chris ware

Mitsunaga, Ronin

Por Érico Assis

Diz o André Conti, editor da Quadrinhos na Cia., que estava em Nova York conversando com Chip Kidd, tentando convencê-lo de que, sim, a editora conseguiria fazer uma edição de Asterios Polyp à altura da original. Kidd é um designer de imenso renome no mundo bibliófilo e um dos cabeças da Pantheon, selo de graphic novels da Knopf, que publicou Asterios nos EUA.

O trunfo do André era a edição brasileira de Jimmy Corrigan: o menino mais esperto do mundo. Kidd também estivera envolvido no original.

— Mas então a letreirista de vocês teve que fazer tudo à mão? — perguntou o designer.

— Não. Ela criou as fontes e fez as variações.

Foi a definição que levou Kidd a ligar para David Mazzucchelli e convencê-lo: “Ok, pode deixar os brasileiros fazerem Asterios. Eles dão conta.”

O foco da conversa era, enfim, o trabalho de Lilian Mitsunaga. Eu, o André e mais alguns milhares de leitores de gibi de super-herói crescemos prestando atenção ao nome dela nos créditos da Editora Abril. Posso dizer que aprendi a ler com a letra da Lilian Mitsunaga. Na época, ela ainda fazia tudo à mão.

Letreirização de quadrinhos é daquelas coisas que você, leitor, só costuma notar quando há algo de errado. Valorizar o letreirista é algo que parte ou do quadrinista — que tem considerações sobre o contraste entre a fonte e seu traço, sobre o posicionamento dos balões, sobre as quebras de linha — ou do editor. No caso dos quadrinhos traduzidos, a letreirização é notada quando algum resenhista compara com o original e reclama que “a fonte escolhida para a edição brasileira trai a essência da obra.

É difícil que alguma dessas críticas chegue à Lilian. Quando eu a visitei, há poucas semanas, ela havia acabado de terminar a letreirização de Habibi, as quase 700 páginas do Craig Thompson que a Quadrinhos na Cia. lança em breve*. Lilian criou três fontes para reproduzir a caligrafia de Thompson. Alguns trechos tiveram que ser feitos “à mão” (leia-se desenhados no Illustrator). O da foto acima é um dos casos (clique aqui para ver a página).

Na conversa, descobri que o tempo de ofício da Lilian é igual à minha idade. Ela entrou na Editora Abril em 1980 já para colocar letrinhas nos balões das HQs. Passou dezoito anos como funcionária, mesmo que sempre tenha trabalhado em casa. História da época: “O Bafo-de-Onça, inimigo do Mickey, antes era Bafodeonça. O nome ganhou hífens depois que um letreirista separou as sílabas num balão. Numa linha ficou ‘Ba-‘, e na seguinte ‘fodeonça’.”

Quando deixou de ser funcionária e abriu empresa própria, continuou prestando serviço à Abril — hoje faz as letras de todos os gibis Disney, por exemplo —, mas também começou a trabalhar com os leitores que cresceram e viraram editores de quadrinhos. Também foi mais ou menos por essa época que começou a letreirar no computador — quando Macs ainda eram bastante caros e você precisava telefonar para os fabricantes de fontes nos EUA se quisesse comprar uma família tipográfica.

Na Companhia das Letras, Lilian fez a maioria dos Tintins antes de virar letreirista oficial da Quadrinhos na Cia. São delas as fontes de Will Eisner, Dan Clowes, Angeli, Laerte, Lourenço Mutarelli, Caeto — em alguns casos, criadas a partir do que originalmente era só nanquim. Faz parte do trabalho dela você não perceber o que é manuscrito e o que é digital.

Para o disputado Asterios Polyp, Lilian criou quinze fontes. E o serviço que encheu os olhos de Chip Kidd, Jimmy Corrigan, disputa com Asterios o primeiro lugar entre os mais complicados. Nas edições originais, Chris Ware vai na gráfica acompanhar a impressão. Para as estrangeiras, estipula em contrato como lidar com os arquivos — fica proibido chapar o preto com as outras cores, por exemplo — o que pode quintuplicar o serviço do letreirista.

