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Lembranças do Carnaval

Por Juan Pablo Villalobos

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Pros Moronitas

Vou começar com um depoimento anticlimático: eu nasci e cresci numa cidade do México onde não tem Carnaval. Minhas primeiras lembranças do Carnaval são as imagens na televisão dos carnavais de rua em Veracruz e Mazatlán, dois portos que ficam a mais de 600 quilômetros da minha cidadezinha. Além disso, também passava na TV o resumo do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Eram vinte ou trinta segundos no noticiário noturno. Vinte ou trinta segundos de bundas e peitos e mulherada pelada, para ser exato.

Só quando fui morar em Barcelona, com 30 anos, lá em 2003, tive o primeiro contato direto com o Carnaval, em Sitges, uma das capitais gays da Europa. Ir para o Carnaval de Sitges é, pros recém-chegados (os “nouvinguts”, em catalão), um rito de passagem. Para pular Carnaval em Sitges, primeiro você tem que conseguir pular no trem (lotadíssimo) e, depois, o rito exige que você passe frio (é inverno), aguente a chuva (sempre chove) e demore horas para arranjar uma cerveja choca (se você não tomou a providência de trazer sua bebida, e os “nouvinguts” ainda não têm essa proficiência). Depois de cumprir com o rito de passagem no meu primeiro fevereiro em Barcelona, eu decidi, feliz, botar o Carnaval na gaveta das coisas da vida que não têm nada a ver comigo, ali ao lado do críquete, das religiões evangélicas, da taxidermia ou do molho bechamel. Pronto, achei que tinha esquecido para sempre do Carnaval. Hahaha. Que inocente… Porque logo, logo, alguém abriu essa gaveta, pegou o Carnaval e o colocou bem no centro da minha vida. Adivinharam: eu conheci uma brasileira.

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Mulher brasileira é assim: dez anos depois, em 2013, eu estava pulando Carnaval no Sambódromo de São Paulo com a escola Águia de Ouro. Juro. Carregando uma fantasia que pesava dez ou quinze quilos. E que tinha penas. E muitos enfeites brilhantes. E na cabeça eu trazia um capacete de operário amarelo (foi o mais perto que estive da classe trabalhadora na minha vida, vovô Marx estaria orgulhoso de mim). Eram seis horas da manhã do sábado e chovia, igualzinho em Sitges, enquanto a gente desfilava. Mas não vamos tão rápido, é preciso ir mais devagar (a verossimilhança tem suas regras).

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O namoro com a brasileira ficou sério. Tivemos um filho colecionador de passaportes. Depois uma filha com o mesmo hobby. E a cada fevereiro, ganhei uma nova angústia existencial: os brasileiros estavam lá no verão, pulando Carnaval, e a gente estava nessa porra de frio, com chuva, e com a única possibilidade de ir para esse carnavalzinho fajuto de Sitges. A angústia, lógico não era minha. Era da minha brasileira. Os amigos dela eram cruéis e colocavam no Orkut fotos na praia, no Carnaval de salão, no bloco de rua, sempre com pouca roupa. Eu tinha em casa uma suicida em potencial.

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Com a namorada brasileira eu arranjei, lógico, uma família brasileira. Sogra, sogro, cunhado, avós, tios, tudinho. Vinha no pacote. Uma famiglia italiana do estado de São Paulo. Era muito clichê. Mas eles estavam longe, ufa. Longe até a gente decidir ir morar no Brasil, lá em 2011. Aí eu senti de verdade que a bateria do Carnaval começava a bater bem nas portas do meu refúgio anticarnavalesco.

A minha família brasileira ia pro Carnaval de salão do clube chique da cidade. E, além do mais, tinha a matinê para as crianças. Naquela época, os colecionadores de passaportes já tinham 5 e 3 anos, respetivamente. Fofíssimos. Dava para fantasiá-los de piratas e princesas. De personagens da Disney. Até de mexicaninhos (o folclore é admitido). Mas o problema era que o pai gringo também tinha que se fantasiar. Eu peguei a verde-amarela que o sogrão deu de presente antes da Copa de 2010 (e que nunca tinha usado, lógico) e falei que gringo com camiseta do Brasil já pode se considerar fantasiado. Falei que era o Neymar. Claro que eu não usei o penteado do Neymar nem botei o número e o nome dele nas costas, mas o importante era a atitude. A ousadia. Tem ousadia maior que um mexicano de cidadezinha do interior encarar o Carnaval brasileiro?

