juan pablo villalobos

Outra família

Por Juan Pablo Villalobos

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Foto: Guillermo A. Durán

O cachorro tinha chegado na primavera com dupla garantia de felicidade. Primeiro, porque era um presente de minha avó Elena e, segundo, porque o emissário que o trouxe de Guadalajara para Lagos de Moreno foi meu tio Rodolfo. Era 1983 e eu tinha nove anos, mas o filhote era para Uriel, que ia fazer cinco. Uriel era o quarto de cinco irmãos — eu era o segundo — e era míope, disléxico, tinha um amigo imaginário e, além da vida dele conosco, afirmava que vivia uma existência paralela com a que ele chamava de “minha outra família”. A outra família de meu irmãozinho vivia numa fazenda com ovelhas verdes e vacas vermelhas que em vez de leite davam Coca-Cola. Isso pode ser até engraçado, mas virava uma coisa terrífica algumas noites em que Uriel não parava de chorar porque queria ir dormir com a outra família dele. Por alguma razão que não consigo entender, meus pais acharam que um cachorro seria tão eficaz como um terapeuta. Pelo menos o cachorro seria uma conexão com a realidade real.

Naquela época, minha avó Elena era a pessoa que a gente mais gostava no universo. Meu tio Rodolfo era do norte do México, de Tecate. Falava aos gritos, contava três piadas por minuto, tinha um monte de histórias hilárias que enfeitava com milhões de palavrões. Nós festejávamos as visitas dele para a carola Lagos de Moreno como se fosse uma chuva de meteoritos. Se o cachorro era um presente de minha avó Elena que chegava das mãos do tio Rodolfo, o que podia dar errado?

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Meu irmão Ángel, o mais velho, escolheu um pomposo nome germânico: Káiser. O cachorro era um weimaraner, uma raça originária da Alemanha, pelo que achamos que o nome fazia sentido.

Ainda sem sabê-lo, nós havíamos coroado imperador o cachorro mais maluco de todos os tempos.

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É possível aplicar aos cachorros as categorias da moralidade humana? É possível dizer que um cachorro é mau?

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A primeira desgraça do Káiser foi a sarna. Depois ele pegou uma interminável lista de doenças às que sobreviveu impertérrito, entre elas o parvovírus, duas vezes. Ele parecia imortal. Porém, a sarna ele nunca venceu, nós nunca vencemos. Tentamos todos os remédios científicos e também os sugeridos pela tia Guadalupe. Quando eu lembro do Káiser, uma das imagens que vem à minha memória é a dele jogado no chão de costas, coçando desesperadamente a pele da barriga até descascar as garras.

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Lista das travessuras mais famosas do Káiser: fugir de casa; traumatizar os outros bichos de estimação da família (gatos paranoicos, maritacas histéricas, peixes insones); entrar na cozinha, abrir a geladeira e comer toda a comida (reincidente); assediar sexualmente as minhas primas; voar do segundo ao primeiro andar da casa para tentar entrar por uma janela aberta; comer colchão; montar nos convidados, especialmente nos mais refinados.

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O Káiser achava que tinha uma missão na vida: fugir de casa. Usava toda a inteligência (não era muita) fazendo planos para escapar. Ele passava o tempo todo colado às portas. Uma sensação permanente de minha infância: a tensão no momento de abrir cada porta, primeiro só um pouquinho para descobrir se o cachorro estava aguardando atrás. A estratégia preferida do Káiser era a força bruta, enfiava o focinho na fenda e empurrava, empurrava, empurrava e pum!, se metia e ia embora.

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Lista das atividades do Káiser na rua: roubar o açougueiro; assassinar as galinhas do vizinho do lado esquerdo; comer as iguarias da vizinha da direita; canibalismo (não perguntem, vocês não querem saber); perseguir cadelas no cio; perseguir cadelas que não estavam no cio; cagar dentro da igreja; se esfregar nas pernas dos passeantes; perseguir desconhecidos; derrubar cegos; latir histericamente aos motoristas; ser atropelado (reincidente).

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Quando meu pai fez cinquenta anos, houve um almoço em que veio toda a família. Toda. Até os membros proscritos, como aquele primo que tinha sido desterrado por plantar maconha na chácara de meu avô. Aquela tia solteirona, que tinha fama de puta. Meus dois primos que eram alérgicos à atmosfera. O maridão de uma das minhas tias, que era deputado.

