Por Leandro Sarmatz

Otto Lara Resende (esq.) com Pedro Nava (Coleção Otto Lara Resende / Acervo Instituto Moreira Salles)
Ele era daquele tipo a quem não se podia perguntar “como vai?”. Porque ele respondia, explicava, entrava em pormenores. Sentia-se em dívida com meio mundo. Rodeado de amigos, outros grandes autores, jornalistas, poetas, personalidades da TV, políticos. O grand monde do Rio de Janeiro dos chamados “anos dourados”. Mas sempre com uma saudadezinha danada da solidão primordial. Não evitava os encontros. Muito pelo contrário — conhecia, frequentava, trocava mil e uma confidências, escrevia à beça, se doava. Obcecado pela palavra escrita. Literatura, reportagem, editorial. E também carta, bilhete, anotação. Escrevia tanto que houve um tempo em que passou a desconfiar do próprio talento e da facilidade com que entregava um texto limpinho, sem rasuras. Modéstia cevada pelo catolicismo mineiro e por uma pontinha de tipo, vai saber. Seu estilo, uma mistura de conversa machadiana sincopada pela melhor prosa pós-22 e pelo jornalismo moderno que começou a ser praticado por sua geração, era único em qualquer modalidade: ficção, crônica, e até mesmo a formidável coleção de cartas que trocou com amigos ao longo da vida.
O texto de Otto Lara Resende (1922-1992) corria tão bem e tinha tanta bossa que, depois de algum tempo trabalhando sobre os livros dele, fica meio difícil não querer chegar — por mais impossível que seja, claro — um pouco mais perto do autor. Principalmente para quem não o conheceu pessoalmente mas começou a lê-lo nos anos 90, primeiro na página 2 da Folha de S. Paulo, depois nas edições que a Companhia das Letras fez a partir de 93. Naquele tempo, com sua presença física ainda bastante palpável entre amigos e admiradores como Fernando Sabino e Paulo Francis, Otto já era visto como um desses autores que merecem mais e mais atenção. Hoje, quase vinte anos depois de sua morte, ele está ganhando o tamanho que merece. Nada menos que um clássico brasileiro.
Clássico mesmo, desses que com o passar do tempo vão ocupando um papel mais e mais importante em nossas leituras, deliciando sucessivas gerações. É por isso que, a partir dessa semana, dois lançamentos — escoltados por eventos no Rio e em São Paulo — pretendem dar um novo fôlego a essa conversa admirável chamada Otto Lara Resende.
Bom dia para nascer e O Rio é tão longe inauguram a Coleção Otto Lara Resende, um projeto muito querido para todos que estão participando: o tarimbado jornalista Humberto Werneck, organizador das obras de Otto, a designer Mariana Lara, neta do mineiro e responsável pelo projeto gráfico da coleção, Matinas Suzuki Jr,. diretor-executivo da editora que, nos anos 90, conseguiu levar Otto à página 2 da Folha, e mais toda uma turma (alô, Fabiana, Andressa, Fábio e Ana Laura!) que gramou durante meses para que os dois primeiros livros da coleção ficassem nada menos que estupendos.
E estão mesmo. Bom dia para nascer traz as crônicas de Otto no jornal paulista, deliciosas observações que cobrem um espectro amplo. Fala de eventos aziagos da política da época (Fernando Collor, PC Farias), de literatura (Nelson Rodrigues, Clarice Lispector), de etimologia (uma de suas paixões de insone) e, claro, daqueles tópicos que ajudaram a estabelecer o gênero desde José de Alencar e Machado de Assis: a passagem do tempo e das estações, a falta de assunto para preencher uma página, a juventude perdida para sempre em algum lugar do passado. Originalmente publicado pouco depois da morte do autor, desta vez o livro vem acrescido por mais de setenta textos garimpados por Humberto Werneck. Não seria exagero nenhum enfileirar a crônica de Otto às melhores do gênero, aquelas de Rubem Braga e Paulo Mendes Campos.
