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Arbitrariedade e liberdade

Por Ilija Trojanow

[Texto escrito por Ilija Trojanow para o Frankfurter Allgemeine Zeitung na terça-feira, 1° de outubro. Tradução de Hermógenes de Castro & Mello.]

Segunda-feira, 30 de setembro de 2013, estava eu em Salvador, Bahia, Brasil, às 8h36, em frente ao check-in da American Airlines, voo AA238 para Miami. De lá pegaria a conexão do voo AA1391 para Denver, no Colorado, para participar de uma conferência de germanistas norte-americanos, entre 4 e 6 de outubro.

Logo depois de digitar meu nome, a atendente da companhia aérea parou, levantou-se e sumiu atrás de uma porta, sem dar explicações. Alguns instantes depois, retornou com alguém que aparentava ter um cargo superior, e que, em português acelerado e depois num inglês rápido, explicou, por razões do “Border Crossing Security”, que era obrigada a comunicar minha chegada àquele aeroporto para as autoridades americanas. Perguntou se poderia levar meu passaporte, no estilo cordial que não nos permite dizer não; e desapareceu.

Após alguns minutos aguardando, perguntei à funcionária do check-in se todos os cidadãos não brasileiros eram obrigados a se submeter àqueles procedimentos. A senhora negou. “Seu caso é especial”, disse enigmaticamente. Após vinte minutos — nesse meio tempo eu era a única pessoa junto ao balcão — perguntei quantas vezes ocorriam esses controles extra. “É pouco frequente”, respondeu monossilábica, “talvez uma vez por mês”.

Tudo estava válido e confirmado

Logo em seguida, surgiu outro colaborador com meu passaporte na mão e pediu à senhora do check-in que coletasse meus dados. Perguntou-me se eu possuía uma ESTA (Electronic System for Travel Autorization) e se poderia mostrá-la. Apresentei o recibo, que identificava meu ESTA com a autorização aprovada (“Authorization approved“) e o pagamento da taxa equivalente. A senhora então digitou o número do recibo e esforçou-se em descortinar minha nacionalidade. Pela primeira vez me dei conta de que passaportes alemães somente se apresentam ao mundo como tal na última página: Germany, Allemagne. Aparentemente as nossas autoridades se distanciam da identificação menos global da palavra Deutschland.

Três quartos de hora antes da decolagem, um alto-falante murmurou algo — a sentença sobre meu caso seria anunciada. A senhora me disse de forma curta e seca que a minha entrada nos Estados Unidos havia sido negada. Sem informar os motivos. Eu deveria me dirigir à embaixada americana e lá pedir um visto. Como todos os demais colaboradores da American Airlines, ela estava mal informada, pois não há embaixada americana ou consulado em Salvador, e conseguir um visto é algo que leva algumas semanas. Portanto, essa opção para meu planejamento de viagem era irrelevante, e a sugestão parecia quase sarcástica.

Um dos aspectos mais importantes e ameaçadores do escândalo da NSA é a essência dita secreta do sistema. Transparência aparentemente é o maior inimigo desses que dizem defender a liberdade. Já no ano passado, o consulado americano em Munique havia me negado um visto de trabalho para viajar como professor visitante na Universidade de Washington, em Saint Louis, e somente após protestos dos professores da universidade, e uma delonga imensa, a deixar passar parte do semestre letivo sem frutos, ele foi emitido. Também não houve qualquer informação sobre os motivos, comentários ou explicações. Toda vez  que eu ligava, informavam que estava sendo verificado, ninguém poderia informar o prazo. E também não poderiam informar o motivo de eu estar na mira das autoridades.

Vingança pelo meu protesto?

Sem dúvida meu caso não é uma grande exceção e tampouco peculiar — sou apenas um número nas engrenagens da imensa aparelhagem estatal, que tem incontáveis casos a processar. Mas exatamente por essa razão, ele é esclarecedor. Há muitos anos tenho me ocupado editorialmente, em artigos e ensaios, com as estruturas internacionais e nacionais de vigilância, assim como redigi, em co-autoria com Juli Zeh, livro sobre esse tema (Angriff auf die Freiheit, 2009. [Ataque à liberdade, em tradução livre]). Recentemente fui um dos participantes na iniciativa de envio da carta aberta à primeira-ministra Angela Merkel (divulgada por este jornal, F.A.Z., em 26 de julho); e pouco tempo atrás, em 18 de setembro, as aproximadamente 63.000 assinaturas da carta, à qual não recebemos qualquer resposta, foram entregues ao governo alemão, com ampla cobertura da imprensa. Até o momento presente, mais de 70.000 pessoas já assinaram essa missiva.

