juan pablo villalobos

Rascunhos para uma autobiografia política

Por Juan Pablo Villalobos

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1.

Quando eu era criança, o palavrão favorito da minha família vinha precedido por um berro desafinado: “Não peguem água, chingada!”. Chingada, em espanhol do México, e neste contexto, seria o mesmo que gritar, dependendo da intensidade e do tom do rugido, “caralho”, “cacete” ou “porra”. A gente proferia a frase desgraçada tiritando no chuveiro, ensaboado ou, pior, com os olhos cheios de xampú. O grande problema da história de minha família: a falta d’água em casa. Era produto de uma cadeia de pequenos desastres. Uma cisterna mal construída. Uma caixa d’água altíssima (nossa casa tinha três andares). Uma bomba de baixa potência. Um empresário fraudulento que vendeu lotes sem água potável suficiente. Um prefeito que concedeu as licenças. Um pai que quis acreditar na boa fé da humanidade: meu pai.

O resultado foi um sistema precário, bastava que alguém abrisse uma torneira para cortar de uma vez a água do chuveiro. De segunda a sexta a rotina imposta por minha mãe estabelecia uma ordem rígida, que funcionava quase bem. Nos finais de semana, ou nas férias, tomar banho era uma façanha. Numa família de sete integrantes, tomar banho precisava de publicidade e consenso. Vou entrar. Posso entrar? Vou entrar. Vou entrar. Seis vezes, negociando. Sim. Não. É minha vez. Tem que aguardar, a máquina de lavar roupa está ligada. Eu tenho que sair de casa primeiro. Se você me deixa entrar primeiro eu te empresto minha raquete. Nossas relações políticas.

Às vezes faltava água por vários dias e meu pai mandava trazer um caminhão cisterna. Com uma mangueira enorme enchiam a cisterna. A água descia com muita potência, removendo a terra que cobria as paredes e o fundo da cisterna. Tínhamos que aguardar até a água e a terra se assentarem. Por volta de uma hora. Ninguém estava autorizado a abrir uma torneira. Depois meu pai falava: “Vão ver se a água já está clarinha”. Eu e meus irmãos descíamos, levantávamos a tampa metálica e enfiávamos a cabeça na cisterna. Na escuridão total. Impossível saber qualquer coisa, se a água era verde, se aí morava um monstro marinho.

A gente subia de volta.

Falava mentiras.

Tomávamos banho com um pouquinho de água suja.

2.

A meu pai uma vez lhe ofereceram ser candidato à prefeitura. Ele contou para a gente durante o jantar entre risadas sardônicas. Dois caras que ele nem conhecia bem tinham aparecido no consultório médico dele para fazer, de um jeito cerimonioso, o oferecimento. Não lembro o partido que representavam, eu era pequeno para reter siglas impronunciáveis, mas suponho que seriam de algum desses que surgem do nada e somem depois de chupar os fundos outorgados pelo Instituto Eleitoral.

Eles falaram para meu pai que ele seria o candidato perfeito, já que todo mundo o conhecia e era uma pessoa honesta. Nunca esqueci a resposta de meu pai: “Olha só que engraçado, exatamente por isso é que eu não sirvo”.

Aquele dia o jantar foi uma festa. Todo mundo imaginando meu pai de prefeito, entre gargalhadas. Quando governasse, cada multa viria acompanhada de um tapa. Ele não abriria mão do dinheiro dos subsídios, os pecuaristas teriam que pedir pelo menos vinte vezes, implorando, como a gente tinha que fazer para receber o “domingo” (a grana que, teoricamente, ele dava para a gente cada semana). Por favor, poderia me dar o subsídio? Não. Estamos precisando muito, as vacas estão morrendo por causa da seca. Pode ser? Não. É urgente! Não. O melhor seriam seus discursos incendiários.

Este episódio ficou sem graça muito rápido. Meu pai recebeu outra visita no consultório. Inspetores de impostos. Falaram que ele estava contabilizando despesas que não correspondiam com a atividade econômica dele. A gasolina do carro, por exemplo. Meu pai quis se defender argumentando que tinha que visitar doentes graves e, além do mais, como é que ele ia se transportar da casa para o consultório? A resposta foi que ele não era transportador ou mensageiro.

A multa foi estratosférica.

E ainda por cima, a candidatura de meu pai foi concedida ao proprietário de uma loja de pinturas que diluía as tintas com água.

3.