Durante o aperitivo, enquanto um tio que se achava espertíssimo explicava como fazer para não pagar a conta de luz, de água e do telefone, o Káiser aproveitou que alguém tinha deixado a porta da cozinha entreaberta e comeu todos os frangos que íamos almoçar com mole.

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Com o passar dos anos e de alguns psicólogos, Uriel esqueceu a outra família dele. Na verdade, ele trocou essa fantasia pela aquisição clandestina de animais exóticos. A lista de bichos que meu irmão trouxe para casa inclui iguanas, salamandras, falcões, águias, cobras, linces. Numa ocasião ele trouxe porquinhos-da-índia. Eram vários, não lembro quantos. Aconteceu o mesmo de sempre: meu pai falou que Uriel tinha que devolvê-los em no máximo 24 horas. Apesar dos antecedentes, ninguém teve a previsão de imaginar que 24 horas eram horas demais para a convivência entre os roedores e o Káiser. Enquanto eu e meus irmãos estávamos na escola, o cachorro destripou todos os bichinhos e meus pais não perceberam. Ao voltar para casa, encontramos o jardim regado de sangue, coberto de tripas, vísceras, pedaços dos cadáveres: uma cabecinha aqui, umas patas lá, rabos, lombos, mais cabeças. (Ao lado do jardim estavam os psicólogos esfregando as mãos.)

Para fechar um ciclo perfeito, o presente que chegou em casa para resgatar meu irmão do delírio acabou se convertendo no trauma definitivo dele. Nunca mais ele trouxe um bicho para casa, nunca. Até então a gente tinha certeza de que ele seria veterinário, biólogo, zoólogo ou amansador de feras. O Káiser o transformou em músico. Uriel fez sua estreia na adolescência cantando num grupo dark chamado La espuma del gusano (A espuma do verme). Em algumas músicas, se você ficasse muito atento, podia ouvir o eco dos berros dos porquinhos-da-índia, o terror diante do focinho assassino do Káiser.

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A paciência de nossos vizinhos durou oito anos, até que num infausto dia o dono das galinhas jogou pela grade um monte de carne marinada com cacos finíssimos de vidro.

Morria o cachorro, mas nascia a lenda.

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Depois do Káiser nós tivemos outros cachorros, vários, todos irrelevantes: eram cachorros bonzinhos, obedientes, insossos. Nem lembro os nomes deles.

* * *

A memória é assim, deixa tudo mais doce. O pior cachorro da história foi se transformando na fonte das melhores histórias familiares, aquelas que contávamos entre gargalhadas, curtindo o rosto de estupefação dos ouvintes. Mas isso não é o importante. A lição do tempo foi descobrir que o presente de minha avó Elena nos salvou como família e como indivíduos. Porque a verdadeira missão do Káiser era desviar para seu corpo sarnoso todas as iras e frustrações, todos os ódios e rancores, as tristezas e os medos.

Porra, Káiser!, gritava um. Maldito cachorro!, reclamava outro. A catarse familiar era um alarido histérico para repreender o cachorro.

O que teria acontecido se nós não o tivéssemos tido como desculpa?

Com certeza seríamos outra família.

Com certeza não teríamos sido tão felizes.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Semana cento e setenta

Os lançamentos desta semana são:

O livro de Tiradentes, Kenneth Maxwell (coord.) (Tradução de Maria Lucia Machado e Luciano Vieira Machado)
O Recueil des Loix Constitutives des État-Unis de l’Ámerique, que compõe o cerne desta história, é a coletânea dos documentos constitucionais fundadores dos Estados Unidos da América: a Declaração de Independência, uma primeira redação dos Artigos de Confederação, um censo das colônias inglesas de 1775 e outros termos acessórios, como a constituição de seis dos treze estados confederados. Mas o Recueil (ou “O livro de Tiradentes”, como passou a er conhecido nas Minas) é muito mais que isso: protagonista de uma história que envolve o Brasil, a América do Norte, a Europa e suas relações recíprocas entre 1776-8 e 1789-2, a coletânea de leis foi o principal veículo de informações sobre o republicanismo norte-americano para os conjurados mineiros, os quais passavam de mão em mão duas edições que chegaram por vias tortuosas à porção insurgente da colônia portuguesa nas Américas. Com textos que elucidam o documento analisado e seus contextos, este volume é uma viagem por essa verdadeira história atlântica de transmissão de ideias políticas.