* * *

Daí aconteceu uma coisa muito estranha. Esquisitíssima. Comecei a gostar do Carnaval. Da matinê das crianças e do Carnaval de rua com bloquinhos alternativos. Comecei a achar legal. E, depois, muito legal. Mas para isso foi preciso muita bebida. Essa cerveja gelada que só tem no Brasil. E cachaça. Muita. Quando eu falo muita, é muita. (Porra, eu bem que tomaria uma cachacinha agora, mas estou tomando antibiótico, por culpa de uma dor de dente.) Aliás, este parágrafo não é comercial da Brahma. Nem da Skol. Eu gosto mesmo é da Serra Malte. Mas não é publicidade, não. O que era que eu estava contando? Peraí (o antibiótico me deixa zonzo).

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Morei três anos no Brasil e minha lembrança favorita do carnaval foi numa matinê, quando a minha princesinha, fantasiada de Frozen, me disse que estava com dor de barriga. Vamos pro banheiro, falei. Entramos na cabine da privada. Faz força, falei. E a minha princesinha peidou confete.

* * *

Para falar a verdade, provavelmente eu ainda não gostava tanto assim do Carnaval. Só tinha aprendido a lidar com ele. Ficava num cantinho com a bebida na mão, olhando com autêntico interesse antropológico. Quando alguém me convidava para dançar ou participar de alguma brincadeira, eu falava que era escritor, um cronista da realidade, e que eu queria era observar. Quem sabe um dia eu acabava escrevendo um textinho sobre o Carnaval. Adorava também assistir o desfile das escolas de samba na TV. Acho que é o espetáculo perfeito, porque você não tem que assistir. Você só tem que deixar a TV ligada e dar uma olhada de vez em quando. Vinte ou trinta segundos por hora.

Mas então chegou aquele dia de finais de 2012. Minha brasileira falou que o irmão e a namorada de uns amigos nossos (editores, aliás – ô raça!) iam desfilar com a Águia de Ouro e que, se quiséssemos, poderíamos participar. Fiquei atônito. Olhei seriamente para ela: ela tinha cara de “é uma prova de amor”. Não dava para dizer que não.

* * *

Cenas de uma noite de Carnaval:

1) Quatro pessoas demoram meia hora para entrar no carro depois de ensaiar inúmeras posições para não estragar as penas da fantasia.

2) Cinquenta pessoas fantasiadas iguais bebem cerveja num posto de gasolina às 2:30 da manhã.

3) Cinquenta pessoas demoram uma hora para entrar no ônibus da prefeitura que levará a nossa ala pro Sambódromo.

4) Aguardamos nossa vez no Sambódromo, seremos a última escola a desfilar. Às 5:45 começa a chover, observo as penas da fantasia molhadas, parecemos as Galinhas de Ouro.

5) Desfilamos sob a chuva, eu não sei de cor o enredo (é a segunda vez que o escuto), eu não sei a coreografia, aprendo tudo durante a hora do desfile, tomo bronca do diretor de nossa ala. Atrasamos um minuto do tempo permitido para terminar de cruzar o sambódromo. Porra.

* * *

Então, em 2014, a brasileira, os colecionadores de passaportes e eu voltamos para Barcelona. Ufa. De volta para as saudades do Carnaval, pensei. Mas minha brasileira tinha outros planos. Ela se candidatou para presidenta da Associação de Pais dos Brasileirinhos da Catalunha (que ela tinha ajudado a fundar, anos atrás), ganhou a eleição e eu virei primeiro-damo. Juro. E este sábado tem matinê lá na Associação. E eu não posso beber por culpa dessa porra de antibiótico. Quem sabe voltarei a não gostar do Carnaval. Quem sabe voltarei a ser parte da ala dos anticarnavalescos. Mas, por enquanto, já lavei minha camiseta do Neymar. Bom carnaval para vocês.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Falsa partida

Por Juan Pablo Villalobos

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Durante janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Na coluna de Juan Pablo Villalobos deste mês, o escritor fala de sua primeira oficina literária.