Foi em 1986, durante a Copa do Mundo no México. Uma tarde o vizinho bateu na nossa porta e perguntou por mim. Falou que tinha comprado um Atari para os filhos dele e que não conseguia instalá-lo. Será que eu poderia ajudar?, quis saber. Quando entrei na casa dele descobri que na verdade o Atari já estava instalado. O que ele queria era companhia pra jogar. Space Invaders.

A tragédia era que os filhos dele não gostavam do Atari. Eles eram hiperativos. Gostavam de ir para o morro para espancar bichos. Entrar em casas em construção ou abandonadas para roubar. Jogar beisebol, queimada, esconde-esconde, futebol americano. As coisas que eles faziam com meus irmãos menores.

Na tarde seguinte, e na seguinte, a na seguinte, o vizinho voltou a bater na nossa porta para me convidar para jogar: “comprei um jogo novo”, dizia, como se fosse necessário me convencer. Ele me dava um refrigerante. A gente não falava de nada. Os filhos dele faziam bagunça por aí, custodiados por uma babá. A maioria das vezes a esposa dele não estava em casa, acho que ela estaria jogando buraco com as amigas, indo para a missa, participando de alguma obra de beneficência. Quando a esposa dele voltava eu ia embora. Ela sempre dizia o mesmo: “Vocês têm água? Manda um beijo para sua mãe”.

Tudo isso acabou quando o vizinho foi designado prefeito provisório. Na cidade tinha havido uma revolta para derrubar o prefeito que havia sido eleito de maneira fraudulenta (não era o dono da loja de pinturas, que não chegou nem a 1% dos votos). O vizinho nem era político. Ele era diretor numa fábrica de laticínios. Uma fábrica propriedade da família que controlava a vida política da cidade.

Difícil de entender aos 13 anos, mas era o que vinha acontecendo em nossa cidadezinha desde os tempos da Colônia.

4.

Passaram dois anos e o prefeito provisório foi ficando porque não houve novas eleições (havia um risco importante de que o partido no poder perdesse de novo e tivesse que fazer fraude de novo). E então um dia o milagre aconteceu: a água deixou de ser um problema em casa. Nosso vizinho cumpriu sua promessa conjugal. Só depois ficamos sabendo que a esposa dele tinha aceito que fosse prefeito só se ele prometesse construir uma nova caixa d’água para nosso bairro.

Rapidamente, meu pai se encarregou de nos fazer sentir culpados: “essa água está suja”, ele falava para nós, “é água corrupta”.

Continuamos tomando banho com um pouquinho de água suja.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Os dedos sujos

Por Juan Pablo Villalobos

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Há umas duas semanas, a caneta-fetiche que eu utilizo para escrever começou a jorrar gotinhas de tinta que me deixavam os dedos polegar e indicador manchados. A minha primeira reação, óbvia, foi tentar arrumar a caneta: substituí o cartucho de tinta por um novo, mas o problema continuou. Limpei a caneta, tirei o cartucho e voltei a encaixá-lo. Estava nesse processo quando olhei pros meus dedos sujos e tive uma sensação maravilhosa: eu era um trabalhador das letras, um operário da literatura. Graças a minha caneta estragada, agora eu poderia ir buscar meus filhos na escola às cinco da tarde com o orgulho do mecânico. Eu tinha um trabalho de verdade, físico, uma atividade que deixava suas marcas nas minhas mãos, eu não era mais aquele cara que passava o dia no estúdio lendo, fofocando no Facebook, organizando a revolução no Twitter, assistindo documentários de extraterrestres no YouTube, verificando se tem um novo Porta dos Fundos e rabiscando frases em algum dos nove cadernos-fetiche da gaveta de minha escrivaninha.

As manchas de tinta nos meus dedos me fizeram chegar à conclusão de que foi por isso que eu passei a escrever a mão: para ter a sensação de que eu estava realizando um trabalho físico. Eu escrevi meu primeiro romance, a Festa no covil, no computador. Já o Se vivêssemos em um lugar normal e o Te vendo um cachorro escrevi a mão, utilizando a minha caneta-fetiche que agora pinga tinta. Eu virei um defensor fanático e fundamentalista da escrita a mão, que segue um processo intelectual e criativo bem diferente da escrita em computador. A escrita a mão, além do mais, exige uma primeira reescrita imediata, no momento de passar pro computador. E, ainda mais importante, numa boa jornada, uma de, digamos, quatro horas ininterruptas de escrita, no final do dia acontece um milagre: a mão, e até o braço, doem. Aí você pode dizer que está cansado, que foi um dia pesado no trabalho.