Quando a carta foi entregue, eu me encontrava no Rio de Janeiro, onde o jornalista americano bastante crítico Glenn Greenwald trabalha, já que ele teme chicanas pesadas ou mesmo a prisão nos Estados Unidos. Uma das primeiras coisas que observei no Brasil foi uma curiosa capa de revista com Obama transvestido de Exterminador (“Obamacop“). As primeiras notícias com as quais fui confrontado tratavam de uma reportagem da TV Globo e de como o serviço secreto NSA conseguia acesso às redes corporativas, por exemplo da estatal brasileira Petrobrás. Foi reconfortante estar no Brasil e ser poupado da retórica cansada sobre a defesa dos direitos humanos e a proteção contra o terrorismo; em vez disso, na mídia e nas conversas pude verificar a realidade: a espionagem é econômica, envolve interesses de poder e é conduzida em uma política descarrilhada efetuada por uma polícia secreta paranoica. Há apenas uma semana a presidente brasileira Dilma Roussef (numa atitude isolada) transmitiu palavras graves de alerta sobre o tema perante a Conferência Geral da Nações Unidas.

É no mínimo irônico quando um escritor que há anos levanta sua voz contra os perigos da vigilância e do serviço secreto para os Estados tem sua entrada negada no “land of the brave and the free“. Esse é certamente apenas um modesto caso isolado, mas que ilustra as consequências do desenvolvimento desastroso e revela a ingênua concepção de muitos cidadãos que se acalmam com o mantra “Isso não me diz respeito”. Pode até ser realidade, mas as ameaças estão se aproximando. Nesse momento os cidadãos só recebem mensagens silenciosas dos serviços secretos, mas em um dia não muito distante, eles pagarão a conta por sua falta de julgamento crítico.

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Ilija Trojanow escreve em alemão, mas nasceu em Sófia, na Bulgária, em 1965, e viveu em países como Índia, Quênia, Alemanha e África do Sul, até fixar-se em Viena, na Áustria. Entre outros romances, é autor de Degelo O colecionador de mundos, sobre o orientalista e etnólogo inglês Richard Burton. Foi laureado com prêmios como o da Feira do Livro de Leipzig e o prêmio de literatura de Berlim. Trojanow também é tradutor e editor, e veio ao Brasil para uma residência literária em Salvador.

Brasil — Alemanha

Por Ilija Trojanow


Nos primeiros dias após chegarmos a um país estrangeiro, os temas atuais que carregamos conosco continuam ressoando. E encontram um eco surpreendente.

1. Correspondência silenciosa – protesto ruidoso

A última notícia que li na Alemanha referia-se a mais um aspecto da vigilância na telecomunicação: recebemos, muitos de nós, correspondência silenciosa dos serviços secretos. Não percebemos que somos contatados por SMS. Mas nosso celular responde de maneira arbitrária ao provedor, que encaminha a informação sobre nosso paradeiro às autoridades. Apenas no primeiro semestre deste ano foram enviados mais de 250 mil SMS silenciosos! Sim, a Alemanha está fervilhando de terroristas silenciosos.

A primeira visão no Brasil: duas capas de revista dignas de nota; numa delas, um Obama como Exterminador (“OBAMACOP”), noutra o presidente visivelmente envelhecido com uma expressão contraída (“Vacilou”). A primeira notícia: uma matéria no site da TV Globo descreve como o NSA, serviço secreto dos EUA, conseguiu acesso à rede de computadores de empresas, por exemplo a petroleira brasileira Petrobras. É revigorante que países como a Índia, a África do Sul ou o Brasil não levem a sério a retórica habitual dos EUA (defesa dos direitos humanos, proteção contra o terrorismo), mas sejam diretos: espionagem econômica, interesses do poder e uma burocracia do serviço secreto que saiu dos eixos.

