philip roth

Da arte da narrativa

Por Tony Bellotto


Vítimas da epidemia de poliomielite.

Se você é como eu, e não gosta de saber nada sobre um livro de Philip Roth antes de lê-lo — nem sequer um parágrafo da orelha, uma frase da resenha ou o comentário informal de um conhecido —, e se você ainda não leu, mas pretende ler, Nêmesis, o mais recente romance do autor norte-americano, melhor largar minha crônica exatamente aqui: até já, depois de ler Nêmesis você volta (o romance, ou seria uma novela?, é curto).

Para aqueles que não se importam com isso, ou que já leram o romance — ou que nem pretendiam ler mas talvez tenham ficado curiosos —, quero discorrer um pouco sobre aspectos da técnica narrativa empregada por Philip Roth, mas garanto que não vou revelar muito da trama nem estragar o prazer de quem ainda vai ler o livro.

Logo na primeira página, quando o narrador começa a descrever os primeiros casos de poliomielite em Newark no verão de 1944, e que prenunciam uma epidemia devastadora, nos deparamos com a seguinte frase, a segunda do primeiro parágrafo: “Ali onde morávamos, numa área do sudoeste chamada Weequahic e ocupada por judeus, nada soubemos sobre isso nem sobre os outros doze casos espalhados por quase toda Newark e mais distantes da nossa vizinhança”. A frase configura uma narrativa clássica em primeira pessoa, o que nos faz imaginar que o livro está sendo narrado por um personagem inserido na trama, de quem logo teremos informações mais detalhadas, como nome, idade, profissão, sexo etc. O que ocorre entretanto é que a partir daí o narrador passa a contar a história de Bucky Cantor — o atlético fiscal de pátio e professor de educação física do colégio do bairro — com tal distanciamento, impessoalidade e precisão que, poucas páginas depois, nos esquecemos que se trata de uma narrativa em primeira pessoa e somos levados a crer que a história é narrada na terceira pessoa, por um tradicional narrador onipresente e distanciado da ação.

Quando chegamos à página 80 do livro é com um verdadeiro (e perturbador) susto que lemos a abertura do parágrafo no alto da página: “A manhã seguinte foi a pior até então. Mais três meninos diagnosticados com pólio — Leo Feinswog, Paul Lippman e eu, Arnie Mesnikoff”. Arnie Mesnikoff é um personagem de quem nada sabemos até ali, e continuamos sem saber depois, já que a narrativa prossegue sem referências a esse estranho “eu” que contraiu pólio quando criança e é quem nos narra tudo!

A partir daí continuamos lendo a história de Bucky Cantor, mas sabendo que Arnie Mesnikoff, seja ele quem for — um menino com poliomielite em 1944 —, nos espreita de algum lugar invisível no fundo do livro.  O efeito é aterrador. Somente na página 166, na abertura do capítulo final, o terceiro, a narrativa em primeira pessoa é plenamente retomada (“Nunca mais vimos o senhor Cantor no bairro.”) e podemos finalmente conhecer quem é o intrigante Arnie Mesnikoff e como consegue nos contar com tanta precisão uma história que não é a sua.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Semana sessenta e nove

Os lançamentos da semana são:

Nêmesis, de Philip Roth (Tradução de Jorio Dauster)
Aos 23 anos, Eugene “Bucky” Cantor, professor de educação física e inspetor de pátio de uma escola judaica de Newark, vive uma vida pacata, porém é atormentado pelo fato de não poder lutar na guerra ao lado de seus contemporâneos, em razão de sua miopia fortíssima. No verão de 1944, ele vê sua vida ruir depois que grande parte de seus alunos contrai poliomielite. Apavorado com a possibilidade de ficar paralítico, ele entra em um dilema cruel: fugir e escapar da pólio ou ficar e proteger as crianças? Philip Roth apresenta, em seu mais novo romance, a radiografia do sofrimento de um homem quando posto em contato direto com a morte.