Também foi por isso que eu passei a escrever num estúdio fora de casa. Quando eu ficava em casa aguardando a visita das musas, a sensação de inutilidade era insuportável. Ir pro estúdio obriga a estabelecer um horário, a se deslocar, a levar e trazer os apetrechos da escrita. Estabelece uma rotina que cria a ilusão de que isso é como ir trabalhar.

Só que escrever não é exatamente um trabalho. Meu filho Mateo, que tem oito anos, sabe. Ele me acusa de passar o dia lendo. Eu me defendo argumentando que para escrever uma coisa interessante é preciso ler muito, conhecer a tradição literária, saber o que estão escrevendo os colegas de minha geração. “Só que ler não é um trabalho”, ele diz, “eu gosto de ler, ler é bacana, isso não é um trabalho, trabalho é chato”. Aí eu fico calado, porque gosto que ele brigue comigo só pra ser autorizado a ler uns minutos a mais antes de ser obrigado a apagar a luz e ir dormir.  Mas fico pensando…

Fico pensando que é por isso que os escritores falam que escrever muitas vezes é chato, especialmente diante da página em branco, oh, o grande sofrimento da criação literária. Falamos que escrever pode ser um tormento porque, na verdade, temos a necessidade de justificar as enormes lacunas, os oceanos Atlânticos de inatividade que a escrita de um romance precisa: todos esses momentos em que o romancista fica olhando pra parede, pensando, imaginando, procurando o romance que quer escrever.

Mas agora eu tenho a minha caneta estragada. Quando meu filho perguntar como foi meu dia de trabalho eu vou mostrar os dedos manchadíssimos de tinta. Ainda que eu tenha que ficar enchendo uma página com bolinhas e pauzinhos às dez pras cinco.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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20 dicas de bom comportamento com escritores

Por Juan Pablo Villalobos

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Contra o que a maioria acredita, os escritores são pessoas frágeis que escondem, detrás de uma máscara de pedantismo, autossuficiência ou simpatia, um Maracanã de inseguranças. Uma palavra, uma frase, um olhar, uma careta podem acabar com a carreira do mais prestigioso dos autores. É por isso que eu, depois de participar de inúmeros encontros com leitores, depois de observar como, por culpa de um comentário sobre o clima em Pindamonhangaba, o melhor escritor de minha geração largava a literatura para virar intermediário de bacalhau norueguês, resolvi contribuir com meu grão de areia para tentar salvar os colegas de profissão.

Eis aqui, caros leitores, vinte dicas para vocês porem em prática em festivais literários, feiras do livro e bienais diante de seu escritor favorito, não tão favorito ou, até, para aplicar à inversa na frente de seu autor de nenhum jeito favorito (se o que você quer é que ele pare de uma vez de escrever).

1. Evite dizer: “Sabe o que foi que mais gostei de seu livro? A capa”.

2. Não peça para o autor sorrir para uma foto: lembre que eles adoram parecer atormentados (e alguns, como o Houllebecq, têm só um dente).

3. Evite a pergunta: “Escuta, você sabe onde posso baixar seu livro de graça na internet?”.

4. Se você achou um erro ortográfico ou sintático no livro, procure o revisor! É culpa dele, não do autor! (O nome aparece na página de créditos.)

5. Evite dizer (2): “Dedica pro meu cachorro”.

6. Se seu nome é esquisito (e todo mundo sabe quando um nome é esquisito, especialmente a própria pessoa), faça a gentileza de anotá-lo num papelzinho para pedir dedicatória.

7. Não pergunte por que ele virou escritor: ele com certeza está arrependido.

8. Não dê dicas turísticas de sua cidade: os escritores adoram ficar trancados no hotel assistindo TV a cabo, fazendo uso do room service e da geladeirinha do quarto (se estão pagos, claro).

9. Evite dizer (3): “Eu não gosto de ler, mas gostei de seu livro”.

10. Se você é o único na fila para pedir autógrafo, faça o favor de ficar conversando com o autor no mínimo meia hora, ou até chegar outro leitor.

11. Não peça para fazer uma selfie juntos. Escritor bom odeia selfies. É um dado científico.

12. Tenha a delicadeza de não perguntar se ele gosta da obra de outro autor da mesma geração.

13. Evite dizer (4): “Eu não concordo com o que aquele crítico babaca do jornal escreveu, lembra? Sim, aquele que falou que seu romance era uma bosta gigante! Não leu? Eu posso mandar o link por e-mail, se quiser, mas não liga para isso, seu livro é ótimo. Me passa seu e-mail”.

