marçal aquino

Má Companhia em vídeo

Em março nós lançamos o selo Má Companhia, dedicado a obras polêmicas. Por enquanto já estão disponíveis Tanto faz & Abacaxi, de Reinaldo Moraes, e O invasor, de Marçal Aquino. Em breve Não há nada lá, de Joca Reiners Terron, também fará parte da coleção.

Para vocês conhecerem um pouco mais sobre os livros, pedimos para várias pessoas lerem um trecho deles, e o resultado foi o seguinte:

Semana quarenta e cinco

Os lançamentos da semana são:

Tanto faz & Abacaxi, de Reinaldo Moraes
De volta às livrarias, o lirismo deliciosamente pornográfico destes dois romances cult.
Ricardo de Mello é o herói-narrador de Tanto faz — o garotão à beira dos 30 que deixa um emprego burocrático em São Paulo para morar em Paris, com um ano de bolsa de estudos num curso de economia. Mas seu verdadeiro projeto é ser escritor. E ele logo pula fora da faculdade para investir numa vida aventureira e desregrada, animada com bebida, haxixe, drogas mais pesadas e as dezenas de girls que vai seduzindo.
Depois de um ano de esbórnia em Paris, é hora de voltar para casa. E é essa volta, com escala em Nova York e no Rio, que ele narra em Abacaxi, polvilhada de cenas de sexo ou escatológicas e toda sorte de jorros e fluidos.
Transgressores para a época e ainda capazes de chocar qualquer cidadão, Tanto faz e Abacaxi escancaram o talento de um grande escritor, com seus achados linguísticos, diálogos hilários e um cruzamento vertiginoso e saboroso entre alta e baixa cultura.

O invasor, de Marçal Aquino
Ambientado em São Paulo, o livro narra a história de três engenheiros, sócios numa construtora, que entram em conflito no momento em que são convidados a participar de uma falcatrua. Dois deles decidem eliminar o sócio que atrapalha os negócios, sem imaginar que estão colocando em movimento engrenagens que irão tragá-los num pesadelo de ambição, culpa e violência.
Assim é O invasor, novela que só foi concluída cinco anos depois de ter virado roteiro do premiado filme do diretor Beto Brant, com Paulo Miklos e Sabotage no elenco.
Junto com Tanto faz & Abacaxi, o livro marca a inauguração do selo Má Companhia, dedicado a autores polêmicos. O evento de lançamento será dia 13 de abril, em São Paulo, com bate-papo entre os autores mediado por Joca Reiners Terron.

Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto
Com uma literatura engajada e realista, Lima Barreto (1881-1922) compôs um romance cuja história oscila do humor ao drama. Ambientado no final do século XIX, o livro conta a história do major Policarpo Quaresma, nacionalista extremado, cuja visão sublime do Brasil é motivo de desdém e ironia. Interessado em livros de viagem, defensor da língua tupi e seguidor de manuais de agricultura, Policarpo é, sobretudo, um “patriota”, e quer defender sua nação a todo custo. O patriotismo aferrado leva o protagonista a se envolver em projetos, que constituem as três partes do livro.
Esta nova edição traz uma introdução da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, um texto de Oliveira Lima, publicado em 1916 no Jornal do Commercio, e também cerca de trezentas notas elaboradas por Lilia Moritz Schwarcz, Lúcia Garcia e Pedro Galdino que recuperam citações, textos, autores e personalidades históricas presentes no romance.

Vesuvio, de Zulmira Ribeiro Tavares
O aviso está nos primeiros versos: “Tua cabeça a prumo emplaca o tempo. Dentro dela guardas o Vesuvio”. É esse conteúdo incandescente que Zulmira exporá aos olhos do leitor com seu estilo direto e provocador, agora organizado em torno do eixo de uma lírica desarmante para quem está habituado a lê-la com o sorrisinho interno suscitado por sua malícia incansável. Claro, é a Zulmira de sempre. Mas que extraordinário encontrá-la assim, exposta, grave — e brilhante, extraordinária.
O livro se divide em sete partes que convergem para a seção final, “Glosa”, que, como ressalta Vilma Arêas no texto de orelha, “pode servir de guia para escalarmos o Vesuvio”. Escalada paradoxal, que não é para o alto mas segue o exemplo das folhas — falsos pássaros que aguardam sua ocasião de voo para atender aos “impulsos precisos que os dirigem pelos declives do ar à terra de sua breve vida”.
Primeiro livro de poesia de uma escritora premiada que não cessa de surpreender, Vesuvio reúne poemas da vida inteira.

