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11 livros para ler no Dia do Rock

Biografias, romances, livros que se inspiram em canções ou bandas e que falam sobre grandes nomes da música: escolhemos onze leituras para você aproveitar no Dia do Rock! :)

1. Atravessar o fogo, de Lou Reed

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O primeiro da lista não poderia ser outro. Atravessar o fogo, que faz parte da coleção listrada da Companhia das Letras, reúne traduções de Christian Schwartz e Caetano W. Galindo para mais de 300 letras de Lou Reed. À frente do Velvet Underground, Reed “trouxe dignidade, poesia e rock and roll a temas como as drogas pesadas, as anfetaminas, a homossexualidade, o sadomasoquismo, o assassinato, a misoginia, a passividade entorpecida e o suicídio”, nas palavras do lendário crítico musical Lester Bangs, com quem mantinha uma notória relação de amor e ódio. Com sua carreira solo não foi diferente. Neste livro, o leitor pode contemplar o gênio de Lou Reed em suas múltiplas facetas: o cronista do submundo nova-iorquino, o narrador de inegável talento para capturar as vozes das ruas, o fetichista depressivo com tendências suicidas e masoquistas, o amante da literatura e das artes de vanguarda.

2. John Lennon, de Philip Norman

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Biografias de grandes nomes do rock estão no nosso catálogo, e uma delas é de John Lennon. Escrito após três anos de pesquisa, e longe de contentar-se com curiosidades ou mexericos, Philip Norman fez de John Lennon: a vida o relato biográfico mais completo já escrito sobre uma das personalidades mais fascinantes da segunda metade do século XX. Com acesso a documentos inéditos e testemunhos diretos de Yoko Ono, Sean Lennon e Paul McCartney, entre outros, Norman começa por descrever em detalhes infância e adolescência do ex-Beatle, e logo traz à tona episódios e personagens cruciais para o entendimento de uma figura tão unanimemente admirada quanto controvertida.

3. Linha Mde Patti Smith

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Em 1970 Patti Smith lançou Horses, considerado precursor do punk rock e um dos cem melhores álbuns de todos os tempos. Daí para frente, Patti não parou com sua carreira na música, que é marcada pela sua paixão por poesia. Linha M é um livro onde podemos ver seu talento também para a literatura. Num tom que transita entre a desolação e a esperança — e amplamente ilustrado com suas icônicas polaroides -, Linha M é uma reflexão de Patti Smith sobre viagens, séries de detetives, literatura e café. Um livro poderoso e comovente de uma das mais multifacetadas artistas em atividade.

4. Só garotos, de Patti Smith

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Não tem como falar de Patti Smith sem lembrar de Só garotos, livro em que fala sobre o início de sua carreira, quando se muda para Nova York no final dos anos 1960, e de seu relacionamento de amor e amizade com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem prometeu escrever a sua história. Só garotos é uma autobiografia cativante e nada convencional. Tendo como pano de fundo a história de amor entre Patti e Mapplethorpe, o livro é também um retrato apaixonado, lírico e confessional da contracultura americana dos anos 1970.

5. Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg

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Não só de música é feito Cidade em chamas, primeiro romance de Garth Risk Hallberg, mas ela é parte importante dessa história que recria a Nova York dos anos 1970. Clássicos álbuns do rock inspiraram o autor na escrita do livro (como The Rolling Stones, Patti Smith e Lou Reed, já citados na lista), e um de seus protagonistas é ex-vocalista de uma lendária banda de punk-rock, a fictícia Ex-Post Facto. Entre shows em bares abafados da cultura underground, os negócios de uma rica família de NY e a investigação de um crime, as personagens de Cidade em chamas se esbarram pela cidade que passa por transformações sociais e culturais.

6. Minha fama de mau, de Erasmo Carlos

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Com cabeça de homem e coração de menino, o cantor e compositor Erasmo Carlos conta em Minha fama de mau suas divertidas memórias, da infância humilde à consagração como ídolo do rock. Considerado por Rita Lee como “o pai do rock brasileiro”, Erasmo reuniu por dois anos e meio passagens que costuram os detalhes de sua vida e sua carreira para narrar como o menino criado pela mãe numa casa de cômodos superou todas as limitações e o preconceito da Zona Sul carioca, consagrando-se, junto ao amigo Roberto Carlos, como o porta-voz sentimental de milhões de pessoas.

