fernando pessoa

Hoje é o dia deles

Como definiu — de forma lapidar — o poeta Marcelo Noah em sua página no facebook, hoje é uma espécie de Bloomsday lusófono. “É raro um país e uma língua adquirirem quatro grandes poetas em um dia. Foi precisamente o que ocorreu em Lisboa a 8 de março de 1914.”, escreveu o grande crítico George Steiner, acostumado a papas-finas como Conrad, Nabokov e Beckett (autores que, se não criaram heterônimos, iriam se reinventar em outros idiomas). Assim como o dia joyceano, celebrado em diversos quadrantes do planeta em 16 de junho — quando transcorre a ação de Ulysses —, hoje é uma data de regozijo, orgulho e lembrança para os leitores que formam essa pátria chamada língua portuguesa. Pois completa-se um século que Fernando Pessoa concebeu sua constelação de poetas — Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos —, todos com vozes, dicções, personalidades e (perdão pelo português) approaches diversos entre si. Uma vitória titânica da criação poética sem qualquer similar em outras culturas literárias.

Fique agora com uma nanoantologia das criações de Pessoa:

(De Álvaro de Campos)
Chove muito, chove excessivamente…
Chove e de vez em quando faz um vento frio…
Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.

Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela, de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu “ah nesse tempo eu era mais feliz”
Ou pensarei “ah, que tempo triste foi aquele”!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente…
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração…

(De Alberto Caeiro)
Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia…
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram à solta para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam…

(De Ricardo Reis)
Sê o dono de ti
Sem fechares os olhos.

Na dura mão aperta
Com um tacto apertado
O mundo exterior
Contra a palma sentindo
Outra coisa que a palma.

Semana oitenta e três

Os lançamentos da semana são:

Nove ensaios dantescos & A memória de Shakespare, de Jorge Luis Borges (Tradução de Heloisa Jahn)
Ainda muito moço, Borges começou a percorrer a árdua topografia do mundo dantesco ao longo das viagens de bonde que o levavam ao trabalho cotidiano na biblioteca municipal de Buenos Aires. Os ensaios deste livro são como relatos que refazem, numa tela fragmentária, os sugestivos pormenores simbólicos da história dessa viagem, ao mesmo tempo comum e insólita. Depois vêm “A memória de Shakespeare” e mais 3 contos fantásticos, em que o tranquilo domínio do estilo e as pulsantes obsessões se casam a motivos recorrentes da obra de Borges.

O fim da Terra e do Céu, de Marcelo Gleiser
Ao tratar das relações entre religião e ciência diante da questão do “fim de tudo”, Marcelo Gleiser homenageia a imaginação e a criatividade do homem. Seu enfoque é multidisciplinar, mostrando de que maneira ideias sobre o “fim” inspiram não só as religiões e a pesquisa científica, mas também a literatura, a arte e o cinema.

Crônica de um vendedor de sangue, de Yu Hua (Tradução de Donaldson M. Garschagen)
Na China recém-convertida ao comunismo, um operário se vê obrigado a vender o próprio sangue para sustentar a família. Quando desconfia que o seu primogênito é fruto de uma relação clandestina de sua mulher, ele tem de empreender uma batalha contra seus próprios valores para provar que os vínculos afetivos que o unem ao garoto podem ser mais fortes que os laços consanguíneos.

Ho-ba-la-lá: à procura de João Gilberto, de Marc Fischer (Tradução de Sergio Tellaroli)
Um detetive alemão improvisado e sua assistente brasileira vasculham a cidade do Rio de Janeiro em busca de alguma pista que conduza ao misterioso… João Gilberto. A missão é quase impossível; o tempo para cumpri-la, curtíssimo. Menescal, Miéle, João Donato, Marcos Valle, Miúcha, o cozinheiro, o duplo, o Copacabana Palace, Diamantina — em tom de uma divertida história detetivesca, o jornalista Marc Fischer faz uma bela declaração de amor à bossa nova.

A vida de Joana d’Arc, de Erico Verissimo (Ilustrações de Rafael Anton)
Erico Verissimo constrói com delicadeza exemplar a personalidade de Joana, a menina francesa do século XV que ouvia vozes de santos e que transgrediu as convenções de seu tempo e de seu gênero vestindo-se de homem, lutando entre os soldados e defendendo seu rei.