Retrato de um viciado quando jovem, de Bill Clegg (Tradução de Julia Romeu)
O relato comovente — e assustador — do jovem agente literário Bill Clegg, que abandona a carreira promissora em Nova York e mergulha no mundo de paranoia e desespero do vício em crack. Ele experimenta a droga pela primeira vez no apartamento de um advogado no Upper East Side. A fumaça com “gosto de remédio, ou desinfetante” gera “um raio de energia renovada” que “eletriza cada centímetro do seu corpo”. Rapidamente a experiência o atira no circuito costumeiro dos viciados: em vez de pensões imundas e noites na sarjeta, porém, sua via crucis inclui hotéis e bares de luxo, aeroportos e táxis que o conduzem de um lado a outro em Manhattan enquanto duram as dezenas de milhares de dólares em sua conta. Escrito com uma sinceridade atordoante, o livro acompanha a queda e a redenção final, quase por milagre, de alguém que se propôs a destruir tudo o que tem e ama.

Amor sem fim, de Ian McEwan (Tradução de Jorio Dauster)
Joe e Clarissa Mellon eram um casal feliz. Professora e crítica literária, ela acabara de retornar de uma longa viagem de pesquisa sobre o poeta John Keats. Joe mal podia esperar por seu retorno. Escritor de divulgação científica, autor bem-sucedido de diversos livros e artigos, ele não era alguém que se deixasse levar facilmente pelas emoções, mas Clarissa, acreditava, era a mulher com quem dividiria o restante de seus dias. Eles haviam decidido fazer um piquenique no campo, e para lá seguiriam imediatamente após o reencontro no aeroporto. A poucos quilômetros de Londres, a paisagem verdejante das Chilterns oferecia um cenário perfeito para aquele idílio de primavera. Comida italiana e vinho francês completavam a felicidade da ensolarada excursão campestre. Ao fundo, um balão pairava sobre as árvores, como se simbolizasse a tranquila harmonia da tarde. Antes de ouvirem o grito aterrorizado que deflagrou a catástrofe, eles ainda não sabiam que suas vidas mudariam para sempre.

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Por Tony Bellotto

Marta Garcia, minha prestimosa editora, me convida a escrever o texto da quarta capa de O invasor, de Marçal Aquino. Marçal é um amigo de muito tempo e papo, o escritor mais gente boa do pedaço, capaz de harmonizar e apaziguar as mais discrepantes e furiosas correntes e desavenças literárias com sua conversa mansa de matuto guimarãesroseano. Já rabisquei há alguns anos a orelha de outro livro dele, Faroestes, publicado por outra editora. O motivo pelo qual fui convidado a escrever a orelha de Faroestes é interessante: logo que li O amor e outros objetos pontiagudos (o primeiro Marçal a gente nunca esquece), fiquei impressionado com o talento e a força de sua escrita. Comentando o fato com uma amiga comum, marcou-se um jantar para que nos conhecêssemos.

Com o Marçal você vira um velho amigo em 15 minutos — se tiver uma cachacinha na mesa, talvez em 10 minutos. O que justifica que antes mesmo de pedirmos os pratos no tal jantar, já estivéssemos trocando confidências sobre nossos novos trabalhos, os livros que cada um escrevia na época. “Qual o título do livro novo?”, eu perguntei. “Faroestes“, ele disse. “Caralho! O meu também!”. Na época eu escrevia o romance que viria a ser imortalizado (ui!) como BR 163, mas que foi escrito como Faroeste. Antes que a amizade nascesse, eu e Marçal nos deparamos com um impasse: nossos livros, que estavam prestes a ser lançados, tinham o mesmo título! Corríamos o risco de ver uma recém nascida amizade acabar num duelo.

Antes que eu sugerisse um prosaico par ou ímpar para resolver a questão, Marçal, com sua sabedoria de rei Salomão de botequim, desenvolvida em anos e anos de jornalismo policial e outras profissões pontiagudas (como dizia Hemingway, “excelentes, desde que abandonadas a tempo”), disse: “Quem publicar primeiro, leva o título”. Nada mais justo. Com a rapidez de um Billy The Kid, logo que saiu do jantar Marçal sacou sua caneta (sim, ele escreve a mão) e terminou o livro antes que eu pronunciasse Pindamonhangaba. E assim levou o título. Como consolação, ganhei o privilégio de escrever orelhas e quartas capas de excelentes livros, além de poder compartilhar cachacinhas com o autor sempre que os eventos literários em que nos encontramos se tornam literários demais.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro.