leandro sarmatz

Quem é quem na Companhia das Letras

Nome: Leandro Sarmatz

Há quanto tempo trabalha na editora? 1 ano e quase dois meses

Função: Sou editor. Trabalho na coleção Carlos Drummond de Andrade — eu só não digo que deveria pagar para trabalhar com os livros de Drummond porque isso poderia provocar ideias pouco ortodoxas junto ao RH e, pfui, como eu haveria de garantir o leite Ninho da minha pequena? —, edito Otto Lara Resende, Pedro Nava e em breve Paulo Mendes Campos. E, junto com a formidável Vanessa Ferrari, edito os títulos de ficção da Penguin-Companhia.

Um livro: UTZ, de Bruce Chatwin.

Uma citação ou passagem de livro: “Dai-me, Senhor, coragem e alegria / para escalar o cume deste dia.” Borges, num poema sobre a leitura de Ulysses.

Sua parte favorita do trabalho: Imaginar como serão os livros que ainda não existem.

O aniversariante do dia

Por Leandro Sarmatz


Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos.

Paulo Mendes Campos, que será reeditado a partir do segundo semestre pela Companhia das Letras, estaria soprando noventa velinhas neste 28 de fevereiro. Nasceu em 1922, ano mítico para a cultura brasileira. A Semana de Arte Moderna antecedeu-lhe por exatos dez dias. Seus ecos não demorariam a chegar à Belo Horizonte do futuro autor, como sabem os leitores de O desatino da rapaziada, de Humberto Werneck (que será reeditado em julho), e o recente Cenas de um modernismo de província, de Ivan Marques (Editora 34). Mas o ano de nascença do mineiro foi do balacobaco também em inglês (apareceram Ulysses, de Joyce, e The Waste Land, de T.S. Eliot) e francês (Proust colocou o asmático ponto final em seu Em busca do tempo perdido), línguas e literaturas com as quais Paulo Mendes Campos se fez íntimo ao longo do tempo.

Coincidências, aproximações, histórias paralelas. É de um pouco disso que toda uma cultura é feita. Ainda na capital mineira, Paulo Mendes Campos iria roçar cotovelos com outros moços metidos a literatos. Seria uma amizade — sujeita a trancos, barrancos, bebedeiras e reconciliações — até o fim. Pois com Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Hélio Pellegrino ele iria ser um dos “quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”. Nenhum drama em especial, a não ser, claro, aquele comum às vidas de todos nós. No início da idade adulta, os quatro iriam se estabelecer no Rio de Janeiro, àquela altura um ímã para artistas e escritores de todos os quadrantes do Brasil.

Estreou na poesia em 1951 com A palavra escrita. Rezando pelo evangelho de Carlos Drummond de Andrade, mas nunca derivativo, é um poeta que merece ser relido, reavaliado. O diabo é que ele apareceu justamente na rabiola da Geração de 45 (que promoveu uma guinada rumo ao passado) e nas primeiras horas que antecederam o Concretismo (que só vislumbrava o futuro). Os poemas de PMC, tão bem assentados ao presente, líricos mas nunca sentimentais, ficariam um pouco à margem desses movimentos tão contrastantes. O que de certa forma contribuiu para que sua poesia fosse menos lida do que merecia.

Não foi o caso da prosa. Com Sabino e Rubem Braga em seu tempo, e com o Otto dos anos finais, Paulo Mendes Campos foi nada menos que um clássico da crônica. Livros como Hora do recreio e Diário da tarde dão testemunho desse talento para o texto mais breve que toca as alturas. Não é pouca coisa. Tenho para mim que um pouco do melhor espírito brasileiro se dá melhor nas ditas “artes menores”. Conversa para boi adorniano dormir, isso de menor ou maior, claro. Mas o fato é que triunfamos nessas modalidades menos consideradas. Veja nossa música popular ou nossas artes gráficas (como a caricatura, a charge e o quadrinho). Na crônica, que não é o mero essay dos ingleses, mas algo diverso — ela é também herdeira do romance de costumes carioca, daí sua agudeza para observar a vida mais comezinha —, PMC alargou os limites do gênero, incluindo, além das habituais observações líricas e cômicas, o rigor e o apetite de um leitor cultíssimo da melhor literatura brasileira e universal.