2. Homem da igreja – rato da igreja

Combina com o novo papa a igreja mais famosa de Salvador ser dedicada a são Francisco. Combina menos com o novo papa seu interior ser dominado por madeira entalhada, dourada. Uma opulência exuberante, espantosa. No claustro inferior, há 37 conjuntos de azulejos, importados de Portugal, intitulados com emblemas latinos de Horácio sobre dinheiro, avidez e inveja: Pecuniadonatomnia. Não fica claro se os emblemas devem servir como alerta (“Não ajunteis tesouros na Terra, onde traças e vermes os consomem. Ajuntai tesouros no céu.”) ou como confirmação de que não resta mais nada ao ser humano sobre a Terra do que reconhecer a onipotência de Mamon e, como homem da igreja, se submeter a isso.

Esse seria o entendimento de Franz-Peter Tebartz-van Elst, bispo de Limburg, que no momento causa alvoroço na Alemanha, pois também ele assumiu um estilo barroco, viajou de primeira classe até as favelas indianas, mandou construir um palácio episcopal por 10 milhões de euros e apareceu com hábitos entretecidos com fios de ouro. Em outras palavras, ele cultiva — assim acabei de aprender em Salvador da Bahia — o estilo colonial.

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Ilija Trojanow escreve em alemão, mas nasceu em Sófia, na Bulgária, em 1965, e viveu em países como Índia, Quênia, Alemanha e África do Sul, até fixar-se em Viena, na Áustria. Entre outros romances, é autor de Degelo e O colecionador de mundos, sobre o orientalista e etnólogo inglês Richard Burton. Foi laureado com prêmios como o da Feira do Livro de Leipzig e o prêmio de literatura de Berlim. Trojanow também é tradutor e editor, e está fazendo uma residência literária em Salvador.

Semana cento e sessenta e três

Os lançamentos desta semana são:

Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida
Leonardo, protagonista destas Memórias, nada tem em comum com os heróis românticos de sua época. Filho de “uma pisadela e de um beliscão” em um flerte em alto-mar, desde cedo abraça o ócio como único modo possível de vida, inaugurando, segundo Antonio Candido, uma nova modalidade de narrativa, a do romance-malandro. Publicado pela primeira vez há mais de 150 anos, como folhetim no Correio Mercantil do Rio de Janeiro, a história de Leonardo chega ao leitor moderno com um vigor narrativo impressionante. Nas palavras de Ruy Castro, que assina o inspirador prefácio desta edição e alça Memórias à categoria de obra-prima da nossa literatura, o romance é um “milagre” e “uma façanha literária”, sem a qual “não teríamos ouvido falar — na literatura, na crônica, na música popular — de Machado de Assis, João do Rio, Lima Barreto, Carmen Miranda, Noel Rosa, Millôr Fernandes, Carlos Heitor Cony, Chico Buarque, Ivan Lessa e tantos outros discípulos, confessos ou inconscientes, de Manuel Antônio de Almeida”.

Alta fidelidade, de Nick Hornby (Trad. Christian Schwartz)
“Me pego preocupado, de novo, quanto àquele negócio da música pop, se gosto dela porque sou infeliz, ou se sou infeliz porque gosto dela.” Rob não tem como saber. Desde garoto consome toneladas de música, coleciona vinis raros, grava fitas temáticas e se apaixona por garotas que, no mínimo, tenham a decência de não gostar do Sting. É por isso que aos 35, depois que a namorada, Laura, vai embora de casa, ele não sabe o que dói mais: ouvir as letras chorosas de todas aquelas músicas que deram algum significado a tantos momentos de sua vida ou lembrar do tempo em que elas não o deixavam assim infeliz. Num processo de revisão incessante e obsessivo — qual o top five dos piores foras de todos os tempos? e as quatro piores coisas que se pode fazer a um namorado sem ele saber? —, Rob vai buscar uma reconciliação com a vida, com as ambições que um dia teve para sua combalida loja de discos e, quem sabe, com a própria Laura. Repleto de um impagável humor autodepreciativo que faz de Rob um personagem ainda mais carismático, Alta fidelidade se tornou rapidamente um clássico pop — um encontro do romance de formação com a comédia romântica, tudo isso acompanhado de uma trilha sonora da melhor qualidade.