14. Não fure a fila, não se preocupe: se tem muita gente, você pode encontrar o autor depois no boteco mais próximo.

15. Esqueça: juro que o autor não conhece a solução pro problema da fome no mundo, da educação no país ou da falta de centroavante na seleção brasileira.

16. Tenha a sensibilidade de evitar dizer que você adora a obra de outro autor da mesma geração. Piora se, além do mais, os dois escritores são da mesma cidade: você pode provocar um infarto fulminante ou uma depressão crônica.

17. Evite a pergunta (2): “Escuta, dá para viver de escrever?” (não, não dá). Se você perguntar, corre o risco de te pedirem dinheiro emprestado.

18. Não interrompa o trajeto do escritor rumo à mesa dos drinques: ele poderia estar sofrendo uma crise de abstinência.

19. Evite dizer (5): “Dedica pro meu amigo, se chama Richarlyson, ele adora seus livros, sei lá por quê. Eu, para falar a verdade, não gosto, acho meio fracos, eles não dialogam com a tradição, estão cheios de clichês, desculpa a opinião honesta, mas eu acredito que o escritor precisa da crítica honesta para poder crescer, se não ele fica se achando o máximo só porque os amigos falam que ele é bom, o que falta no meio literário é honestidade, falar pro escritor ruim que ele é ruim, como você, cara, sinto muito, mas você é ruinzinho, tem piores, isso sim, não vou falar que não, tem caras realmente sem noção, você até que poderia chegar a escrever alguma coisa interessante se se esforçar muito, mas para isso tem que escutar as críticas honestas do pessoal, entendeu? Assina aí pro Richarlyson, meu irmão.”

20. Se você não leu o livro, se você não conhece o autor, se você nem gosta da literatura, se você só estava passando na frente do coitado, faça o serviço de se aproximar, dar uns tapinhas nas costas e dizer muito empolgado: “Cara, gostei muito de seu livro, você é genial. Parabéns!”. Eu garanto que ele não vai fazer perguntas para desmascarar você, escritor adora ser enganado.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Outra família

Por Juan Pablo Villalobos

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Foto: Guillermo A. Durán

O cachorro tinha chegado na primavera com dupla garantia de felicidade. Primeiro, porque era um presente de minha avó Elena e, segundo, porque o emissário que o trouxe de Guadalajara para Lagos de Moreno foi meu tio Rodolfo. Era 1983 e eu tinha nove anos, mas o filhote era para Uriel, que ia fazer cinco. Uriel era o quarto de cinco irmãos — eu era o segundo — e era míope, disléxico, tinha um amigo imaginário e, além da vida dele conosco, afirmava que vivia uma existência paralela com a que ele chamava de “minha outra família”. A outra família de meu irmãozinho vivia numa fazenda com ovelhas verdes e vacas vermelhas que em vez de leite davam Coca-Cola. Isso pode ser até engraçado, mas virava uma coisa terrífica algumas noites em que Uriel não parava de chorar porque queria ir dormir com a outra família dele. Por alguma razão que não consigo entender, meus pais acharam que um cachorro seria tão eficaz como um terapeuta. Pelo menos o cachorro seria uma conexão com a realidade real.

Naquela época, minha avó Elena era a pessoa que a gente mais gostava no universo. Meu tio Rodolfo era do norte do México, de Tecate. Falava aos gritos, contava três piadas por minuto, tinha um monte de histórias hilárias que enfeitava com milhões de palavrões. Nós festejávamos as visitas dele para a carola Lagos de Moreno como se fosse uma chuva de meteoritos. Se o cachorro era um presente de minha avó Elena que chegava das mãos do tio Rodolfo, o que podia dar errado?

* * *

Meu irmão Ángel, o mais velho, escolheu um pomposo nome germânico: Káiser. O cachorro era um weimaraner, uma raça originária da Alemanha, pelo que achamos que o nome fazia sentido.

Ainda sem sabê-lo, nós havíamos coroado imperador o cachorro mais maluco de todos os tempos.

* * *

É possível aplicar aos cachorros as categorias da moralidade humana? É possível dizer que um cachorro é mau?

* * *

A primeira desgraça do Káiser foi a sarna. Depois ele pegou uma interminável lista de doenças às que sobreviveu impertérrito, entre elas o parvovírus, duas vezes. Ele parecia imortal. Porém, a sarna ele nunca venceu, nós nunca vencemos. Tentamos todos os remédios científicos e também os sugeridos pela tia Guadalupe. Quando eu lembro do Káiser, uma das imagens que vem à minha memória é a dele jogado no chão de costas, coçando desesperadamente a pele da barriga até descascar as garras.