Lilian é uma ronin. Trabalha sozinha, desde sempre — só tem colaboradores, externos, quando sua empresa presta serviço de tradução, colorização, revisão. Especificamente quanto às letras, sempre se especulou que ela assinava em nome de uma equipe, seguindo a tradição dos mangakás. A realidade é ela, um computador, mesa digitalizadora, impressora, scanner e dois telefones num escritório ao lado da sala de estar.

Trinta anos a tornaram sobre-humanamente rápida. Habibi tomou oito anos de Craig Thompson. Lilian levou dez dias. Tem gente que vai levar mais tempo para ler todo o álbum.

* Habibi tem lançamento previsto para o final de julho.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Por Erico Assis



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Links da semana

Hoje foram divulgados os vencedores do Troféu HQ Mix, e a Quadrinhos na Cia. foi escolhida a editora de quadrinhos do ano. Spacca (Jubiabá), Chris Ware (Jimmy Corrigan) e Craig Thompson (Retalhos) também foram premiados. Obrigado a todos que votaram em nosso trabalho!

Falando em premiações, a casa britânica Ladbrokes está aceitando apostas sobre o próximo ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. No momento, o poeta sueco Thomas Transtromer é o mais cotado para ganhar o prêmio.

Semana passada aconteceu a Homenagem a José Saramago, no SESC Vila Mariana. No site do programa Metrópolis você pode ver um trecho da apresentação. As fotos estão no nosso álbum do Picasa.

Uma pesquisa americana descobriu que um em cada quatro leitores de quadrinhos tem mais que 65 anos. A Raquel Cozer, do suplemento Sabático, entrevistou o quadrinista Joe Sacco, autor de Notas sobre Gaza.

A Juliana, do Portal PUC-Rio Digital, entrevistou Moacyr Scliar sobre seu novo livro, Eu vos abraço, milhões. A Kika, do Meia Palavra, escreveu uma resenha sobre o livro.

A revista Paris Review colocou em seu website todas as famosas entrevistas que realiza desde a década de 1950, com escritores como Truman CapoteJorge Luis BorgesJohn UpdikeGay Talese.

O Julio, do Digestivo Cultural, resenhou Ponto final, de Mikal Gilmore. O Mauro, do blog De vermes e outros animais rastejantes, falou sobre O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J.P. Cuenca.

Um longo artigo do New York Times fala dos julgamentos que decidirão o destino de documentos até então desconhecidos de Franz Kafka.

A Andréia, do Guia de Leitura, falou de AvóDezanove e o segredo do soviético, de Ondjaki. O Felipe, do Meia Palavra, leu Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, e a Amanda, do blog O Café, resenhou Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho.

O escritor Neil Gaiman disse pelo Twitter que está lendo Fábulas italianas, de Italo Calvino. A Kelly, do Blog da Cultura, falou sobre as manias que cada escritor tem.

O blog Classics Rock! se dedica exclusivamente a reunir músicas que mencionam ou foram inspiradas por livros, e o site Flavorwire critica os clichês em fotos de escritores.

O Evaldo falou em seu blog sobre Henry Louis Mencken, autor de O livro dos insultos. A Mariana, do Outra xícara por favor, resenhou O Dia do Curinga, de Jostein Gaarder, e o Alfredo falou em seu blog de O senhor vai entender, de Claudio Magris.

Os designers da IDEO divulgaram um vídeo com três idéias de inovações que a leitura digital pode trazer para os livros.

E Malcolm Gladwell, em um artigo na New Yorker, desdenha da possibilidade de as redes sociais causarem alguma mudança real no mundo. O texto causou um certo furor na internet, e respostas a ele apareceram em sites como WiredThe Atlantic Wire.

Jimmy Corrigan: o livro mais difícil do mundo

Por André Conti

A capa de Jimmy Corrigan com erro no título.

Uma das atribuições do editor é evitar que o livro saia com erros. Não que seja uma briga justa. O erro faz parte do livro, ele pode vir de todas as formas e como você menos espera. Claro que um livro passa por várias pessoas e que, com o tempo, você vai identificando os focos mais graves (bibliografia e notas de livros de história, quantos momentos de terror). Fora que, em geral, são coisas menores de padronização, espaços duplos etc. E há aqueles erros que, embora mais graves, são totalmente contornáveis. Envolvem atrasar o livro, trocar alguma coisa, enfim. Nesses casos, você solta um longo suspiro e, em face do desastre, dá aquela caminhada fatal até o chefe para avisar do problema.