Se vivêssemos em um lugar normal, de Juan Pablo Villalobos (Tradução de Andreia Moroni)
Na periferia de Lagos de Moreno, no México, a casa do adolescente Orestes e sua família é a única construção humana à vista.  Minúscula e mal-acabada, a “caixa de sapato” atrai a atenção de um grupo de especuladores que pretende erguer ali um condomínio de luxo. O pai é um mestre do insulto e defensor de uma moral que parece não caber no mundo em que vive. A mãe recusa a sua condição social bradando aos quatro ventos que a família pertence à classe média, “como se os níveis socioeconômicos fossem um estado mental”. Tudo aconteceu nos anos 1980. Vinte e cinco anos depois o herói desta saga moderna reconstrói o passado escancarando a violência cotidiana e desmantelando as fronteiras entre o trágico e o cômico.

A menina sem palavra – histórias de Mia Couto, de Mia Couto
Vencedor do prêmio Camões em 2013, Mia Couto é um dos autores mais versáteis da atualidade, com uma obra que inclui poesia, crônicas, romances e contos. É também conhecido (e adorado) por sua prosa sensível e muitas vezes poética. Nesta edição, que privilegia histórias da infância, o leitor conhecerá a prosa inconfundível de Mia Couto através de dezessete contos selecionados, entre eles, “O embondeiro que sonhava pássaros”, que conta a história de um vendedor de pássaros rechaçado pela vizinhança por ser negro, e “A Rosa Caramela”, qu descreve a surpresa de um filho ao descobrir que o pai foi protagonista de uma história de amor. Prosador atento às complexidades da vida, Mia Couto é sempre capaz de criar histórias que nos alimentam e nos enchem de esperança.

O homem que fazia chover & outras histórias, de Carlos Drummond de Andrade
Fábulas, anedotas, parábolas e contos. Não há modalidade de prosa que não tenha sido tocada por Carlos Drummond de Andrade. Nas crônicas e contos reunidos para esta edição, buscou-se aqueles textos que evidenciam o pendor mais ficcional do grande poeta brasileiro. São histórias divertidas e tocantes que atestam a extraordinária imaginação e o amplo arsenal verbal do escritor mineiro para desfiar os mais diversos causos, muitos deles a partir de notícias de jornal. Numa prosa hábil em caracterizar personagens e escritas numa voz amigável, as histórias de Drummond — selecionadas a partir de livros como Contos de aprendiz, Contos plausíveis, A bolsa e a vida, entre outros — divertem e iluminam aspectos do nosso cotidiano a cada nova leitura.

Entrevista com Bernardo Carvalho

Quando começamos a planejar quais novidades poderíamos trazer para o blog em 2013, logo pensamos em entrevistas. Principalmente entrevistas com autores nacionais, que formam uma parte tão importante do catálogo da editora, mas às vezes não são tão conhecidos pelo público. E quem melhor para entrevistá-los que seus colegas de profissão?

Entramos em contato, então, com nosso colunista Juan Pablo Villalobos, e perguntamos quem ele gostaria de entrevistar. O escolhido foi o escritor, jornalista e tradutor Bernardo Carvalho. Bernardo nasceu no Rio de Janeiro em 1960. Entre seus livros de ficção destacam-se Nove noites (prêmio Portugal Telecom), Mongólia (prêmio Jabuti) e O filho da mãe (finalista do prêmio São Paulo de Literatura).

Leia abaixo a entrevista feita por Juan Pablo. Daqui a algumas semanas publicaremos a entrevista feita por Bernardo Carvalho com o autor escolhido por ele: André Sant’Anna.

JPV: Queria começar falando do momento anterior à escrita, da etapa na qual você está cogitando o projeto de um livro, namorando com várias alternativas. Como é o processo até chegar à certeza de que uma dessas namoradinhas é a única e que esse é o romance que você vai escrever? Acho que em Nove noites esse processo é o que movimenta o enredo, a obsessão de um escritor por revelar um mistério do passado: o processo acaba se convertendo no romance. Muitos livros possíveis morrem sem chegar a um bom destino, são abortados. Qual foi a diferença entre seus livros que sobreviveram e seus livros abortados?
BC: Olhe, Juan Pablo, comigo as coisas não costumam funcionar exatamente como você descreveu. Em geral, são processos longos, que começam sem a consciência do fim, do que eles podem vir a ser. Não sei se posso dizer que há livros abortados, porque muita coisa é abandonada no meio do caminho, porque ainda não é a hora, para acabar sendo retomada anos depois. E, durante esse tempo todo, essas coisas ficam germinando inconscientemente, até eu entender o que elas realmente significam. Foi o que aconteceu com o Nove noites. A notícia no jornal, lida por acaso por um dos narradores no início do romance (e por mim antes de começar a escrevê-lo), serviu na realidade como despertador para um projeto que, sem que eu tivesse consciência, estava pronto para ser escrito.

