j.m. coetzee

Dar a real

[Novos colunistas no Blog da Companhia!]

Por Emilio Fraia


(Crédito: Paul Jackson/Telegraph)

Na literatura (e na vida e nas redes sociais, que às vezes se embaralham), há narradores cuja principal característica é DAR A REAL sobre o mundo. Os de Thomas Bernhard, por exemplo.

Como se fossem cromos autocolantes do desprezo e da maledicência, é possível colecionar as passagens, de um mau humor cáustico (e cômico), em que os narradores de Bernhard esmagam e pisoteiam a Áustria, a Suíça & tudo que se move por ali, onde o “ar é irrespirável” e “as pessoas insuportáveis”. Para eles, Salzburgo é uma “estúpida cidadezinha provinciana, cheia de idiotas, onde com o tempo tudo se reduz à estupidez, sem exceção”. De Viena a Linz, a viagem é uma verdadeira “jornada pelo mau gosto”. E em Chur, basta dormir uma única noite para que “um homem se arruíne para toda a vida”. Isso sem falar nas apreciações sobre o ambiente artístico desses lugares. Diante de narradores tão simpáticos, podemos fazer aquela perguntinha assaz estimada pela sensibilidade do nosso tempo: O que há de Thomas Bernhard nestes narradores? É isso que Bernhard pensa de fato?

Conhecendo os relatos “não-ficcionais” de Bernhard (como o magnífico Origem), a resposta provavelmente seria (por e-mail): “sim, no geral penso exatamente como o narrador de O náufrago, abs”. O que, no fundo, claro, não faz diferença. Porque sendo as mesmas de seu autor ou não, as opiniões e vozes de personagens e narradores de um romance estão contidas na visão de mundo do autor. Assim, a complexidade moral de um romance é diretamente proporcional à complexidade moral de seu autor, cuja visão de mundo está difusa, sempre, por toda a obra (e uma visão de mundo pode ser cheia de nuances — caso de Bernhard, cujo narrador-assertivo-que-dá-a-real é complexo em seu exagero e intransigência — ou estreita, maniqueísta, baseada num episódio dos Ursinhos Carinhosos, que protegem a Terra do mal e do temido vilão Coração Gelado, que tenta a todo custo acabar com o amor no planeta — nada contra o desenho dos ursos, que entendo, admiro e respeito).

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Em textos que jogam declaradamente com a ideia de autoficção, esse movimento de DAR A REAL ganha especificidades. Um exemplo interessante é o de Diário de um ano ruim, de J. M. Coetzee. De forma esquemática, e pelo efeito dramático da frase, dá para dizer que neste romance Coetzee se propõe a dar a real sobre o narrador que dá a real. Na forma de uma impressionante reflexão sobre as “opiniões fortes” do personagem-assertivo-que-dá-a-real, Coetzee põe em perspectiva todo discurso panfletário e “combativo”, marcado por um “tom de sabe-tudo”, de alguém que tem “todas as respostas” e diz “é assim que é”.

O crítico Adriano Schwartz faz uma análise precisa do referido romance neste ótimo texto sobre certa “tendência autobiográfica no romance contemporâneo”. Diário de um ano ruim, cuja primeira parte chama-se, justamente, “Opiniões Fortes”, é a história de J.C., um escritor velho e cansado que passa a duvidar do impacto, da autoridade e da relevância da ficção no mundo contemporâneo — “não tenho mais paciência para escrever um romance”, diz. A convite de um editor alemão, passa então a redigir opiniões sobre os mais diversos assuntos (“quanto mais controverso melhor”). É nesse contexto que conhece a belíssima Anya, uma jovem filipina de vinte e nove anos, a quem propõe um trabalho: ajudá-lo a passar para o papel esses textos, essas opiniões. Ele dita, ela datilografa. As “opiniões fortes” de J.C. versam sobre tudo: Guantánamo, design inteligente, o apartheid, direitos dos animais etc. Muitas delas são ideias defendidas ou debatidas pelo próprio Coetzee, de quem o personagem fictício toma emprestado parte das iniciais, bem como uma série de outros dados biográficos (ambos escreveram um romance chamado À espera dos bárbaros, ambos possuem um volume de ensaios sobre a censura, ambos são sul-africanos radicados na Austrália).

Há, portanto, um jogo duplo. Coetzee faz uso de elementos não-ficcionais para escrever um romance que problematiza justamente a descrença na ficção — é a autoficção debruçando-se sobre si mesma. Num primeiro momento, o que Coetzee parece dizer é: num contexto em que “verdade” e “autenticidade” carregam um valor em si mesmo, a enunciação de afirmações reais e definitivas toca o leitor com muito mais eficácia. Para que então submeter o leitor aos artifícios do romance?

Só que Coetzee, através da jovem Anya, vai colocar isso tudo em questão. Para ela, as “opiniões fortes” do velho escritor não passam de textos chatos que causam bocejos e tédio profundo. Além disso, aponta Schwartz, esse “dar a real” é um grito que busca silenciar todo o resto. O que se assemelha à retórica política — e “política é berrar para calar a boca dos outros e conseguir o que você quer”, diz Anya.

No início, J.C. não concorda, os dois discutem, ela chega a dizer que não vai mais datilografar as tais opiniões. Mas, aos poucos, o romance avança, e a jovem filipina vai conseguindo modificar o velho homem. Então, em determinado ponto, numa demonstração plena do alcance da sensibilidade de Coetzee, J.C. comenta: “o que começou a mudar desde que eu entrei na órbita de Anya não são tanto as minhas opiniões em si, mas minha opinião sobre as minhas opiniões”.

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O ponto de partida de J.C. não está errado: para a nossa sensibilidade (criada à base de reality shows, imagens amadoras captadas por celular, redes sociais etc.), a autoficção parece mesmo levar vantagem em comparação ao romance. Nela, há um pacto com o leitor: a matéria-prima do relato são experiências “reais”, “vividas”. E, hoje, quando sabemos que estamos diante de uma narrativa “baseada em fatos reais”, nossa atenção parece ser capturada com mais facilidade. Mesmo que o texto de um romance e de uma autoficção sejam absolutamente os mesmos, a disposição do leitor será distinta em cada uma das experiências.

Todavia, para além deste proveito (maior autoridade do narrador), decidir embaralhar verdade e ficção, e apresentar uma narrativa como autoficcional, tem suas implicações. Ou, pelo menos, deveria ter; senão, de outra forma, bastaria escrever um romance tradicional.

No caso de Coetzee, um parâmetro ético de toda prosa que se pretende autoficção parece ser estabelecido: colocar em xeque as convicções de seu protagonista. A autoficção seria o lugar de pensar contra si mesmo. Não há espaço para autopiedade. Não há heroísmo. A autodilaceração não é feita com a faquinha do bolo Pullman. O que existe é tentar diagnosticar as próprias limitações, analisá-las mesmo que a contragosto; deixar que nossas certezas sejam ameaçadas.

Seja colocando em perspectiva as “opiniões fortes” de J.C. em Diário de um ano ruim, seja no dilacerante autoescrutínio que realiza o narrador frio e distante da “trilogia autobiográfica” Infância, Juventude e Verão, os personagens de Coetzee se expõem verdadeiramente. E há uma diferença cabal que deve ser notada aqui. Se alguém nos pergunta “qual o seu principal defeito?”, pode-se responder, de maneira hipócrita: “a sinceridade, sou muito sincero, sabe?”. No caso dos protagonistas da autoficção de Coetzee, a resposta nunca vai ser menos do que: sou um “mosca-morta”, um “tapado distante da realidade”, um homem “sem presença sexual nenhuma”. Além disso, há outro ponto a ser considerado: o da autoridade e complexidade de quem enuncia essas apreciações.

