rafael coutinho

Uma página para o ano terminar

Por Érico Assis

O ano foi morno. Sinceramente. Digo em relação às leituras. As minhas, não sei se as suas também. Foram?

Mas é sério. Não li nenhum quadrinho arrebatador, transformador, deslumbrante, pelo menos não o bastante para ter guardado na memória. Reli muitos. Traduzi vários que já havia lido, e a releitura como tradutor é uma releitura privilegiada, mas ainda é releitura. Dos novos, um e outro são muito bons, mas eu esperava, sei lá, um Manuele Fior para salvar a minha vida (e aquelas promessas do fim de 2011 são só para rir, né?). Não apareceu.

Mas aí chega o Rafael Coutinho, com seu Beijo Adolescente II, e essa página que salva tudo. Uma história em uma página arrebatadora para salvar o fim de ano. Quem sabe até salvar o mundo. Bom fim de ano ― ou de fim de mundo ― a todos.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Links da semana

Hoje foram divulgados os vencedores do Troféu HQ Mix, e a Quadrinhos na Cia. foi escolhida a editora de quadrinhos do ano. Spacca (Jubiabá), Chris Ware (Jimmy Corrigan) e Craig Thompson (Retalhos) também foram premiados. Obrigado a todos que votaram em nosso trabalho!

Falando em premiações, a casa britânica Ladbrokes está aceitando apostas sobre o próximo ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. No momento, o poeta sueco Thomas Transtromer é o mais cotado para ganhar o prêmio.

Semana passada aconteceu a Homenagem a José Saramago, no SESC Vila Mariana. No site do programa Metrópolis você pode ver um trecho da apresentação. As fotos estão no nosso álbum do Picasa.

Uma pesquisa americana descobriu que um em cada quatro leitores de quadrinhos tem mais que 65 anos. A Raquel Cozer, do suplemento Sabático, entrevistou o quadrinista Joe Sacco, autor de Notas sobre Gaza.

A Juliana, do Portal PUC-Rio Digital, entrevistou Moacyr Scliar sobre seu novo livro, Eu vos abraço, milhões. A Kika, do Meia Palavra, escreveu uma resenha sobre o livro.

A revista Paris Review colocou em seu website todas as famosas entrevistas que realiza desde a década de 1950, com escritores como Truman CapoteJorge Luis BorgesJohn UpdikeGay Talese.

O Julio, do Digestivo Cultural, resenhou Ponto final, de Mikal Gilmore. O Mauro, do blog De vermes e outros animais rastejantes, falou sobre O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J.P. Cuenca.

Um longo artigo do New York Times fala dos julgamentos que decidirão o destino de documentos até então desconhecidos de Franz Kafka.

A Andréia, do Guia de Leitura, falou de AvóDezanove e o segredo do soviético, de Ondjaki. O Felipe, do Meia Palavra, leu Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, e a Amanda, do blog O Café, resenhou Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho.

O escritor Neil Gaiman disse pelo Twitter que está lendo Fábulas italianas, de Italo Calvino. A Kelly, do Blog da Cultura, falou sobre as manias que cada escritor tem.

O blog Classics Rock! se dedica exclusivamente a reunir músicas que mencionam ou foram inspiradas por livros, e o site Flavorwire critica os clichês em fotos de escritores.

O Evaldo falou em seu blog sobre Henry Louis Mencken, autor de O livro dos insultos. A Mariana, do Outra xícara por favor, resenhou O Dia do Curinga, de Jostein Gaarder, e o Alfredo falou em seu blog de O senhor vai entender, de Claudio Magris.

Os designers da IDEO divulgaram um vídeo com três idéias de inovações que a leitura digital pode trazer para os livros.

E Malcolm Gladwell, em um artigo na New Yorker, desdenha da possibilidade de as redes sociais causarem alguma mudança real no mundo. O texto causou um certo furor na internet, e respostas a ele apareceram em sites como WiredThe Atlantic Wire.

Links da semana

Acima você vê o teaser animado feito pelo Estúdio Birdo para a graphic novel Cachalote, de Rafael Coutinho e Daniel Galera. A curiosidade é que quem está tocando piano é ninguém menos que Laerte.

