fernando morais

Semana setenta e sete

Os lançamentos da semana são:

Rock’n’roll e outras peças, de Tom Stoppard (Tradução de Caetano W. Galindo)
Tom Stoppard é uma das vozes mais importantes do teatro europeu pós-Beckett. Longe de ser um total desconhecido por aqui, o autor, responsável pelo roteiro de Shakespeare apaixonado, entre outros, ainda não tinha sido traduzido no Brasil. Com uma seleção de peças que cobre as características mais importantes e mais renovadoras de cada fase da produção de Stoppard, o volume apresenta desde as releituras satíricas dos clássicos e da história (como em Rosencrantz e Guildenstern morreram, que reencena o Hamlet de Shakespeare pelos olhos de dois personagens menores; e em Pastiches, que revê o enredo de A importância de ser prudente, de Oscar Wilde, com um elenco composto por Lênin, Tristan Tzara e James Joyce), passando pela produção mais vanguardística (O verdadeiro inspetor Cão, O Hamlet de Dogg, o Machbeth de Cahoot), chegando aos momentos mais “ortodoxos” da produção dos anos 1980 (aqui representada pela brilhante De verdade) e finalmente à fase lírica e pessoal mais recente do autor (representada por Arcadia e pela própria Rock ‘n’ roll).

Formação do Brasil contemporâneo, de Caio Prado Jr.
Neste livro, Caio Prado Jr. volta ao passado colonial da sociedade brasileira para entender os impasses do presente, e acaba por concluir que aquele permanecia vivo em alguns de seus traços fundamentais. A formação da nação é interpretada como parte do sistema colonial, modo de pertencimento ao capitalismo mercantil que teria conferido unidade, ainda que problemática, à vida social que se veio formando desde a colônia. O autor afirma que o processo de colonização acabou por permitir que se esboçasse no Brasil uma nacionalidade diferente daquela de modelo europeu, e até relativamente nova em termos sociais e culturais, sem que isso significasse autonomia para a sociedade nascente, mesmo depois da independência política. Apresentando nossa formação em longa duração e como parte de um todo maior, a abordagem historiográfica inovadora de Formação do Brasil contemporâneo conferiu ao livro o posto de um dos poucos clássicos incontestes da historiografia brasileira no século XX.

O último da tribo: a epopeia para salvar um índio isolado na Amazônia, de Monte Reel (Tradução de Marcos Bagno)
Um segredo bem guardado da floresta amazônica foi descoberto em 1996: o homem mais solitário do mundo. Avistado em Rondônia — um lugar que carrega a triste fama dos conflitos entre madeireiros e indígenas —, percebeu-se que era preciso conhecer esse homem de perto para criar uma área garantindo a sua proteção. Mas a dificuldade de contato com o índio extremamente arredio não é o maior obstáculo que a expedição composta de sertanistas e pessoas ligadas à Funai precisaria enfrentar. O verdadeiro pesadelo são os fazendeiros e seus advogados pouco idôneos, os deputados ditos desenvolvimentistas e o emaranhado burocrático dos órgãos oficiais de Brasília. Narrada como um thriller que tem como pano de fundo a selva amazônica, esta reportagem remonta os passos incríveis dessa saga para proteger a riqueza da floresta e o que talvez seja o último resquício de uma cultura prestes a ser extinta.

Chatô: o rei do Brasil, de Fernando Morais (Nova edição econômica)
Dono de um império de quase cem jornais, revistas, estações de rádio e televisão — os Diários Associados — e fundados do Masp, Assis Chateaubriand, ou apenas Chatô, sempre atuou na política, nos negócios e nas artes como se fosse um cidadão acima do bem e do mal. Mais temido que amado, sua complexa e muitas vezes divertida trajetória está associada de modo indissolúvel à vida cultural e política do país entre as décadas de 1910 e 1960. Chantagista, crápula, escroque, patife, ladrão tarado — de tudo o que se pode imaginar de ruim ele foi chamado (poucas vezes pela frente, é verdade) por críticos e inimigos. Mas palavras de alta voltagem como empreendedor, pioneiro, visionário, gênio e mecenas também se usaram, torrecialmente, para tentar defini-lo. Como bem mostra Fernando Morais, em nenhum dos dois casos isso se dá sem razão. Chatô, o rei do Brasil, um dos maiores best-sellers dos anos 1990 no Brasil, é obra de grande esforço jornalístico para retratar, como equilíbrio e rigor, um personagem tão complexo quanto fascinante.