A luz no túnel (Os subterrâneos da liberdade, vol 3), de Jorge Amado
O volume que fecha a épica trilogia apresenta o painel ficcional de um momento muito sombrio, quando republicanos espanhóis perdem a Guerra Civil para Franco, os alemães começam a Segunda Guerra e Getúlio Vargas mostra simpatia por Hitler e Mussolini.

O livro selvagem, de Juan Villoro (Tradução de Antônio Xerxenesky)
Juan precisa ler um livro completamente selvagem, que não se deixa ler. Mas por que o livro resiste à leitura? E por que Juan é o único capaz de desvendar seus mistérios? Com ele, os leitores vão descobrir não só a companhia que os livros podem nos fazer nos bons e maus momentos, como também a importância de se compartilhar o prazer e o conhecimento que as leituras nos proporcionam.

Assim falou Zaratustra, de Friedrich Niestzsche (Tradução de Paulo César de Souza)
Escrito e publicado progressivamente, entre 1883 e 1885, este veio a se tornar o mais famoso livro de Nietzsche. Nele se acha o relato das andanças, dos discursos e encontros inusitados do profeta Zaratustra, que deixa seu esconderijo nas montanhas para pregar aos homens um novo evangelho. Muitas das concepções apresentadas em outras obras do autor (como a morte de Deus, o super-homem, a vontade de poder e o eterno retorno) reaparecem aqui em nova linguagem, numa singular mistura de ficção poética, indagação filosófica e reflexão religiosa.

Olavo Holofote, de Leigh Hodgkinson (Tradução de Érico Assis)
Este livro é fantástico porque ele é totalmente dedicado ao Olavo Holofote. Aliás, é tão fantástico que o Olavo acha que não sobra epaço para mais ninguém além dele… Mas, quando todo mundo cai fora, Olavo começa a pensar: para que serve se exibir para si mesmo? Com certeza, isso não é muito divertido…

Fotobiografia de Fernando Pessoa, de Richard Zenith & Joaquim Vieira
Concebido por um editor experiente e por um dos grandes especialistas em Fernando Pessoa, o livro apresenta centenas de imagens inéditas e conhecidas do poeta e sua família, desde os primeiros anos de vida do autor até os principais acontecimentos de sua vida — incluindo fotos, desenhos, caricaturas, cartas, diários, rascunhos, manuscritos e datiloscritos, reproduções de jornais e revistas em que publicou, além de obras de arte feitas em homenagem a Pessoa.

Ismael e Chopin, de Miguel Sousa Tavares (Ilustrações de Fernanda Fragateiro)
Entre seus 52 irmãos coelhos, Ismael foi o escolhido pelo pai para aprender tudo o que ele tinha para ensinar. Juntos, os dois passam os dias a se aventurar pelos cantos da floresta, observando animais e plantas, e aprendendo segredos sobre um outro mundo. É que o pai de Ismael conhece a língua dos homens e a ensina ao filho — sem nem imaginar que isso levaria ao início de uma amizade muito especial, entre um coelho e um dos maiores compositores da música ocidental.

O segredo do rio, de Miguel Sousa Tavares (Ilustrações de Fernanda Fragateiro)
Era uma vez um rio que passava bem em frente à casa de um menino. Ali, ele formava um lago, onde esse pequeno camponês passava grande parte de seu tempo, nadando de olhos abertos em suas águas cristalinas ou se aquecendo em um banco de areia que se formava nas laterais. Neste rio, se escondia um segredo surpreendente.

Garrafinha, de Mariana Caltabiano (Ilustrações de Rodrigo Leão)
Com seus óculos fundo de garrafa e altura de tampinha, Garrafinha se sente rejeitada por sua aparência e, como acontece a partir de certa idade, quer mais é ter amigos e ser popular. Mas seu grande motivo de sofrimento acabou se tornando a sua solução: como ela estava sempre sozinha, passava boa parte do tempo observando os outros — e também desenhando o que via. Esses desenhos fizeram sucesso entre as crianças, e Garrafinha achou o seu jeito de se expressar. Acesse o hotsite da Garrafinha para conhecer mais da personagem.