Claro que ele falava de Ipanema, do chope, da praia e da vizinha que passa. Falava também dos amigos, das mudanças nos costumes, das noites mais escuras da alma, do nosso provincianismo cultural. Tudo isso, todas essas delícias ou mazelas, são incontornáveis para qualquer grande cronista. Mas Paulo Mendes Campos não ficava apenas à beira-mar. Como novas gerações poderão comprovar a partir da leitura das reedições de seus livros aqui pela Companhia das Letras, o mineiro foi um soberbo tradutor de poesia (Borges, Whitman, Larkin e outros), leitor-ensaísta fino e perspicaz (seus juízos acerca de autores como Pedro Nava, Vinicius, Pessoa e Conrad são dignos da nossa melhor crítica), jornalista literário ousado que chegou a tomar LSD para escrever uma reportagem antológica. Um autor a um só tempo atraente, profundo, popular e inventivo.

O aniversariante de hoje morreu no Rio de Janeiro, em 1º de julho de 1991. Em uma crônica sentida, reproduzida em Bom dia para nascer, Otto Lara Resende lamenta a morte do amigo. Um homem que, hoje sabemos mais do que nunca, foi uma das figuras mais talentosas das letras brasileiras em qualquer tempo.

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Chegamos juntos ao mundo

Por Otto Lara Resende

Apesar da minha aversão a relógio de madrugada, assim que acordei olhei as horas. Eram quatro e dez, como eu adivinhava. Cansado, e essa crueldade de me acordar tão cedo. Escuro lá fora, passei os olhos pela pilha de livros. Ia pegando a Bíblia quando vi no chão o tabloide aberto: “O bêbado”. O poema é antigo: por que republicado logo agora? Um erro de impressão pôs uma bomba onde há uma pomba: “Do mais alto beiral nasce uma bomba”.

Como o sono também levanta voo, passo ao escritório. Um, dois, três livros do Paulo Mendes Campos, atrás de “O bêbado”. Vou repassando dedicatórias, crônicas, versos e saudades. Recortes amarelecidos de jornal. Paro na entrevista feita por Maria Julieta Drummond de Andrade: “Quem é você, Paulinho?”. PMC estava chegando aos sessenta e dois anos de idade: “Sou um sujeito familiar, que gosta das pessoas do seu sangue e do time de amigos que foi formando pela vida afora”.

Afinal, cá está o bêbado. No A palavra escrita. Está republicado sem uma única modificação. Falta, porém, o espaço em branco que separa a fala dos que andamos certos e orgulhosos na manhã, diante desse ser obscuro. Releio a orelha que escrevi para Poemas, 1979: “Chegamos juntos ao mundo, ele e eu. Dezesseis anos depois, ele e eu concluíamos em São João del Rei o que então se chamava, e era, o curso de humanidades. É bem provável que nos tivéssemos por preparados. Para quê? Para a vida. E logo para as letras”.

Há quarenta e oito horas, em Belo Horizonte, me dei conta de que me encontrava no que hoje lá se chama o Savassi. Meu irmão Márcio parou o carro e descemos. A pé, passo a passo, fui reconstituindo o que era no nosso tempo o Abrigo Pernambuco. Onde está a casa do Paulo? Desorientado, eu confundia Paraúna com Cristóvão Colombo, ou Contorno. Até os nomes desapareceram. Como se chama esta praça?

Bem visível, lá está a placa: praça Diogo de Vasconcelos. Ainda bem que nas crônicas e nos poemas do Paulo reencontro a nossa Belo Horizonte. E o adro da igreja de são Francisco de Assis, em São João del Rei. O nosso primeiro universo. Nossa pátria pequena, Minas. Daí a pouco, Joan telefona: o Paulo morreu. Não, não estamos preparados. Confuso sentimento de que era preciso ter feito alguma coisa. Sim, era previsível. Mas não precisava ser irreparável. 03/07/1991

Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos.
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Leandro Sarmatz trabalha na reedição das obras completas de Otto Lara Resende e Carlos Drummond de Andrade, entre outros projetos.