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Além destes, também foram lançados mais 4 volumes da Coleção Prêmio Nobel. São títulos de autores que receberam o prêmio Nobel de Literatura, em edição limitada de capa dura e revestida de tecido.

Semana sessenta e seis

Os lançamentos da semana são:

Amores & Arte de amar, de Ovídio (Tradução de Carlos Ascenso André)
Para o poeta latino Ovídio, o amor é uma técnica que, como toda técnica, pode ser ensinada e aprendida. Isso, porém, não é simples: “São variados os corações das mulheres; mil corações, tens de apanhá-los de mil maneiras”, ele diz. Essas “mil maneiras” são ensinadas em sua Arte de amar, uma espécie de manual do ofício da sedução, da infidelidade, do engano e da obtenção do máximo prazer sexual, elaborado a partir das experiências vividas pelo poeta e descritas em Amores. Seus poemas quase didáticos renderam-lhe fama nos salões de um Império Romano então voltado aos prazeres sensoriais e, ainda hoje, têm notável atualidade. Rica em detalhes históricos e com todas as polêmicas que cercam a vida do autor, como a sua expulsão de Roma, os escritos perdidos e sua vida pessoal, a introdução de Peter Green, que demorou doze anos para ser escrita, é uma espécie de biografia do poeta, que ajuda o leitor a entender a atualidade destes poemas escritos há cerca de dois mil anos.

Alvo noturno, de Ricardo Piglia (Tradução de Heloisa Jahn)
Como que saído de um filme noir, o forasteiro Tony Durán mal tem tempo de descer do trem num lugarejo da província de Buenos Aires e reencontrar as ricas irmãs Belladona: logo se torna protagonista de um caso policial e, com isso, epicentro deste novo romance do escritor argentino Ricardo Piglia. Conduzida pelo comissário Croce, a investigação avança trabalhosamente, na contramão do silêncio e do poder, produzindo breves clarões aqui e ali. Mesmo assim, examinado com paciência pelo comissário e pelo romancista, o affair Durán vai exibindo suas conexões veladas e nos leva de um camareiro homossexual a um potentado da província, de um esquema de lavagem de dinheiro ao projeto utópico de uma fábrica — e, nesse movimento, Alvo noturno vai se aventurando além das convenções do romance detetivesco para chegar às raízes mais profundas, aos males de origem da história argentina.

Os últimos soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais
Organizações criminosas internacionais, aventuras mirabolantes, disfarces perfeitos, conquistas amorosas, agentes secretos em ações temerárias: este livro traz todos os elementos de suspense de um romance de espionagem — mas não contém uma só gota de ficção. É tudo verdade, nos mínimos e, eventualmente, aterradores detalhes. Durante 5 anos, organizações anticastristas da Flórida realizaram 127 ataques terroristas em solo cubano, que incluíam atentados a bomba nos melhores hotéis e até rajadas de metralhadoras disparadas contra turistas. Para combater essas ações, Cuba criou a Rede Vespa, um seleto grupo composto de 12 homens e 2 mulheres que se infiltraram nesses grupos radicais, com o objetivo de colher informações e antecipar-se aos ataques. Fernando Morais entrevistou mais de 40 pessoas para chegar ao fundo dessa história, que agora ele narra com objetividade rigososa. Um livro para ler de um fôlego. Veja o trailer abaixo:

O autor fará turnê de lançamento por São Paulo (23/08), Santos (27/08), Rio de Janeiro (30/08), Belo Horizonte (05/09), Mariana (06/09), Recife (13/09), Brasília (15/09), Curitiba (28/09), Porto Alegre (29/09), Caxias do Sul (01/10) e Salvador (10/10).