Febre de bola, de Nick Hornby (Trad. Christian Schwartz)
Acompanhar o futebol é um prazer para a maioria das pessoas, mas quando esse interesse vai além do entretenimento e leva um homem a atrelar seus fracassos e conquistar pessoais ao desempenho de um time, a paixão muda de nome e se torna algo próximo do amor louco — ou de um vício incontrolável. É como tendência incurável à obsessão e ao desterro que Nick Hornby descreve sua relação com o Arsenal, time que a maioria dos torcedores ingleses ama odiar. Fiel ao impopular clube desde os onze anos, o escritor se apresenta neste livro de memórias como alguém que relega a literatura, o diploma de Cambridge e até a família ao banco de reservas, à espera de uma brecha no calendário de jogos para entrar em campo. Nesta coleção de pequenos ensaios repletos de afeto, confissões e uma memória milimétrica — capaz de recriar lances inteiros de uma vida encarada como metáfora do futebol —, Hornby revela a dimensão humana das multidões que lotam os estádios dispostas a passar noventa minutos de sofrimento em nome da alegria improvável de um gol.

O legado de Humboldt, de Saul Bellow (Trad. Rubens Figueiredo)
“Poeta, pensador, bebedor problemático, ingestor de pílulas, homem de gênio, maníaco-depressivo, maquinador requintado, história de sucesso, no passado escreveu poemas de grande argúcia e beleza.” Esse é Von Humboldt Fleisher, o exuberante autor de Baladas de Arlequim, livro que fez Charlie Citrine cruzar o país em busca de uma carreira na literatura. Mas a vida de Humboldt foi um fracasso, e ele morreu no esquecimento e sem amigos, tendo rompido até mesmo com seu mais dedicado pupilo. Agora é a vida de Citrine, depois de atingir fama e fortuna no sucesso de um personagem inspirado em Humboldt, que parece descarrilhar como a de seu antigo mentor. Às turras com a lei, mulheres e um mafioso que destruiu sua Mercedes a pauladas, Charlie recebe do amigo um presente além do túmulo, um legado que poderá colocar sua vida no eixo de uma vez ou terminar por enterrá-la, como tudo a sua volta parece indicar. (Romance vencedor do prêmio Pulitzer)

Degelo, de Ilija Trojanow (Trad. Kristina Michahelles)
São muitas as maneiras de entender o apelido que Zeno Hintermeier, um estudioso de geleiras obcecado pelo aquecimento global, ganhou de seus colegas de trabalho — “Mr. Iceberger”. Solitário, frio, à deriva, Zeno está cada vez mais instransigente com os homens, de maneira geral, e mais especificamente com os turistas que leva à Antártida, como coordenador da expedição do navio cruzeiro Ms Hansen. Depois do derretimento completo da geleira que pesquisava nos Alpes, ele não tolera mais os comportamentos de agressão ao meio ambiente. As anotações ácidas do cientista, que caminha para a loucura à medida que viaja mais ao sul, tecem a trama deste romance de Ilija Trojanow, uma das vozes mais notáveis da literatura alemã contemporânea. Em meio a atrapalhações dos viajantes, uma intervenção artística em pleno continente gelado e uma comunicação difícil por rádio, Mr. Iceberger planeja um último grito de desespero.

As garras do leopardo, de Chinua Achebe (Trad. Érico Assis; Ilustrações de Mary Grandpé)
No começo, todos os bichos eram amigos. Eles não tinham garras nem dentes afiados — nem mesmo o rei, o bondoso leopardo. A única exceção era o cachorro, que, com seus caninos pontudos, era motivo de gozação entre os animais. Certo dia, o cão, cheio de rancor, resolveu usar o que tinha de diferente para enfrentar o rei leopardo e se tornar o bicho mais poderoso da selva. E foi assim, a dentadas, que ele derrotou o grande líder, mandando-o para bem longe. Mas o leopardo logo retornaria. Dotado de um rugido ainda mais forte, de garras afiadas e dentes reluzentes, o antigo rei queria fazer justiça — e a partir daí a vida na selva nunca mais seria a mesma.

História de dois amores, de Carlos Drummond de Andrade (Ilustrações de Ziraldo)
Osbó era um elefante de bem com a vida. Ele estava tão ocupado pensando nas férias que tiraria para descansar de suas obrigações como chefe da manada que nem percebeu uma pulga — aliás, um pulgo — instalada atrás de sua orelha. É assim que começa esta história da amizade entre Pul, o pulgo, e Osbó, o elefante. Juntos, eles viajam, enfrentam guerras, riem e choram — até chegar aquele dia em que a convivência fica complicada. Vaidoso por ser amigo de um bicho importante, Pul passou a distribuir ordens por todos os lados e a ser malcriado à toa, inclusive com Osbó. Mas pra tudo existe uma solução. E, em muitos casos, essa solução é aquela coisa que todo mundo sente, que dizem que move até montanhas.