JPV: O leitor está com você enquanto escreve? Quem é esse leitor para o qual você está escrevendo?
BC: Não. Essa ideia abstrata e onipotente de leitor, pra mim, é castradora. E, hoje, ela se tornou um imperativo. É lógico que você escreve para ser lido. Mas se você diz que não escreve para um leitor, logo te chamam de arrogante, pretensioso. É uma estratégia de marketing fazer o leitor acreditar que escreveram pra ele. Como se fosse um mimo. E quem escreve com um leitor-alvo em mente é publicitário. Tem a ver com a lógica da oferta e da demanda, de corresponder a uma demanda existente. Pra mim, a literatura mais interessante sempre criou demandas impensáveis, que não existiam antes dela. Ninguém podia imaginar que queria ler Kafka antes de Kafka. Ou Beckett antes de Beckett.

JPV: “Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os sentidos que o trouxeram até aqui.” É a terceira frase de Nove noites, que parece umas boas-vindas aos territórios do romance, da ficção. Qual acredita que é o lugar da ficção em nossa época? Qual o valor da ficção ao tratar fatos históricos?
BC: Acho que a ficção está em baixa. É claro que ela continua existindo com a mesma frequência e com a mesma quantidade de antes, mas já não pode dizer o seu nome impune. As pessoas precisam acreditar, hoje elas querem ser crentes. Isso fica óbvio na internet, que é um poço de imposturas. As pessoas querem ler ficção, mas sem esse rótulo, como se fosse não-ficção. Por um lado, é natural, é humano; mas por outro isso representa uma enorme infantilização do público.

JPV: Você diria que seu discurso em uma entrevista ou palestra é uma fala que se desprende de maneira natural da própria obra? Ou você tem que inventar um discurso a posteriori, começando pelo mito de criação: “comecei a escrever o romance quando…”? O ato de escrever não tem muito de inefável?
BC: O que um escritor diz sobre a própria obra não tem necessariamente nada que ver com ela.

JPV: A saideira:
Um livro tão bom que você gostaria de ter escrito.
BC: Tenho vontade de escrever livros que ainda não existem. Mesmo se não forem tão bons.
Um livro tão bom que intimidou você, que fez você duvidar de sua escolha de ser escritor.
Os livros bons não intimidam nem fazem você duvidar da sua escolha de escritor. Os ruins, sim.
Um escritor ao qual você deixaria um ramalhete enorme de flores no túmulo.
Não sou muito de ir a cemitério.

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Trecho de Nove noites:

Isto é para quando você vier. É preciso estar preparado. Alguém terá que preveni-lo. Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os sentidos que o trouxeram até aqui. Pergunte aos índios. Qualquer coisa. O que primeiro lhe passar pela cabeça. E amanhã, ao acordar, faça de novo a mesma pergunta. E depois de amanhã, mais uma vez. Sempre a mesma pergunta. E a cada dia receberá uma resposta diferente. A verdade está perdida entre todas as contradições e os disparates. Quando vier à procura do que o passado enterrou, é preciso saber que estará às portas de uma terra em que a memória não pode ser exumada, pois o segredo, sendo o único bem que se leva para o túmulo, é também a única herança que se deixa aos que ficam, como você e eu, à espera de um sentido, nem que seja pela suposição do mistério, para acabar morrendo de curiosidade. Virá escorado em fatos que até então terão lhe parecido incontestáveis. Que o antropólogo americano Buell Quain, meu amigo, morreu na noite de 2 de agosto de 1939, aos vinte e sete anos. Que se matou sem explicações aparentes, num ato intempestivo e de uma violência assustadora. Que se maltratou, a despeito das súplicas dos dois índios que o acompanhavam na sua última jornada de volta da aldeia para Carolina e que fugiram apavorados diante do horror e do sangue. Que se cortou e se enforcou. Que deixou cartas impressionantes mas que nada explicam. Que foi chamado de infeliz e tresloucado em relatos que eu mesmo tive a infelicidade de ajudar a redigir para evitar o inquérito. Passei anos à sua espera, seja você quem for, contando apenas com o que eu sabia e mais ninguém, mas já não posso contar com a sorte e deixar desaparecer comigo o que confiei à memória. Também não posso confiar a mãos alheias o que lhe pertence e durante todos estes anos de tristezas e desilusões guardei a sete chaves, à sua espera. Me perdoe. Não posso me arriscar. Já não estou em condições ou idade de desafiar a morte. Amanhã pego a balsa de volta para Carolina. Mas antes deixo este testamento para quando você vier e deparar com a incerteza mais absoluta. (continue lendo)