Christopher Hitchens escreveu na Vanity Fair mais um capítulo de sua batalha contra o câncer, e Ricardo Piglia falou ao El País sobre seu novo romance, Blanco nocturno.

O Gabriel, da revista Bula, resenhou 2666, de Roberto Bolaño. Se você gosta de Bolaño, compareça na disputa entre ele e Philip Roth na Livraria da Vila, dia 16.

Surgiram na internet as primeiras imagens de Rooney Mara como Lisbeth Salander, da trilogia Millennium. A escritora Carola Saavedra foi entrevistada para o Cultura News, e o André, do Lendo.org, indica 22 bibliotecas com conteúdo online.

Duas pessoas resenharam O Palácio de Inverno, de John Boyne: a Taize, do Meia Palavra, e a Fanny, do O restaurante do fim do universo.

Os colaboradores do Meia Palavra também deram suas opiniões sobre 1984, de George Orwell. No mesmo site, o Felipe escreveu sobre Paraíso perdido, de Cees Nooteboom, a Dinddi falou de O colecionador de mundos, de Ilija Trojanow, e o Luciano leu Mãos de cavalo, de Daniel Galera.

A NASA criou um Flickr com várias fotos históricas ligadas à agência de exploração espacial, e um grupo de designers tenta imaginar um mundo sem Photoshop.

O Eduardo, do blog Arte faz parte, resenhou Afluentes do rio silencioso, de John Wray. O Jorge, do I’m learning to fly, leu Infância, de J.M. Coetzee, e o Tuca resenhou em seu blog O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de João Paulo Cuenca.

A Kelly, no blog da Livraria Cultura, escreveu sobre a dor que emprestar um livro pode trazer. A Livia, do Beco das palavras, falou sobre Retalhos, de Craig Thompson, e o blog da Raquel Cozer, que trabalha no caderno Sabático do Estadão, mudou de endereço.

Para terminar: um vídeo mostra que o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke acertou algumas de suas previsões sobre o futuro, e três garotas criaram o Lady’s Comics, um site sobre mulheres nos quadrinhos — seja como personagens, autoras ou desenhistas.

Links da semana

Acima você vê, em primeira mão, uma foto do boneco de Xu, personagem de Cachalote, que está sendo produzido pelo estúdio Factotum para a exposição de originais da graphic novel que ocorrerá em setembro em São Paulo. A Aline, do blog Godot não virá, resenhou a hq de Daniel Galera e Rafael Coutinho.

O Rafael, do blog O Espanador, resenhou O castelo nos Pirineus, de Jostein Gaarder. Ele também falou sobre o encontro que aconteceu segunda-feira entre Mia Couto e Agualusa na Livraria da Vila.

Apesar das constantes manchetes sobre a morte do livro, a Veja on-line fala sobre as tecnologias que estão ajudando a melhorar o livro impresso.

O José Maurício, do blog Kínesis, leu Nove noites, de Bernardo Carvalho. No blog O Café, a Amanda fala de Bordados, de Marjane Satrapi, enquanto Jonas resenhou Uma solidão ruidosa, de Bohumil Hrabal, para o Scream & Yell.

Duas pessoas resenharam A vitória de Orwell, de Christopher Hitchens: o Thiago, do blog Os que cheiraram Cocteau, e a Anica, do Meia Palavra.

Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro, ganhou adaptação para o cinema com participação de Keira Knightley e Carey Mulligan, e um novo pôster do filme foi divulgado.

jornal argentino Página 12 fala sobre Blanco noturno, primeiro romance de Ricardo Piglia em treze anos, e o site Geekologie mostra o que aconteceria se eventos históricos fossem usuários do Facebook.

No Meia Palavra, a Taize resenhou O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J.P. Cuenca. O lançamento em São Paulo do livro foi marcado para 2 de setembro.

Em entrevista a Mario Gioia, o crítico Lorenzo Mammì analisa os ensaios de Giulio Carlo Argan reunidos no livro A Arte Moderna na Europa.

No portal InfoEscola, a Ana Lucia resenha Invisível, de Paul Auster. A Marina resenhou em seu blog o clássico infantil Píppi Meialonga, de Astrig Lindgren, e Wellington fala sobre a obra de José Saramago no Digestivo Cultural.