Herzog, de Saul Bellow (Tradução de José Geraldo Couto)
Moses Herzog, um dos personagens mais fascinantes da literatura de Saul Bellow, é “um homem dividido, um labirinto de contradições”, como aponta Philip Roth na introdução deste livro. Na meia-idade, esse intelectual refinado e professor universitário sente seu juízo vacilar depois que sua mulher o troca por seu melhor amigo. Sua vida é uma sucessão de desastres pessoais, para os quais ele busca um sentido. Enquanto tenta avançar na redação de um ambicioso livro de filosofia e briga pela guarda da filha pequena, ele escreve cartas — que nunca envia — a amigos, inimigos, e personalidades vivas ou mortas, como Nietzsche e Eisenhower. Com irresistível humor e extrema habilidade literária, Bellow entremeia o relato objetivo dos fatos com os pensamentos do protagonista e os esboços de suas cartas imaginárias. Cria assim um de seus livros mais complexos e envolventes, considerado unanimemente um clássico da literatura contemporânea.

A arqueologia passo a passo, de Raphaël de Filippo (Ilustrações de Roland Garrigue; Tradução de Joana Angélica d’Avila Melo)
Quem são os hominídeos? Quais são as idades da pré-história? Como é o dia de trabalho em um sítio arqueológico? O passado está por toda parte, mas em geral não nos damos conta disso. Rastros da vida humana guardados embaixo da terra e no fundo dos mares são descobertos em todos os cantos do mundo, revelando aspectos importantes da vida dos homens de antigamente e das mudanças climáticas que modificaram o planeta. Do terreno ao laboratório, os arqueólogos trabalham para encontrar rastros do que foi abandonado mas não deve ser esquecido. Ao acompanhar o seu trabalho passo a passo, neste guia sobre a arqueologia, aprendemos sobre a história do nosso planeta e de todos que o ocuparam, e podemos olhar para o nosso futuro de uma maneira diferente.

Inventores e suas ideias brilhantes, de Mike Goldsmith (Ilustrações de Clive Goddard; Tradução de Antônio Xerxenesky)
A vida hoje em dia é infinitamente diferente daquela dos homens da pré-história, e isso graças a pessoas curiosas e engenhosas que gastaram muito tempo estudando e criando coisas: os inventores. Neste livro, conhecemos a história de 10 homens e suas invencionices: Arquimedes, as roldanas e as máquinas de guerra; Leonardo da Vinci e os submarinos; James Watt e os motores a vapor; George Stephenson, os trens e lampiões; Thomas Edson, a lâmpada e o toca-discos; Alexander Graham Bell e o telefone; os irmãos Wright e o avião; Guglielmo Marconi e as transmissões de rádio; John Logie Baird e a televisão em cores e em 3D.

Zuckerman acorrentado, de Philip Roth (Tradução de Alexandre Hubner)
O volume reúne os três romances e a novela que serve de epílogo à trilogia em que Philip Roth dá vida a uma de suas criações mais geniais: Nathan Zuckerman, um escritor que não é de levar desaforo para casa. E não são poucos os desaforos e despropósitos que desde o início de sua carreira ele é obrigado a ouvir. Justo ele, que sempre pretendeu ser um escritor sério, com preocupações morais elevadas, na linha de Thomas Mann. Porém, como Zuckerman sabe, seu forte é a comédia — e, em especial, as piadas de judeu. E o establishment judaico não o perdoa por isso. Nem seu pai, nem seu irmão caçula e, em certa medida, nem ele próprio.

Meus prêmios, de Thomas Bernhard (Tradução de Sergio Tellaroli)
Em obra póstuma publicada em 2009, o austríaco Thomas Bernhard, um dos maiores escritores em língua alemã do século XX, comenta com sua acidez característica e fina ironia os prêmios literários que recebeu. São nove relatos, três discursos e a carta em que o autor explica seu desligamento da ilustre Academia de Língua e Literatura de Darmstadt, a instituição que concede o cobiçado prêmio Büchner. Bernhard relata a rotina muitas vezes hilária da concessão e da outorga de prêmios literários, muitos dos quais o escritor foi receber em companhia da tia septuagenária.