Mas o chato é falhar miseravelmente. A burrada extraordinária, o momento de distração que coloca tudo a perder, da pior maneira. Passei por pelo menos um desses aqui na editora, com o agravante de que o livro em questão era um dos que eu mais queria publicar desde que tinha entrado na Companhia, em 2005. Já no começo de 2006, escrevemos para a agente do Chris Ware, autor de Jimmy Corrigan: o menino mais esperto do mundo, perguntando sobre os direitos do livro. Na época, só conseguiríamos um preço de capa bom se dividíssemos o Jimmy Corrigan em dois volumes, coisa que o autor não autorizou. Uma editora estrangeira havia feito o mesmo, e aparentemente o resultado não ficou tão bom.

Colocamos a ideia na gaveta. Dois anos depois, quando começamos a bolar o selo de quadrinhos da editora, voltamos a discutir o livro. Alguns elementos de produção haviam barateado, e era possível publicar em um volume só, com um preço mais camarada. Novo contato com a agente e tudo certo. Encomendei a tradução do Daniel Galera, que já estava trabalhando havia um bom tempo na Cachalote com o Rafael Coutinho. Enquanto ele terminava, fomos cuidar das imagens.

Ali já deu para perceber que não seria fácil. O livro foi publicado nos Estados Unidos em 2000, o que em termos de softwares de diagramação — e de formatos de arquivos — é o mesmo que 1950. Nada era compatível, nada ficava direito. E quando aplicamos o texto nos balões e começamos a fazer testes no papel em que íamos imprimir o livro (detalhe: para ficar na cor do original, o papel teve de ser inteiro pintado de amarelo), mais problemas. Os traços pretos, que no original eram perfeitamente lisos, saíam serrilhados. Seria preciso mexer nos arquivos iniciais, jogando fora pelo menos dois meses de trabalho de diagramação.

Mas não havia o que fazer. Um dos baratos do Jimmy Corrigan é justo o design, e o livro tinha de ficar bonito. Toca o departamento de produção fazer milagre. Depois de uma certa arqueologia para adaptar os arquivos do livro aos padrões dos dias de hoje — e de alguns (muitos) testes —, chegamos numa linha preta que batia com o original. Tapinhas nas costas, hora de acertar os detalhes de um lado e de calibrar as cores do outro.

No primeiro front, dor de cabeça. O livro tem literalmente centenas de detalhes (o tradutor havia recorrido a uma lente de aumento a certa altura), e era preciso checar tudo, estabelecer padrões (que placas traduzir? o que fica em inglês?), fazer acertos finais no texto, enfim, parar em cada quadro para ver se estava tudo em cima. No que fica, aliás, o meu agradecimento ao Mário pelas cópias ampliadas.

No departamento de produção, as coisas não iam tão bem. Novos testes de papel mostravam uma diferença muito grande entre as cores da nossa edição e as do original. Enquanto o monitor indicava mais uma vez que o livro estava bom, no papel o vermelho saía laranja, o verde ficava azul, o marrom voltava para o vermelho, sabe-se lá o que ia acontecer com o amarelo. Entramos em contato com o autor, que gentilmente sugeriu que acertássemos as cores na gráfica, como ele havia feito quando o livro saiu lá fora. Mas se isso era comum em 1950, hoje em dia não é bem assim. Era preciso voltar ao arquivo mais uma vez e calibrar página por página, às vezes quadro por quadro, até acertar tudo. Quando chegamos num dos testes finais, o motoboy que foi pegar o pacote na gráfica caiu no caminho e, embora não tenha se machucado, o mesmo não pode se dizer do nosso teste.

Enquanto isso, eu estava finalizando a capa. Como tudo no livro, a capa é repleta de microtextos, piadinhas escondidas, detalhes microscópicos. Até colocar o logotipo e o nome da editora foi uma dificuldade. Mas uma hora deu tudo certo, rodamos os cadernos, rodamos a capa, olhei as duas coisas e a gráfica então montou o livro. Dois dias depois, chegam os primeiros exemplares. Alegria geral, ainda que uns dois meses depois do prometido. Fui mostrar para um dos colegas de editorial, que também gostava do livro e que tinha feito muita força para que publicássemos.

“Ué”, ele disse, “por que o nome está diferente na capa e dentro do livro?”. Dei risada. “Olha como ficou bonito!” “Sim, mas dentro está escrito ‘O menino mais esperto do mundo’ e na capa saiu ‘O garoto mais esperto do mundo’.” Uma, duas, três ocorrências — para piorar, o nome do livro aparece dezenas de vezes ao longo da história — de “o MENINO mais esperto do mundo”. Puta. Que. Pariu.

A notícia começa a se espalhar, e logo uma pequena aglomeração se forma no corredor para discutir o que fazer. Sigo suando frio e com problemas de respiração. A solução mais óbvia é desencapar o livro, rodar a capa novamente e remontar tudo. Em casos normais, isso é perfeitamente possível. A única coisa é que é preciso cortar uns poucos milímetros do livro em cima e embaixo, para que ele possa caber de novo na máquina. Só que, no caso do Jimmy Corrigan, isso envolve cortar ilustrações e texto, já que em vários momentos o autor aproveita a página cheia. Isso e aquilo depois, e o único jeito é jogar a tiragem inteira fora. Dores agudas no braço esquerdo.

O Luiz, colunista mais ativo deste blog e também nosso chefe, estava viajando. O fuso horário ainda me obrigaria a esperar até o dia seguinte para dar a notícia por telefone. Antes de ir para casa, fui até a diretoria saber o tamanho do prejuízo. Basta dizer que foi a mais longa das noites.

Nesse meio-tempo, a Geane, que trabalha na produção e que passou muito aperto com os arquivos do Jimmy Corrigan, foi para casa e telefonou para uns amigos. Ela tinha uma gráfica antes de entrar na Companhia, e conhece muita gente do ramo. Numa das conversas, teve a ideia de trocar a capa em brochura, que é a mais comum nos livros, por uma capa flexível, dessas um pouco mais grossas que usamos de vez em quando. Por um detalhe técnico — a capa flexível é um pouco maior do que o miolo do livro, então a máquina dela não exige o corte —, conseguiríamos reencapar o livro e não teríamos de jogar tudo fora. Três vivas para a Geane, por favor.

O telefonema fatal do dia seguinte acabou sendo um pouco menos dramático. O livro iria atrasar (de novo), mas o desastre não havia sido completo. E como agora checo milhares de vezes, imagino que não vá errar mais o nome de um livro na capa. Quanto a errar de novo, bom, todo mundo erra.

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André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.

Chris Ware dançando

Por Erico Assis

Chris Ware em sua casa (Foto por Tom VanEndye)

No livro Nouveaux moments clés de l’histoire de la bande dessinée, François Ayroles elege como um dos “novos momentos-chave da história dos quadrinhos” o dia em que Chris Ware, aí pelos 8 anos, enviou uma carta para Charlie Brown. Ele lera a tirinha dos Peanuts em que Charlie não sabe se vai receber cartões de Valentine’s Day. O pequeno Chris, lágrimas nos olhos, escreveu um cartão e endereçou-o ao dono do Snoopy.

Quinze anos depois, Ware já estava publicando quadrinhos no jornal da universidade. Mais uma década e ele lançaria Jimmy Corrigan: o menino mais esperto do mundo, clássico instantâneo das HQs e tratado visual sobre o fracasso e a tristeza.

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Num cross-over entre Jimmy Corrigan e Quimby the Mouse — Ware tem vários personagens recorrentes, que mudam de personalidade e circunstâncias de acordo com a necessidade —, Jimmy é procurado por um amigo em desespero: “o meu avô! Ele… ele envelheceu! Temo que algum dia possa até morrer! Ele tocava tuba para mim, agora não consegue mais!”.

O garoto mais esperto do mundo busca a solução nas “bibliotecas mais remotas do mundo”, empenha navios, aviões, trens, carros e horas sem sono para desenvolver a solução. O último ingrediente necessário: a cabeça do jovial camundongo Quimby. Jimmy liga para Quimby, o ratinho diz “sempre achei que algo assim fosse acontecer” e envia sua cabeça pelo correio. O experimento dá certo e Jimmy cura a velhice.

