Por Erico Assis

Recorte da capa rejeitada feita por Chris Ware para a revista Fortune.
Uma criança perspicaz ainda está pensando, nesse momento, na HQ sem título de Laerte publicada em maio na última página da Folhinha, suplemento infantil da Folha de S. Paulo. Daqui a 15 anos, estudando Artes Cênicas e lendo Baudrillard, a mesma criança vai reencontrar a HQ em um dos (espera-se) vários livros com a obra de Laerte, reler e confirmar que não a entende, pelo menos racionalmente. E não há por que racionalizar ou procurar moral da história. As tiras e contos de Laerte atingem um ponto mais primitivo, sensível e inominável do cérebro.
Será que Laerte seria aceito na coletânea Abstract comics? Com essa história, provavelmente não. A introdução do livro propõe uma teoria do “quadrinho abstrato”: não pode haver texto e não podem haver formas facilmente inteligíveis, mas é necessária pelo menos uma impressão de narrativa quadro a quadro. Numa das histórias mais simples do álbum ― “Stop quibbling, please”, do suíço (e matemático) Ibn Al Rabin ―, um quadrado conversa com um círculo sobre círculos e quadrados e sobre quadrados e círculos conversando sobre círculos e quadrados.
Shintaro Kago provavelmente também não seria aceito. O japonês cria delírios visuais que torcem e retorcem a linguagem da HQ ― bem como os corpos e vísceras de seus personagens. Numa de suas histórias mais famosas, Abstraction, uma relação amorosa entre jovens faz as próprias páginas da HQ girarem sobre um eixo, onde diferentes momentos se encontram em construções tridi… ok, é melhor você ler. Este ano, Kago começou a publicar pequenos cartuns em seu website; para ocidentais, é melhor acompanhá-los com a tradução em inglês no blog Same Hat! (aviso: não são para os de constituição fraca).
Há outros níveis de abstração, metáfora e alegoria em “Fiction”, conto do brasileiro Gabriel Bá, e em “Because I love you so much”, da dinamarquesa Nikoline Werdelin, este indicado ao prêmio Eisner. No primeiro, os escritores Joca Reiners Terron, Marcelino Freire e Milton Hatoum passam por uma crise de identidade entre a realidade e a ficção. No segundo, em uma sequência de tiras de jornal muito similares a Blondie ou Doonesbury, corre um drama familiar envolvendo abuso sexual infantil ― com direito a punchlines que fariam Todd Solondz (ou Hannibal Lecter) corar.
Já Nemesis, de Mark Millar e Steve McNiven, não tem qualquer significado ou moral ocultos. O maior supervilão do mundo sequestra o Air Force One, derruba-o sobre Washington e rapta o presidente dos EUA para chantagear o maior superpolicial do mundo. A grande expectativa de Millar é vender a série para Hollywood e aposentar-se aos 40. Já a coleção Wednesday comics dedica 200 páginas em 44 x 28 centímetros (mais ou menos seu antebraço por seu braço) a nada muito complexo. Superman, Batman, Supergirl, Mulher-Gato, Metamorfo, Lanterna Verde e outros estão num exercício de nostalgia, de recuperar o deleite estético das antigas grandes páginas de quadrinhos dos jornais.
Chris Ware, por outro lado, quer provocar. Convidado a produzir a capa da revista Fortune que traria a lista das 500 maiores empresas dos EUA, representou estas como arranha-céus no topo dos quais privilegiados dançam e bebem enquanto chegam os helicópteros de dinheiro. Lá abaixo, o populacho trabalha, consome, mata, explora, endivida-se e, com sorte, mantém uma casa mal ajambrada ― quando não afundada pelo aquecimento global. A capa, é claro, foi rejeitada.
Não é o que acontece com as capas que Ware produz com regularidade para a New Yorker, como a publicada no halloween passado: crianças de máscara fazendo o trick or treating nas portas dos vizinhos, seus pais aguardando-os compenetrados em seus iPhones ― que vestem estes pais com máscaras de luz refletida. Os mesmos iPhones ― e iPads e iPods ― para os quais a Marvel Comics lançará uma edição especial do Homem de Ferro, simultaneamente na tradicional versão em papel, o que deixa lojistas tradicionais em pânico e um mercado na expectativa da transformações tecnológicas que afetem distribuição, lucros, conteúdos e tudo mais.
Isto é quadrinhos, isto é 2010. Pelo menos no primeiro semestre.
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Laerte publica suas tiras em um blog chamado Manual do Minotauro. A HQ mencionada acima está aqui.
Abstract comics: editado por Andrei Molotiu, 208 páginas, Fantagraphics, 2009. Blog oficial.
Shintaro Kago: site oficial; em inglês, no blog Same Hat!. HQ “Abstraction”, aqui.
“Fiction”, de Gabriel Bá: na edição 35 da revista online Dark Horse Presents.
“Because I love you so much”, de Nikoline Werdelin, publicada originalmente no jornal dinamarquês Politiken em 2003; em inglês na coletânea From Wonderland with love: danish comics in the third millenium, editada por Steffen P. Maarup, Fantagraphics, 2009.
Nemesis, de Mark Millar e Steve McNiven, minissérie em 4 edições da Marvel Comics, linha Icon; primeira edição lançada em maio de 2010.
Wednesday comics: editado por Mark Chiarello, 200 páginas, DC Comics, 2010.
Sobre a capa rejeitada de Chris Ware para a Fortune: no blog O Esquema, no El País, no blog Bleeding Cool (com a capa escolhida para a edição); amostra de capas de Ware para a New Yorker.
Sobre a HQ do Homem de Ferro lançada simultaneamente para iPad e em versão tradicional.
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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
















