Por Luiz Schwarcz

Pilar del Río com José Saramago na noite de entrega do prêmio Nobel. (Foto por Jan Collsioo)
Como editores, nem sempre privamos da intimidade dos autores. Estas eventualidades surgem nas bordas de uma atividade cujo fim é público, e o fazer, coletivo. Momentos de intimidade entre editor e autor podem ocorrer durante o processo de edição, ou nos bastidores do lançamento de um livro — e em alguns casos permanecem para além desse momento. Talvez vocês já estejam cansados de me ouvir falar que, mesmo com escritores altamente profissionais, a publicação de um livro é uma atividade de grande importância simbólica e psicológica para os envolvidos. O editor que desconhecer esse aspecto, e não souber lidar com os espaços íntimos que se criam nessas situações — com grandes chances de evoluir para uma situação embaraçosa —, poderá perder a confiança de seus autores, ou mesmo ter de encerrar a carreira precocemente. Nesse caso, não há receita que eu possa ensinar a um jovem profissional interessado no assunto, a não ser a de buscar em sua alma a mistura de uma boa dose de sensibilidade com outra igual de delicadeza, aliadas a um controle do próprio ego. São oportunidades raras que um ego dilatado pode destruir. O editor precisa sempre saber ouvir, mais do que falar. Não deve querer se sobressair, confrontar, ou mesmo posteriormente fazer uso público de momentos essencialmente privados.
Falo com conhecimento adquirido por conta de erros acumulados, como os citados acima. Quem sabe numa outra ocasião poderei falar de situações de confronto entre autor e editor; de erros que cometi ao superestimar a amizade que privava com certos escritores; de como me esqueci dos limites que surgem no cruzamento das relações profissionais com as pessoais.
Também não quero fazer falsas promessas. Parte do que ocorre no convívio com autores está fadado a permanecer em minha memória, e apenas lá. Assim os “contos” aqui são parciais em vários sentidos, são as minhas meias-luas inteiras — o que posso lhes oferecer.
Pois se houve um autor com quem posso falar que tive certa intimidade, foi José Saramago. Intimidade construída através de várias visitas às suas casas — em Lisboa, em Lanzarote e em Lisboa novamente —, de viagens comuns, quando ele recebia alguns de seus incontáveis títulos de Doutor Honoris Causa em universidades espalhadas pelo mundo, antes do prêmio Nobel, ao qual Lili e eu comparecemos, ela com um vestido longo que lhe era pouco usual, eu um verdadeiro ET num fraque alugado para as festividades. Nesta ocasião frequentamos a suíte presidencial do agraciado com o Nobel de literatura, que ficava em andar isolado, ao lado apenas de outra igual, em que se hospedava ao mesmo tempo o astro pop Bruce Springsteen. Subíamos a chamado de Pilar, para aprovar seus trajes antes das diversas solenidades, para fazer companhia ao casal junto com outros amigos próximos, sempre nas horas vagas, entre uma solenidade e outra, ou para compartilhar com alegria, logo cedo pela manhã, o grande destaque da primeira página do jornal local dado à Pilar, elegantérrima em seu vestido vermelho balão, acompanhando José na noite de Estocolmo. Foi o único Nobel ao qual compareci. Fiquei chateado posteriormente por não ter sido convidado à premiação de Orhan Pamuk, até compreender que, sendo editor do escolhido, o que meus colegas faziam era escrever diretamente à Academia Sueca que confere o prêmio e se inscrever para a mesa dos editores do premiado. No caso de José Saramago não foi preciso, pois entramos na lista dos amigos ou familiares do autor.
No entanto, o que conferiu maior intimidade da minha família com o grande escritor português foram as inúmeras viagens pelo Brasil, que fizemos acompanhando o crescimento de sua popularidade nacional, e, principalmente, o fato de que, avesso a hotéis, Saramago pediu, logo no começo de nossa amizade, que o hospedasse em minha casa sempre que viesse a São Paulo. E assim foi. Por vezes meus filhos tiveram que dormir no mesmo quarto para que José e Pilar ficassem hospedados no quarto do Pedro — questão resolvida quando a Júlia saiu de casa e seu quarto virou a sede dos Saramagos a cada novo lançamento de obras do José.
Assim acompanhamos o casal a Tiradentes, pouco depois que sua obra veio para a Companhia das Letras — muito antes do prêmio Camões e do Nobel —, quando o fato de Saramago ser reconhecido nas ruas de uma pequena cidade histórica em Minas Gerais ainda causava espanto a todos nós. Em Tiradentes, compartilhamos o gosto por uma deliciosa sopa de abóbora com gengibre, feita por um dos recepcionistas da pousada Solar da Ponte, apenas a pedidos de hóspedes que não desejavam jantar fora. Saborear uma sopa juntos numa noite fria em Minas Gerais, zombar dos gostos alimentares alheios, como faziam José e Lili — o primeiro detestava todos os pratos feitos com coco, e ela desde sempre uma apreciadora fervorosa dos doces brasileiros —, acabou por gerar uma empatia e conhecimento mútuo que muitas discussões literárias ou filosóficas nem sonhariam proporcionar. A “dialética do coco”, fantasiosa e interminável discussão caseira que ocorria entre os dois, desenvolvida a cada visita, valeu mais que tantas outras dialéticas sobre as quais possivelmente também falamos, em oportunidades menos bem humoradas.
Saramago sabia ser soturno, mas tinha um senso de humor impagável, como sua obra mesmo atesta. Nos seus livros o humor surge quando menos se espera, principalmente na exasperação da lógica absurda da linguagem literária. Os livros de Saramago devem tanto a Cervantes como a Ionesco. Neles, estão presentes traços de um Franz Kafka zombador. Assim também era José na intimidade. Sua risada, nem sempre pública, era franca e cheia de ternura. Gostava de quem lhe fazia sorrir. Sorria com quem compartilhava princípios, afinidades e gostos pessoais. Em situações difíceis, como após uma seção de acupuntura em casa, para tratar de um sério tombo ocorrido no banheiro do hotel no Rio — com todos nós esperando do lado de fora do quarto, temerosos com a possibilidade da contusão ter sido mais grave —, sentindo-se melhor graças aos bons tratos do jovem acupunturista Marcus Prada, José chamou-nos e disse sorrindo sem parar:
— Pilar, Lili, Luiz, descobri que Deus existe. Mas não contem a ninguém que eu disse isso. Deus existe!
Foram anos e anos da convivência mais rica, de uma profunda amizade, que se provou ainda mais real quando tivemos uma discordância, sobre a qual achei que eu não deveria calar.
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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.











