
Convidados:
Mediação: Arthur Dapieve
Contra a ideia da imaginação como escapismo, é possível considerá-la uma faculdade que nos permite avaliar e compreender o mundo. Ao explorarem diferentes maneiras de apreender a realidade, por meio do mergulho na consciência de seus personagens, os livros de Ian McEwan e Jennifer Egan revelam que imaginar pode ser um ato de humanização. Ver pelos olhos do outro implica um duplo movimento, de distanciamento da perspectiva individual e tentativa de aproximação do alheio. Mas, em vez de um solo comum, esse esforço pode expor também diferenças inconciliáveis.
Horário de início: 12h
Antes da mesa, José Luís Peixoto lê o poema “José”, de Drummond.
[Jennifer Egan lê um trecho de Torreão, Ian McEwan lê um trecho de Serena.]
Mediador: O nome da mesa traduz a sensação de empatia que vocês criam com seus personagens. Como vocês criam eles?
Jennifer. Eu começo com tempo e lugar, e as pessoas aparecem a partir disso. Não gosto de escrever nada próximo de mim.
Ian: Não é uma escolha consciente, mas escritores são meio fraudulentos e ficam tentando explicar todas as suas escolhas depois. É como pintar um quadro, um retrato. Cada pincelada tem que fazer sentido e complementar as pinceladas anteriores.
Jennifer: A própria voz do narrador sugere a personalidade, a partir da narração você intui suas características.
Mediador: Como vocês fazem a pesquisa para os livros?
Jennifer: Eu me convenci de que não precisava pesquisar realmente sobre esse ambiente, seria suficiente ler sobre o assunto. Mas isso afetava a descrição, então resolvi visitar uma prisão, e isso mudou, pude perceber as cores, texturas, detalhes.
Ian: Eu fiquei conversando com um neurocirugião por 2 anos. Mas tomei cuidado para que meu personagem não tivesse relação alguma com o neurocirurgiao que acompanhei. Acompanhei muitas cirurgias, e ficava à vontade com o jaleco. Eu precisava conseguir me passar por neurocirugião. Quando você pesquisa para um livro, precisa saber 10 vezes mais do que vai usar.
Mediador: Gostaria de pedir que dissessem o que lhes atrai na literatura do outro.
Jennifer. Conheci Ian quando ele visitou a universidade em que estava, e leu um conto que havia acabado de escrever. Eu gostei muito, e percebi que não conhecia muitos escritores como pessoas. Seu trabalho é muito convincente e entusiasmante, há beleza no ritmo. Me impressiona que ele continua evoluindo, considero um modelo para mim.
Ian: Jennifer está envolvida num ato de equilibrismo muito interessante, força os limites do que é imaginação e literatura.
Mediador: Como foi a experiência de fazer Black box, um conto longo publicado via twitter?
Jennifer: Meu interesse no twitter veio das histórias seriadas. Entrei no twitter há 2 anos, mas não consegui achar uma voz, e um tempo depois um hacker começou a invadir minha conta. Aí pensei que devia haver um jeito de usar a ferramenta para narrar uma história. Mas teria que ser uma história que não poderia ser contada de outra maneira.
Mediador: A espionagem aproxima seus dois trabalhos. Queria que vocês falassem de romances de espionagem.
Ian: Não posso dizer que li muitos romances de espionagem, mas gosto muito de Le Carré. É um caso interessante de escritor que resistiu a ser rotulado. E mesmo assim sua reputação cresceu. Tinker tailor é um dos romances mais importantes dos últimos anos. Talvez todos os romances sejam romances de espionagem. Todos somos donos de uma narrativa que não podemos compartilhar. E todos os romancistas retêm informações, manipulam a história.
Jenniffer: Todos nos sentimos como espiões de certa forma, nos sentimos mais que as pessoas ao nosso redor. Alguns amigos leram Black box e acharam que a mulher era louca, que estava imaginado que era espiã, e eu adorei isso.
Mediador: Parte da graça do romance de espionagem seria que ele é o oposto do mundo, onde todos querem revelar informações sobre si mesmos?
Ian: No caso do Wikileaks, achei interessante que os documentos eram muito bem articulados. Foi um grande caso de hipocrisia, acho que deviam soltar Bradley Manning.
Jennifer: Acho interessante que a internet encoraja as pessoas a se abrirem mais, e wikileaks foi um caso extremo disso. Uns anos atrás fui pesquisar adolescentes gays, e eles sentiam que a vida online era mais real, porque eles não tinham que fingir nada. Mas ao mesmo tempo vi um caso de um garoto que achava que tinha um grupo de amigos, e descobriu que na verdade era um adulto só fingindo ser 7 adolescentes.
Mediador: Uma leitora diz que se sentiu manipulada ao terminar Reparação. Vocês dois tratam do assunto de confiabilidade no narrador. Há um prazer nesse tipo de manipulação?
Ian: Com certeza, é meu prazer principal na vida! Mas não é algo forçado. É prazerosa a sensação de prender o leitor e colocá-lo num transe.
Jennifer: Tudo é manipulação, ao levar o leitor a outro cenário e outro tempo, já há manipulação. Você tem é que se perguntar qual a função disso, não pode ser algo sem propósito. Eu gosto muito.
Mediador: Você sente vontade de expandir alguns de seus personagens de Visita cruel do tempo?
Mediador: Sim, na verdade a espiã de Black box é uma das personagens do meu último livro, Lulu, fiquei pensando como ela seria com 30 anos. Todos os meus personagens acabam ficando um pouco como se fossem parte da minha própria memória.
Ian: Pra mim é diferente, acho que todos os meus personagens morrem pra mim. Mas isso é bom, eu prefiro que eles desapareçam para começar o próximo livro do zero.
Mediador: Vocês dois ganharam muitos prêmios. O Nobel é uma expectativa?
Jennifer: Eu estou satisfeita com o que tenho. Prêmios são muito uma questão de sorte, agradar as pessoas certas no lugar certo.
Ian: Eu penso em quantos escritores bons existem por aí que não ganharam o Nobel e acredito que estamos em boa companhia.
Mediador: A música dialoga com vocês enquanto escrevem?
Ian: Acho que escritores têm inveja de compositores. Podemos achar que nossas frases se ligam ao ritmo da música, mas estaríamos nos enganando.
Jennifer: Eu ouvi muita música quando escrevi o último livro Visita cruel porque era difícil mudar meu ponto de vista de um capítulo pro outro, e a música ajudava nisso.
Mediador: Também é possível captar um interesse por arquitetura nos seus livros.
Jennifer: Eu li muito sobre partes de castelos, mas sou péssima desenhista. Li muito sobre castelos e prisões para Torreão, por um interesse em compreender a estrutura do que estava escrevendo.
Mediador: Fale um pouco sobre Christopher Hitchens.
Ian: Ele veio a Paraty 4 ou 5 anos atrás, meu filho estava aqui. Hitchens faleceu há uns 7 meses e deixou uma lacuna enorme em nossas vidas. Era talvez o melhor orador da nossa geração. Mantinha e captava a atenção da audiência. Ele morreu sem reclamar, e até os últimos dias ainda estava comprometido com sua escrita.
Horário de término: 13h16