* * *

Éramos seis, um número perfeito para uma oficina literária. Cinco mais um. Ou seja, cinco opinando e um lendo. Um número ímpar de juízes é condição imprescindível para qualquer tribunal. Eu poderia mencionar os nomes reais de meus colegas de oficina, mas não sei se eles gostariam do jeito como vou retratá-los, reconhecendo minha tendência como narrador para a caricatura e o sarcasmo (eu me conheço).

Éramos cinco homens e uma mulher. Peço desculpas para os defensores da igualdade de gênero, mas tenho o imperativo de ser fiel à verdade. Ao que eu acredito ser a verdade. Às minhas lembranças, quero dizer. Fazendo uso de uma licença poética, digamos que meus colegas se chamavam Darkson, Liberalino, Grilo, Valdisnei e Confúcia. E havia eu, claro. Tínhamos entre 20 anos (Confúcia, que além de ser a única mulher do grupo era a mais nova) e 35 (Liberalino, que era copy numa agência de publicidade). Eu tinha 22 anos, o que quer dizer, se a matemática não falha, que isso aconteceu há quase 20 anos, em 1996, em Guadalajara, no México.

Quem tinha organizado a oficina era Darkson, amigo meu, de Liberalino e de Valdisnei. Eu havia convidado Grilo, um colega da faculdade, e Confúcia, a melhor amiga de minha namorada daquela época. Darkson era fã de Henry Miller; Liberalino, de Juan Rulfo; Grilo, como eu, de Jorge Ibargüengoitia; Valdisnei, de Paul Auster; e Confúcia lia poesia (gostava de Rilke). Para começar, não tínhamos muitas afinidades literárias. Mas estávamos empolgados. Muito empolgados. Todos queriam ser escritores. Pior ainda: todos tinham certeza que iam virar escritores. Quem sabe por quê. E, especialmente, para quê.

Eu escrevia desde os 14 anos. Contos, poemas, músicas para a banda de rock dos meus amigos da cidadezinha onde morei até a adolescência. Mas nunca tinha participado de uma oficina literária. De fato, minha “produção literária” tinha tido, até então, uns leitores sem nenhuma noção, interesse ou intenção crítica. A primeira vez que divulguei uma de minhas obras literárias foi quando, depois do jantar de Natal, li um conto para minha mãe e minha avó enquanto elas lavavam a louça. No conto, uma criança se suicidava. Era um conto de Natal, lógico. Quando terminei de ler, minha mãe e minha avó só assentiram, achando, tenho certeza, que eu precisava de um psiquiatra e não de um crítico literário. As vítimas de meus poemas, quer dizer, minhas leitoras, eram (quem mais?) minhas namoradas da adolescência. Para mostrar meu amor, eu acabava crucificado em meus poemas (minha cidadezinha é muito católica). Elas suspiravam. Não sei se por amor, tédio ou susto. Quanto à banda de rock, era mais simples: eu traduzia (mal) as músicas do The Cure e as arrumava para que rimassem. Os caras da banda, que se chamava Mentes Invertidas, ficavam sempre felizes (não sabiam inglês).

Então, para mim, a ideia da oficina literária era ao mesmo tempo fascinante e assustadora. Eu sabia que para melhorar a escrita eu precisava de ajuda, mas não sabia se estava pronto para escutar  e aceitar  outros aspirantes a escritores enunciando os defeitos dos meus textos. Por isso, me preparei cuidadosamente e decidi levar à primeira sessão da oficina aquele que considerava meu melhor (e único) conto. Quer dizer, o único verdadeiramente terminado. O único “redondo”. Se chamava “Salida en falso” (“Falsa partida”). Se chama, de fato. Li agora de novo, ele está guardado entre meus arquivos no seguinte endereço: Mis Documentos/j.p./Cuentos/Primer volumen. Que pretensioso, pelamordedeus! “Primeiro volume”. Como se eu já tivesse minhas “Obras completas”.