* * *

Lista das travessuras mais famosas do Káiser: fugir de casa; traumatizar os outros bichos de estimação da família (gatos paranoicos, maritacas histéricas, peixes insones); entrar na cozinha, abrir a geladeira e comer toda a comida (reincidente); assediar sexualmente as minhas primas; voar do segundo ao primeiro andar da casa para tentar entrar por uma janela aberta; comer colchão; montar nos convidados, especialmente nos mais refinados.

* * *

O Káiser achava que tinha uma missão na vida: fugir de casa. Usava toda a inteligência (não era muita) fazendo planos para escapar. Ele passava o tempo todo colado às portas. Uma sensação permanente de minha infância: a tensão no momento de abrir cada porta, primeiro só um pouquinho para descobrir se o cachorro estava aguardando atrás. A estratégia preferida do Káiser era a força bruta, enfiava o focinho na fenda e empurrava, empurrava, empurrava e pum!, se metia e ia embora.

* * *

Lista das atividades do Káiser na rua: roubar o açougueiro; assassinar as galinhas do vizinho do lado esquerdo; comer as iguarias da vizinha da direita; canibalismo (não perguntem, vocês não querem saber); perseguir cadelas no cio; perseguir cadelas que não estavam no cio; cagar dentro da igreja; se esfregar nas pernas dos passeantes; perseguir desconhecidos; derrubar cegos; latir histericamente aos motoristas; ser atropelado (reincidente).

* * *

Quando meu pai fez cinquenta anos, houve um almoço em que veio toda a família. Toda. Até os membros proscritos, como aquele primo que tinha sido desterrado por plantar maconha na chácara de meu avô. Aquela tia solteirona, que tinha fama de puta. Meus dois primos que eram alérgicos à atmosfera. O maridão de uma das minhas tias, que era deputado.

Durante o aperitivo, enquanto um tio que se achava espertíssimo explicava como fazer para não pagar a conta de luz, de água e do telefone, o Káiser aproveitou que alguém tinha deixado a porta da cozinha entreaberta e comeu todos os frangos que íamos almoçar com mole.

* * *

Com o passar dos anos e de alguns psicólogos, Uriel esqueceu a outra família dele. Na verdade, ele trocou essa fantasia pela aquisição clandestina de animais exóticos. A lista de bichos que meu irmão trouxe para casa inclui iguanas, salamandras, falcões, águias, cobras, linces. Numa ocasião ele trouxe porquinhos-da-índia. Eram vários, não lembro quantos. Aconteceu o mesmo de sempre: meu pai falou que Uriel tinha que devolvê-los em no máximo 24 horas. Apesar dos antecedentes, ninguém teve a previsão de imaginar que 24 horas eram horas demais para a convivência entre os roedores e o Káiser. Enquanto eu e meus irmãos estávamos na escola, o cachorro destripou todos os bichinhos e meus pais não perceberam. Ao voltar para casa, encontramos o jardim regado de sangue, coberto de tripas, vísceras, pedaços dos cadáveres: uma cabecinha aqui, umas patas lá, rabos, lombos, mais cabeças. (Ao lado do jardim estavam os psicólogos esfregando as mãos.)

Para fechar um ciclo perfeito, o presente que chegou em casa para resgatar meu irmão do delírio acabou se convertendo no trauma definitivo dele. Nunca mais ele trouxe um bicho para casa, nunca. Até então a gente tinha certeza de que ele seria veterinário, biólogo, zoólogo ou amansador de feras. O Káiser o transformou em músico. Uriel fez sua estreia na adolescência cantando num grupo dark chamado La espuma del gusano (A espuma do verme). Em algumas músicas, se você ficasse muito atento, podia ouvir o eco dos berros dos porquinhos-da-índia, o terror diante do focinho assassino do Káiser.

* * *

A paciência de nossos vizinhos durou oito anos, até que num infausto dia o dono das galinhas jogou pela grade um monte de carne marinada com cacos finíssimos de vidro.

Morria o cachorro, mas nascia a lenda.

* * *

Depois do Káiser nós tivemos outros cachorros, vários, todos irrelevantes: eram cachorros bonzinhos, obedientes, insossos. Nem lembro os nomes deles.