Em Verão, o escritor John Coetzee já está morto quando um biógrafo inglês decide escrever um livro sobre ele. Sem ter conhecido pessoalmente o biografado, o pesquisador consulta cadernos de anotações e decide falar com algumas fontes. Uma delas é Julia, vizinha de John Coetzee na Cidade do Cabo, com quem o escritor-personagem teve um caso. Coetzee, autor, constrói Julia de maneira complexa. O que significa dizer: alguém nem totalmente bom, nem totalmente ruim; nem esplêndido, nem convencional etc. Sentimos empatia por John, mas também sentimos por Julia. Dessa forma, se as opiniões de Julia sobre ele não são verdades absolutas (é um ponto de vista, afinal), estão longe de serem absurdas. Ao submeter John Coetzee a um exame desse tipo, o relato de Coetzee ganha força e se afasta de qualquer hipocrisia.

Em determinado momento da entrevista, por exemplo, Julia conta sobre a noite em que Coetzee chegou à sua casa com um pequeno toca-fitas e um K7, um quinteto para cordas de Schubert. “Não era o que se pudesse chamar de música sexy, nem eu estava muito no clima”, diz Julia, “mas ele queria fazer amor e, especificamente — perdoe se sou explícita —, queria que a gente coordenasse nossas atividades com a música, com o movimento lento. [...] Não sei se lembra do movimento lento, mas tem uma longa ária de violino com a viola pulsando por baixo, e dava para sentir John tentando manter o mesmo ritmo. A coisa toda me parecia forçada, ridícula. [...] ‘Esvazie a mente!’, ele sussurrou para mim. ‘Sinta através da música!’ Bom, não tem nada mais irritante do que dizerem o que você tem que sentir. Eu me afastei dele e esse pequeno experimento erótico desmoronou na hora. [...] Eu nunca contei isso para ninguém antes do senhor. Por que não? Porque achei que ia lançar uma luz muito ridícula sobre John. Quem, senão um pateta total, mandaria a mulher por quem deveria estar apaixonado tomar lições de sexo com um compositor morto? [...] Não dá para saber se é para rir ou chorar!”

Ao final do relato de Julia, o biógrafo-entrevistador comenta: “A senhora está sendo um pouco dura com ele, se me permite dizer”. Ao que Julia responde, fechando o capítulo: “Não, não estou. Só estou dizendo a verdade. Sem a verdade, por mais dura que seja, não pode haver cura.” Coetzee parece, assim, conferir à autoficção aquela que poderia ser sua norma de arte e ética: dar a real, sim, mas sobre si mesmo.

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Emilio Fraia nasceu em São Paulo, em 1982, é editor, jornalista e escritor. É autor da graphic novel Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013, em parceria com DW Ribatski) e do romance O verão do Chibo (Objetiva/Alfaguara, 2008, com Vanessa Barbara). Foi repórter das revistas Trip e piauí e editor de ficção contemporânea da editora Cosac Naify. Contribui com uma coluna mensal para o blog.
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Semana cento e cinquenta

Os lançamentos desta semana são:

Jerusalém, de Simon Sebag Montefiore (Trad. Berilo Vargas e George Schlesinger)
Ursalim, Hierosolyma, Aelia Capitolina, Al-Quds, Yerushaláyim, Jerusalém: os muitos nomes dessa cidade sagrada para três grandes religiões dão uma medida da atração irresistível que ela tem exercido sobre crentes, profetas e místicos — e, em especial, sobre as sucessivas gerações de reis, guerreiros e políticos que sonharam conquistá-la. Destruída e reconstruída muitas vezes em trinta séculos de existência, palco de incontáveis milagres e atrocidades, Jerusalém também é um verdadeiro museu a céu aberto da história do mundo. A santidade de seus templos e lugares sagrados — que já foram disputados por judeus, árabes, otomanos, gregos, romanos, armênios e britânicos, entre outros povos — se confunde com a crônica dos sangrentos combates travados em nome de Deus ao pé de seus velhos muros. Neste livro monumental, Simon Sebag Montefiore triunfa com seu notável talento narrativo sobre o desafio hercúleo de reconstituir os principais momentos da longa biografia da capital espiritual do mundo.