O conto tem uma frase boa, uma ideia boa, que eu poderia escrever hoje (talvez a plagie): “Por alguma razão incompreensível, as pessoas chegam à conclusão que quando você ganha você é feliz, que você nasceu para isso, que esse é o caminho que você deve seguir”. O conto é sobre um menino traumatizado pelo bullying na escola. O menino é selecionado para fazer atletismo e resulta que é muito bom correndo. Muito bom mesmo: um campeão. Mas nem assim ele consegue superar seu trauma, porque ele não percorre um caminho que leva ao sucesso, como as pessoas estruturadas que estabelecem objetivos na vida. Ele foge para o sucesso (ainda gosto dessa ideia). Uma confissão: esse conto tinha um pano de fundo autobiográfico, pois eu sofri bullying entre os 6 e os 8 anos, apesar de naquela época o conceito de bullying não existir  a gente chamava simplesmente de “ir pra escola”.

E agora, ou seja, naquela noite de 1996 (íamos começar às 20h, no apartamento de Darkson), eu tinha medo de sofrer um novo tipo de bullying, o pior de todos os bullyings conhecidos: o bullying literário. Tinha medo, especialmente, de Darkson e Liberalino. Eu sabia que Grilo e Confúcia seriam condescendentes. Valdisnei era, para mim, uma incógnita. Mas Darkson lia Kerouac e Bukowski, além de Henry Miller, bebia tequila do gargalo e podia ser despiedoso. Liberalino tinha 35 anos, 35 anos!, mais de 10 anos a mais de experiência de leitura e escrita!

No começo da sessão pedi, quase tremendo, para ser o último a ler. Ninguém se opôs, lógico: todos, exceto Confúcia, queriam ser os primeiros. Confúcia não queria ser nem a primeira nem a última. Falou que não tinha trazido nada para ler por enquanto. Falou a mesma coisa em todas as sessões da oficina, tornando-se assim a participante mais enigmática. A única coisa que ela fazia, às vezes, era nos contar alguma imagem para um poema, alguma cenografia para uma peça de teatro (era atriz), algum diálogo para um roteiro de cinema (estudava cinema). Era, de fato, a melhor de todos, a que tinha as melhores ideias: a escritora que não escrevia, quase uma artista conceitual.

Darkson foi o primeiro a ler, intercalando parágrafos com goles de tequila, imitando Bukowski (isso eu só fiquei sabendo mais tarde, ao assistir umas leituras de Bukowski no YouTube). Ninguém entendeu o que ele lia. Era meio incompreensível por estar mal escrito e meio incompreensível por ser misterioso. Como eu não sabia o que dizer, minha única sugestão foi trocar um ponto de lugar. Ele achou que isso era uma afronta pessoal e ficamos discutindo a sintaxe desse parágrafo por mais de vinte minutos. Achei que, pelo visto, o que eu tinha que fazer era beber mais cerveja, e mais rápido.

Grilo leu um conto que havia trabalhado em outra oficina literária: um conto triste em que imaginava o futuro medíocre de um colega da faculdade que a gente realmente odiava. Juan Carlos Onetti já escreveu esse conto mil vezes. E mil vezes melhor. Isso foi, de fato, o que Liberalino falou. Darkson reclamou que a prosa de Grilo era transparente, como se entender o que você leu fosse um defeito gravíssimo. Valdisnei apoiou Darkson, mas a interpretação dele era que a prosa de Grilo precisava de mais “intensidade poética”. Confúcia falou que gostava do conto. Eu também, exceto por um ponto e vírgula que sugeri trocar por um ponto. Grilo falou: “ok”.

Depois veio o desastre: as cinquenta páginas do fragmento de romance de Valdisnei. Um triângulo amoroso com intensidade poética demais, lido no tom monocórdico, persistente e teimoso de Valdisnei. Demorou mais de uma hora, que o resto de nós dedicou, além de escutar, a visitar a geladeira para pegar mais e mais cerveja. Quando terminou, todo mundo, exceto Valdisnei, estava bêbado. Daí Darkson, acostumado a manter a lucidez em estados etílicos, salvou a noite: falou que já era muito tarde e que seria melhor deixar os comentários do romance de Valdisnei para a próxima sessão. Liberalino disse, condescendente, como irmão mais velho, que era verdade e que, aliás, ia adiar a leitura dele para a próxima sessão também, para que pudéssemos dedicar tempo à minha leitura. Era isso, chegava minha vez.

