daniel galera

Daniel Galera responde perguntas dos leitores

Recebemos quase duzentas perguntas na promoção Entreviste Daniel Galera! Escolhemos cinco delas, veja as respostas do escritor no vídeo:

As perguntas selecionadas foram:

Eduardo Antonio
Olhando para sua obra e conhecendo um pouco da sua carreira percebe-se que os cenários das suas histórias são lugares onde você morou.
Como é sua relação com a cidade na hora de escrever um livro e até que ponto o local que você escolhe para viver influencia sua narrativa?

Júlia Corrêa
Na reportagem “A fantástica fábrica de escritores do Sul” a Oficina da PUC-RS com o professor Luiz Antonio de Assis Brasil foi apontada como uma coisa em comum entre os escritores jovens que tem se destacado no panorama nacional. Em que você acha que as lições de Assis Brasil contribuíram para a sua formação com leitor?

Renata Aguiar Carrara de Melo
Olá, Daniel. A presença de cachorros é marcante em seus escritos. Não me lembro de personagens caninos com papel tão significativo desde a Baleia de Graciliano Ramos. Em Vidas Secas, Baleia é a única personagem com nome próprio. Em Apneia, Beta humaniza o pai, o enternece e, de certa forma, o aproxima do filho mesmo que seja na forma de um último pedido. Beta é herdeira de Baleia?

Rafael D. Mantega
Muitas de suas obras (talvez todas) têm um quê autobiográfico, elementos de sua própria natureza expressos em maior ou menor intensidade nos personagens da obra… Onde você se encontra em Cordilheira, da Coleção Amores Expressos? Que elementos do autor Daniel Galera estão implícitos na Anita e/ou nos demais personagens?

Enzo Della Corte
Tenho uma curiosidade, imagino eu, comum a quem, de alguma forma, trabalha com arte e usa a criatividade como ferramenta:
Quando você percebe, ou sente, que terminou um livro? Você percebe que em algum momento precisa se censurar para parar de “mexer” na obra?

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Eventos de lançamento de Barba ensopada de sangue:

São Paulo
Quarta-feira, 21 de novembro, das 19h às 21h30
Livraria da Vila – Fradique
Rua Fradique Coutinho, 915
(A partir das 23h, o lançamento continua na Mercearia São Pedro: Rua Rodesia, 34 – Pinheiros)

Porto Alegre
Quinta-feira, 22 de novembro, às 19h
Livraria Cultura – Bourbon Shopping Country
Av. Túlio de Rose, 80 – Passo D’Areia

Rio de Janeiro
Terça-feira, 4 de dezembro, às 19h
Livraria da Travessa – Ipanema
Rua Visconde de Pirajá, 572

Semana cento e vinte e sete

Os lançamentos desta semana são:

Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera
Um professor de educação física busca refúgio em Garopaba, um pequeno balneário de Santa Catarina, após a morte do pai. O protagonista se afasta da relação conturbada com os outros membros da família e mergulha em um isolamento geográfico e psicológico. Ao mesmo tempo, ele empreende a busca pela verdade no caso da morte do avô, o misterioso Gaudério, que teria sido assassinado décadas antes na mesma Garopaba, na época apenas uma vila de pescadores.
Sempre acompanhado por Beta, cadela do falecido pai, o professor esquadrinha as lacunas do pouco que lhe é revelado, a contragosto, pelos moradores mais antigos da cidade. Portador de uma condição neurológica congênita que o obriga a interagir com as outras pessoas de modo peculiar, ele estabelece relações com alguns moradores: uma garçonete e seu filho pequeno, os alunos da natação, um budista histriônico, a secretária de uma agência turística de passeios. E aos poucos, vai reunindo as peças que talvez lhe permitam entender melhor a própria história.