O lixo da história, de Angeli
Todos conhecem Rê Bordosa, Benevides Paixão e Bob Cuspe. Para muitos leitores, no entanto, os personagens são apenas a cereja do bolo, principalmente quando falamos das charges políticas de Angeli. Ano após ano, não houve escândalo da República ou evento internacional que não tenha passado por seu escrutínio ferino e implacável. Desde 2001, Angeli dedicou incontáveis charges aos conflitos que atravessaram o Oriente Médio após o Onze de Setembro. Sem escolher lados fáceis, passou pelo governo Bush, pelas guerras do Afeganistão e do Iraque, pelo conflito em Israel e Palestina, chegando até os distúrbios recentes no Egito e na Síria. O resultado é um painel abrangente das principais questões que mobilizaram o noticiário político internacional nos últimos dez anos.

A infância de Jesus, de J.M. Coetzee (Trad. José Rubens Siqueira)
“Não sei o que dizer. Estamos aqui pela mesma razão que todo mundo está. Nos deram uma chance de viver e nós aceitamos essa chance. É uma grande coisa, viver. É a coisa mais importante de todas.” São essas as palavras que um recém-chegado dirige à criança que o acaso lhe confiou numa estranha terra de exilados onde a mera possibilidade de substituir é acolhida com enorme gratidão. Desligadas de suas histórias e realocadas segundo regras compreendidas como “o jeito como as coisas são”, pessoas comem um pão que alimenta, mas não tem sabor, e estabelecem relações truncadas em que predomina uma generalizada e anódina boa vontade. Aos olhos de um homem que reluta em se adaptar, esse lugar se revela uma fonte de confusão moral. A partir do estranhamento da própria linguagem cotidiana, os fatos mais básicos da vida são tomados em sua face absurda, no embate entre a lógica impecável do sistema e as razões naturais de alguém ainda preso a hábitos antigos.

Cada homem é uma raça, de Mia Couto
Como ficou o cego pescador? Por que Rosa Caramela enlouqueceu? O que aconteceu com o passarinheiro? Uma princesa russa em Moçambique? Neste singular volume de contos, Mia Couto nos brinda com sua prosa repleta de poesia, em que esses e outros personagens surpreendentes povoam histórias delicadas, que encantam pela beleza que transborda mesmo das situações mais trágicas.

A orquestra da lua cheia, de Jens Rassmus (Trad. Sofia Mariutti)
Era hora de dormir, mas Ana não estava com sono. E, aliás, por que temos que dormir mesmo quando não estamos com sono? Inquieta, ela resolveu plantar bananeira. E, assim do nada, uma coisa muito estranha aconteceu. Ana caiu no teto…

Fervor das vanguardas, de Jorge Schwartz
Entre as décadas de 1920 e 1930, a América Latina foi varrida por uma onda de irresistível renovação cultural. No rastro da urbanização, suas pequenas mas combativas vanguardas de escritores, arquitetos, músicos e artistas visuais já não se contentavam com os modelos estéticos servilmente copiados da Europa. Esses pioneiros se voltam para o substrato “primitivo” das tradições criollas, indígenas e afro-americanas com o ambicioso projeto de fundar uma arte original, ao mesmo tempo enraizada em valores nacionais e conectada com as recentes tendências estrangeiras. Nesta seleção de textos sobre o período mais irrequieto das vanguardas latino-americanas, Jorge Schwartz aborda com uma penetrante visada interdisciplinar o melhor da produção de artistas-chave como Oswald de Andrade, Xul Solar, Joaquín Torres García, Lasar Segall e Oliverio Girondo. O autor analisa a mútua fertilização entre palavra e imagem, assim como os pontos de contato e afastamento entre os modernistas brasileiros e seus confrades hispano-americanos.