Ao anoitecer, de Michael Cunningham (Tradução de José Rubens Siqueira)
A presença da beleza encarnada pode abalar a vida de um homem que tem no próprio ideal de beleza o seu ganha-pão. Ainda mais se essa encarnação surgir na forma de um jovem toxicômano e irresponsável cujo apelido é Mizzy, abreviação de The Mistake, o engano. Peter Harris, um nova-iorquinho em plena crise dos 40 anos, é dono de uma galeria de arte, mas só encontra o valor estético que procura em seu trabalho quando recebe em casa o cunhado 23 anos mais jovem. O garoto é sensual, inteligente e perdido na vida. Não tem diploma nem trabalho, mas quer “fazer alguma coisa nas artes”. Isso basta para que ele subverta o funcionamento da casa. O encontro inesperado leva o galerista a duvidar de todos os elementos que compõem sua existência, até então aparentemente estável e bem encaminhada: o trabalho, o casamento, a família, as relações sociais. Depois de As horas, romance ganhador do prêmio Pulitzer, sobre a vida e a obra da autora britânica Virginia Woolf, Michael Cunningham volta ao mundo das artes para investigar o universo dos desejos secretos e das frustrações que acompanham a maturidade.

O metro nenhum, de Francisco Alvim
Ao longo de um ano e pouco o poeta organizou, escreveu e reescreveu os 87 poemas agora publicados, gastando “a sola dessas sapatilhas que me calçam quando percorro a corda bamba deste metro nenhum”. Em 13 de abril de 2011, o livro foi enviado à editora. “Até hoje mexi nele: hesitação quanto à posição de um ou dois poemas; mudança de um ou dois títulos… E vem um sentimento muito bom, muito doce: de amor pelo livro. O mesmo sentimento que provei em relação a cada um de meus livros anteriores e que só agora, vejo, reconheço com clareza. O que nada tem a ver com os apertos por que passei para botá-los de pé e a consciência dos inúmeros poemas frustros ou simplesmente ruins que contêm.” É, sem dúvida, um livro extraordinário, de um grande poeta brasileiro. Nele, “a poesia/ quando ocorre/ tem mesmo a perfeição/ do metro/ — nem o mais/ nem o menos —/ só que de um metro nenhum/ um metro ninguém/ um metro de nadas”.

Fernando Morais fala sobre seu novo livro

Fernando Morais, autor de Olga, Chatô: o rei do Brasil e A ilha, lança seu novo livro este mês, dia 19.

No início da década de 1990, Cuba criou a Rede Vespa, um grupo de doze homens e duas mulheres que se infiltrou nos Estados Unidos e cujo objetivo era espionar alguns dos 47 grupos anticastristas sediados na Flórida. O motivo dessa operação temerária era colher informações com o intuito de evitar ataques terroristas ao território cubano. De fato, algumas dessas organizações ditas “humanitárias” se dedicavam a atividades como jogar pragas nas lavouras cubanas, interferir nas transmissões da torre de controle do aeroporto de Havana e, quando Cuba se voltou para o turismo, depois do colapso da União Soviética, sequestrar aviões que transportavam turistas, executar atentados a bomba em seus melhores hotéis e até disparar rajadas de metralhadoras contra navios de passageiros em suas águas territoriais e contra turistas estrangeiros em suas praias.

Em cinco anos, foram 127 ataques terroristas, sem contar as invasões constantes do espaço aéreo cubano para lançar panfletos que, entre outras coisas, proclamavam: “A colheita de cana-de-açúcar está para começar. A safra deste ano deve ser destruída. […] Povo cubano: exortamos cada um de vocês a destruir as moendas das usinas de açúcar”. Em trinta ocasiões, Havana formalizou protestos contra Washington pela invasão de seu espaço aéreo por aviões vindos dos Estados Unidos — sem nenhum efeito. Enquanto isso, em entrevistas, líderes anticastristas na Flórida diziam explicitamente: “A opinião pública internacional precisa saber que é mais seguro fazer turismo na Bósnia-Herzegovina do que em Cuba”.