Cof, cof. (Um gole de cerveja).

Li as 1971 palavras do conto (revisei o documento agora). Terminei. Todo mundo ficou em silêncio, mas era um silêncio confortável, que eu gostava. Eu gostava, na verdade, de olhar os rostos dos cinco. Um pouco surpresos. Um pouco eufóricos. Quase felizes. Cacete, falou Liberalino. Muito bom, falou Darkson. Arrasou, falou Grilo. Muito bom mesmo, falou Valdisnei. Parabéns, Pablito, falou Confúcia (ela me chamava de Pablito). Na verdade o conto não era tão bom (já falei que talvez só tivesse uma frase boa, uma ideia boa). Na verdade a gente estava muito bêbados. Na verdade a gente queria era parar com essa porra de oficina e começar a festa. Mas essa foi a primeira vez que eu senti que era escritor.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Natal chinês

Por Juan Pablo Villalobos

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Vítor tem uma tia que trazia perfumes do Paraguai. A irmã de sua mãe. Na família, a tia tem fama de azarenta. O marido dela fugiu. Ela ficou com os quatro moleques. A casa dela foi penhorada. O cachorro pegou parvovírus três vezes. Quando o negócio dos perfumes parecia que ia decolar, os bancos e as grandes lojas começaram a oferecer crédito para comprar até chinelo em doze parcelas. A tia de Vítor, então, mudou para as imitações chinesas. Ligou para Vítor no finalzinho de novembro. Vai ter amigo secreto aí no escritório?, perguntou. Vai ter, sim. Você tirou menino ou menina? Menina (ele tirou a Paula, de faturação). O resultado da cadeia de desgraças — fuga do marido, bolha de crédito, indústria chinesa da imitação, misericórdia teimosa do Vítor — é que Paula e Carolina Herrera dançaram.

Paula é a contadora responsável por cadastrar as faturas no sistema. Este ano mudaram o sistema e a vida dela foi um inferno. Já é dezembro e Paula e o sistema continuam sem se entender. As faturas somem. É preciso cadastrá-las de novo. Paula merece um perfume de imitação chinês depois de semelhante tortura? Mas peraí: Paula pegou Soledade. Soledade no escritório é chamada de Sol, desse jeito o nome fica meigo, como se falassem: “você é um sol, que linda”. E não: “você vai ficar sozinha porque você é uma safada”. Paula não tem tempo para ir comprar presentinhos. Ela aproveita o horário do almoço para comprar pela internet uma carteira. Muito prática, Paula, muito moderna. O problema: clonaram a página da loja de carteiras. Em janeiro, Paula vai receber um presente de Natal atrasado: a fatura do cartão de crédito. Compras nas Ilhas Bermudas (uma prancha de surfe e um jet ski). Compras na Bósnia (um home theater). O cartão no limite. Pior ainda: no dia do amigo secreto, Sol fica sem presente, com a promessa de Paula de uma carteira maravilhosa que deve chegar já já. Para maior dramatismo, durante a cerimônia do amigo secreto, Paula fica na porta olhando para a rua, esperando a aparição do motoboy.

O que Paula queria era tirar Marcão. Aí ela teria se esforçado. Muito. Os presentes que Paula pensou para Marcão: uma montanha de bosta ou uma gonorreia. Sim: Marcão é o programador que decidiu mudar o sistema. Mas é Luana quem vai comprar um presente pro Marcão. Luana é uma garota baixinha que gosta muito de ler. Luana compra um livro pro Marcão. Um livro de Paulo Coelho (Marcão merece, segundo Paula). A cena é a seguinte: Marcão abre o pacotinho e a mente dele reage: um livro, sério?, mas fala: obrigado, ainda não li. Luana fala que não é um livro qualquer: esse livro mudou minha vida, diz. Pergunta: Luana acredita que Marcão precisa mudar de vida? E, ainda mais importante: Luana está tão interessada em Marcão como para querer mudar a vida dele? Luana comprou o livro numa banquinha na entrada do metrô, o livro é pirata. Tudo indica que é impossível comemorar o Natal sem infringir a lei de propriedade intelectual. Sem saber, Carolina Herrera e Paulo Coelho são as vítimas desta história, coitadinhos.