Juventude, de J.M. Coetzee (Trad. José Rubens Siqueira)
John está prestes a se formar em matemática, mas sua grande aspiração na vida é tornar-se poeta. O problema é que a poesia — como as mulheres mais interessantes — não se entrega para qualquer um. Assim, o rapaz aguarda ansiosamente pelas experiências de vida que farão com que ele entre em contato com “o fogo sagrado” da inspiração poética e do verdadeiro amor. É em busca desse ideal que ele abandona a turbulenta África do Sul dos anos 1960 e vai para Londres. Tudo o que arranja na antiga metrópole, porém, é um tedioso emprego de programador de computadores. Além de uma ou outra namorada, que nunca está à altura das paixões que ele imagina necessárias para que um homem seja tocado pela chama da arte e da poesia. Com a mesma força narrativa de seus outros livros, Coetzee desfere frases curtas e certeiras, sem nenhuma afetação, desenhando personagens que vão crescendo e se tornando mais complexos a cada parágrafo.

Editora Paralela

Sobre o Céu e a Terra, de Jorge Bergoglio (papa Francisco) e Abraham Skorka (Trad. Sandra Martha Dolinsky)
O que o papa Francisco pensa intimamente sobre temas espirituais como Deus, a fé, a religião, a morte? E sobre questões essenciais como a política, a pobreza, a educação e a ciência? E quais são suas reflexões mais profundas sobre assuntos polêmicos como o aborto, a eutanásia e o casamento de duas pessoas do mesmo sexo? Em conversas de coração aberto que não evitaram os assuntos mais difíceis — e que estão documentadas neste livro ímpar —, o ainda arcebisto de Buenos Aires Jorge Mario Bergoglio e o rabino Abraham Skorka compartilham a fé na capacidade de suas religiões em fazer pessoas melhores. São diálogos entre dois homens simples e eruditos que acreditam que as igrejas precisam “sujar os pés” para ajudar quem precisa de ajuda. Para um dos mais importantes jornalistas brasileiros, Elio Gaspari, da Folha de S. Paulo e de O Globo, este livro é uma obra “inteligentíssima” e quem desfrutá-lo “viverá umas boas duas horas”.

11 de novembro de 2011

Por Tony Bellotto

(Foto por Sphaerula)

Em Diário De Um Fescenino, de Rubem Fonseca, Rufus, o narrador, anota em 1º de janeiro de um ano indefinido: “O bom diarista”, disse Virgínia Wolf, “é aquele que escreve para si apenas ou para uma posteridade tão distante que pode sem risco ouvir qualquer segredo e corretamente avaliar cada motivo. Para esse público, não há necessidade de afetação ou restrição”.

Em 1º de janeiro de 1975, Juan García Madero, um dos poetas real-visceralistas de Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, registra: Hoje percebo que o que escrevi ontem na verdade escrevi hoje: tudo que correspondia a 31 de dezembro escrevi no dia 1º de janeiro, isto é, hoje, e o que escrevi dia 30 de dezembro é o que escrevi dia 31, isto é, ontem. Na realidade, o que estou escrevendo hoje escrevo amanhã, que para mim será hoje e ontem, e também de certo modo amanhã: um dia invisível. Mas sem exagerar.

Em seu Diário de um ano ruim, J.M.Coetzee, em algum momento entre 12 de setembro de 2005 e 31 de maio de 2006, após a releitura atenta do quinto capítulo da segunda parte de Os irmãos Karamazov, confessa: E fica-se grato à Rússia também, à Mãe Rússia, por colocar diante de nós com uma certeza tão inquestionável o padrão ao qual todo romancista sério deve aspirar, mesmo sem a menor chance de chegar lá: o padrão do mestre Tolstói de um lado e o do mestre Dostoiévsky do outro.

Enrique Vila-Matas, na quarta parte de O mal de montano, denominada Diário de um homem enganado, escreve no dia 25 de setembro: Em princípios do século 21, como se meus passos tivessem o ritmo da história mais recente da literatura, achei-me solitário e sem rumo numa estrada perdida, ao entardecer, em marcha inexorável para a melancolia.

