Por Carol Bensimon
Durante minha infância, em absolutamente todas as férias de julho, eu ia para o Rio de Janeiro com minha mãe. Meus avós tinham um apartamento na Barra, em uma parte simpática chamada Jardim Oceânico. Lá não havia a mínima tentativa de miamização, os prédios tinham no máximo quatro andares, a gente ia caminhando buscar sonho de creme na padaria, um papagaio se exibia numa sacada, e a enigmática Praça do Ó era puro areião. Meus avós fugiam do frio de Porto Alegre entre maio e setembro. Quase nunca iam à praia, embora estivessem a duas quadras dela. Quando nós chegávamos em julho, eles finalmente venciam os limites da Barra da Tijuca. Nós tínhamos um roteiro meio pronto e repetido à exaustão. Um dos programas era passar algumas horas no Shopping da Gávea, o que para mim queria dizer apenas uma coisa encantadora: Livraria Malasartes.
Naquela época, isto é, em meados dos anos noventa, não havia nenhuma livraria memorável em Porto Alegre, ou ao menos não uma que apelasse diretamente aos pequenos. Por isso eu ficava tão empolgada quando, no fim de outubro, com jacarandás florescendo na Praça da Alfândega e aquela coisa toda, eu e meus pais íamos fazer compras na Feira do Livro. Metade de minha biblioteca infantil e infantojuvenil deve ter vindo de lá. A outra metade tem a etiqueta da Livraria Malasartes.
A Livraria Malasartes era uma livraria especial para crianças. Era escura e apertadinha, com prateleiras de ferro, perdida num corredor do Shopping da Gávea. Eu acho que ela está lá ainda, mas não tenho certeza, minhas buscas no google remeteram a matérias e vídeos de 2005. Livros que eu nunca tinha visto na vida podiam ser encontrados naquele lugar. Coleção Vaga-lume, coleção Salve-se quem puder, livros grandes com ilustrações sensacionais, histórias de bichinhos se metendo em confusões, lendas gregas, amazônicas, da Idade Média, uma série de como era ser criança na Roma antiga, no século XVI, no império asteca, na Revolução Francesa. Essas duas últimas coleções me foram particularmente caras e particularmente manipuladas ao longo de muitos anos.
Eu lembro da senhorinha da Livraria Malasartes. Ela ficava atrás da caixa registradora enquanto eu espiava à vontade. Eu adoraria que os vendedores fossem assim hoje em dia, em vez de lhe abordarem assim que você dá um passo para dentro de uma loja. Outra coisa eu lembro muito bem: nessas andanças pelo Shopping da Gávea ou qualquer outro lugar parecido, eu sempre estava alguns passos atrás ou alguns passos à frente do resto da minha família. Eu era filha única. Eu criava mundos inteiros e histórias inteiras que ia fazendo avançar na minha cabeça. Quando eu estava sozinha, eu encenava as histórias em voz alta, mas, naquelas situações, envolta em mundo real, eu simplesmente ia dirigindo e acompanhando o filminho que rodava só para mim. A maioria desses mundos tinha se aberto pelas páginas de um livro. Naquela época, e ainda hoje, acho que não existia melhor maneira de conhecer outros lugares e se pôr na pele de outras pessoas.
Apelo: nunca deixem de dar livros para crianças.
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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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