornos, nas linhas de portas e janelas, a igreja parecia um barco em romaria, desenhado por uma criança de bom humor. A fachada de trás, onde terminava a escada, tinha o aspecto de uma prefeitura de vilarejo, com sua simetria simples, de formas regulares. As pirâmides magras dos campanários da frente, que já se avistavam da escada, eram apêndices externos, uma ideia tardia. A lateral extensa, elegante com suas janelas e arcos, era baixa para a fachada principal, como um edifício de dimensões próprias, projetado por outro arquiteto, mais sóbrio. Romário e Gilberto esperavam sentados no último degrau da escadaria, com um ar de cobrança.

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Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.