Surpresa das grandes — porque inédita e porque, como diz Humberto, talvez abra nossos olhos para uma das melhores facetas do autor —, O Rio é tão longe captura um Otto pessoal, confessional, doce e amargo em cartas ao amigo Fernando Sabino. Missivista prodigioso e incansável, Otto talvez não tenha paralelos entre nossos autores contemporâneos. Escrevia muito, e sempre num nível gigantesco. Suas cartas podem ser lidas como crônicas, e até como contos. E nem precisam falar de grandes proezas. Bastava Otto olhar para alguém ou algo — um porteiro de prédio em Lisboa, um maço de cigarros comprado em Paris —, que logo seu toque de midas transformava o assunto em ouro. Ouro em prosa.
Leia uma crônica de Bom dia para nascer:
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Outra fachada
Por Otto Lara Resende
Foi na passagem do ano, em Angra dos Reis. Mais uma vez eu me encontrava num momento de transição. O fm do ano traz, inconsciente, esse desejo de mudar. Só me dei conta disso há pouco tempo, vendo a minha carteira profssional. Várias demissões no mês de dezembro. Época do Advento, Natal à vista, uma força nos impele e a gente admite que é possível recomeçar. O que passou e o que virá.
Essa pretensão de me reinaugurar. Pulsa nela uma expectativa que se abre, quase eufórica. Um alvoroço de asas. Deixar para trás o arquivo morto, fechar a porta, selada como um túmulo. É preciso morrer para renascer. Os opostos se misturam, mas se impõe no horizonte uma promessa de aurora. Pouco importa que não seja clara. Tanto melhor. Há na penumbra, nesse claro-escuro, uma nota propícia. Esse respiro que se acelera e exalta.
Poxa, quanta filigrana para chegar aonde eu quero. Visto pelo lado de fora, é só isto: deixei a barba crescer. Mudei a fachada. A gente na vida deve ter uma cara só. Se é raspada, vá raspada até o fim. Barba, pera, cavanhaque, costeletas. Os vários bigodes, cheio, fno, de pontas. Passa-piolho, ou em leque. Feita a escolha, que esteja feita. Adolescente, preservei intocado o recente buço. No afã de ser adulto, virou bigode sem conhecer navalha.
Até que um dia deitei-o abaixo aqui no Rio, no barbeiro da Associação Cristã de Moços. Estava feita a minha opção. Vou de cara limpa, escanhoada. Aí estou um dia em Angra, fim de ano, começo de ano, e não fiz a barba. Eu mais que vivido. Revivido. Três, quatro dias e, mais depressa do que esperava, a barba compareceu. Hirsuta, como intratável se pretendia o remoto bigode adolescente. Com o tempo, eu saía de manhã pra andar com o Hélio Pellegrino, de repente ele estacava.
E me olhava, estupefato. Começava a rir. Eu não era eu. Aquele barbaças, ainda por cima a barba branca, se metia entre nós. O Hélio me fitava e em vão me procurava. E ria. Curioso é que a princípio me deu a maior força. Barba de protesto, dizia ele. De desgosto, dizia eu. Desgosto de quê? Já não sei, nunca soube. Talvez estivesse cansado de mim. Aí chegou julho. Aniversário da minha mãe e da minha filha Helena. Que presente me pediram? Raspar a barba! Raspei — e isso é outra história.
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Leandro Sarmatz trabalha na reedição das obras completas de Otto Lara Resende e Carlos Drummond de Andrade, entre outros projetos.
Eventos de homenagem a Otto Lara Resende:
São Paulo:
Bate-papo com Humberto Werneck, Ruy Castro e Matinas Suzuki Jr.
Quarta-feira, 7 de dezembro, às 20h
Folha de S. Paulo – Auditório
Rua Barão de Limeira, 425
Inscrições pelo e-mail eventofolha@grupofolha.com.br ou pelo telefone (11) 3224-3473, das 14h às 19h. Lugares limitados à lotação da sala.
Rio de Janeiro:
Bate-papo com Humberto Werneck e Wilson Figueiredo. Mediação de Flávio Pinheiro.
Quinta-feira, 8 de dezembro, às 20h
IMS – Instituto Moreira Salles
Av. Marquês de São Vicente, 476 – Gávea
Ingressos à venda a partir do dia 1º de dezembro na recepção do IMS. Até 2 ingressos por pessoa, R$10/inteira e R$5/meia. Bilheteria aberta de 3ª a 6ª, das 13h às 20h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h.