amós oz

De volta ao futuro

Por Luiz Schwarcz


Comemoração de 25 anos da Companhia, após a conferência de Amós Oz no SESC (Foto por Renato Parada). Veja todas as fotos aqui.

Havia muita gente no SESC Pinheiros. Não consegui falar com (ou mesmo notar a presença de) muitos autores e amigos. Ouvi comentários de muitos que lá estiveram, e de como gostaram da palestra de Amós Oz. Tivemos grande sorte em tê-lo como nosso convidado, encerrando as festividades dos vinte e cinco anos da Companhia. Outros autores poderiam ter cumprido o mesmo papel. Seriam também brilhantes, assim como são também bons amigos. No entanto, há um calor na relação de Amós conosco, e com o seu público, que acaba resultando numa emoção particular; perfeita para a ocasião.

Essa foi, inclusive, a parte da festa que consegui aproveitar. Sentado na segunda fila, ouvindo Amós Oz, que, entre outras tantas passagens brilhantes, descreveu o drama israelense aos olhos de Shakespeare e Tchekhov.

Depois disso, havia muita gente, muita festa para que eu pudesse usufruir. Já descrevi em outros posts como fico tal qual zumbi em minha casa quando recebo autores e convidados, durante as inúmeras recepções que fazemos para celebrar visitantes internacionais. Em casa em geral recebemos vinte ou trinta convidados. No SESC, porém, havia quase mil pessoas: muito pior pra mim.

Acabada a festa, o que pretendo fazer é uma verdadeira volta para o futuro. Quero trabalhar e pensar a editora para os próximos vinte e cinco anos; olhar para os que me acompanharam todo este tempo e para as gerações novas que sugiram, e pensar como a Companhia deve passar, cada vez mais, para outras mãos.

Atualmente, muitas decisões editoriais já são tomadas quase sem a minha participação. E isto deverá ocorrer cada vez mais, para o próprio bem da editora. A primeira medida será me afastar da parte do contato com a imprensa, que já gostei de fazer, no passado. Hoje não tenho mais a mesma desenvoltura. Envelheci mal neste quesito. Tenho me tornado um sujeito mais tolerante em vários aspectos, mas neste me movi no caminho contrário. Com razão? Não sei.

Creio que a Companhia precisa entender melhor as mudanças do país, almejar dialogar com um público que costumeiramente não é o seu. Ou seja, usar o patrimônio de seu catálogo para abrir novas portas, e falar com gente mais jovem, oriunda de classes sociais que só agora têm acesso à cultura. Um público que, ademais, deseja entrar nesse mundo através de livros , filmes, teatro, arte… Gente que quer fazer parte. E que agora pode.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Literatura e guerra: perspectivas israelenses

No dia 9 chegaram ao fim as comemorações dos 25 anos da Companhia das Letras, com a conferência de Amós Oz no SESC Pinheiros.

O escritor israelense falou sobre sua família, a proximidade da tragédia e da comédia, a escassez de livros sobre a guerra, e o conflito entre Israel e Palestina. Veja o vídeo completo abaixo:

(Para assistir com áudio em português, clique aqui.)

Um bom punhado de coincidências

Por Luiz Schwarcz

Lilia Moritz Schwarcz, José Saramago e Amós Oz.

Era a primeira vez que Amós Oz vinha ao Brasil. Eu já o encontrara em Frankfurt e o conhecera muito superficialmente. Mas tê-lo entre nós era uma grande emoção para mim. E emoção não faltou durante aqueles poucos dias que passamos juntos, entre Rio e São Paulo.

No Rio, teríamos pouquíssimo tempo. Mencionei alguns passeios que ele poderia fazer. Amós escolheu ir ao Museu do Pontal, para conhecer a coleção de arte popular montada por Jacques Van de Beuque. Não visitou nenhum ponto turístico. Encantou-se com o lugar que depois viria a encantar também Saramago, e influenciar o final de A caverna.

Em São Paulo, Oz deu uma palestra emocionante, num lugar estranhíssimo. Não sei por que cargas d’água resolvemos fazer seu evento num cinema, justamente na rua Augusta, no então, e já meio abandonado, Shopping Vitrine. Amós falou de improviso, em pé, em frente à tela apagada, ou à cortina que a cobria — não me lembro mais. Num certo momento refletiu sobre o silêncio e sobre o tempo, temas sempre presentes em suas obras.