Semana oitenta e oito

Os lançamentos da semana são:

1922 – A semana que não terminou, de Marcos Augusto Gonçalves
Na noite de 13 de fevereiro de 1922, curiosos, estudantes, figurões da política e sobrenomes de tradicionais famílias paulistas compareceram ao Teatro Municipal para a inauguração da Semana de Arte Moderna. Iniciativa de representantes da elite de São Paulo e de talentos da nova geração, como o pintor Di Cavalcanti e os escritores Mário e Oswald de Andrade, a Semana, com o passar dos anos, transformou-se numa espécie de mito sobre a fundação da cultura moderna no Brasil. Noventa anos depois, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves mescla reportagem e relato histórico para revisitar os principais fatos e personagens da semana mais polêmica do país.

Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos (Tradução de Andreia Moroni)
Tochtli é um pequeno príncipe herdeiro do narcotráfico mexicano. Fechado numa fortaleza no meio do nada, engana a solidão colecionando chapéus e palavras exóticas. Ele também tem uma ideia fixa: completar seu minizoológico com hipopótamos anões da Libéria e é bem capaz de conseguir que o rei, Yolcault, atenda seu desejo. Involuntariamente assustador e hilário em sua cândida crueldade, Tochtli relata sua própria educação sentimental, mostrando o coração do crime para além do bem e do mal. Nas ingênuas e disparatadas especulações desse improvisado detetive-antropólogo, atravessadas por suas fantasias e caprichos infantis, revela-se um quadro sinistro e doce como uma caveira de açúcar. Leia o post sobre a capa do livro, e um texto do autor.

Chamadas telefônicas, de Roberto Bolaño (Tradução de Eduardo Brandão)
O autor chileno compôs uma série de histórias breves, com desfechos inesperados, ocasionalmente abruptos, que abrem caminho para múltiplas interpretações. São tramas que muitas vezes ocultam mais do que revelam sobre seus personagens. O universo da literatura é tema recorrente na obra de Bolaño, e confere o eixo da primeira parte do livro. Na segunda parte, em que o espectro metaliterário cede lugar à violência, os leitores de Bolaño reencontrarão personagens já conhecidos. A sensação de déjá-vu estende-se também à terceira e última parte, protagonizada por personagens femininas indecifráveis, cujas ações nunca são inteiramente compreendidas.Ao repetir personagens e cenas, Bolaño constrói, livro a livro, um vasto universo ficcional. As breves narrativas de Chamadas telefônicas são assim tanto um complemento para ávidos leitores do autor quanto uma porta de entrada para esse território de figuras solitárias e deslocadas.

O xá dos xás, de Ryszard Kapuscinski (Tradução de Tomasz Barcinski)
Mohammed Reza Pahlevi governou o Irã por 25 anos. Após meses de manifestações populares nas ruas das principais cidades do país, o xá renunciou em janeiro de 1979. Imagens da revolução rodaram o mundo, mas poucos cronistas foram capazes de compreender as bases desse impressionante levante popular. Imiscuindo-se no cotidiano dos cidadãos comuns de Teerã, Ryszard Kapuscinski ouviu dezenas de anônimos, recortou pequenos textos de jornais locais, atentou para fotos antigas, coletou relatos de crianças. Assim nasceu O xá dos xás, não apenas a mais abrangente reportagem sobre a Revolução Iraniana como um relato sensível da experiência vivida pelo repórter naquele país.

Miguel Street, de V.S. Naipaul (Tradução de Rubens Figueiredo)
Um estranho podia passar de carro pela Miguel Streel e dizer apenas: “Favela!”, porque não conseguia enxergar mais nada. No entanto nós que morávamos lá víamos nossa rua como um mundo, onde cada um era completamente diferente do resto. Homem-homem era maluco; George era burro; Pé Grande era brigão; Hat era um aventureiro; Popo era um filósofo; e Morgan era nosso comediante.