Uma conversa chamada Otto Lara Resende

Por Leandro Sarmatz


Otto Lara Resende (esq.) com Pedro Nava (Coleção Otto Lara Resende / Acervo Instituto Moreira Salles)

Ele era daquele tipo a quem não se podia perguntar “como vai?”. Porque ele respondia, explicava, entrava em pormenores. Sentia-se em dívida com meio mundo. Rodeado de amigos, outros grandes autores, jornalistas, poetas, personalidades da TV, políticos. O grand monde do Rio de Janeiro dos chamados “anos dourados”. Mas sempre com uma saudadezinha danada da solidão primordial. Não evitava os encontros. Muito pelo contrário — conhecia, frequentava, trocava mil e uma confidências, escrevia à beça, se doava. Obcecado pela palavra escrita. Literatura, reportagem, editorial. E também carta, bilhete, anotação. Escrevia tanto que houve um tempo em que passou a desconfiar do próprio talento e da facilidade com que entregava um texto limpinho, sem rasuras. Modéstia cevada pelo catolicismo mineiro e por uma pontinha de tipo, vai saber. Seu estilo, uma mistura de conversa machadiana sincopada pela melhor prosa pós-22 e pelo jornalismo moderno que começou a ser praticado por sua geração, era único em qualquer modalidade: ficção, crônica, e até mesmo a formidável coleção de cartas que trocou com amigos ao longo da vida.

O texto de Otto Lara Resende (1922-1992) corria tão bem e tinha tanta bossa que, depois de algum tempo trabalhando sobre os livros dele, fica meio difícil não querer chegar — por mais impossível que seja, claro — um pouco mais perto do autor. Principalmente para quem não o conheceu pessoalmente mas começou a lê-lo nos anos 90, primeiro na página 2 da Folha de S. Paulo, depois nas edições que a Companhia das Letras fez a partir de 93. Naquele tempo, com sua presença física ainda bastante palpável entre amigos e admiradores como Fernando Sabino e Paulo Francis, Otto já era visto como um desses autores que merecem mais e mais atenção. Hoje, quase vinte anos depois de sua morte, ele está ganhando o tamanho que merece. Nada menos que um clássico brasileiro.

Clássico mesmo, desses que com o passar do tempo vão ocupando um papel mais e mais importante em nossas leituras, deliciando sucessivas gerações. É por isso que, a partir dessa semana, dois lançamentos — escoltados por eventos no Rio e em São Paulo — pretendem dar um novo fôlego a essa conversa admirável chamada Otto Lara Resende.

Bom dia para nascer e O Rio é tão longe inauguram a Coleção Otto Lara Resende, um projeto muito querido para todos que estão participando: o tarimbado jornalista Humberto Werneck, organizador das obras de Otto, a designer Mariana Lara, neta do mineiro e responsável pelo projeto gráfico da coleção, Matinas Suzuki Jr,. diretor-executivo da editora que, nos anos 90, conseguiu levar Otto à página 2 da Folha, e mais toda uma turma (alô, Fabiana, Andressa, Fábio e Ana Laura!) que gramou durante meses para que os dois primeiros livros da coleção ficassem nada menos que estupendos.

E estão mesmo. Bom dia para nascer traz as crônicas de Otto no jornal paulista, deliciosas observações que cobrem um espectro amplo. Fala de eventos aziagos da política da época (Fernando Collor, PC Farias), de literatura (Nelson Rodrigues, Clarice Lispector), de etimologia (uma de suas paixões de insone) e, claro, daqueles tópicos que ajudaram a estabelecer o gênero desde José de Alencar e Machado de Assis: a passagem do tempo e das estações, a falta de assunto para preencher uma página, a juventude perdida para sempre em algum lugar do passado. Originalmente publicado pouco depois da morte do autor, desta vez o livro vem acrescido por mais de setenta textos garimpados por Humberto Werneck. Não seria exagero nenhum enfileirar a crônica de Otto às melhores do gênero, aquelas de Rubem Braga e Paulo Mendes Campos.