Jakob, o mentiroso, de Jurek Becker (Tradução de José Marcos Mariani de Macedo)
Jakob, o mentiroso é tido como uma das obras-primas da literatura sobre o Holocausto. O narrador é um dos únicos sobreviventes que sabem a verdade sobre Jakob Heym, um homem que se tornou herói por acaso. E foi também o acaso que preservou a vida do narrador. O que fez Jakob, afinal? Mentiu: forjou notícias sobre a aproximação do Exército Vermelho, os possíveis redentores. Assim, Jakob suscita uma reviravolta surpreendente. Embora ele seja um mentiroso contrariado, sem dotes imaginativos, suas minguadas palavras são esperadas e ouvidas com avidez pelos judeus confinados. As palavras, arma impalpável, são como o pão que falta a essa gente esfaimada, e um grama delas, como diz Jakob, já lhe basta para fabricar uma tonelada de esperança.

De olho em Lampião, de Isabel Lustosa
Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1897-1938), foi o maior cangaceiro de todos os tempos. Iniciado no cangaço ainda adolescente, no começo da década de 1920 passou a liderar seu próprio bando, espalhando uma trilha de violência e terror por quase todo o Nordeste. A ousadia de suas ações, em que se destacava a selvageria no trato com inimigos — especialmente soldados e policiais —, tornou-o conhecido no país inteiro. Ao mesmo tempo, o companheiro de Maria Bonita adquiriu fama de Robin Hood sertanejo ao distribuir entre os pobres parte dos bens saqueados dos ricos. A pesquisadora Isabel Lustosa mostra como a vida de Lampião dividiu-se entre a crueldade e a justiça, a riqueza e a miséria, o poder e a paixão.

O bigode de Philip Roth e outras coisas imaginadas

Por Joca Reiners Terron

O lugar onde o escritor comete seus crimes costuma despertar fascínio nos leitores. A frase anterior poderia ser mera generalização, caso não existissem colunas dedicadas ao assunto nos principais suplementos literários do mundo. O Babelia, do El País, por exemplo, veicula a coluna El rincón, que também tem explorado locais de trabalho de artistas plásticos, atores etc. O suplemento Review do britânico Guardian igualmente dedicava atenção exclusiva a escrivaninhas, mesas de bares e (sim, por que não?) bidês na seção Writer’s Rooms, mas é evidente que não há tantos escritores excêntricos assim, e os editores agora têm apelado aos músicos, o que só faz sentido se o sujeito for um tecladista caidinho por pianos de cauda. No Brasil, há o conhecido ensaio do fotógrafo Eder Chiodetto reunido no livro O lugar do escritor.

O melhor exemplo que conheço do gênero, porém, é The writer’s desk, de Jill Krementz. A fotógrafa norte-americana teve a vantagem enorme de ter sido casada a vida toda com um escritor (dupla vantagem, pois era casada com o invencível Kurt Vonnegut Jr), o que lhe permitiu registrar cerca de 1.500 escritórios de amigos escribas. Outros aspectos positivos do livro de Krementz são o prefácio de John Updike, além da excelente ideia de acompanhar cada foto com pequenos depoimentos dos fotografados acerca de seus hábitos de ofício. Apenas essa medida já justificaria o livro, mas ainda podemos praticar o voyeurismo pleno ao observar a antológica mania de organização de Georges Simenon somente dando uma olhadela no enfileiramento metódico dos cachimbos em sua escrivaninha. O T.O.C. de Simenon também parece colocar sua ficção em movimento: “O início é sempre o mesmo; é quase um problema geométrico: eu tenho esse homem, essa mulher, em tais circunstâncias. O que pode acontecer que os obrigue a ir ao seu limite?”