7. Do que é feita uma garotade Caitlin Moran

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Do que é feita uma garota não é um livro sobre rock, mas ele é constante na vida da narradora, a adolescente Johanna Morrigan. Depois de passar vexame num programa de TV local aos 14 anos, a jovem decide mudar de vez para virar uma “garota legal”: se transforma em Dolly Wilde, uma menina gótica, loquaz e Aventureira do Sexo, que salvará a família da pobreza com sua literatura. Nos anos 1990, ela escreve críticas de shows e álbuns para uma revista de música, se relaciona com rockstars, vê nas letras das canções que escuta aquilo que faltava para a sua vida. Mas e se Johanna tiver feito Dolly com as peças erradas? Será que uma caixa de discos e uma parede de pôsteres bastam para se fazer uma garota? Caitlin Moran faz do livro uma história divertida sobre crescer e construir sua própria identidade.

8. Mick Jagger, de Philip Norman

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Mick Jagger é o astro da música que melhor encarnou o ideal de sexo, drogas e rock’n’roll. Nesta que é a mais completa biografia do líder dos Rolling Stones, Philip Norman refaz os passos da consagração de Mick Jagger e mostra como ele se tornou um showman sedutor, o protótipo do pop star genial, escandaloso e milionário. Passando pela infância e momentos turbulentos de sua carreira, Norman narra como, em sua longa trajetória de mais de cinquenta anos como astro e ícone sexual, Mick Jagger foi assimilado pelo establishment, mas manteve a mística transgressiva e fascinante do rock.

9. Norwegian Wood, de Haruki Murakami

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Uma música dos Beatles leva o narrador deste livro, Toru Watanabe, a lembrar de sua juventude em Tóquio, onde chegou aos 17 anos para estudar teatro. E é esta música que dá título a Norwegian Wood, romance de Haruki Murakami. Vivendo solitariamente em um alojamento de estudantes, um dia reencontra um rosto de seu passado: Naoko, antiga namorada de seu grande amigo de adolescência antes deste cometer suicídio. Marcados por essa tragédia em comum, os dois se aproximam e constroem uma relação delicada onde a fragilidade psicológica de Naoko se torna cada vez mais visível até culminar com sua internação em um sanatório. Ambientado em meio à turbulência política da virada dos anos 1960 para os anos 1970, Norwegian Wood é uma balada de amor e nostalgia cuja rara beleza confirma Murakami como uma das vozes mais talentosas da ficção contemporânea.

10. A maçã envenenada, de Michel Laub

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Em 1993, o grupo norte-americano Nirvana fez uma única e célebre apresentação no estádio do Morumbi, em São Paulo. Um estudante de dezoito anos, guitarrista de uma banda de rock e cumprindo o serviço militar em Porto Alegre, precisa decidir se foge do quartel — o que o levaria à prisão — para assistir ao show ao lado da primeira namorada. A escolha ganha ressonâncias inesperadas à luz de fatos das décadas seguintes. Um deles é o suicídio de Kurt Cobain, líder do Nirvana, que chocou o mundo em 1994. Outro é o genocídio de Ruanda, iniciado quase ao mesmo tempo e aqui visto sob o ponto de vista de uma garota, Immaculée Ilibagiza, que escapou da morte ao passar 90 dias escondida num banheiro com outras sete mulheres. Focado nos anos 1990, A maçã envenenada é o segundo volume da trilogia sobre os efeitos individuais de catástrofes históricas iniciada com Diário da queda, cuja ação central se dá nos anos 1980. Como no volume anterior, Michel Laub aborda o tema da sobrevivência usando os recursos da ficção, do ensaio e da narrativa memorialística, numa linguagem que alterna secura e lirismo, ironia e emoção no limite do confessional.

11. Alta fidelidadede Nick Hornby

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E terminamos nossa lista do Dia do Rock com um livro cheio de listas musicais! Rob é um sujeito perdido. Aos 35 anos, o rompimento com a namorada o leva a repensar todas as esferas da vida: relacionamento amoroso, profissão, amizades. Sua loja de discos está à beira da falência, seus únicos amigos são dois fanáticos por música que fogem de qualquer conversa adulta e, quanto ao amor, bem, Rob está no fundo do poço. Para encarar as dificuldades, ele vai se deixar guiar pelas músicas que deram sentido a sua vida e descobrir que a estagnação não o tornou um homem sem ambições. Seu interesse pela cultura pop é real, sua loja ainda é o trabalho dos sonhos e Laura talvez seja a única ex-namorada pela qual vale a pena lutar. Alta fidelidade é um romance sobre música e relacionamento, sobre as muitas caras que o sucesso pode ter e sobre o que é, afinal, viver nos anos 1990.