Para terminar, o Alessandro, do blog Livros e afins, dá doze dicas para facilitar o hábito de leitura, e o Portal Exame mostra os detalhes de catorze leitores de e-books, para que você possa compará-los.

O silêncio da splash page (1)

Por Erico Assis

Em Cachalote, perto do final do primeiro capítulo, o filhinho-de-papai Ricardo Aurélio chega a Paris, encontra na rua um casal de amigos brasileiros e troca contatos. O casal despede-se e segue seu rumo. Ricardo acende um cigarro e parte para o outro lado. Então vira-se para, por cima do ombro, observar os que se afastam.

O olhar de Ricardo, enquanto solta fumaça pelo nariz, toma uma página inteira. Uma grande massa branca, vazia, empurra os desenhos para o canto inferior direito. Na linguagem clássica dos quadrinhos, caberia ali um grande balão de pensamento em que Ricardo reflete sobre o encontro que acaba de ter e constrói planos cínicos para tirar proveito dos conhecidos. Não é necessário, claro. O olhar do personagem e a grande massa branca já dizem muito do que passa na sua cabeça.

Existe algo de único e incomparável na splash page — o nome que os americanos dão para os quadros de página inteira nas HQs. Nos gibis de super-herói, a página que abre a história é geralmente uma splash — traz alguma cena impactante, ou um panorama para situar a ação. Também está no meio da história quando se chega a um clímax. O objetivo técnico é o mesmo: a página inteira só pode ser vista pela visão periférica, então a splash faz o olho do leitor passear pelo grande quadro, demorar-se em um único momento estático.

Na graphic novel autobiográfica Stitches, David Small reconta a visita ao psiquiatra onde teve que encarar a verdade mais difícil sobre os pais. Small, adolescente, agarra-se às pernas do terapeuta e começa a chorar. O choro vira oito páginas de chuva, sendo a primeira e as três últimas splashes — a narrativa acelera e desacelera-se com um efeito que pode ser comparado… à câmera lenta? A uma panorâmica demorada? Ao piano da trilha sonora? Tudo isso, mas algo mais.

Em Umbigo sem fundo, a sequência que encerra a segunda parte da história é composta só de splashes. À primeira vista ela pode ser comparada a recursos de montagem do cinema, quando algo de trágico ou climático está para acontecer. Mas Shaw começa com um quadro minúsculo, deixando o branco tomar a página, e a cada folha aumenta o tamanho do quadro. O virar de páginas do leitor fica mais frenético que nas cenas anteriores.

Não é possível analisar estas splashes, de Cachalote a Umbigo sem fundo, de Stitches ao trabalho autoral de Frank Miller, entre tantos outros exemplos contemporâneos, como se analisa uma pintura ou uma fotografia. As páginas fazem parte de uma sequência de imagens. Seu significado vem justamente por situar-se em certa posição de uma narrativa. Também não é possível analisá-la como uma cena do cinema, por mais que quadrinhos e cinema sejam narrativas com imagens.

No cinema, além do quadro ser sempre do mesmo tamanho, os personagens movimentam-se e a trilha sonora (incluindo falas, efeitos e música) também dará tom à cena. Há também a expressividade da fotografia — que, se comparada à expressividade do traço nos quadrinhos e à infinita possibilidade de estilos de desenho, prova-se bastante limitada. Além disso, há uma diferença básica: sou eu que viro as páginas no quadrinho, enquanto o cinema me define um tempo.

A linguagem dos quadrinhos baseia-se em modular o tempo. Acompanho uma sequência de quadros na página, com tamanhos e angulações variados, e aquelas imagens estáticas em conjunto me sugerem uma narrativa que acontece em determinado espaço de tempo, que pode ou não ser o mesmo que levo para ler. A splash page bem construída consegue mexer com o ritmo da história. Cria outro tempo, faz o mundo parar. Buscamos algum ponto de comparação com o cinema ou a literatura, mas o efeito é único.

Em suma: não há como se ter o efeito de uma splash page em outra linguagem que não a dos quadrinhos.

(Continua na próxima coluna)

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

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