O Estado como obra de arte, de Jacob Burckhardt (Tradução de Sergio Tellaroli)
A partir do século XIV, numerosos tiranos e déspotas começam a tomar o poder nos pequenos Estados da Península Italiana, então dividida entre as influências antagônicas da Igreja e do imperador germânico. Valendo-se de métodos ilegítimos e quase sempre sangrentos, os Baglioni de Peruga, os Sforza de Milão, os Médici de Florença, entre outros, estabeleceram ferozes ditaduras em seus domínios. Ao mesmo tempo, todo uma nova classe de intelectuais e artistas surge em torno das suntuosas cortes desses príncipes, criando as condições para o Renascimento. Em O Estado como obra de arte, primeira parte de A cultura do Renascimento na Itália, Jacob Burckhardt analisa a tumultuada evolução política dos Estados italianos durante um dos períodos mais decisivos da história do Ocidente.

Uma oferenda para o menino Tochtli

Por Elisa von Randow

Muitas vezes me perguntam de onde vem a inspiração para fazer as capas de livros. Gosto de dizer que vem do próprio livro, ou seja, do estilo da escrita, da história, das emoções que vão aparecendo ao longo da leitura, dos personagens… Sempre achei que ler o livro já é meio caminho andado para desenhar uma boa capa. Mas às vezes a ideia surge durante uma conversa, um filme ou até mesmo um jantar, como foi neste caso que vou contar.

No dia 31 do último outubro, fui convidada para um jantar especial para comemorar o Día de Muertos, uma das principais celebrações na cultura mexicana. Num cantinho escondido de Pinheiros, um portão insuspeito se tornou uma verdadeira passagem mágica para o México! A sala da residência, transformada em restaurante, vibrava à luz de velas e bandeiras coloridas. O cheiro de pozole prometia um jantar picante e diferente.

Mal nos acomodamos e as tequilas mais deliciosas começaram a circular. O anfitrião de mãos tatuadas com caveiras ia nos contando sobre a origem pré-hispânica da tradição, enquanto os poderes do mezcal começavam a fazer efeito. Bem ao lado da nossa mesa, havia um grande altar, repleto de oferendas e fotografias dos verdadeiros convidados da festa: amigos e parentes, habitantes do mundo das almas.
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Passei boa parte da noite hipnotizada por este altar. Para começar, era impossível registrar num só olhar tudo o que ali estava exposto: frutas, doces, flores, tecidos, objetos, velas, caveiras de açúcar, fitas, bandeiras, objetos sobrepostos e organizados de forma harmoniosa e rica. Dentre as coisas que mais me cativaram estavam as bandeirolas coloridas, feitas de papel de seda, recortadas com delicadeza e maestria.
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À meia noite em ponto as velas do altar foram acesas e o galante Don Felipe seguia explicando que aquela noite era dedicada especialmente aos niños muertos. Já bastante impressionada com tudo aquilo, imaginava a sala recebendo a visita de crianças do além, enquanto eu mastigava o meu Pan de Muerto com chocolate mexicano quente…

Muito bem. Dias depois, comecei a ler o original de um novo livro, para o qual deveria fazer a capa: Festa no covil. Já na primeira página, o pequeno Tochtli me tomou a mão e me carregou para um mundo que não era bem o dos mortos, mas era tão impressionante quanto. Parecia que uma pequena fresta daquele altar mexicano havia ficado aberta para o universo sinistro e delirante da criança fantasma.

Mãos na massa, voltei mentalmente àquele jantar, às cores, às caveiras e comecei a desenhar. Queria fazer uma oferenda a Tochtli. A bandeirinha começou a se formar com o nome do autor, as velas, o título em letras bem desenhadas, flores, fitas, duas pombinhas, corações…. mas ainda faltava alguma coisa… sim, claro! os hipopótamos anões da Libéria que o garoto genial e mimado tanto queria!

Na produção, decidimos usar cores puras e bem vibrantes. Queríamos que a capa refletisse a acidez do humor de Tochtli. Um verniz fosco sobre o desenho se encarregaria de criar o volume, como se fosse realmente uma folha de seda pousada sobre a capa.

E assim, com uma certa ajuda das almas do outro mundo (e um pouco de tequila), nasceu mais uma capa!

[Festa no covil chega às livrarias hoje. Leia o post do autor, Juan Pablo Villalobos.]

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Elisa von Randow é designer (sua babysitter era uma bibliotecária). http://www.elisavonrandow.com/

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