Surpresa das grandes — porque inédita e porque, como diz Humberto, talvez abra nossos olhos para uma das melhores facetas do autor —, O Rio é tão longe captura um Otto pessoal, confessional, doce e amargo em cartas ao amigo Fernando Sabino. Missivista prodigioso e incansável, Otto talvez não tenha paralelos entre nossos autores contemporâneos. Escrevia muito, e sempre num nível gigantesco. Suas cartas podem ser lidas como crônicas, e até como contos. E nem precisam falar de grandes proezas. Bastava Otto olhar para alguém ou algo — um porteiro de prédio em Lisboa, um maço de cigarros comprado em Paris —, que logo seu toque de midas transformava o assunto em ouro. Ouro em prosa.

Leia uma crônica de Bom dia para nascer:

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Outra fachada

Por Otto Lara Resende

Foi na passagem do ano, em Angra dos Reis. Mais uma vez eu me encontrava num momento de transição. O fm do ano traz, inconsciente, esse desejo de mudar. Só me dei conta disso há pouco tempo, vendo a minha carteira profssional. Várias demissões no mês de dezembro. Época do Advento, Natal à vista, uma força nos impele e a gente admite que é possível recomeçar. O que passou e o que virá.

Essa pretensão de me reinaugurar. Pulsa nela uma expectativa que se abre, quase eufórica. Um alvoroço de asas. Deixar para trás o arquivo morto, fechar a porta, selada como um túmulo. É preciso morrer para renascer. Os opostos se misturam, mas se impõe no horizonte uma promessa de aurora. Pouco importa que não seja clara. Tanto melhor. Há na penumbra, nesse claro-escuro, uma nota propícia. Esse respiro que se acelera e exalta.

Poxa, quanta filigrana para chegar aonde eu quero. Visto pelo lado de fora, é só isto: deixei a barba crescer. Mudei a fachada. A gente na vida deve ter uma cara só. Se é raspada, vá raspada até o fim. Barba, pera, cavanhaque, costeletas. Os vários bigodes, cheio, fno, de pontas. Passa-piolho, ou em leque. Feita a escolha, que esteja feita. Adolescente, preservei intocado o recente buço. No afã de ser adulto, virou bigode sem conhecer navalha.

Até que um dia deitei-o abaixo aqui no Rio, no barbeiro da Associação Cristã de Moços. Estava feita a minha opção. Vou de cara limpa, escanhoada. Aí estou um dia em Angra, fim de ano, começo de ano, e não fiz a barba. Eu mais que vivido. Revivido. Três, quatro dias e, mais depressa do que esperava, a barba compareceu. Hirsuta, como intratável se pretendia o remoto bigode adolescente. Com o tempo, eu saía de manhã pra andar com o Hélio Pellegrino, de repente ele estacava.

E me olhava, estupefato. Começava a rir. Eu não era eu. Aquele barbaças, ainda por cima a barba branca, se metia entre nós. O Hélio me fitava e em vão me procurava. E ria. Curioso é que a princípio me deu a maior força. Barba de protesto, dizia ele. De desgosto, dizia eu. Desgosto de quê? Já não sei, nunca soube. Talvez estivesse cansado de mim. Aí chegou julho. Aniversário da minha mãe e da minha filha Helena. Que presente me pediram? Raspar a barba! Raspei — e isso é outra história.

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Leandro Sarmatz trabalha na reedição das obras completas de Otto Lara Resende e Carlos Drummond de Andrade, entre outros projetos.

Eventos de homenagem a Otto Lara Resende:

São Paulo:
Bate-papo com Humberto Werneck, Ruy Castro e Matinas Suzuki Jr.
Quarta-feira, 7 de dezembro, às 20h
Folha de S. Paulo – Auditório
Rua Barão de Limeira, 425
Inscrições pelo e-mail eventofolha@grupofolha.com.br ou pelo telefone (11) 3224-3473, das 14h às 19h. Lugares limitados à lotação da sala.

Rio de Janeiro:
Bate-papo com Humberto Werneck e Wilson Figueiredo. Mediação de Flávio Pinheiro.
Quinta-feira, 8 de dezembro, às 20h
IMS – Instituto Moreira Salles
Av. Marquês de São Vicente, 476 – Gávea
Ingressos à venda a partir do dia 1º de dezembro na recepção do IMS. Até 2 ingressos por pessoa, R$10/inteira e R$5/meia. Bilheteria aberta de 3ª a 6ª, das 13h às 20h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h.