Desse modo, Jill Krementz expõe o material (às vezes viscoso) de que é feito o caráter de seus personagens. Pablo Neruda, por exemplo, em sua ampla mesa cercada de bandeiras do Chile e de objetos étnicos adquiridos em viagens ao redor do planeta, é o mais perfeito retrato do escritor de gabinete. A semelhança com um político flagrado em pleno ato de despachar é amplificada pela cadeira vazia diante de si, aparentemente à espera de um assistente parlamentar que nunca chegou. Há outras amostras mais simpáticas de bicho escritor, como o vovô George Plimpton metralhando sua máquina datilográfica tendo às costas dois bebês (parecem gêmeos) estirados sobre o tapete em pleno esvaziar das mamadeiras; ou um esvaziar distinto (desta vez alcoólico): pelo menos três dos retratados têm copos de uísque ao alcance do bico: Tennessee Williams, Terry Southern e John Cheever, que também exibe em primeiro plano um enorme cinzeiro com ao menos mil bitucas. Mais do que o furor tabagístico, o que impressiona na foto de Cheever é o despojamento de seu quarto.

O caráter imaterial dessas oficinas onde a imaginação opera talvez possa ser pressentido pelos objetos que as preenchem (ou que evidenciam o seu vazio, no caso franciscano de Cheever), como se observando-as pudéssemos atinar com aquilo que move cada escritor. Joan Didion, por exemplo, guarda uma cama ao fundo, bastante próxima à escrivaninha. “Uma coisa que preciso fazer, quando estou próxima do final do livro, é dormir no mesmo cômodo que ele… De algum modo o livro não te abandona quando você dorme ao seu lado.” Já Philip Roth, numa rara exibição de um bigode que abandonou (pois certamente era obrigado a se lembrar de Groucho Marx a cada escovada nos dentes), como de seu feitio, opta pela desmistificação: “Não questiono escritores sobre seus hábitos de trabalho. Não estou nem aí. Joyce Carol Oates disse em algum lugar que os escritores, quando perguntam uns aos outros a que horas começam a trabalhar e que horas terminam e quanto tempo levam pra almoçar, estão na verdade tentando descobrir, ‘Será que ele é tão louco quanto eu?’ Eu não preciso de resposta pra essa questão.”

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

Sem nocaute

Nem Bolaño nem Roth. O primeiro embate da série Encontros Impossíveis, na noite de terça, promovido pela Companhia das Letras e pela Livraria da Vila, terminou empatado por pontos. As torcidas de cada um receberam as camisetas “Eu sou Bolaño” ou “Eu sou Phillip Roth” e, aparentemente — depois de muitas risadas, aplausos e discordâncias —, o resultado não frustrou nenhuma das duas. A turma de Roth foi defendida pela escritora, poeta e professora Noemi Jaffe, e a turma de Bolaño, pelo escritor, editor e designer gráfico Joca Reiners Terron.

O debate começou com jabs bem aplicados de Roth (Noemi) contra o que ela chamou de “estilo estiloso” do chileno Roberto Bolaño e sobre o risco de ele virar um escritor “da moda”. Bolaño (Joca) revidou com punchs contra o que caracterizou de “realismo psicológico” de Phillip Roth, criticando também a descrição de algumas cenas de sexo nos livros do escritor americano. Neste ponto do debate, o juiz (o escritor e jornalista Ronaldo Bressane) interferiu alegando que não seriam permitidos “golpes baixos”.

Noemi defendeu-se alegando que o que interessa mesmo em Roth são suas obsessões que se repetem em todos os livros (a mãe, a morte e o sexo) e que ele não glamouriza o fracasso: seus fracassados são fracassados verdadeiros, inclusive quando fazem sexo.