Editora Paralela

Os 500, de Matthew Quirk (Trad. Ana Ban)
Após uma infância e uma juventude complicadas, tudo que Mike Ford queria era uma vida honesta. Seguiu à risca a trajetória de um grande homem: se formou em direito em Harvard com as melhores notas e já era visto como a nova promessa do Grupo Davies — a mais poderosa empresa de consultoria de Washington. No entanto, quando já desfilava entre os mais importantes figurões dos EUA, Mike percebeu que sua nova vida talvez estivesse baseada em muito menos honestidade do que seu passado como jovem criminoso. Mas será que tudo que ele havia conquistado não seria suficiente para que aceitasse aquela situação?

Editora Seguinte

Três é demais, de Ali Cronin (Trad. Rita Sussekind)
Jack está perdidamente apaixonado. Ollie evita relacionamentos sérios. Donna não consegue arrumar um namorado. Mas e Cass? Todos acham que ela tem tudo que uma garota poderia desejar, mas a realidade está longe de ser perfeita. Seus amigos odeiam Adam, seu namorado. E seu melhor amigo está apaixonado por ela. Cass está dividida. Como ela irá escolher entre os dois? Acompanhe o emocionante último ano na escola de quatro garotas e três garotos.

Links da semana

Acima você vê o teaser animado feito pelo Estúdio Birdo para a graphic novel Cachalote, de Rafael Coutinho e Daniel Galera. A curiosidade é que quem está tocando piano é ninguém menos que Laerte.

Christopher Hitchens escreveu na Vanity Fair mais um capítulo de sua batalha contra o câncer, e Ricardo Piglia falou ao El País sobre seu novo romance, Blanco nocturno.

O Gabriel, da revista Bula, resenhou 2666, de Roberto Bolaño. Se você gosta de Bolaño, compareça na disputa entre ele e Philip Roth na Livraria da Vila, dia 16.

Surgiram na internet as primeiras imagens de Rooney Mara como Lisbeth Salander, da trilogia Millennium. A escritora Carola Saavedra foi entrevistada para o Cultura News, e o André, do Lendo.org, indica 22 bibliotecas com conteúdo online.

Duas pessoas resenharam O Palácio de Inverno, de John Boyne: a Taize, do Meia Palavra, e a Fanny, do O restaurante do fim do universo.

Os colaboradores do Meia Palavra também deram suas opiniões sobre 1984, de George Orwell. No mesmo site, o Felipe escreveu sobre Paraíso perdido, de Cees Nooteboom, a Dinddi falou de O colecionador de mundos, de Ilija Trojanow, e o Luciano leu Mãos de cavalo, de Daniel Galera.

A NASA criou um Flickr com várias fotos históricas ligadas à agência de exploração espacial, e um grupo de designers tenta imaginar um mundo sem Photoshop.

O Eduardo, do blog Arte faz parte, resenhou Afluentes do rio silencioso, de John Wray. O Jorge, do I’m learning to fly, leu Infância, de J.M. Coetzee, e o Tuca resenhou em seu blog O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de João Paulo Cuenca.

A Kelly, no blog da Livraria Cultura, escreveu sobre a dor que emprestar um livro pode trazer. A Livia, do Beco das palavras, falou sobre Retalhos, de Craig Thompson, e o blog da Raquel Cozer, que trabalha no caderno Sabático do Estadão, mudou de endereço.

Para terminar: um vídeo mostra que o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke acertou algumas de suas previsões sobre o futuro, e três garotas criaram o Lady’s Comics, um site sobre mulheres nos quadrinhos — seja como personagens, autoras ou desenhistas.

O colecionador de mundos

Ilija Trojanow, um dos grandes nomes da nova geração da literatura alemã, veio ao Brasil a convite do Goethe-Institut para o lançamento de seu livro O colecionador de mundos, uma ficção biográfica sobre a vida do explorador inglês sir Richard Francis Burton.