Na reunião dos diários de João Carlos Oliveira, o genial e maldito cronista e romancista capixoca (capixaba que se torna carioca), Diário selvagem, o diarista anota em 24 de julho de 1977, um domingo, às 17h: Gastrite outra vez. Solidão de tudo, carência de buceta, pra falar com clareza. Já em 12 de janeiro de 1981, ele afirma: É assim que quero este diário: tudo dito, nada retórico.

Anne Frank, talvez a mais célebre e trágica das diaristas, confidencia ao próprio diário em 12 de junho de 1942: Espero poder confiar inteiramente em você, como jamais confiei em alguém até hoje, e espero que você venha a ser um grande apoio e um grande conforto para mim.

Vasculho meus diários, encontro frases desprovidas de encanto e sentido: 10 de dezembro de 2004, não esquecer de ligar Beth Bradesco (aplicação). 9 de maio, sábado, inauguração do bar de Antônio Torres, Letras e Expressões do Leblon. 16 de maio, “Posso ser sincero?” “Não. Claro que não”. 15 de setembro, “Se você encontrar um advogado com raiva, fuja dele”, Dr. Dario.

Por onde andavam Tolstói e Dostoiévsky em 2004?

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Semana quarenta e dois

Os lançamentos da semana são:

Honra teu pai, de Gay Talese (Tradução de Donaldson Garschagen)
Poucas mitologias de nosso tempo causam tanto fascínio quanto a máfia, e não por acaso esse universo já rendeu obras-primas como O poderoso chefão, Os bons companheiros e, mais recentemente, a série de tevê Família Soprano. Honra teu pai é livro-reportagem sobre os meandros desse mundo, centrado na história de Joseph “Joe Bananas” Bonanno, que controlava uma das chamadas Cinco Famílias de Nova York, e de seu filho Salvatore “Bill” Bonanno, protagonista de uma sangrenta guerra entre mafiosos. Gay Talese, um dos pais do new journalism americano, obteve vasto acesso ao clã Bonanno, e pela primeira vez trouxe à tona uma visão de dentro da máfia, objetiva e despida de romantismo.

O navio negreiro — Uma história humana, de Marcus Rediker (Tradução de Luciano Vieira Machado)
Muito se escreveu sobre a escravidão e o sistema de plantations que empregou grande parte da mão de obra africana no Novo Mundo, mas pouco se sabe sobre a principal “tecnologia” que tornou tudo isso possível: o navio negreiro. Com base em mais de trinta anos de pesquisas em arquivos marítimos, Marcus Rediker, grande especialista em tráfico transatlântico, escreveu uma história sem precedentes dessas embarcações e de seus passageiros, voluntários e involuntários. O autor reconstrói com detalhes sombrios a vida e a morte de escravos e marujos, os desmandos e a perversidade dos capitães, o dia a dia do navio — com suas doenças terríveis, motins e violência —, sem se esquecer dos detalhes técnicos e das principais diferenças entre os vários tipos de embarcação dedicados ao comércio de carne humana.

As entrevistas da Paris Review — vol. 1, de vários autores (Tradução de Christian Schwartz e Sérgio Alcides)
Essa antologia traz uma seleção de catorze entrevistas da Paris Review, cobrindo as quase seis décadas de existência da publicação. Fazem parte do volume autores como W. H. Auden, Paul Auster, Jorge Luis Borges, Truman Capote, Louis-Ferdinand Celine, William Faulkner, Ernest Hemingway, Primo Levi. Concebidas como um contraponto à crítica academicista e formal que imperava nos Estados Unidos na época, as entrevistas buscam revelar o autor de forma profunda, cobrindo sua vida passada, sua visão de mundo, suas motivações e as peculiaridades de sua criação literária. Editadas com maestria, inclusive com revisão e aprovação dos próprios autores, elas transcendem o formato jornalístico e adquirem qualidade literária. O livro sai com um projeto gráfico inovador, no qual cada exemplar terá uma capa única (leia o post de Elisa Braga sobre o projeto).

O visconde partindo ao meio, de Italo Calvino (Tradução de Nilson Moulin)
O visconde partido ao meio, publicado originalmente em 1952, veio a compor com O cavaleiro inexistente e O barão nas árvores, ambos publicados pela Companhia das Letras, uma trilogia a que Italo Calvino (1923-85) chamou de Os nossos antepassados, uma espécie de árvore genealógica do homem contemporâneo, alienado, dividido, incompleto. É a história de Medardo di Terralba, o voluntarioso visconde que, na defesa da cristandade contra os turcos, leva um tiro de canhão no peito, mas sobrevive, ficando absurdamente partido ao meio, a metade direita atormentada pela maldade e a esquerda, pela bondade. “Ainda bem que a bala de canhão dividiu-o apenas em dois”, comentam aliviadas suas vítimas.

Os últimos dias de Tolstói, de Liev Tolstói (Organização de Elena Vássina; Tradução de Anastassia Bytsenko, Belkiss J. Rabello, Denise Regina de Sales, Graziela Schneider e Natalia Quintero)
Traduzidos diretamente do russo, os ensaios, cartas, parábolas e fragmentos de obras de Tolstói reunidos neste volume, escritos a partir de 1882, pregam contra o hábito de se comer carne, contra o sexo sem fins reprodutivos, contra a excessiva cobrança de impostos, contra o patriotismo, contra o alistamento militar obrigatório e contra os dogmas e ritos das religiões que considerava como desvios da fé (ele foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa). No imaginário russo, Tolstói passou a ocupar o lugar de profeta e uma legião de seguidores, mendigos e oportunistas passou a se dirigir a Iasnaia Poliana, a grande propriedade rural de sua família. Seus famosos ensaios estéticos “O que é arte?” e “Shakespeare e o drama” completam o volume. Os textos foram escolhidos por Jay Parini, autor do romance histórico A última estação: os momentos finais de Tolstói, que serviu como inspiração para o filme homônimo estrelado por Christopher Plummer, Helen Mirren e Paul Giamatti.

Mecanismos internos — Ensaios sobre literatura, de J.M. Coetzee (Tradução de Sergio Flaksman)
Exercitada em sua vasta experiência como professor, tradutor e pesquisador de literatura, a verve crítica de Coetzee — que transparece na trama híbrida de seus melhores romances — é apresentada em sua plenitude nos 21 textos reunidos em Mecanismos internos, quase todos escritos para a prestigiosa New York Review of Books. Coetzee oferece sua visão pessoal sobre a vida e a obra de alguns de seus maiores precursores e contemporâneos — Nadine Gordimer, Robert Musil e Walter Benjamin, entre outros —, reafirmando o papel histórico do escritor e intelectual criticamente engajado.

Cleópatra — A rainha dos reis, de Fiona Macdonald (Ilustrações de Chris Molan; Tradução de Augusto Pacheco Calil)
Cleópatra morreu há mais de dois mil anos, mas sua vida ainda desperta curiosidade e fascínio. Quando ela nasceu, em 69 a.C., o Egito corria o risco de ser dominado por Roma. Ao tornar-se regente, Cleópatra mudou essa situação. Usando seus encantos e inteligência, conquistou os generais romanos Júlio César e Marco Antônio, tornando-os seus aliados, e assim conseguiu manter-se no poder por cerca de duas décadas. Neste livro, o leitor conhece essa notável história, assim como diversos aspectos da vida no antigo Egito através de ilustrações, fotografias e textos complementares. Além disso, as páginas centrais do volume se desdobram, fornecendo uma visão panorâmica dos acontecimentos.

O anjo da dispersão

Por Luiz Schwarcz

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Estou quase chegando ao meu trigésimo texto neste blog e é a primeira vez que me sento para escrever sem ter a menor a ideia do assunto de que pretendo tratar. Os causos são muitos, as histórias afetivas com os autores se repetem. São muitas histórias, mas sinto como se fosse uma só. No momento, o que mais me preocupa é como fazer para conseguir ler mais, e terminar os livros que comecei.

Poder reler algum livro que deixei pela metade, pois só o começo bastava para que decidisse pela sua publicação, é sinônimo de luxo para mim. Há muito glamour sobre a profissão do editor e pouca razão para isso. Muitas vezes somos leitores assíduos, lemos mais de uma vez um original e acompanhamos as várias versões necessárias para que um livro fique bom. Isso já aconteceu comigo em inúmeras ocasiões. No final, quando o texto é publicado, a longa convivência com o original tira qualquer possibilidade de avaliação objetiva. Já cheguei a dizer ao departamento de vendas da Companhia que estávamos publicando uma obra-prima, quando o texto em questão, a despeito de sua qualidade, talvez não merecesse tantos confetes. No entanto, o mais comum é o contrário: achar que um texto ainda não está pronto quando se trata de uma verdadeira obra-prima, acabada, e que com o devido tempo se consagrará como tal.

Assim, em vários momentos, alguns dos bons livros estrangeiros que publicamos, eu apenas conheci de passagem. Sua qualidade me afastou do seu caminho: o livro é tão bom, veio tão pronto, que não precisa de mim — só eu preciso dele.

Na verdade, preciso correr atrás de leituras perdidas, abandonadas. Antigamente usava as minhas férias para ler livros clássicos, ou publicados por outras editoras, obras que não poderia publicar. Agora não mais. Nas férias muitas vezes leio livros que publiquei sem ler, ou que tive que largar pela metade.

No momento leio no iPad Freedom, sobre o qual já escrevi anteriormente. O lançamento fenomenal nos Estados Unidos me fez sentir, além da vontade, a obrigação de lê-lo. Quero imaginar a vida do livro de Jonathan Franzen no Brasil. A tradução, a cargo de Sergio Flaksman, está a caminho. Enquanto isso, lendo suas mais de quinhentas páginas, tento imaginar como será o impacto entre os leitores tupiniquins desse grande painel da sociedade americana das últimas décadas. Fico pensando se há algo que eu possa fazer para que aqui aconteça algo minimamente semelhante àquilo que ocorreu em seu país de origem.

Ao mesmo tempo, um importante autor colombiano recém-contratado chamou muito a atenção de várias editoras da Companhia, fazendo com que eu me sentisse impelido a lê-lo. Pouco antes da feira de Frankfurt, compramos os direitos de três livros de Héctor Abad Faciolince. O principal se chama El olvido que seremos e trata das memória do autor sobre seu pai. Passei a dividir meu tempo entre Franzen e Faciolince. Enquanto no volumoso romance americano eu me divertia com a história de um roqueiro cult decadente, passei a me comover com os excessos amorosos entre pai e filho em meio a uma sociedade onde o padrão de comportamento é a rudeza entre os homens.

As reuniões das terças-feiras, em que parte da equipe editorial se reúne para decidir o que publicaremos e avaliar o andamento dos livros em processo de edição, são uma fonte inesgotável a alimentar minha tendência dispersiva. Lá vive o anjo da dispersão, a serpente que me faz querer ser fiel a tantos livros ao mesmo tempo. Foi lá, há duas semanas atrás, que ouvi a Ana Paula comentar o prazer que teve na leitura de um autor alemão, que, com 102 anos, foi redescoberto por um editor americano e relançado nos Estados Unidos com grande repercussão. Decidimos contratar dois livros de Hans Keilson, sendo que o mais atraente deles, A comedy in a minor key, eu quis logo começar a ler.

Para complicar, acabo de começar um livro já há tempos publicado: Infância, de J.M. Coetzee, um daqueles que nem precisei ler na ocasião de sua publicação e que será discutido no grupo de leitura dos funcionários da Companhia das Letras, do qual quero participar. Pois não é que tive que deixar de lado minhas outras três leituras, e acabo de me dirigir com Coetzee para a África de Sul, onde garotos podem zombar dos professores somente quando discutem as modalidades de castigo aplicadas? A força da palmada, ou a vara utilizada para a reprimenda, podem ser motivo de piada. O castigo em si, não.

Espero terminar um dia os quatro livros que leitores mais sortudos lerão calmamente, um por vez. Que inveja.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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