craig thompson

Quem lê quadrinhos (2): o condomínio que leu Retalhos

Por Érico Assis

reading on the roof

Rogério Rezende tem 47 anos, é escritor e avalia livros para bibliotecas na Secretaria de Educação de Campo Grande, bairro de Cariacica (ES). Peça a ele uma lista do que gosta de ler e veja o pergaminho se desenrolar das mãos: Tolkien, Lewis Carroll, C.S. Lewis, Karen Armstrong, Hans-Ulrich Treichel, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Blake, Keats, Jorge Amado, Scliar, Marie Darrieussecq, Ana Cristina César… e Craig Thompson. E Marjane Satrapi. E Jonathan Franzen.

Ele respondeu minha coluna “Quem aí lê quadrinhos?” com este e-mail:

Quando comprei Retalhos, também havia comprado Liberdade, de Franzen. No condomínio a molecada vivia o triângulo da (in)felicidade: escola, Playstation e shopping. Cheguei em casa e meu sobrinho de 13 anos viu o livro na minha mão. Queria saber que livro era aquele. Era legal?

Sem ter lido, falei que sim.

— Deixa eu ler? — pediu.

— Hãã… Tá, toma.

Imaginei que 55 pilas voltariam com orelhas e cheias de folhas amassadas.

O livro foi lido naquele dia pelo Daniel. No dia seguinte foi levado para a escola e foi um incêndio. Tanto que a biblioteca teve que comprar dois exemplares para atender a demanda. Nem vampiro nem lobisomem chegavam perto do interesse da garotada pelo livro. Alguns pais curiosos pelo interesse dos filhos também leram.

Acredito que mais de 50 pessoas leram aquele livro.

Antes havia comprado/emprestado Persépolis, mas não foi a mesma coisa, nem de longe foi o tsunami de Retalhos. Se não tivesse acontecido comigo, alguém contasse, eu acharia que alguém estava querendo vender o livro ou empolgado em demasia por um livro para adolescentes.

A dúvida atual de Rogério é se Habibi terá o mesmo feito. Ele ainda não leu. Nem o condomínio.

Hoje ele me enviou mais um e-mail:

Queria lhe contar uma experiência que aconteceu aqui no trabalho do Setor de Formação Continuada. Li um post seu em que colocava umas tarjas laranjas sobre os balões da história. Lembra? Pois é, eu conversando com a coordenadora disse que seria interessante usarmos isso nas aulas de redação e leituras de língua portuguesa. Ela gostou da ideia e incluiu esse assunto no curso. Comprou e usou o Diário de um banana. Resultado que vários professores começaram a usar quadrinhos nas salas de aula.

Uma das escolas decidiu colocar em cada sala uma “gibiteca” (nome horrível). A escola está situada num baixo de risco e vulnerabilidade social e tinha um Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) baixo. Ocorreu um fato curioso: os alunos levavam os quadrinhos para casa e muitos pais passaram a ler. Alguns foram alfabetizados com essa iniciativa. Na última avaliação, foi a escola da região que teve o melhor Ideb.

Como eu acredito que os quadrinhos são, comprovadamente, o meio ideal para que os alunos aprendam e se instruam, tenho defendido uma biblioteca de quadrinhos para cada escola.

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Tenho recebido os e-mails mais fantásticos sobre experiências com leitura de quadrinhos. Outros ainda virão para a coluna. Quem mais aí lê quadrinhos? Entre em contato: ericoassis@gmail.com

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Semana cento e quinze

Os lançamentos desta semana são:

Habibi, de Craig Thompson (Trad. Érico Assis)
Dodola, uma garota perspicaz e independente, foge de seus captores levando consigo uma criança. Eles crescem juntos no deserto, só os dois, vivendo num navio naufragado na areia. Em meio a sentimentos cada vez mais conflitantes, os dois passam o tempo contando histórias. Assim, somos apresentados também à origem do islamismo e de suas tradições, conforme as narrativas se combinam numa trama de aventura, romance, filosofia e tragédia. Para contar a saga de Dodola e Zam, Craig Thompson recorreu ao Corão e às Mil e uma noites. Do primeiro, colheu o próprio estilo do livro, inspirado na caligrafia árabe, e também as narrativas do texto sagrado dos muçulmanos, recriadas com maestria pela pena do autor. A partir do segundo, elaborou um cenário fantasioso, repleto de lendas e histórias, uma versão quase mitológica da nossa ideia de Oriente. Ambientado nos dias de hoje, Habibi não se passa em nenhum país conhecido. É uma terra igualmente fantástica e concreta, onde questões presentes se misturam a indagações ancestrais. Crítica social, questionamentos ecológicos, paralelos entre religião e amor: tudo encontra seu lugar nesta narrativa tão épica quanto particular. Fruto de sete anos de pesquisas e trabalho, Habibi é um monumento do quadrinho moderno e uma resposta atual a questões que nos perseguem desde sempre.

Poemas escolhidos, de Elizabeth Bishop (Trad. Paulo Henriques Britto)
Apesar de ter publicado pouco em vida, Elizabeth Bishop é tida como uma das mais importantes vozes da poesia norte-americana.
Esta antologia, organizada e traduzida por Paulo Henriques Britto, apresenta grande parte dos poemas que a autora publicou em vida e alguns poemas póstumos, ainda inéditos em português. Estão aqui também os poemas que a autora escreveu sobre o Brasil, resultado das quase duas décadas em que morou no país. Mesclando a capacidade de observar e descrever a textura do mundo, lugares e animais a uma inclinação psicológica e subjetiva, Bishop se debruça sobre temas como o tempo, a memória, a natureza e o amor, em composições que apresentam uma grande variedade de recursos formais, em que a relação entre forma e conteúdo é perfeitamente evidente. Como ressalta Paulo Henriques Britto em um dos textos introdutórios que acompanham o volume, “como todo poeta lírico, Bishop toma sua própria experiência individual como matéria-prima; como todo artista maior, com base nesse material pessoal ela cria obras cujo interesse vai além do puramente autobiográfico e pessoal”.

Mao: a história desconhecida, de Jung Chang e Jon Halliday (Trad. Pedro Maia Soares)
Mao: a história desconhecida é a mais sólida biografia de Mao Tse-tung já escrita, fruto de uma década de pesquisa em arquivos do mundo todo e centenas de entrevistas com amigos, colaboradores e conhecidos de Mao – boa parte dos quais nunca havia se pronunciado. O resultado do árduo trabalho de Jung Chang e de seu marido, Jon Halliday, é a demolição de diversos mitos. O livro foi um dos lançamentos mais esperados no mundo todo e causou grande impacto quando foi publicado, no Reino Unido, em 2005.

José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes
No filme José e Pilar, o diretor Miguel Gonçalves Mendes apresentou ao público um Saramago desconhecido. Acompanhando seu dia a dia, revelou a intimidade de um dos mais fascinantes escritores da língua portuguesa. Neste José e Pilar – Conversas inéditas, Miguel reuniu entrevistas realizadas durante o período em que conviveu com o autor e sua esposa, a jornalista espanhola Pilar del Río. São depoimentos sinceros e comoventes sobre trabalho, arte, morte e, é claro, o amor de um pelo outro. Nas conversas, estão presente o humor desconcertante de Saramago, o conhecido ritmo de suas frases e, sobretudo, o mesmo universo que a ele interessou durante toda a carreira, elementos que aparecem aqui em momentos inesperados: quando o autor fala de um sonho que teve na infância ou repara na paisagem durante um passeio de carro. Ou ainda quando interrompe um depoimento de Pilar para observá-la sendo entrevistada. Mas, se realmente não há distância entre o Saramago escritor e o José deste livro, isso fica ainda mais claro quando ele se volta à política e à religião, temas que sempre o acompanharam. Com um olhar crítico e ferino, revê episódios polêmicos de sua trajetória e defende uma vida livre “dessa superstição paralisante” que seria a crença em Deus. O homem que queria morrer “lúcido e de olhos abertos” surge aqui, enfim, como alguém que seguiu o conselho que ele mesmo costumava dar a jovens escritores: “Não tenhas pressa e não percas tempo”. Leia um trecho aqui.

O código de honra, de Kwame Anthony Appiah (Trad. Denise Bottmann)
Seja o fim do duelo na Inglaterra, a abolição do costume chinês de amarrar os pés, o término da escravidão no novo Mundo ou do assassínio de meninas e mulheres no Paquistão, o que está em jogo é a honra. Neste livro original e provocador, Kwame Anthony Appiah, um dos filósofos mais importantes da atualidade, mostra como o conceito de honra foi central para impulsionar revoluções morais no passado – e, ainda, como isso poderia acontecer no futuro. Ao narrar casos de ruptura na história e de tradições locais ainda vigentes, o autor revela que o apelo à razão, à religião ou à moralidade não é suficiente para causar mudanças efetivas. mais comumente, hábitos cruéis são erradicados quando entram em conflito com a honra. Mas eis que surge a questão: código de honra local versus código moral universal. Sem abrir mão do rigor filosófico, o autor imprime leveza ao texto, referindo-se também a fatos cotidianos. Em todas as instâncias, Appiah não se abstém de defender uma ética da identidade e das diferenças, e de valorizar, acima de tudo, o bem mais precioso: o direito à vida.

Sonho de uma noite de verão, de Andrew Matthews e Tony Ross (Trad. Érico Assis)
Na cidade de Atenas, tem gente sofrendo por amor: Hérmia está prometida a Demétrio, mas ama Lisandro, com quem decide fugir. porém, o plano logo chega aos ouvidos do noivo abandonado, que os segue até um bosque não muito longe dali. Por lá, a paixão também está causando discórdias. Oberon, o orgulhoso rei das fadas, está em pé de guerra com a esposa e resolve lhe dar uma lição usando uma flor encantada que tem o poder de despertar o amor em qualquer um. Prepare-se para muita diversão, nesta comédia romântica com um quê de conto de fadas – talvez o mais popular dos textos de Shakespeare -, e descubra curiosidades sobre as fontes de inspiração deste grande dramaturgo.

As dez melhores histórias da Bília, de Michael Coleman (Trad. André Czarnobai)
Basta abrir este livro para conhecer as histórias mais famosas do Ocidente sob novos – e hilariantes – pontos de vista. Aqui você lerá o diário de Adão e conhecerá a sua verdadeira personalidade; descobrirá como Deus e Noé bolaram o plano de transformar a Terra numa grande enxurrada, e como Noé fez para reunir toda aquela bicharada dentro da sua arca; saberá todas as coisas que Moisés fez – e que o transformaram na grande estrela do Antigo Testamento – a partir de seu próprio relato, entre muitas outras anedotas interessantíssimas. Além disso, dez seções de fatos fantásticos discutem como os animais, os símbolos, os direitos da mulher e outros assuntos são abordados na Bíblia.

Como ler “Habibi” (2)

Por Érico Assis

[Clique aqui para ler a parte 1]

Quando esteve no Brasil, em 2009, Craig Thompson disse que eu devia work on my Koran, caso viesse a traduzir Habibi. Por e-mail, ele também me sugeriu Uma história de Deus, de Karen Armstrong. A ex-freira Armstrong recupera a construção da ideia do ser divino nas religiões que se formaram principalmente no Oriente Médio, destacando seus pontos em comum.

O encontro de religiões é explícito em Habibi. Mesmo que você não soubesse (via Retalhos) que Thompson teve criação cristã, ele é um autor produzindo para o público cristão-ocidental e este é seu ponto de partida. Ao tratar do islamismo, ele faz questão de ressaltar, até didaticamente, os momentos em que o Corão trata de personagens da Bíblia — inclusive com versões divergentes, como a história de Isaque, Abraão e Ismael.

Também li O Corão, de Bruce Lawrence, que faz bom apanhado da biografia de Maomé e serviu principalmente para eu encontrar opções consagradas de tradução fonética — ou melhor, para descobrir que estas não existem. الحديث é hadith ou hadiz ou hadite ou ahadith? O diabrete jinni (ou djinni) vira jinn no plural (segundo Lawrence e tradutora) ou é jinn no singular e jinni no plural (segundo outras fontes)? Descobri inclusive que não se fala em traduções do Corão — as versões em outros idiomas são “explicações” ou “significados”, pois o texto árabe original, além de ser feito para ser lido em voz alta, com rimas e musicalidade própria, possibilita várias interpretações.

Também comecei A leitora do Alcorão, de G. Willow Wilson, uma das críticas que comentei na última coluna, e Islã, de Paul Balta. Nesses admito que fui pulando capítulos até achar o que interessava. Armstrong e Lawrence ficaram de referências principais.

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Islã, Corão, Maomé e ahadith são pano de fundo de Habibi. Porém, além de demandar pesquisa do tradutor, foram o principal ponto de discussão dos críticos de Habibi. Há poucos dias, foi o português Pedro Moura que se somou à lista dos que veem ingenuidade em Thompson dizer que sua obra é apenas um conto de fadas ou uma história de amor, diante de pano de fundo tão carregado. Ele se soma a Robyn Creswell, convidada do New York Times para resenhar a obra, que voltou à discussão orientalismo/exoticismo. Michael Faber, no Guardian, também não gostou muito da temática sexualizada.

Como eu já disse, porém, Habibi não vive só de ataques. Douglas Wolk, na Time, declarou-se apaixonado pela arte “miraculosa” de Thompson. Jacob Lambert, na Millions, chamou-a de “maior história já desenhada”. O Independent, o Washington Post (com resenha em quadrinhos), a Salon, o Financial Times e outros derreteram-se. Foi até acréscimo de última hora nos 1001 Quadrinhos para Ler Antes de Morrer. E um dos primeiríssimos comentários sobre o álbum veio de Sean T. Collins, que fez todos os orientalistas tornarem-se contramão ao dizer que “não é uma obra sobre o Islã… é uma obra que usa o Islã para tratar de outras coisas” — sendo as outras coisas as obsessões pessoais, humanas e poéticas de Thompson.

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Foi Collins também que destacou o projeto ousado que é a estrutura do livro — que Thompson faz questão de deixar a descoberto, não querendo fazer mistério quanto ao intento. É algo, aliás, que talvez só tenha importância na segunda ou terceira leitura. Nas palavras do autor:

“A estrutura do livro baseia-se no símbolo do quadrado mágico, espécie de talismã árabe. Na prática, é como o Sudoku — um quadrado três por três com nove letras árabes, uma em cada espaço. Isto se reflete na estrutura do livro, pois são nove capítulos, e cada capítulo baseia-se numa letra árabe que também tem seu componente numerológico, e com este número também ganha um componente geométrico. O capítulo intitulado ‘Anel de Salomão’, por exemplo, estrutura-se em torno de uma estrela de seis pontas — a Estrela de Davi, também conhecida como Selo de Salomão. Todos os temas do capítulo enfocam o profeta Salomão e o número seis na estrela de seis pontas.”

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Pode soar arrogante usar o título “Como ler _______”. Este, porém, é o título não-dito de qualquer crítica: propor uma forma de ler a obra, com ênfase no propor. Você também pode decidir se e como vai ler estes críticos. Assim como fará a sua própria leitura de Habibi.

Por mais que eu seja suspeito, com minha leitura privilegiada de tradutor da HQ, minha impressão é a seguinte: Habibi é feita para durar. À parte do contexto de tensão contra o islamismo, à parte das perspectivas orientalistas, à parte das obrigações dos resenhistas de erguer ou baixar o dedão neste intervalo em que a obra é “novidade”, penso que Thompson não fez uma obra apenas para ser lida hoje, mas que pode ser relida e redescoberta em anos, décadas, quem sabe outras gerações.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Como ler “Habibi” (1)

Por Érico Assis

Comece pelo quadro esquerdo superior da primeira página, siga até a inferior direita da última página. E é basicamente isso.

Porém, tendo seiscentas e setenta e duas páginas e aproximadamente um quilo e trezentos gramas, recomenda-se não ler deitado, com o livro sobre o plexo solar, sob risco de afundar o esterno.

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Habibi é a HQ mais recente de Craig Thompson, aquele da infância cristã conservadora e do primeiro amor adolescente autobiografados em Retalhos. E Retalhos foi uma sensação: um dos marcos da década passada, que fizeram as livrarias olharem os quadrinhos com respeito, tanto nos EUA quanto no Brasil, tendo passado por sucessivas tiragens aqui e em outros países, e que todo dia rende mais um adolescente blogando, twittando ou tumblando depois de se enlevar com a leitura.

Então, para dar sequência a Retalhos, Thompson resolveu criar uma história de amor entre dois órfãos ― grosso modo, uma prostituta e um eunuco ―, inspirado na mitologia islâmica, em As 1001 Noites e inevitavelmente ciente do contexto islamofóbico pós-11 de setembro. Iniciou os trabalhos em 2004, fez pesquisa no Marrocos, e, entre produção, dores incapacitantes na mão de desenho e indecisões quanto ao final, encerrou-a em 2010. Habibi foi lançada no ano passado nos EUA, França, Alemanha, Itália e Espanha. Chega no Brasil em poucos dias.

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Apesar da grande maioria da crítica dos EUA ter recebido Habibi com louvores, ganhou destaque uma facção que viu ingenuidade na forma como Thompson lidou com o Oriente. G. Willow Wilson, norte-americana convertida à religião muçulmana, autora de A leitora do Alcorão (e também roteirista de HQs, por acaso), publicou uma resenha dividida entre a admiração pela obra e o medo de como ela poderia ser lida pelos islâmicos. Thompson não deixou fácil, declarando em entrevistas que “estava me divertindo ao tratar o Orientalismo como gênero, assim como caubóis e índios é um gênero ― não a representação precisa do oeste norte-americano, mas sim um gênero, um conto de fadas.”

Aí vieram as leituras colonialistas/orientalistas ― com base no Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente de Edward Said ―, que atingiram o ápice num artigo de Nadim Damluji, estudioso das HQs especializado no colonialismo de Tintim, que se encerra com a frase “Habibi é uma tentativa imperfeita de humanizar os árabes para o público norte-americano”. Outros quadrinistas, como Eddie Campbell, saíram na defesa de Thompson, dizendo que ele queria falar de amor, não representar os árabes bem ou mal. O influente Comics Journal organizou um debate sobre a obra entre seis de seus críticos. Mas o próprio Thompson não se incomodou em discutir as ideias de Damluji em entrevista aberta com o crítico:

“Em certo sentido, me soa meio bobo as pessoas ficarem examinando e falando de Habibi como se fosse um texto acadêmico, o que com certeza não é. Eu sigo rotulando-o como ‘conto de fadas’ porque esta com certeza foi a minha intenção. Por mais que, enquanto artista, eu me esforce para criar quadrinhos que sejam artísticos ou literários, por dentro ainda sou apenas cartunista. Em certo sentido, o que o cartunista quer é fazer desenhos caricaturescos, brincalhões, ridículos, irreverentes. É claro que eu tenho reverência e respeito perante aspectos da fé islâmica, mas perpassa o álbum uma ideia de brincadeira e a consciência do fato de que ainda é um gibi. É super-heróis, em certo sentido. É Star Wars. Mas talvez este empenho em ver Habibi como texto acadêmico venha de fora da mídia dos quadrinhos, onde as pessoas ainda se surpreendem em ver elementos mais maduros numa HQ. Em certo sentido, o diálogo também deveria se dar em torno da própria mídia, que ainda tem intento satírico. Eu hesito em dizer algo assim, porque não quero que considerem Habibi sátira de alguma fé ou religião. Mas os quadrinhos são inerentemente uma mídia autodepreciativa.”

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Como ler Habibi? Comece pela primeira página, siga até a última. Lembrando o aviso sobre o peso do livro, recomendo uma boa poltrona. E mesmo que o pouco texto sugira leitura rápida, dê tempo ao livro. Leia um capítulo por dia. Deixe Zam e Dodola habitarem seus pensamentos nos intervalos entre as leituras. Mais sugestões, e mais sobre a estrutura do livro, na próxima coluna.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Mitsunaga, Ronin

Por Érico Assis

Diz o André Conti, editor da Quadrinhos na Cia., que estava em Nova York conversando com Chip Kidd, tentando convencê-lo de que, sim, a editora conseguiria fazer uma edição de Asterios Polyp à altura da original. Kidd é um designer de imenso renome no mundo bibliófilo e um dos cabeças da Pantheon, selo de graphic novels da Knopf, que publicou Asterios nos EUA.

O trunfo do André era a edição brasileira de Jimmy Corrigan: o menino mais esperto do mundo. Kidd também estivera envolvido no original.