Os últimos soldados da Guerra Fria narra a incrível aventura dos espiões cubanos em território americano e revela os tentáculos de uma rede terrorista com sede na Flórida e ramificações na América Central, e que conta com o apoio tácito nos Estados Unidos de membros do Poder Legislativo e com certa complacência do Executivo e do Judiciário. Ao escrever uma história cheia de peripécias dignas dos melhores romances de espionagem, Fernando Morais mostra mais uma vez como se faz jornalismo de primeira qualidade, com rigor investigativo, imparcialidade narrativa e sofisticados recursos literários.

Confira entrevista com Fernando Morais sobre o processo de pesquisa para Os últimos soldados da Guerra Fria:

Qual foi seu primeiro contato com a história dos membros da Operação Vespa, os espiões cubanos em Miami?
Eu soube da história no dia das prisões dos dez agentes cubanos pelo FBI, em setembro de 1998. Ouvi a notícia no rádio de um táxi, no meio do trânsito, em São Paulo, e na hora pressenti que ali havia um livro embutido. Viajei a Cuba para tentar levantar o assunto, mas encontrei todas as portas fechadas. Para se ter uma ideia, Cuba só assumiu que eles de fato eram agentes de inteligência três anos depois, em 2001. O tema era tratado como segredo de Estado.

Como foi pesquisar em Cuba? Você teve pleno acesso a documentos oficiais? E do lado norte-americano?
Os cubanos só liberaram o assunto para mim no começo de 2008. A partir de então fiz cerca de vinte viagens a Havana, Miami e Nova York. O governo de Cuba liberou todo o material disponível e permitiu que eu entrevistasse quem quisesse, inclusive mercenários estrangeiros que haviam sido presos depois de colocar bombas em hotéis e restaurantes turísticos de Cuba e que tinham sido condenados à morte.
Nos Estados Unidos foi mais difícil. Como os agentes do FBI são proibidos de dar declarações públicas, só consegui entrevistas em off. Mas graças ao FOIA — FreedomofInformationAct, a lei que regula a liberação de documentos secretos — e após pesquisas nos arquivos da Justiça Federal da Flórida, tive acesso a cerca de 30 mil documentos enviados pela Rede Vespa a Cuba e que haviam sido apreendidos pelo FBI nas casas dos agentes cubanos em Miami. E os serviços de inteligência cubanos me deram uma cópia do megadossiê sobre o terrorismo na Flórida que Fidel Castro entregou a Bill Clinton com a ajuda do escritor Gabriel García Márquez.

Quais personagens do livro você conseguiu entrevistar? Poderia falar um pouco deles?
Ao todo fiz quarenta entrevistas. Foram dezessete em Cuba, 22 nos Estados Unidos, e no México entrevistei a cantora brasileira De Kalafe, que havia sido vítima da intolerância de líderes anticastristas na Flórida. Entrevistei diretamente um dos presos, René González, via e-mail, e os demais por intermédio de seus familiares em Cuba. As mensagens (as minhas perguntas e as respostas deles) eram previamente censuradas pelas direções das prisões e limitadas a 13 mil caracteres por semana — se tivesse uma letra ou uma vírgula a mais, a mensagem se autodestruía.
Entrevistei, também pessoalmente, o agente que fugiu clandestinamente para Cuba antes das prisões, o piloto de caças-bombardeiros Juan Pablo Roque. Em Nova York entrevistei o jornalista Larry Rohter, do New York Times, que teve a casa metralhada e os freios de seu carro cortados depois que escreveu reportagens denunciando a ligação de lideranças anticastristas da Flórida com os atentados a bomba contra Cuba. E em Miami entrevistei líderes anticastristas diretamente envolvidos com os atentados contra Cuba, como o líder da organização Hermanos al Rescate, José Basulto.

As organizações de extrema direita descritas no livro continuam atuantes na Flórida?
Os tradicionais inimigos da Revolução Cubana, os autodenominados anticastristas verticales, estão morrendo ou já estão muito velhinhos. Quando eu terminava o texto final do livro, por exemplo, morreu Orlando Bosch, que era considerado o inimigo número 1 de Fidel Castro. Ainda é possível ver em Miami manifestações de rua contra a Revolução, mas as novas gerações parecem mais interessadas em ouvir salsa do que em colocar bombas.