Semana duzentos e noventa

Linha M, Patti Smith (Tradução de Claudio Carina)
Depois do cultuado Só garotos, a lendária cantora e escritora Patti Smith volta à sua odisseia pessoal neste Linha M, que ela chama de “um mapa para minha vida”. O livro começa no Greenwich Village, o bairro que tanto marcou sua história. Todos os dias a artista vai ao mesmo café e, munida de seu caderno de anotações, registra suas impressões sobre o passado e o presente, a arte e a vida, o amor e a perda. É desse café que ela nos conduz ao México, onde visita a Casa Azul de Frida Kahlo em Coyoacán; a uma conferência dos membros do Instituto Alfred Wegener em Bremen, na Alemanha; e ao bangalô em Rockaway Beach que ela compra pouco tempo antes de o furacão Sandy atingir o país. Patti Smith, uma leitora voraz, nos conduz também pelo labirinto de suas paixões literárias. Conhecemos, de um ponto de vista privilegiado, sua opinião sobre escritores como Murakami, Jean Genet, Sylvia Plath e Rimbaud. As ideias de Smith abrem uma janela para sua arte e seu processo de criação, que são revelados com candura sinceridade tocantes. Em meio a essas leituras, ela costura também as próprias memórias, desde a vida em Michigan até a dor irremediável pela perda do marido, Fred Sonic Smith, num depoimento ao mesmo tempo emocionante e honesto sobre o amor. Num tom que transita entre a desolação e a esperança – e amplamente ilustrado com suas icônicas polaroides -, Linha M é uma reflexão sobre viagens, séries de detetives, literatura e café. Um livro poderoso e comovente de uma das mais multifacetadas artistas em atividade.

Os Buddenbrook, Thomas Mann (Tradução de Herbert Caro)
Primeiro romance de Thomas Mann, publicado em 1901, este livro monumental acompanha a saga dos Buddenbrook, uma família de comerciantes abastada do norte da Alemanha. Quatro gerações são retratadas na crônica familiar inspirada na linhagem do próprio escritor e situada numa cidade com todas as características de Lübeck, a terra natal dos Mann. Com personagens vívidos, diálogos brilhantes e elevada riqueza de detalhes, o autor lança um olhar preciso sobre a vida da burguesia alemã – entre nascimentos e funerais; casamentos e separações; desentendimentos e rivalidades; sucessos e fracassos. Esses acontecimentos sucedem-se ao longo dos anos, mas à medida que os Buddenbrook sucumbem à sedução da modernidade, o declínio moral e financeiro parece estabelecido. O leitor contemporâneo encontra intactos o frescor e o fascínio deste que é considerado um dos principais romances do século XX.

Para poder viver, Yeonmi Park (Tradução de Paulo Geiger)
Yeonmi Park não sonhava com a liberdade quando fugiu da Coreia do Norte. Ela nem sequer conhecia o significado dessa palavra. Tudo o que sabia era que fugir era a única maneira de sobreviver. Se ela e sua família ficassem na terra natal, todos morreriam – de fome, adoentados ou mesmo executados. Park cresceu achando normal que seus vizinhos desaparecessem de repente. Acostumou-se a ingerir plantas selvagens na falta de comida. Acreditava que o líder de seu país era capaz de ler seus pensamentos.  Aos treze anos, quando a fome e a prisão do pai tornaram a vida impossível, Yeonmi deixou a Coreia da Norte. Era o começo de um périplo que a levaria pelo submundo chinês de traficantes e contrabandistas de pessoas, a uma travessia pela China através do deserto de Gobi até a Mongólia, à entrada na Coreia do Sul e, enfim, à liberdade.  Neste livro, Yeonmi conta essa história impressionante pela primeira vez. Uma história repleta de coragem, dignidade – e até humor. Para poder viver é um testamento da perseverança do espírito humano. Até que ponto estamos dispostos a sofrer em nome da liberdade? Poucas vezes a resposta foi dada de modo tão eloquente.

Paralela

Before, Anna Todd (Tradução de Carolina Caires Coelho)
Antes de Tessa, Hardin era um jovem rude e, às vezes, cruel. O que será que fez com que ele se tornasse esse bad boy tão revoltado? E o que se passava em sua cabeça naqueles primeiros momentos com Tessa, a menina irritantemente certinha de quem ele não conseguia ficar longe? Contado sob o ponto de vista de Hardin e de outros personagens da série, Before acompanha de perto esse complexo e cativante personagem, desde seus problemas de infância até sua turbulenta juventude. O livro traz também passagens inéditas do romance de Tessa e Hardin e revela, ao fim, o futuro desse casal intenso que conquistou o coração de leitores no mundo inteiro!