— Mas então a letreirista de vocês teve que fazer tudo à mão? — perguntou o designer.

— Não. Ela criou as fontes e fez as variações.

Foi a definição que levou Kidd a ligar para David Mazzucchelli e convencê-lo: “Ok, pode deixar os brasileiros fazerem Asterios. Eles dão conta.”

O foco da conversa era, enfim, o trabalho de Lilian Mitsunaga. Eu, o André e mais alguns milhares de leitores de gibi de super-herói crescemos prestando atenção ao nome dela nos créditos da Editora Abril. Posso dizer que aprendi a ler com a letra da Lilian Mitsunaga. Na época, ela ainda fazia tudo à mão.

Letreirização de quadrinhos é daquelas coisas que você, leitor, só costuma notar quando há algo de errado. Valorizar o letreirista é algo que parte ou do quadrinista — que tem considerações sobre o contraste entre a fonte e seu traço, sobre o posicionamento dos balões, sobre as quebras de linha — ou do editor. No caso dos quadrinhos traduzidos, a letreirização é notada quando algum resenhista compara com o original e reclama que “a fonte escolhida para a edição brasileira trai a essência da obra.

É difícil que alguma dessas críticas chegue à Lilian. Quando eu a visitei, há poucas semanas, ela havia acabado de terminar a letreirização de Habibi, as quase 700 páginas do Craig Thompson que a Quadrinhos na Cia. lança em breve*. Lilian criou três fontes para reproduzir a caligrafia de Thompson. Alguns trechos tiveram que ser feitos “à mão” (leia-se desenhados no Illustrator). O da foto acima é um dos casos (clique aqui para ver a página).

Na conversa, descobri que o tempo de ofício da Lilian é igual à minha idade. Ela entrou na Editora Abril em 1980 já para colocar letrinhas nos balões das HQs. Passou dezoito anos como funcionária, mesmo que sempre tenha trabalhado em casa. História da época: “O Bafo-de-Onça, inimigo do Mickey, antes era Bafodeonça. O nome ganhou hífens depois que um letreirista separou as sílabas num balão. Numa linha ficou ‘Ba-’, e na seguinte ‘fodeonça’.”

Quando deixou de ser funcionária e abriu empresa própria, continuou prestando serviço à Abril — hoje faz as letras de todos os gibis Disney, por exemplo —, mas também começou a trabalhar com os leitores que cresceram e viraram editores de quadrinhos. Também foi mais ou menos por essa época que começou a letreirar no computador — quando Macs ainda eram bastante caros e você precisava telefonar para os fabricantes de fontes nos EUA se quisesse comprar uma família tipográfica.

Na Companhia das Letras, Lilian fez a maioria dos Tintins antes de virar letreirista oficial da Quadrinhos na Cia. São delas as fontes de Will Eisner, Dan Clowes, Angeli, Laerte, Lourenço Mutarelli, Caeto — em alguns casos, criadas a partir do que originalmente era só nanquim. Faz parte do trabalho dela você não perceber o que é manuscrito e o que é digital.

Para o disputado Asterios Polyp, Lilian criou quinze fontes. E o serviço que encheu os olhos de Chip Kidd, Jimmy Corrigan, disputa com Asterios o primeiro lugar entre os mais complicados. Nas edições originais, Chris Ware vai na gráfica acompanhar a impressão. Para as estrangeiras, estipula em contrato como lidar com os arquivos — fica proibido chapar o preto com as outras cores, por exemplo — o que pode quintuplicar o serviço do letreirista.

Lilian é uma ronin. Trabalha sozinha, desde sempre — só tem colaboradores, externos, quando sua empresa presta serviço de tradução, colorização, revisão. Especificamente quanto às letras, sempre se especulou que ela assinava em nome de uma equipe, seguindo a tradição dos mangakás. A realidade é ela, um computador, mesa digitalizadora, impressora, scanner e dois telefones num escritório ao lado da sala de estar.

Trinta anos a tornaram sobre-humanamente rápida. Habibi tomou oito anos de Craig Thompson. Lilian levou dez dias. Tem gente que vai levar mais tempo para ler todo o álbum.

* Habibi tem lançamento previsto para o final de julho.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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