* * *

A memória é assim, deixa tudo mais doce. O pior cachorro da história foi se transformando na fonte das melhores histórias familiares, aquelas que contávamos entre gargalhadas, curtindo o rosto de estupefação dos ouvintes. Mas isso não é o importante. A lição do tempo foi descobrir que o presente de minha avó Elena nos salvou como família e como indivíduos. Porque a verdadeira missão do Káiser era desviar para seu corpo sarnoso todas as iras e frustrações, todos os ódios e rancores, as tristezas e os medos.

Porra, Káiser!, gritava um. Maldito cachorro!, reclamava outro. A catarse familiar era um alarido histérico para repreender o cachorro.

O que teria acontecido se nós não o tivéssemos tido como desculpa?

Com certeza seríamos outra família.

Com certeza não teríamos sido tão felizes.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Semana cento e setenta

Os lançamentos desta semana são:

O livro de Tiradentes, Kenneth Maxwell (coord.) (Tradução de Maria Lucia Machado e Luciano Vieira Machado)
O Recueil des Loix Constitutives des État-Unis de l’Ámerique, que compõe o cerne desta história, é a coletânea dos documentos constitucionais fundadores dos Estados Unidos da América: a Declaração de Independência, uma primeira redação dos Artigos de Confederação, um censo das colônias inglesas de 1775 e outros termos acessórios, como a constituição de seis dos treze estados confederados. Mas o Recueil (ou “O livro de Tiradentes”, como passou a er conhecido nas Minas) é muito mais que isso: protagonista de uma história que envolve o Brasil, a América do Norte, a Europa e suas relações recíprocas entre 1776-8 e 1789-2, a coletânea de leis foi o principal veículo de informações sobre o republicanismo norte-americano para os conjurados mineiros, os quais passavam de mão em mão duas edições que chegaram por vias tortuosas à porção insurgente da colônia portuguesa nas Américas. Com textos que elucidam o documento analisado e seus contextos, este volume é uma viagem por essa verdadeira história atlântica de transmissão de ideias políticas.

Se vivêssemos em um lugar normal, de Juan Pablo Villalobos (Tradução de Andreia Moroni)
Na periferia de Lagos de Moreno, no México, a casa do adolescente Orestes e sua família é a única construção humana à vista.  Minúscula e mal-acabada, a “caixa de sapato” atrai a atenção de um grupo de especuladores que pretende erguer ali um condomínio de luxo. O pai é um mestre do insulto e defensor de uma moral que parece não caber no mundo em que vive. A mãe recusa a sua condição social bradando aos quatro ventos que a família pertence à classe média, “como se os níveis socioeconômicos fossem um estado mental”. Tudo aconteceu nos anos 1980. Vinte e cinco anos depois o herói desta saga moderna reconstrói o passado escancarando a violência cotidiana e desmantelando as fronteiras entre o trágico e o cômico.

A menina sem palavra – histórias de Mia Couto, de Mia Couto
Vencedor do prêmio Camões em 2013, Mia Couto é um dos autores mais versáteis da atualidade, com uma obra que inclui poesia, crônicas, romances e contos. É também conhecido (e adorado) por sua prosa sensível e muitas vezes poética. Nesta edição, que privilegia histórias da infância, o leitor conhecerá a prosa inconfundível de Mia Couto através de dezessete contos selecionados, entre eles, “O embondeiro que sonhava pássaros”, que conta a história de um vendedor de pássaros rechaçado pela vizinhança por ser negro, e “A Rosa Caramela”, qu descreve a surpresa de um filho ao descobrir que o pai foi protagonista de uma história de amor. Prosador atento às complexidades da vida, Mia Couto é sempre capaz de criar histórias que nos alimentam e nos enchem de esperança.

O homem que fazia chover & outras histórias, de Carlos Drummond de Andrade
Fábulas, anedotas, parábolas e contos. Não há modalidade de prosa que não tenha sido tocada por Carlos Drummond de Andrade. Nas crônicas e contos reunidos para esta edição, buscou-se aqueles textos que evidenciam o pendor mais ficcional do grande poeta brasileiro. São histórias divertidas e tocantes que atestam a extraordinária imaginação e o amplo arsenal verbal do escritor mineiro para desfiar os mais diversos causos, muitos deles a partir de notícias de jornal. Numa prosa hábil em caracterizar personagens e escritas numa voz amigável, as histórias de Drummond — selecionadas a partir de livros como Contos de aprendiz, Contos plausíveis, A bolsa e a vida, entre outros — divertem e iluminam aspectos do nosso cotidiano a cada nova leitura.

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