O dia D

Por Leandro Sarmatz

Aquele Dia D foi antecedido ― código, senha, charada ― por um poema, veja só. Entre os dias 1º e 5 de junho de 1944, a Rádio Londres transmitiu, levemente modificados, os primeiros versos do poema “Canção de outono”, do simbolista francês Paul Verlaine. Era a deixa para que a resistência francesa ficasse atenta ao iminente desembarque aliado nas praias da Normandia, feito conhecido como Dia D. O resto, você sabe, é História, uma penca de livros e filmes a granel.

O dia de hoje também é histórico. Mas ― por favor, ponha essa baioneta de lado ― não tem nada a ver com sangue, suor e lágrimas. Muito pelo contrário. Hoje é dia do aniversário de Carlos Drummond de Andrade, nascido num 31 de outubro itabirano, 109 anos atrás. E Drummond, você já deve saber, é autor da Companhia das Letras. A partir de março de 2012 os livros do poeta mineiro virão com novo projeto gráfico, texto estabelecido por especialistas, posfácios esclarecedores, indicações de leitura. A coisa está ficando bonita. Além disso, CDA será o autor homenageado da próxima Flip: Paraty será tomada pelos versos que ― hoje ― já são parte do ethos brasileiro.

(Parêntese: Borges costumava dizer que a verdadeira glória de um poeta é quando seus versos circulam por todas as bocas como se fossem ditos anônimos e imemoriais, ciranda, história da carochinha. Drummond conseguiu essa façanha com os celebérrimos “E agora José?”, “Perdi o bonde e a esperança” e “No meio do caminho tinha uma pedra”, entre outros versos que se tornaram verdadeiras pedras de toque do nosso imaginário.)

Por ora e por hoje, o Instituto Moreira Salles (que teve essa ideia de converter o 31 de outubro num dia de celebração da poesia e da obra de Drummond) conta com uma ótima programação para este Dia D. São debates, projeções de filmes e diversas homenagens no Rio, em São Paulo e até em Lisboa. Recomendamos vivamente.

Porque Drummond quase não tem rivais no século XX. Isso em qualquer língua literária. Nenhum exagero. O mineiro está ombro a ombro com outros maiorais como Fernando Pessoa, T.S. Eliot, Montale, Auden e poucos outros. Seu registro poético não ocupa apenas o nível literário. Tem alcance emocional, dimensão política, escopo filosófico.  Amor, memória, imaginação e uma visão a um só tempo lírica e corrosiva do Brasil ocupam esta obra numerosa (mais de 40 títulos) que, em breve, estará de volta em grande estilo às livrarias.

Por essas e outras dá para perceber que a responsa, claro, é de gente grande. Além dos diversos profissionais da editora envolvidos no processo (a bem da verdade, a editora in-tei-ra está movendo mundos e fundos pela coleção Carlos Drummond de Andrade), foi constituído um conselho editorial com algumas das melhores cabeças de qualquer geração: o crítico Davi Arrigucci Jr., Luis Mauricio e Pedro Augusto Graña Drummond (figuras ativas na divulgação da obra do avô), o poeta e professor Eucanaã Ferraz, o crítico e imortal Antônio Carlos Secchin e o professor, tradutor e editor Samuel Titan Jr.. É a partir de muito latim gasto no conselho que decisões editoriais simples (texto de orelha? Claro.) e complexas (esta arte de capa sintetiza o espírito do livro? Melhor procurar outra.) são tomadas.

E tudo em torno de Drummond ― reuniões, decisões, conversas de corredor que redundam em grandes sacadas editoriais ― tem sido feito com um bruta entusiasmo.  “As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase”, escreveu o poeta em “A flor e a náusea” (de A rosa do povo). Troque ênfase por paixão e você terá um instagram completo de como estará a vida aqui na editora nos próximos meses.

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Leandro Sarmatz trabalha na reedição das obras completas de Carlos Drummond de Andrade na Companhia das Letras, entre outros projetos.