Romance Moderno, Aziz Ansari (Tradução de Christian Schwartz)
Aziz Ansari tem discutido os romances modernos há tempos em suas apresentações de stand-up e no seriado Master of None, escrito, dirigido e protagonizado por ele. Mas agora, em Romance moderno, decidiu levar o assunto a outro nível. Aziz se juntou ao sociólogo Eric Klinenberg para desenvolver um projeto de pesquisa que se estendeu de Tóquio a Buenos Aires, passando por Paris, Doha e Wichita. Com o auxílio dos mais renomados pesquisadores, a dupla analisou dados comportamentais, entrevistou centenas de pessoas e criou um fórum no site Reddit, obtendo milhares de respostas. O resultado é um livro único, em que o humor irreverente de Aziz é veículo para pesquisas sociais inovadoras. Um tour pelo nosso universo romântico como nunca visto antes.

Seguinte

A profecia do pássaro de fogo, Melissa Grey (Tradução de Flávia Souto Maior)
No subterrâneo de lugares onde é muito difícil chegar, duas antigas raças travam uma guerra milenar: os Avicen, pessoas com penas no lugar de cabelos e pelos; e os Drakharin, que têm escamas sobre a pele. Ambas possuem magia correndo nas veias, o que os esconde de todos os humanos… menos de uma adolescente chamada Echo. Echo conheceu os Avicen quando era criança, e desde então eles são sua única família. A pedido de sua tutora, a garota começa uma jornada em busca do pássaro de fogo, uma entidade mítica que, segundo uma velha profecia, é a única forma de acabar com a guerra de vez. Mas Echo precisa encontrar o pássaro antes dos Drakharin, ou então os Avicen podem desaparecer para sempre…

Alfaguara

O pescoço da girafa, de Judith Schalansky (Tradução de Petê Rissatti)
Inge Lohmark é a última de sua espécie. Professora de biologia no Colégio Charles Darwin, na antiga Alemanha Oriental, ela sabe que adaptação é tudo. Mas as coisas estão mudando muito rapidamente. As pessoas já começam a olhar para o Ocidente em busca de empregos e oportunidades de vida; sua própria filha deixa o país. O ambiente conhecido está desaparecendo. E, mesmo que os alunos e colegas da escola não sejam os espécimes mais brilhantes da manada, parece que Lohmark está ficando para trás. Escrito com elegância e ironia, O pescoço da girafa é uma crítica mordaz ao ambiente escolar, à competição selvagem da vida e à ideia de que os mais fortes são sempre claramente reconhecíveis

Linha M, Patti Smith e todos os caminhos que ela percorreu

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Texto de Michiko Kakutani, publicado originalmente no The New York Times. Tradução de Carlos Alberto Bárbaro.

Linha M, o novo e maravilhosamente tocante livro de Patti Smith, é uma balada caleidoscópica sobre as perdas causadas pelo tempo, pelo acaso e pela circunstâncias. A perda do marido, o guitarrista Fred (Sonic) Smith, por infarte, em 1994, aos 45 anos. A perda do irmão, Todd, no mês seguinte, por derrame. A perda de seu primeiro amigo nova-iorquino e colega de quarto, Robert Mapplethorpe, de AIDS, em 1989. É um livro sobre a passagem de um tempo em que os filhos dela eram pequenos e “as coisas em que tocava estavam vivas. Os dedos do meu marido, um dente-de-leão, um joelho esfolado”, para outro em que ela passa cada vez mais a registrar e recordar os momentos de sua vida em fotos e palavras — a, como uma artista, criar recordações talismânicas do passado. Do qual esse livro é uma delas.

Música, poeta e fotógrafa, aos 68 anos Smith possui um ouvido notável para o som e encantamento das palavras, sua prosa aqui sendo a um só tempo lírica e radiosamente figurativa. À semelhança de suas célebres fotos Polaroid em preto-e-branco (algumas das quais estão dispersas pelo livro), os capítulos de Linha M são slides de lanterna mágica, saltando, em livre-associação, entre o presente e o passado, de um assunto para outro. Ela evoca um sentimento nostálgico (melancolia, que em suas mãos ela transforma em “como se fosse um pequeno planeta, triscado de sombras, de um azul impossível”) com a mesma maestria com que conjura sua gata, Cairo (“uma gatinha abissínia com a pelagem da cor das pirâmides”), ou uma recordação da infância (“uma chaveta para ajustar os patins nos sapatos de um garoto de doze anos”), ou um tristonho Natal depois do furacão Sandy na praia de Rockaways (“Bonecos de neve de isopor e sofás encharcados jaziam jogados no meio das bugigangas”).