Minhas histórias de Andersen, de Andrew Matthews (Trad. Eduardo Brandão)
Hoje em dia, todo mundo conhece Hans Christian Andersen, principalmente as crianças! Mas até ele se tornar um autor tão querido, o caminho foi longo. Filho de uma lavandeira e de um sapateiro, Andersen nasceu na Dinamarca, em 1805, e teve uma infância pobre. Mas, mesmo sem ter estudado, sempre foi apaixonado por literatura e teatro. Antes de começar a escrever suas histórias maravilhosas, tentou a vida como cantor, ator, dançarino; e leu muito: as obras dos irmãos Grimm, de Swift, Perrault, La Fontaine e muitos contos populares de seu próprio país, como as histórias escandinavas e as sagas islandesas. Neste livro, há onze dos seus principais contos de fadas – Polegarzinha, O soldadinho de chumbo, A pequena sereia, entre outros -, recontados pelo escritor inglês Andrew Matthews para as crianças de hoje – e também para as de ontem e as de amanhã.

Stieg Larsson, de Jan-Erik Pettersson (Trad. Maria Luiza Newlands)
“Escrever romances policiais é fácil. É muito mais difícil escrever um artigo de quinhentas palavras em que tudo tem de estar 100% correto”, foi o que Stieg Larsson declarou na única entrevista sobre os romances que escreveu e que deveriam torná-lo milionário. A Trilogia Millenium de fato viria a ser um sucesso estrondoso no mundo inteiro, mas seu autor morreu antes que pudesse ver o primeiro volume publicado. Esta é a biografia do jornalista e escritor sueco que, antes de criar os inesquecíveis personagens Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist, foi um dos maiores ativistas políticos de seu país. Larsson participou desde muito jovem da luta em defesa dos excluídos e dos humilhados pela sociedade, foi um antirracista ferrenho e passou anos sendo ameaçado pelos grupos de extrema direita que ele denunciava sem medo em seus artigos e reportagens. Este livro nos apresenta a intensa história de engajamento do escritor e como ela moldou sua vida e obra.

Editora Paralela

Cozinha de estar, de Rita Lobo
Cozinhar não precisa ser complicado. Mais ainda: pode ser uma delícia não só para os outros, mas para você. Foi-se o tempo em que receber os amigos em casa significava passar o dia todo no fogão, tentando executar uma sucessão de pratos elaborados a tempo de tomar pelo menos uma ducha. mas nem por isso você vai receber seus convidados com um pacote de amendoim e dois litros de refrigerante. Em Cozinha de estar: Receitas práticas para receber, Rita Lobo revela todos os segredos da arte de receber bem, deixar os convidados à vontade e surpreendê-los com pratos que vão parecer ter dado muito mais trabalho do que realmente deram – e você ainda vai se divertir nesse meio-tempo, claro.

Entreviste Daniel Galera


(Foto por Renato Parada. Capa por Alceu Nunes.)

Conflitos familiares, amores perdidos e segredos inconfessos estão em Barba ensopada de sangue, livro de Daniel Galera que chega às livrarias dia 10 de novembro. O romance já teve os direitos vendidos para Espanha, Inglaterra, Estados Unidos e Itália, e o primeiro capítulo foi selecionado pela Granta para a revista “Melhores jovens escritores brasileiros”.

Daniel Galera nasceu em 1979, em São Paulo, e passou a maior parte da vida em Porto Alegre. Ele foi um dos fundadores da editora Livros do Mal e é também tradutor de literatura contemporânea de língua inglesa. É autor de Dentes guardados, Até o dia em que o cão morreu, Mãos de cavalo, Cordilheira e Cachalote (em parceria com Rafael Coutinho).

Deixe nos comentários uma pergunta para Daniel Galera, até o dia 5 de novembro. Escolheremos as 5 melhores, que serão respondidas em vídeo pelo escritor. Os autores das perguntas selecionadas receberão um exemplar autografado de Barba ensopada de sangue. (Manteremos todos os comentários ocultos até o fim da promoção. É permitido enviar mais que uma pergunta contanto que cada uma seja feita em um comentário separado.)

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Sinopse de Barba ensopada de sangue:

Um professor de educação física busca refúgio em Garopaba, um pequeno balneário de Santa Catarina, após a morte do pai. O protagonista se afasta da relação conturbada com os outros membros da família e mergulha em um isolamento geográfico e psicológico. Ao mesmo tempo, ele empreende a busca pela verdade no caso da morte do avô, o misterioso Gaudério, que teria sido assassinado décadas antes na mesma Garopaba, na época apenas uma vila de pescadores.