O avô revigorado vai tocar tuba no rádio. Jimmy lembra que Quimby adora ouvir concertos de tuba. Mas, de repente, Jimmy se entristece ao lembrar que Quimby não tem mais orelhas para ouvir música. A história termina com Quimby, sem cabeça, imóvel em sua poltrona, diante do rádio desligado.

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Do momento em que publicou Jimmy Corrigan até hoje, Ware, apesar de toda aparente falta de destreza nas relações humanas, tornou-se uma espécie de embaixador dessa nova fase de respeito literário dos quadrinhos, levando o país fechado das HQs ao planeta da alta cultura. Ganhou um prêmio de literatura do jornal inglês Guardian, foi o primeiro quadrinista a ter exposição solo no Whitney Musem of Art e editou o número 13, todo dedicado aos quadrinhos, da McSweeney’s, a revista dos novos nomes da literatura norte-americana.

Sua relação com o mundo highbrow é inédita para as HQs; parece mais a de um novo e celebrado literato. Ele já publicou seus contos (dá para chamar de “conto” se é HQ?) na Virginia Quarterly Review, no New York Times, na Granta, na New Yorker, na coletânea sobre estudos de personagens (organizada por Zadie Smith) The book of other people e em vários outros espaços. Em 2006, ganhou 50 mil dólares da fundação United States Artists, que financia artistas de áreas diversas. Seu estilo também já foi à TV, para animar sequências do programa This American Life. Há pelo menos quatro livros dedicados exclusivamente a analisar sua obra, publicados em inglês, espanhol e francês. The comics of Chris Ware: drawing as a way of thinking, deste ano, é uma reunião de artigos científicos sobre suas HQs.

Suas principais ocupações, porém, são a série Acme Novelty Library — que este ano chega à vigésima das edições publicadas sem frequência nem formato definidos desde 1993 — e projetar os volumes de arquivo da tira Krazy Kat (1913-1944). Seu “próximo Jimmy Corrigan” pode ser Rusty Brown, a história de um menino geek que vira adulto geek, e que vem sendo serializada na Acme Novelty.

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Ware: “Gente feliz tem arte de sobra. Toda a nossa cultura é organizada em torno de gente feliz. Os infelizes também precisam de alguma coisa.”

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Num documentário produzido para a TV francesa, Ware admite que prefere viver com as coisas do passado, “quando não parecia que tudo estava indo ladeira abaixo”. Diz isso enquanto monta a vitrola para tocar um de seus crepitantes discos de ragtime, o estilo musical de grande sucesso nos EUA da década de 1910. Ele já editou uma revista para os aficionados em ragtime e fazia capas de discos para músicos que ainda seguem o estilo, como Andrew Bird.

Nesse momento, a câmera capta-o, de pé, ouvindo a música. As mãos atrás do tronco, sua grande cabeça dá um leve indício de que vai se mexer. A câmera desce até seus pés — um dos quais bate sutilmente, ritmado, no chão. Chris Ware está dançando.

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Chris Ware enviando carta para Charlie Brown em Nouveau moment clés de l’histoire de la bande dessinée. O documentário na TV francesa: baixe completo ou assista em partes no Youtube (1, 2, 3). Ware na Virginia Quarterly Review, no Guardian, na New Yorker.  Seu perfil na American United Artists. Três animações para o programa This American Life: um clipe de Andrew Bird, uma história, outra história. Livros sobre o artista: Chris Ware, de Daniel Raeburn (Yale University Press, 2004), Chris Ware: la secuencia circular, de Ana Merino (Sinsentido, 2005); Chris Ware: la bande dessinée réinventée, de Benoît Peeters e Jacques Samson (Impressions nouvelles, 2010); The Comics of Chris Ware: drawing as way of thinking, organizado por David M. Ball e Martha B. Kuhlman (University Press of Mississipi, 2010). A variação de formato nas edições de Acme Novelty Library. E a frase citada de Ware vem de uma entrevista dele na revista Wizard.

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P.S.: Jimmy Corrigan não foi o primeiro livro com Chris Ware publicado pela Companhia das Letras. Procure em Little Lit: fábulas e contos de fadas em quadrinhos, de 2003, uma história-jogo de Ware no final.

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.