Originais aos pedaços

Por Luiz Schwarcz

Mudei de ideia. Espero que não se importem em ler as outras histórias com Oliver Sacks um pouco mais para frente. Embora os episódios que ia relatar, ocorridos durante suas viagens ao Brasil, sejam dos meus favoritos, acho que podem esperar.

É que com a publicação do livro de Ingrid Betancourt, peguei-me lembrando de quando seu livro ia chegando, aos pedaços, e de todo o trabalho de edição que culminou na distribuição de Não há silêncio que não termine, esse fim de semana, às livrarias. Ingrid dedicou-se muito à confecção de seu livro de memórias do cativeiro. Deixou sua vida de lado por um ano e meio e se pôs a recordar, a lidar com lembranças difíceis, das quais quis distância, compreensivelmente, por um bom tempo.

Susanna Lea dedicou-se ao projeto como eu nunca vi um agente literário fazer, nos meus mais de trinta anos de editor. Praticamente parou de trabalhar pessoalmente para seus outros representados e montou um esquema de tradução do texto, que era escrito em francês por Ingrid e imediatamente vertido para o inglês por um tradutor contratado por seu escritório. Ainda abrigou Ingrid em seu apartamento em Nova York, para se afastarem, as duas, dos afazeres cotidianos de suas casas em Paris, e assim viabilizou a edição simultânea do livro em vários países — França, Espanha, Colômbia, Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, Alemanha e Holanda. Todo dia Ingrid escrevia seus textos a mão, os escaneava e enviava para Susanna, que lia e comentava. Uma assistente da agência datilografava o texto e encomendava a tradução para o inglês. Enquanto isto o manuscrito era enviado para quatro editoras no mundo: a Gallimard na França, a Penguin Press nos Estados Unidos, a Virago na Inglaterra e a Companhia das Letras no Brasil.

Tive a sorte de ganhar a confiança da autora e da agente, e por isso fui um dos editores que trabalhou simultaneamente lendo e fazendo sugestões. Assim, acompanhamos capítulo a capítulo, recebendo os originais aos pedaços. Ao mesmo tempo, uma operação de guerra era montada pela Marta e pela Lucila para a preparação da edição brasileira em tempo recorde.

Olhando agora para o livro publicado, sinto a mesma sensação que tive muitas vezes: a necessidade de lê-lo novamente pronto para reconhecê-lo como unidade, para recuperar o que perdi por ter conhecido um livro em gestação, sem a fluência da leitura contínua, sem minha dedicação de editor, mas como leitor — deixando de lado a  infidelidade típica da minha profissão. Um editor está sempre “de caso” com vários autores ao mesmo tempo!

Foi assim com outros livros da editora, em especial com dois muito importantes na história da Companhia das Letras: Chatô, o rei do Brasil e O Xangô de Baker Street. O primeiro eu recebia por capítulos e conversava com Fernando Morais imediatamente. Discutíamos a sequência da redação e possíveis lacunas a serem preenchidas. Pensávamos o livro enquanto ele ia sendo escrito. Esse foi também o primeiro grande contrato da Companhia das Letras. Quando meu pai soube do adiantamento pago a Fernando Morais — nessa época a editora ainda existia nos fundos da gráfica da minha família —, quase tive que pedir auxílio a uma equipe de paramédicos. O livro foi entregue com enorme atraso, mas eu soube demonstrar ao autor, ao longo de muitos anos, toda a minha paciência e a importância que dava ao livro na minha carreira de editor. Ler os originais do Chatô aos pedaços foi um prazer imenso.

O mesmo ocorreu com o livro de Jô Soares. No entanto, neste caso, eu e a Lili recebíamos os originais quase página a página, por fax (quando ainda não havia e-mail), a qualquer hora do dia, sabendo que em Higienópolis um autor ansioso aguardava os comentários da historiadora e do editor, próximo ao telefone. Acompanhar livros desta maneira, como um longo parto compartilhado, analisando não só a narrativa, mas também discutindo caminhos e opções de trama e organização das informações, cria laços ainda maiores com os autores e com seus livros. O carinho que desenvolvi com Jô Soares e  Fernando Morais, e em certo sentido com Ingrid Betancourt agora, é memória que fica para sempre, cicatriz das boas, feita de orgulho e emoção.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.