Trojanow já esteve em Manaus, Salvador e Porto Alegre, e gentilmente aceitou escrever para o blog um texto sobre sua viagem até agora. Hoje, às 19h, ele estará no Goethe-Institut de São Paulo, para o lançamento de seu livro e mesa redonda com Marcos Flamínio Peres e Joca Reiners Terron.

Na sexta-feira ele estará no Goethe-Institut do Rio de Janeiro, onde participa de mesa redonda com Marcelo Backes e Miguel Conde, às 18h30. Os debates terão tradução simultânea, e ao fim dos eventos haverá sessões de autógrafos do livro.

Leia duas matérias sobre o lançamento: “Alemão investiga o choque entre culturas” (Folha de S. Paulo, apenas para assinantes) e “Os mundos de Richard Burton” (O Estado de S. Paulo)

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Relato de Ilija Trojanow sobre sua viagem ao Brasil, traduzido por Vanessa Barbara.

Viajar do Amazonas à Bahia e daí para o Rio Grande do Sul — partindo do Brasil índio para chegar ao africano e ao europeu — é uma fascinante celebração da diversidade.

Manaus: A confluência do Rio Negro com o Solimões não é só uma das maiores do mundo, mas também exemplifica o próprio conceito de confluência. Os dois rios são tão diferentes que não se misturam, se confrontam; há uma fronteira tão evidente entre ambos que é possível conduzir o barco no limite da separação entre as águas claras e escuras. O Rio Negro tem um pH de 4,5, e o Solimões de 7,6; o Rio Negro tem a temperatura de 28 graus, o Solimões, de 22; o primeiro é muito arenoso, e o outro contém basicamente lama e sedimentos; o Rio Negro corre a uma velocidade média de 1,5 km/h, o Solimões é mais rápido, com 4 km/h — nada poderia uni-los, ou, nas velhas palavras de Kipling, “ambos jamais se encontrarão”. No entanto, o curso do rio acaba forçando a convivência entre as águas claras e escuras, que de início dividem o mesmo leito, correndo em paralelo, mas aos poucos começam a convergir, mesclando-se, até que a menos de 15 ou 20 quilômetros dali não haja qualquer memória visual das duas identidades, nem traço daquela prévia distinção. As águas tornaram-se uma só, com uma nova temperatura, novo pH, nova velocidade e contendo tanto lama quanto areia. É uma visão comovente para quem acredita nos poderes criativos e reconfortantes da confluência cultural.

Salvador: Quase todos os rostos que vemos na rua são negros, quase todos os que estão estampados nas propagandas políticas são brancos. Nas conversas, há um desânimo geral com a escassez de representação política dos afro-brasileiros. E há uma tendência a procurar “tradições puras”. Por isso um guia me explicou que o candomblé não é uma religião sincrética, já que os elementos católicos não passam de camuflagem. Contudo, é impossível usar uma máscara durante séculos sem ter sido modificado pela experiência. A simplicidade da pureza é tão atraente, errada e perigosa.

Porto Alegre: Levei um só dia para me tornar gremista (prefiro o azul ao vermelho, e torço sempre para o time mais fraco). Então fui ao estádio e eles venceram o jogo. A diferença entre Brasil e Alemanha está na riqueza cultural dos gritos das torcidas: no Brasil, há canções com longas estrofes, enquanto na Alemanha temos só um lema ou dois. Em campo, as diferenças desapareceram por completo (como Eduardo Galeano tão bem observou) — trata-se de um futebol globalizado, desprovido de quaisquer diferenças regionais de estilo. A torcida é mais interessante que os jogadores. E eu sou agora um orgulhoso proprietário de uma bela camisa do Grêmio, que pretendo usar quando minha camisa de rugby da Nova Zelândia estiver na lavanderia.

Brasil: Uma pergunta ao novo presidente (provavelmente uma mulher cujo pai era búlgaro, como o meu). De que forma o Brasil pretende sediar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos quando quase ninguém fala uma palavra de inglês (ou francês, alemão etc.)? O sobrenome Rousseff deriva da cidade mais cosmopolita da Bulgária — Ruse, terra natal de Elias Canetti. Muitos dos habitantes de lá costumam falar inúmeros idiomas. Trata-se de uma ascendência que vale a pena ser resgatada. Ser multilíngue é uma necessidade no mundo moderno, sobretudo quando se pretende tornar-se potência mundial.