Mas vamos lá à grande questão: o mais difícil era comprar presente para Vanessa. Vã. Vanessa. Lindíssima, Vanessa. Chiquérrima. A família dela tem muito dinheiro e ela trabalha só porque seu trabalho é chique. Ou seja: puta difícil pra cacete escolher o presente. A garota de marketing, Vanessa. Mas eis aqui um hábito perturbador: Vanessa não tranca a porta do toalete. Lista de pessoas que viram Vanessa sentada na privada: Karla (exportações), Luana (secretária do chefe), Daniela (vendas), Soledade (fornecedores) e Paula (contabilidade). Daniela opina: Vã é linda, mas é fedida. Soledade diz: usa calçolas de vó.

O Chico tirou a Vanessa. Chico é o auxiliar do Marcão nas tarefas de semear o caos e a instabilidade através da informática. Só para vocês saberem como é o Chico: ele veio fantasiado no dia de Halloween. Ele gosta de RPG. Não sabe que Vanessa é linda. Não sabe que a realidade existe e é verdadeira. Felizmente a mãe do Chico controla os movimentos do filho no mundo das coisas concretas. A comida, a roupa, a higiene, essas minúcias. A mãe perguntou pro Chico: como é a tal da Vanessa? Chico respondeu: fresca. A mãe do Chico comprou um artefato engenhosíssimo: um gancho pequenino, desdobrável, que cabe na bolsa e serve para colocar na mesa de um restaurante e pendurar a própria bolsa. Sucesso total: Vã dá um beijinho no Chico efusivamente, com direito a um breve abraço em que aperta os seios de silicone contra o peito dele, sem pensar na quantidade de crianças chinesas que foram exploradas só para que ela ficasse contente. É um agradecimento com um altíssimo custo humanitário.

Em contrapartida, todos pensavam: tomara que eu seja o amigo secreto de Vanessa. Um bom presente, com certeza. Iludidos. Contra a opinião de Daniela, o pior de Vanessa não é que os esfíncteres dela estejam trabalhando maravilhosamente bem: o pior é que ela está passando por uma época confusa. Volta para casa depois do trabalho e se dedica, exclusivamente, a chorar. Não responde as ligações dos pretendentes. É solteira só porque é chique. Foi pro psicanalista e o psicanalista falou que ela tem “sede do infinito”. Ou seja, que é por isso que ela quer ir morar em outro país, mudar de nome, matar a mãe e o pai e o cachorro e transar com todos os pervertidos do Tinder. Mas ela é uma impostora perfeita. Ninguém percebeu a crise dela. Por isso a surpresa é gigantesca quando fala: meu amigo secreto é o Marcão. Marcão? Como assim? Se Luana já deu presente pro Marcão! Mas lembrando, Marcão é Lúcifer mesmo: ele não liga pra confusão e abre o presente. É um mouse pad com o escudo do Corinthians. Marcão, aliás, é palmeirense. Ah, fala, então não é meu. Tem palmeirense na plateia?, pergunta Vanessa. A Karla pega a lista secreta do amigo secreto e descobre que o mouse pad é para Chico. Se Chico não morasse em Mordor saberia tirar proveito da situação. Escuta, falaria o Chico, pode ficar com o presente mas vamos tomar um chopp. O mouse pad, aliás, é made in China.

Karla aproveita o protagonismo para falar: agora eu! Meu presente é para Luana. O pacote contém um gato chinês, um desses gatos de cerâmica que mexem a maõzinha. É para dar sorte, diz Karla. Pelo visto, tudo que está relacionado com Luana provoca perguntas e especulações: Karla acredita que Luana precisa de sorte? Ou seja: Karla acredita que ela é pé frio? Cruelmente, Karla especifica os detalhes dos bons desejos: é pra dar sorte pro dinheiro. Ou seja: na empresa tem classes sociais, entendeu, sua morta de fome.