Se a evocativa biografia de Smith publicada em 2010, Só garotos, concentrava-se em seus primeiros anos em Nova York, no final da década de 1960 e início da de 1970, e na sua amizade com Mapplethorpe, este volume é mais peripatético, fazendo a crônica de suas peregrinações ao redor do mundo e nos recessos de sua imaginação, embora sempre retornando a sua base familiar em Manhattan. Suas unidades aqui não são de tempo e de lugar, mas sim a paisagem de sua própria mente – seus sonhos, recordações, interesse por certos artistas (Jean Genet, William S. Burroughs, Sylvia Plath), livros (Crônica do pássaro de corda, After nature, 2666) e séries de televisão (The killing, Law&Order, CSI: Miami).

Como em um poema ou em uma canção, leitmotivs se repetem sucessivamente: uma cadeira (a de seu pai, a do romancista Roberto Bolaño, uma enfeitada, de plástico, entrevista em Tânger); um café (no Greenwich Village, em Rockaways, em Berlim), as muitas, muitas xícaras de café bebidas pela autora em sua casa e em qualquer lugar para onde viajasse.

Muitas das viagens de Smith são quixotescas, para dizer o mínimo. Ela e Fred viajaram para St. Laurent-du-Maroni, uma pequena cidade de fronteira a noroeste da Guiana Francesa, só para que ela pudesse visitar as ruínas de uma prisão colonial francesa ― porque Genet escrevera com reverência sobre o lugar uma vez, e ela queria recolher algumas pedras do local e mandar pra ele.

Na condição de membro do Continental Drift Club ― uma sociedade obscura dedicada a Alfred Wegener, um explorador que foi pioneiro da teoria da “deriva continental” ―, ela viajou até Reykjavic, na Islândia, para um congresso, e ficou por ali para fotografar a mesa usada na competição de xadrez entre Bobby Fischer e Boris Spassky em 1972. Um encontro entre ela e Fischer foi arranjado, e depois de ela se levantar pra ir embora depois de uma das piadinhas obscenas de Fischer ― “Eu posso ser tão repugnante quanto você, só que em assuntos diferentes”, ela lembra ter dito ―, eles acabaram por passar várias horas cantando juntos músicas de Buddy Holly e de outros artistas, para espanto do guarda-costas de Fischer.

Há algo de etereamente surreal ou onírico nas muitas aventuras de Smith. Ela e Fred são mantidos sob a custódia da polícia durante sua viagem à Guiana Francesa depois de os policiais terem tirado do carro o motorista que eles haviam contratado ― e que se parece com um extra daquele filme jamaicano, Balada sangrenta, trajando “óculos escuros Ray‑Ban, boina de lado e uma camisa de estampa de leopardo” ― e descobrirem um homem amarrado no bagageiro do carro. Ela leva consigo o Crônica do pássaro de corda, de Haruki Murakami, numa viagem até a Cidade do México, onde fora para proferir uma conferência sobre a pintora Frida Kahlo, e não vê “a hora de comer comida mexicana, mas o cardápio do hotel era dominado pela culinária japonesa”.

Durante suas viagens, Smith faz peregrinações aos túmulos dos escritores que ela admira: Brecht, Plath, Rimbaud, Genet. Os fantasmas desses artistas assombram essas páginas, assim como os espíritos de seus amados esposo e irmão. E uma melodia sombria de perda trilha seu caminho por esse volume. Seu casaco favorito ― perdido. Seu livro predileto de Murakami ― esquecido no banheiro do aeroporto. Sua máquina fotográfica mais querida — deixada numa praia. Seu café favorito do bairro ― fechado. Smith compra uma pequenina casa perto da praia de Rockaway, no Queens, e enquanto ela de algum modo sobrevive à passagem do furacão Sandy, Smith contempla a miríade de perdas de seus vizinhos — o passeio reduzido a farpas, o café de um amigo, destruído, centenas de casas totalmente destruídas ou inundadas.