Sempre acompanhado por Beta, cadela do falecido pai, o professor esquadrinha as lacunas do pouco que lhe é revelado, a contragosto, pelos moradores mais antigos da cidade. Portador de uma condição neurológica congênita que o obriga a interagir com as outras pessoas de modo peculiar, ele estabelece relações com alguns moradores: uma garçonete e seu filho pequeno, os alunos da natação, um budista histriônico, a secretária de uma agência turística de passeios. E aos poucos, vai reunindo as peças que talvez lhe permitam entender melhor a própria história.

Eventos de lançamento:

São Paulo
Quarta-feira, 21 de novembro, das 19h às 21h30
Livraria da Vila – Fradique
Rua Fradique Coutinho, 915
(A partir das 23h, o lançamento continua na Mercearia São Pedro: Rua Rodesia, 34 – Pinheiros)

Porto Alegre
Quinta-feira, 22 de novembro, às 19h
Livraria Cultura – Bourbon Shopping Country
Av. Túlio de Rose, 80 – Passo D’Areia

Rio de Janeiro
Terça-feira, 4 de dezembro, às 19h
Livraria da Travessa – Ipanema
Rua Visconde de Pirajá, 572

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[Atualizado dia 8 de novembro, às 12h10]

Veja abaixo quais foram as perguntas selecionadas. Colocaremos o vídeo com as respostas aqui no blog dia 14 de novembro.

Eduardo Antonio
Olhando para sua obra e conhecendo um pouco da sua carreira percebe-se que os cenários das suas histórias são lugares onde você morou.
Como é sua relação com a cidade na hora de escrever um livro e até que ponto o local que você escolhe para viver influencia sua narrativa?

Júlia Corrêa
Na reportagem “A fantástica fábrica de escritores do Sul” a Oficina da PUC-RS com o professor Luiz Antonio de Assis Brasil foi apontada como uma coisa em comum entre os escritores jovens que tem se destacado no panorama nacional. Em que você acha que as lições de Assis Brasil contribuíram para a sua formação com leitor?

Renata Aguiar Carrara de Melo
Olá, Daniel. A presença de cachorros é marcante em seus escritos. Não me lembro de personagens caninos com papel tão significativo desde a Baleia de Graciliano Ramos. Em Vidas Secas, Baleia é a única personagem com nome próprio. Em Apneia, Beta humaniza o pai, o enternece e, de certa forma, o aproxima do filho mesmo que seja na forma de um último pedido. Beta é herdeira de Baleia?

Rafael D. Mantega
Muitas de suas obras (talvez todas) têm um quê autobiográfico, elementos de sua própria natureza expressos em maior ou menor intensidade nos personagens da obra… Onde você se encontra em Cordilheira, da Coleção Amores Expressos? Que elementos do autor Daniel Galera estão implícitos na Anita e/ou nos demais personagens?

Enzo Della Corte
Tenho uma curiosidade, imagino eu, comum a quem, de alguma forma, trabalha com arte e usa a criatividade como ferramenta:
Quando você percebe, ou sente, que terminou um livro? Você percebe que em algum momento precisa se censurar para parar de “mexer” na obra?

[Atualizado dia 14 de novembro, às 15h35]

Veja o vídeo com as respostas: Daniel Galera responde perguntas dos leitores

Links da semana

Hoje foram divulgados os vencedores do Troféu HQ Mix, e a Quadrinhos na Cia. foi escolhida a editora de quadrinhos do ano. Spacca (Jubiabá), Chris Ware (Jimmy Corrigan) e Craig Thompson (Retalhos) também foram premiados. Obrigado a todos que votaram em nosso trabalho!

Falando em premiações, a casa britânica Ladbrokes está aceitando apostas sobre o próximo ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. No momento, o poeta sueco Thomas Transtromer é o mais cotado para ganhar o prêmio.

Semana passada aconteceu a Homenagem a José Saramago, no SESC Vila Mariana. No site do programa Metrópolis você pode ver um trecho da apresentação. As fotos estão no nosso álbum do Picasa.