Semana setenta e dois

Os lançamentos da semana são:

Livro do desassossego, de Fernando Pessoa (edição revista e ampliada)
O narrador principal das centenas de fragmentos que compõem este livro é o “semi-heterônimo” Bernardo Soares. Ajudante de guarda-livros em Lisboa, ele escreve sem encadeamento narrativo claro e sem uma noção de tempo definida. Os temas não deixam de ser adequados a um diário íntimo: a elucidação de estados psíquicos, a descrição das coisas através dos efeitos que elas exercem sobre a mente, reflexões sobre a paixão, a moral, o conhecimento. Nesta nova edição, o pesquisador Richard Zenith estabelece nova ordem, acrescenta trechos recentemente descobertos e descarta outros que só depois da digitalização do acervo do autor puderam ser corretamente compreendidos — a caligrafia difícil dava margem a inúmeros equívocos. Livro fundamental para a compreensão da extensa influência de Pessoa na criação da noção contemporânea de indivíduo, suas páginas revelam o gênio de um autor no seu auge.

Os cantos perdidos da Odisseia: um romance, de Zachary Mason (Tradução de Rubens Figueiredo)
Odisseu está sempre voltando a Ítaca, por mais que os deuses retardem seu regresso à terra natal. Aqui, porém, os acontecimentos escapam a seu controle, e o herói da Guerra de Troia já não se comporta como um guerreiro mítico. Este é um Odisseu de carne e osso, abandonado pelos deuses, que faz a corte a Helena, dá vida a um duplo de Aquiles, enfrenta a ira do ciclope Polifemo e o canto das sereias. E enfim retorna a Ítaca para reencontrar uma Penélope envelhecida e cansada de esperá-lo. Zachary Mason cria 44 cantos para uma história fundadora, reinventado-a a partir de episódios inusitados e explorando as possibilidades imaginativas da literatura.

Poemas, de Wisława Szymborska (Tradução de Regina Przybycien)
Este livro da maior poeta polonesa viva, ganhadora do Nobel e inédita no Brasil, inaugura, ao lado de Omeros, a reedição da coleção de poesia traduzida da Companhia das Letras, com novas capas e projeto gráfico. Aos 88 anos, Wisława Szymborska vive desde menina em Cracóvia, no sul da Polônia. O fato de ter permanecido a vida inteira no mesmo lugar diz muito sobre essa poeta conhecida por sua reserva e extrema timidez. Seus poemas, contudo, viajam pelo mundo. Não são tantos: sua obra inteira consiste em cerca de 250 poemas cuja função, como declarou a poeta no discurso de Oslo, é perguntar, buscar o sentido das coisas. Com sua poesia indagadora, Szymborska foi chamada “poeta filosófica”, ou “poeta da consciência do ser”. No Brasil, teve poemas esparsos publicados em jornais e revistas ao longo dos anos, mas esta edição, com seleção, introdução e tradução de Regina Przybycien, é a primeira oportunidade que tem o leitor brasileiro de lê-la em português. A coletânea de 44 poemas é uma belíssima apresentação à obra dessa importante poeta contemporânea.

Contos e lendas dos Jogos Olímpicos, de Gilles Massardier (Ilustrações de Nicolas Thers; Tradução de André Viana)
No fim do século XIX, o barão de Coubertin, um grande incentivador da prática de esportes nas escolas e admirador incondicional da Grécia, teve uma grande ideia: reviver os antigos Jogos Olímpicos. Assim, em 1986, foram realizadas as primeiras Olimpíadas da era moderna. Desde então, de quatro em quatro anos, homens e mulheres tentam romper os limites físicos da humanidade, de acordo com um dos lemas dos jogos: ser mais rápido, ir mais alto, impor mais força. Os contos deste livro trazem informações sobre a história dos jogos e dados biográficos de alguns atletas ainda pouco conhecidos, entremeados em narrativas de ficção. Alguns deles são cômicos; outros, emocionantes e outros ainda bastante inusitados. Em comum, falam de maneira variada sobre o universo dos esportes, para aqueles que não perdem uma boa história.

Cinco histórias de cinco continentes (Vários autores e ilustradores; Tradução de Heloisa Jahn)
Dizem que as histórias nos fazem viajar sem sair do lugar. Se elas falam de outras culturas, o passeio fica ainda mais interessante. Como numa espécie de volta ao mundo em 120 páginas, este livro apresenta histórias dos cinco continentes do planeta Terra: partindo da Rússia, as narrativas passam pela China, Austrália, Magreb e América do Norte. Um menino que engana a bruxa Baba Yaga com sua esperteza; uma princesinha muito voluntariosa que aprende a sua lição; um papagaio que, com seu sangue colorido, pinta os pássaros; uma lebre que acredita estar sendo perseguida mas acaba descobrindo que tem uma sombra; e uma cigarra que procura um pretendente para casar e acaba arranjando um partidão são os personagens que recheiam esta antologia ilustrada e saborosa.