Se Só garotos era sobre os primeiros passos de uma artista e sobre se estabelecer no mundo, Linha M dá mais a impressão de um olhar para o passado por um espelho retrovisor. Smith escreve sobre sentir “saudades de como as coisas eram”, sobre fantasmas nos impedindo de viver o presente, sobre cantar “What a wonderful world” para Fred em seu velório, e sobre perceber que ela é agora mais velha que Fred quando ele morreu — e mais velha que muitos dos seus amigos falecidos.

“Vou me lembrar de tudo”, ela reflete, “e vou escrever tudo isso. Uma ária a um casaco. Um réquiem a uma cafeteria.” Uma eloquente — e profundamente comovente — elegia para o que ela “perdeu e não consegue mais achar”, mas que pode rememorar em palavras.

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Linha M chega às livrarias no dia 25 de março.

A musa antidiva

Por Alexandre Barbosa de Souza

Era Noite Branca em Paris. Minha mulher ligou emocionada: tinha acabado de sair do show da Patti na igreja de Saint Germain des Près (em 2008). Fazia um mês que eu estava sozinho com os gatos, traduzindo loucamente os Hipopótamos dos então quase anônimos Burroughs e Kerouac. Lembrei da minha primeira namorada na escola, que me lembrava a Patti: uma magricela meio punk, mas que definitivamente não tinha alma de poeta. Quase dez anos depois de “People have the power” (1988) ter tocado no Brasil — cheguei a comprar o Dream of life em K7, porque antes eu só tinha o Horses, também em fita e mal gravado de um lp importado, e na época eu nem sabia que já era uma volta dela —, minha mulher iria à exposição do Mapplethorpe no MAM (1997). Temos o pôster com um retrato dele aqui em casa, ao lado de Sid Vicious, James Joyce e Karl Marx.

Meu amigo editor e ex-vizinho há de ter escutado quando minha mulher e eu ficávamos horas na banheira em Santa Cecília ouvindo a Patti no iPod e um belíssimo dia me perguntou se eu não queria traduzir a autobiografia dela. Eu não saberia explicar melhor minha peculiar devoção à Patti (musa antidiva) do que tentando traduzir essa sua prosa com a máxima consideração da poesia. Aceitei e sou grato para sempre, porque vi confirmada instantaneamente uma identidade de amigos queridos, para além do evidente encantamento que a voz e os olhos dela exercem sobre mim.

Chorei algumas vezes enquanto traduzia. Patti escreve com uma delicadeza esperta que não derrama, mas que de alguma forma prepara a morte do homem amado no final: ainda na infância, seu sentimento pela amiga Stephanie, de quem ela rouba uma miniatura de patins (misto de remorso e vertigem da inevitabilidade dos fatos da vida), se propaga em suas experiências de perdas e dores de crescimento da juventude. Mas cada objeto encontrado pelos amantes trapeiros, nas lixeiras, alfarrábios e bricabraques de uma Nova York pré-gentrificação, é erguido e celebrado sincreticamente no altar pagão católico do quarto alugado — à Rimbaud —, como uma preciosidade. É assim também com as pessoas em sua vida: cada encontro é valioso salvo-conduto com o selo da união da grande fraternidade universal de La Bohème e do exército de Peter Pan, do qual Patti é a amorosa e maternal estrela guia.

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Alexandre Barbosa de Souza é tradutor e autor dos livros Livro de poemas (Giordano, 1992), Viagem a Cuba (Hedra, 1999), XXX (Dolle Hond, Amsterdã, 2003), Azul escuro (Hedra, 2004) e do infantojuvenil Autobiografia de um super-herói (Hedra, 2003).

Because the night belongs to readers

Nós da Companhia das Letras estamos animados com o lançamento de Só garotos, e resolvemos fazer uma homenagem a Patti Smith. Queremos fazer uma montagem com o hit “Because the night”, e para isso precisamos da ajuda de vocês.

Mande um vídeo seu cantando a música (pelo menos um pedaço dela!) para cialetras@gmail.com até quinta-feira, dia 16. Você pode mandar o vídeo como anexo, via YouTube ou por um link onde possamos baixar o vídeo.

Vamos sortear um exemplar de Só garotos entre todos os participantes, além de dar um exemplar para o autor do vídeo mais original.

Abaixo você pode ouvir a música; a letra está aqui.

Ouça também a própria Patti Smith lendo o trecho de Só garotos sobre o momento em que ela percebe, junto com Robert Mapplethorpe, que a música era um sucesso:

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