Uma pesquisa americana descobriu que um em cada quatro leitores de quadrinhos tem mais que 65 anos. A Raquel Cozer, do suplemento Sabático, entrevistou o quadrinista Joe Sacco, autor de Notas sobre Gaza.

A Juliana, do Portal PUC-Rio Digital, entrevistou Moacyr Scliar sobre seu novo livro, Eu vos abraço, milhões. A Kika, do Meia Palavra, escreveu uma resenha sobre o livro.

A revista Paris Review colocou em seu website todas as famosas entrevistas que realiza desde a década de 1950, com escritores como Truman CapoteJorge Luis BorgesJohn UpdikeGay Talese.

O Julio, do Digestivo Cultural, resenhou Ponto final, de Mikal Gilmore. O Mauro, do blog De vermes e outros animais rastejantes, falou sobre O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J.P. Cuenca.

Um longo artigo do New York Times fala dos julgamentos que decidirão o destino de documentos até então desconhecidos de Franz Kafka.

A Andréia, do Guia de Leitura, falou de AvóDezanove e o segredo do soviético, de Ondjaki. O Felipe, do Meia Palavra, leu Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, e a Amanda, do blog O Café, resenhou Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho.

O escritor Neil Gaiman disse pelo Twitter que está lendo Fábulas italianas, de Italo Calvino. A Kelly, do Blog da Cultura, falou sobre as manias que cada escritor tem.

O blog Classics Rock! se dedica exclusivamente a reunir músicas que mencionam ou foram inspiradas por livros, e o site Flavorwire critica os clichês em fotos de escritores.

O Evaldo falou em seu blog sobre Henry Louis Mencken, autor de O livro dos insultos. A Mariana, do Outra xícara por favor, resenhou O Dia do Curinga, de Jostein Gaarder, e o Alfredo falou em seu blog de O senhor vai entender, de Claudio Magris.

Os designers da IDEO divulgaram um vídeo com três idéias de inovações que a leitura digital pode trazer para os livros.

E Malcolm Gladwell, em um artigo na New Yorker, desdenha da possibilidade de as redes sociais causarem alguma mudança real no mundo. O texto causou um certo furor na internet, e respostas a ele apareceram em sites como WiredThe Atlantic Wire.

Luka e os videogames

Por Daniel Galera

O novo romance infanto-juvenil de Salman Rushdie, Luka e o Fogo da Vida, incorpora elementos da linguagem narrativa dos videogames. Luka Khalifa, o menino de doze anos que protagoniza a história, penetra num mundo paralelo derivado da imaginação do pai, ele mesmo um famoso contador de histórias. As regras do mundo real são alteradas aqui com a mesma liberdade que estamos acostumados a ver em quase todos os mundos fantásticos da literatura, de Carroll a Tolkien: animais falantes, deuses que interagem diretamente com os homens, deslocamentos impossíveis, a “magia” como justificativa suficiente para toda e qualquer ideia e ação mirabolante, cenários onde tudo é espantosamente maior e mais significativo do que poderia ser na natureza e na civilização que conhecemos. A novidade aqui é mais um acréscimo do que uma invenção original: as regras do mundo da fantasia são ligeiramente influenciadas por elementos da lógica narrativa dos videogames. Luka precisa coletar vidas para poder morrer e seguir “jogando”; enxerga contadores numéricos em seu campo de visão, indicando o número de vidas restantes e os níveis ou fases da história, que obedecem a um critério de dificuldade progressiva; precisa “salvar” o progresso em pontos-chave da narrativa, sob pena de recomeçar do início caso as vidas terminem etc.

Esse é o tipo de proposta que pode terminar em desastre, como se vê com frequência nas tentativas de adaptar videogames para o cinema. Mas Rushdie, felizmente, não parece ter partido da convicção de que seria possível escrever uma narrativa em prosa que pudesse ser lida como se joga um videogame. A intenção é mais sutil e muito menos ambiciosa. Tem se a impressão de que ele quis apenas incorporar ao livro alguns elementos reconhecíveis de um universo que encanta sucessivas gerações de jovens desde o início dos anos 1980, entre eles seu próprio filho, a quem o livro é declaradamente dedicado.

Não existe como transpor a experiência interativa dos videogames para a linguagem escrita. Toda vez que Luka era atropelado por um Super-Rato, numa das sequências mais “gamísticas” do romance, o autor nos informa que ele “perdia uma vida e se via de volta no ponto de partida”. Não há nada nesse dado narrativo que reproduza a sensação de estar jogando um game, morrer num obstáculo qualquer e ter que retornar a um ponto anterior para tentar superar de novo esse trecho do jogo. O fato de que Rushdie nem se dá ao trabalho de tentar emular essa experiência na prosa não é, ao contrário do que possa parecer, preguiça ou desconhecimento do assunto. Pelo contrário. Ele decerto queria escrever um livro envolvente, e não chato. E um livro que dependesse da interação do leitor e o carregasse para páginas anteriores em caso de fracasso seria um livro insuportável.

Assim, as manifestações do universo dos games na prosa do romance são apenas piscadinhas para o leitor entendido, ou simplesmente elementos fantásticos de um mundo que também inclui tapetes voadores de Scheherazade e luta na lama entre deusas da Antiguidade. Os companheiros que Luka acumula na jornada lembram muito os “sidekicks” dos jogos, com suas habilidades especiais (como é o caso das Transmutantes, dragoas que mudam de forma para superar determinados obstáculos) e itens. Os obstáculos que Luka encontra em sua jornada pelo Mundo da Magia precisam ser interpretados e resolvidos de forma semelhante ao que ocorre em muitos jogos eletrônicos, ainda que a experiência interativa (com seus aspectos especiais de imersão, agência etc.) se perca, pois na prosa nunca precisamos “fazer” nada, somos apenas “informados” de que a solução foi encontrada e implementada para que a história (o jogo) avance. A procura constante pelos “checkpoints” (“Onde é que salva?”, Luka pergunta mais de uma vez a outros personagens) ganha contornos ligeiramente cômicos por sua repetição ao longo do livro, chamando a atenção para a sua superficialidade dentro do contexto da escrita. Os exemplos são inúmeros. Se Rushdie não é ele próprio um entusiasta dos videogames, é certo que passou horas e horas observando seus filhos jogarem.

De certa forma, o que Rushdie acaba fazendo no livro é dedicar aos videogames um lugar de honra ao lado das incontáveis referências literárias, religiosas, mitológicas e históricas que formam a tapeçaria de Luka e o Fogo da Vida. Há um trecho, no início, em que os videogames são descritos como a principal fonte de histórias do pequeno Luka — depois do próprio pai, é claro. Não é nos livros que ele encontra “uma variedade quase infinita de realidades paralelas”, e sim nos videogames, onde essa variedade de histórias “começara a ser vendida sob a forma de brinquedos”. Algum defensor mais radical dos videogames como uma arte poderá bufar diante do rótulo de “brinquedo”, mas os videogames são, sim, brinquedos. A questão é que não são apenas brinquedos. São também um meio de expressão e um suporte para narrativas de todo tipo e pronfundidade. Soraya, a mãe de Luka, desdenha das “caixas de realidade alternativa” porque “na vida não há níveis de dificuldade, apenas dificuldades”. Mas assim como uma comédia romântica pode expressar verdades sobre a vida dentro de um esquema de convenções narrativas em boa parte irreal, os games, com suas lógicas próprias, podem nos oferecer histórias que representam a vida de um modo particular. O livro de Rushdie reconhece isso e estende a mão ao jovem leitor para quem os videogames são tão importantes quanto os livros, os filmes e as histórias que seus pais lhes contavam para dormir. Somente por isso, já merece ser saudado.

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Daniel Galera é escritor e tradutor. Publicou Dentes guardados, Mãos de Cavalo e Cordilheira, entre outros. Seu último livro é a graphic novel Cachalote, feita em parceria com Rafael Coutinho. Seu site é http://www.ranchocarne.org/.
A resenha acima foi escrita especialmente para o Blog da Companhia.

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