No dia seguinte, José Saramago chegaria em São Paulo, com Pilar. Os dois escritores se admiravam muito. Saramago já era muito popular naquela ocasião em Israel. E Oz, bastante reconhecido em Portugal. A única chance de promover um encontro entre os dois seria na hora do almoço, no dia da partida de Amós. Organizamos um almoço em casa, só os dois casais de escritores, a Lili e eu. Não havia língua comum entre eles: Saramago não falava inglês; Oz não entendia francês. O jeito foi contratar dois intérpretes: Lili e este que vos fala.

No meio da conversa Saramago começou a refletir sobre o tempo. Era a minha vez de traduzir. No meio da tarefa, olhei para a Lili e, boquiabertos, notamos que o escritor português repetia exatamente, quase que com as mesmas palavras, a reflexão que seu colega israelense desenvolvera na noite anterior. Não preciso ressaltar que um não tinha como saber o que o outro dissera. No final do almoço, Nilly Oz tirou fotos dos dois escritores e de todo o grupo.

Essa coincidência se repete de certa maneira esta semana com a comemoração dos 25 anos da Companhia. Saramago, infelizmente, não está mais entre nós para poder participar pessoalmente das festividades. Era um bom amigo pessoal meu, com quem eu não concordava em muitas ocasiões, mas boas amizades podem se alimentar até de discordâncias. Ao decidir fazer algumas palestras para celebrar o aniversário da editora, quis escolher algum escritor que fosse, como o Saramago, também um amigo especial. O nome de Amós foi o primeiro da lista. E sua resposta não podia ser mais positiva. Pediu uma semana para pensar, e em uma semana recebemos o seu sim.

Ao lerem esta crônica a festa dos 25 anos da editora já terá ocorrido. Agora me preparo para a emoção que está por chegar, quando vou ouvir Amós Oz falar no último palco brasileiro que Saramago visitou em vida. A viagem do elefante foi lançado mundialmente no Brasil, com um evento no teatro do SESC Pinheiros, que José converteu em um ato de homenagem a seus leitores brasileiros, e talvez também para nós, seus editores. É lá também que Amós Oz falará, nesta quarta — ou melhor, a esta altura, onde Amós Oz já terá falado para um público de aproximadamente mil pessoas.

Para quem acha que as boas coisas da vida surgem, em grande parte, por meio de coincidências, não há do que se queixar.

P.S.: Para coroar a série de coincidências, cito mais duas: esta semana lançamos O monte do mau conselho, um livro do início da carreira de Oz. Junto com ele foi às livrarias Claraboia, segundo romance de Saramago, cuja publicação o autor pediu que fosse feita apenas depois de sua morte.

P.S. 2: Chegamos à celebração final de nosso aniversário com dois livros no topo das listas de mais vendidos. As esganadas, de Jô Soares, e Steve Jobs, de Walter Isaacson. Mais uma coincidência feliz.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Semana vinte e quatro

Os lançamentos desta semana foram:

Notas sobre Gaza, de Joe Sacco (Tradução de Alexandre Boide)
No trabalho mais ambicioso de sua carreira, o quadrinista Joe Sacco funde passado e presente para contar a história da escalada de violência no conflito entre israelenses e palestinos a partir de dois episódios esquecidos, relegados às notas de rodapé dos livros de história.

Método prático da guerrilha, de Marcelo Ferroni
Uma combinação de história e ficção, que narra a malfadada aventura de Che na Bolívia. Valendo-se de paráfrases da história, através de diários e relatórios, Ferroni apresenta desde os bastidores da ação, na formação das redes urbanas do movimento da esquerda internacional, até as frentes de batalha em Ñancahuazú, recriando em detalhes os acontecimentos daquela trágica (e por vezes cômica) guerrilha.

Uma certa paz, de Amós Oz (Tradução de Paulo Geiger)
Este romance acompanha as difíceis relações familiares de Ionatan Lifschitz, um jovem frustrado com a vida regrada e monótona em um kibutz. Em uma de suas obras mais aclamadas, Amós Oz dá voz aos pensamentos das suas personagens, por mais rígidos e chocantes que sejam.

O bom Jesus e o infame Cristo, de Philip Pullman (Tradução de Christian Schwartz)
Philip Pullman imagina uma versão para a história de Jesus Cristo, transformando esse notório personagem em dois: os gêmeos Jesus e Cristo, de personalidades opostas. Na encruzilhada em que invenção e realidade se tocam, aflora a curiosidade irresistível pelo que separa a História de uma história.

Scott Pilgrim contra o mundo – volume 2, de Bryan Lee O’Malley (Tradução de Érico Assis)
A vida de Scott Pilgrim parece estar se acertando. De saída, ele já mandou para a lona dois ex-namorados do mal de Ramona Flowers (faltam cinco). Além disso, o namoro com a misteriosa americana parece estar engrenando, e até mesmo sua banda, a Sex Bob-Omb, tem conseguido acertar um ou dois acordes. Nosso herói, quem diria, está entrando na linha. Ou pelo menos é o que se imagina. Neste segundo capítulo da série, Scott descobrirá outra faceta de sua enigmática namorada, será perseguido por um vegan místico e terá de lidar com os grandes dilemas da vida adulta: dividir ou não um apartamento com seu melhor amigo gay e, principalmente, arrumar um emprego ou continuar jogando Final Fantasy II.

Obras completas, vol 18: O mal-estar na civilização e outros textos, de Sigmund Freud (Tradução de Paulo César de Souza)
O mal-estar na civilização é considerado o mais importante trabalho de Freud no âmbito da sociologia e antropologia. Escrito às vésperas do colapso da Bolsa de Valores de Nova York (1929), é uma investigação sobre as raízes da infelicidade humana, sobre o conflito entre instintos e cultura e a forma que ele assume na civilização moderna. O volume também inclui Novas conferências introdutórias, Por que a guerra? e outros.

Traduzindo Amós Oz

Por Paulo Geiger


Amós Oz (Foto por Bel Pedrosa)

Depois de traduzir para a Companhia quatro livros de Amós Oz, refiz meu conceito de que a boa tradução consiste em expressar num bom português aquilo que o autor expressara em sua própria língua. Aprendi que traduzir Amós Oz — e talvez isso valha para todo autor — é principalmente sintonizar com seus sentimentos, suas ideias e suas possíveis lembranças, entrar o mais possível em sua cabeça, seu coração e seu estômago, e escrever em português do mesmo jeito que ele escreveria se escrevesse em português.

Em Oz isso quer dizer, muitas vezes, relativizar “boas regras”, abrir mão de “textos redondos” para fazê-los ásperos e angulosos, nem sempre mantê-los fluentes porque são às vezes espasmódicos, não buscar coerência onde a incoerência é que prevalece.

Por exemplo:

Oz é repetitivo. Repete palavras, repete situações, insiste em certos termos, como uma nota em baixo contínuo; usa refrões, insiste em evocações recorrentes, porque assim acontece na vida e nas histórias que ele cria.

Oz mistura tempos verbais, o futuro como presente e até como passado, o presente como passado, às vezes num mesmo período, fazendo lembrar o estilo bíblico, mas sem a letra vav inversora da Bíblia, que faz o futuro valer como passado. O tempo gramatical em Oz é escravo, não senhor, do tempo literário. Um parágrafo pode começar tendo um sujeito como relator e terminar na voz de outro.

Oz nunca se refere a quantidades definidas, é sempre dois ou três, dez ou doze, porque a quantidade exata não é importante, os números só retratam conceitos, não quantidades.

Oz não dá importância a “continuísmos”, a trama não precisa ser coerente nos fatos, só na impressão que eles suscitam. Em Rimas da vida e da morte, um personagem é tio de um outro no início do livro, mas é primo no fim. Em Uma certa paz, uma mulher tem cabelos cortados curtos quando descrita pela primeira vez, mas os tem em bastas tranças que lhe coroam a cabeça “dois ou três” (à la Oz) dias depois. (Falei com o autor sobre o primeiro caso, ele respondeu que era proposital.)

Oz usa abundantemente a metáfora explícita, a comparação de situações com alternativas paralelas; as pessoas agem e as coisas acontecem “como que…”, “como se…”, ampliando a descrição do “real” com um substrato simbólico ou ilustrativo do “possível”.

As entrelinhas de Oz são quase tão poderosas quanto as linha escritas. Nelas habitam suas lembranças pessoais, os contextos históricos de Israel e do povo judeu, canções, poemas, lemas e slogans. Nelas se retrata a época, o lugar, o mood de uma geração.

Finalmente: em Oz, quem descreve a realidade (ou a máscara da realidade, como queria o teatro grego) não é o autor, mas seus personagens. São eles que dão o tom e a direção.

Por tudo isso, muitas vezes decidi comprometer a fluência, tão necessária na leitura de ficção, e acrescentar notas que permitissem ao leitor penetrar no mundo não visível mas tão presente na história, para usufruir do que é mais importante numa leitura, e fundamental em Oz: enxergar a totalidade do contexto, e nele ver um fragmento representativo do mundo e da humanidade.

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Paulo Geiger é fazedor de dicionários e enciclopédias há 45 anos, tradutor do hebraico há 55, mas recomeçando do zero com Amós Oz.