Teoria da conspiração: o Natal foi inventado pro progresso econômico da China.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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15 considerações sobre a leitura de romances I

Por Juan Pablo Villalobos

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1. A capa de um livro é como a porta de uma casa: se o hall (as primeiras páginas) está sujo ou feio, o leitor já sabe o que pode encontrar na cozinha ou nos quartos. E nos banheiros!!!

2. Se o narrador começa o romance com indecisões, “eu não gostaria de falar disso” ou “nem quero lembrar do que aconteceu aquele dia” ou “ainda não sei como contar essa história “, não se preocupe, vai ter romance, sim, se não como é que o livro tem 200 páginas? Agora, se prepare: o cara com certeza vai enrolar. Muito.

3. Quando o narrador descreve um dos seus personagens como genial, inteligentíssimo, simpático etc., por acaso o autor não está sugerindo que ele é tão genial, inteligentíssimo, simpático etc. que consegue criar personagens geniais, inteligentíssimos, simpáticos etc.?

4. Se os diálogos de um livro estão tão bem escritos, desde o ponto de vista do realismo, que são igualzinhos à realidade, para que ler o romance? Você lê para constatar a realidade? Melhor bater um bom papo com uma pessoa querida.

5. Seria muito interessante pesquisar por que o hábito de leitura de ficção não ficou associado à pipoca. Já pensou? “- Vamos ler. – Peraí, vou preparar pipoca.”

6. Todo leitor deveria reler seus romances favoritos uma vez a cada 10 anos. Impressionante como os personagens mudam apesar de você ter certeza que eles ficaram quietinhos aí na prateleira.

7. Regra de reciprocidade: se o narrador do romance interpela o leitor (“o que você acha, caro leitor?”, “tem alguém aí, do outro lado da página?” etc.), o leitor tem direito a procurar o autor no Twitter ou no Facebook e encher o saco dele. Não se aplica para autores mortos. A menos que o leitor seja espírita.

8. Há escritores querendo escrever romances sem enredo, romances sem tensão narrativa, romances sem personagens, romances sem lógica temporal… Mas, para falar a verdade, o que mais tem é romances sem leitores.

9. Se a capa do livro é linda, o texto da quarta muito interessante, o autor na foto saiu galã e tem frases elogiosas de escritores e críticos reconhecidos, isso só quer dizer uma coisa: a editora fez um trabalho excelente.

10. Como faz o autor para contar a história em presente enquanto você está lendo? Quando entregou o livro para a editora? Quando a editora o imprimiu?

11. Psicanálise de graça: pense um pouco nos narradores de seus romances favoritos. O narrador quer… seduzir você? Desafiar? Tirar sarro de você? Empatizar?

12. Sobre a arte da descrição: se o leitor pretende ler um livro para saber como é Paris (ou Roma, Buenos Aires, o sertão, o pantanal etc.), tem uma coisa bem melhor: agências de viagens.

13. Quando o leitor fala que não entendeu um romance, na verdade o que ele não entendeu é a função da literatura: a literatura é péssima para dar explicações.

14. Livros chatos mas com prestígio literário criam nos leitores síndrome de Estocolmo.

15. Boas notícias: ninguém morreu por ler um romance ruim. Más notícias: ninguém recuperou o tempo perdido lendo um romance ruim.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Semana duzentos e sessenta e seis

Te vendo um cachorro, Juan Pablo Villalobos (Tradução de Sérgio Molina)
Te vendo um cachorro trata de uma mãe e de um vendedor de tacos obcecados por cães. Ela para aplacar a solidão; ele para lucrar um pouco mais com o seu negócio. É também a história de um garoto que herdou, não se sabe se por destino ou talento, a taqueria do tio e, com ela, a técnica de preparar tacos à base de filés caninos… Mas é possível que o cerne desse romance seja mesmo ironizar os desejos sexuais, a velhice, a vida adulta, a juventude, a literatura, os religiosos, os críticos, os leitores e o México.