Joca não baixou a guarda e esquivou-se dizendo que os eventuais excessos estilísticos de Bolaño vêm da sua relação com a poesia (Bolaño considerava-se antes de tudo um poeta). Disse também que o escritor chileno é importante porque projeta para o mundo um novo momento da literatura latino-americana, até então internacionalmente marcada pelo realismo mágico de Gabriel García Márquez. Bolaño seria o grande representante da geração que foi obrigada a viver no exílio por causa das ditaduras latino-americanas dos anos 1970 e 1980, uma “geração sem lugar e sem rosto”.

Noemi Jaffe contou como conseguiu uma das raras entrevistas com Roth (escreveu a seu agente dizendo que “era filha de mãe judia e viveu no Bom Retiro”, um aspecto comum aos temas rothianos) e de como ele foi extremamente duro com ela durante a entrevista. Joca Terron contou que descobriu Bolaño nas páginas do jornal espanhol El País, e que ele mesmo, Joca, foi a “primeira pessoa que falou para mim sobre a existência de Roberto Bolaño”.

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No ringue, contra a morte

Por Paulo Paniago

Philip Roth luta pela própria vida como quem está numa luta de pesos pesados, sabendo de antemão que o adversário é imbatível, mas não importa: precisa ser combatido. A palavra para definir a obra completa é vital. Roth escreve porque está no mundo e isso é motivo bastante.

Angustiado e feliz na paixão que demonstra pela existência, ele tem noção clara da urgência com que deve usufruí-la antes que acabe. “Onde tem uma catástrofe, ele a transforma em literatura”, um personagem acusa Nathan Zuckerman, o alter ego de Philip Roth que está em nove romances. No caso, é A marca humana. Noutro livro que não tem Zuckerman como protagonista ou narrador, ele fala a respeito de envelhecer: “A velhice não é uma batalha, a velhice é um massacre”. Pensa que Roth se abala? Pelo contrário, ele trinca os dentes e vem para o centro do ringue.

Um dos romances que mais se sobressai nessa batalha desigual entre vida e morte é O teatro de Sabbath, publicado originalmente em 1995. Roth havia saído de um casamento ruim e deixara para trás uma dor na coluna. Estava livre, desimpedido e furiosamente contente: é assim que ele fica. Não teve dúvidas em pisar fundo no acelerador de partículas que é sua máquina de construir romances. Parece que é um livro a respeito de sexo, quando na verdade é um estudo acerca do processo de enlouquecer, contado pelo lado de dentro. Que Sabbath finja tudo, inclusive a hipótese de uma saída radical, não surpreende. Mas é difícil para o leitor não reter a respiração e querer continuar de olho naquele enorme desafio às convenções, aos modelos, às amarras. A experiência é sempre com fôlego entrecortado, como se todo mundo tivesse sido convidado a participar da luta, também no centro do ringue, o suor escorrendo pelo rosto.

É assim na leitura dos textos, uma experiência de prender o fôlego. Philip Roth levanta as camadas superficiais da vida para mostrar o que existe por trás, realizando como poucos a verdadeira tarefa do romance, de explorar novas regiões da existência, de entender o núcleo do humano. Em Roth, a amargura da essência vem temperada com doses certeiras de ironia, quando não de comicidade desregrada. Há desespero no que se lê, mas desespero que dança. Parece arrogância para uns, no entanto é mais altivez: o orgulho do sobrevivente que agora sabe qual é seu lugar, mas que continua a falar da errância que é a própria experiência de estar no planeta.

A vantagem de Roth não é entender a vida depois que ela escapou, como acontece normalmente, mas compreendê-la à medida que ela transcorre. É esse olhar aguçado que o torna grande escritor, capaz de enxergar o centro da existência e, ao mesmo tempo que levanta a tampa para quem quiser ver, advertir que a experiência é impactante, mas que todos estão autorizados a rir, enquanto a morte não vem.

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Paulo Paniago foi o primeiro colocado do Concurso Cultural Philip Roth, e por isso sua resenha está publicada aqui no blog. Parabéns, Paulo!

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