A conexão Bellarosa – 4 novelas, Saul Bellow (Tradução de Caetano Waldrigues Galindo e Rogério Galindo)
As quatro novelas deste volume, escritas na fase final da vida do autor – Um furto, A conexão Bellarosa, Uma afinidade verdadeira e Ravelstein -, são o testemunho do talento e da vitalidade do maior renovador do romance americano depois de William Faulkner. Com temas como a perseguição ao próprio passado, as tragédias do século XX, o adultério e a comédia da vida intelectual, as histórias são tão divertidas e leves quanto melancólicas e intrincadas. Um triunfo.

Alfaguara

A orgia perpétua – Flaubert e Madame Bovary, Mario Vargas Ll0sa (Tradução de José Rubens Siqueira)
Neste ensaio memorável, Vargas Llosa mescla memória e erudição para falar de um autor essencial para a arte do romance: Gustave Flaubert. Vargas Llosa não fala apenas “por que Madame Bovary remexeu camadas tão profundas do meu ser, por que me deu o que outras histórias não conseguiram me dar”, fala também das circunstâncias em que Flaubert o escreveu, de suas dificuldades para encontrar “a palavra justa” em cada frase, e de suas frequentes discussões e ideias sobre a literatura. A orgia perpétua é uma porta de entrada ao mundo flaubertiano, mas é também uma experiência emocionante sobre a força transformadora da ficção.

A linha azul, Ingrid Betancourt (Tradução de Julia da Rosa Simões)
Buenos Aires, década de 1970. Julia, uma jovem que tem o misterioso dom de prever o futuro, se apaixona por Theo – um ativista político idealista. O caso de amor faz com que Julia se una à luta contra a ditadura argentina, marcando profundamente a trajetória de ambos. Mais tarde, grávida de poucos meses, Julia e Theo são capturados pelos militares. Após um período de torturas inimagináveis, eles conseguem. Somente anos depois, refugiados nos Estados Unidos, terão a chance de se reencontrar. Contudo, o casal nunca mais será o mesmo.

Um homem chamado Ove, Frederik Backman (Tradução de Paulo Chagas de Souza)
Ove tem cinquenta e nove anos e não gosta muito das pessoas. Afinal, hoje em dia ninguém mais sabe trocar um pneu, escrever à mão ou usar uma chave de fenda. Ninguém mais quer trabalhar e assumir responsabilidades. Todo mundo é jovem, usa calça justa e só quer saber de internet. Para Ove, uma sociedade em que tudo se resume a computadores e café instantâneo só pode decepcioná-lo. Como se isso não bastasse, a única pessoa que ele amava faleceu. Sem sua esposa, a vida de Ove perdeu a cor e o sentido. Meses depois, ele toma uma decisão: vai dar fim à própria vida. No entanto, cada uma de suas tentativas é frustrada por algum vizinho incompetente que precisa de ajuda. Mas, quando uma estranha família se muda para a casa ao lado, Ove aos poucos passa a encarar o mundo de outra forma.

O elefante e a porquinha: Posso brincar também, Mo Willems (Tradução Nina Lua)
Em Posso brincar também?, o Elefante e a Porquinha estão brincando de jogar e pegar a bola quando aparece uma nova amiga para participar do jogo: a cobrinha. Mas cobras não tem braços e eles não sabem como dizer isso a ela. Será que conseguirão encontrar um jeito de incluí-la na brincadeira?

Suma de Letras

O risco, Rachel Van Dyken (Tradução de Flora Pinheiro)
Beth nunca fez nada de arriscado. De inconsequente. De divertido. Isso é, até acordar em um quarto de hotel ao lado de Jace, um senador sexy, que ela reencontrou em uma festa de casamento na noite anterior. O problema é que sua última lembrança da noite é estar na cama, abraçada a uma caixa de biscoitos, chorando copiosamente. E Jace também não se recorda de muito mais. Outro problema? Eles foram fotografados entrando juntos no hotel, e agora a mídia está em polvorosa, especulando quem é a misteriosa acompanhante do senador. Uma amiga? Uma antiga namorada? Uma… prostituta?

 

 

 

 

 

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