reportagem

Semana cinquenta e seis

Os lançamentos da semana são:

O amor do soldado, de Jorge Amado
Escrita em 1944 por encomenda de Bibi Ferreira, o atormentado e trágico romance entre Castro Alves e a atriz portuguesa Eugênia Câmara é o tema desta única obra de teatro de Jorge Amado. A ação se concentra na última parte da breve vida de Castro Alves (1847-71), entre 1866 e 1870, em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro. Em cenas rápidas e diálogos inflamados, alternados com versos célebres de combate, vemos um poeta que divide sua energia e sua inspiração entre duas paixões exigentes: Eugênia Câmara e a luta pela libertação dos escravos e pela instauração da república. A edição inclui posfácio de Aderbal Freire-Filho.

Bafinhaca de volta aos trilhos, de Kaye Umansky (Ilustrações de Nick Price; Tradução de Ricardo Gouveia)
Nem tudo vai bem com Bafinhaca: ela percebeu que uma bruxa não pode viver só de doces e um mínimo de atividade física. É que a Floresta do Bruxedo acabou de ganhar uma confeitaria e os doces de lá são tão incríveis — verdes feito sapo, pretos em forma de morcego e com asas batendo na sua boca — que as filas na porta são sempre enormes. Mas essa nova mania está com os dias contados: Bafi está determinada a fazer alguma coisa não só pelas bruxas, mas por todos os habitantes da floresta. Junto com Tubararaca, sua melhor amiga, e Tukai, seu fiel companheiro, ela vai elaborar um saudável plano de ação que inclui muitos legumes e um dia inteiro dedicado aos esportes.

Obras completas, vol 15: Psicologia das massas e análise do eu e outros textos, de Sigmund Freud (Tradução de Paulo César de Souza)
Este volume aborda o comportamento de grupos, partindo do fato de que as relações que moldam o indivíduo, desde a infância, são também fenômenos sociais. Assim, o irracionalismo dos movimentos políticos de massa — recorde-se que o fascismo e o comunismo estavam em ascensão na época — é explicado por conceitos psicanalíticos como libido e regressão. O ensaio “Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina” traz formulações sobre a sexualidade feminina e a homossexualidade em geral. Ainda, dois textos sobre a telepatia são testemunho do interesse de Freud pelo tema. Por sua vez, “Uma neurose do século XVIII envolvendo o Demônio” analisa o peculiar documento deixado por um pintor alemão, a história do pacto que ele fez com o Diabo a fim de livrar-se de sua neurose.

O silêncio da água, de José Saramago (Ilustrações de Manuel Estrada)
Em uma tarde silenciosa, um garoto vai pescar à beira do Tejo e é surpreendido por um peixe enorme que lhe puxa o anzol. Infelizmente, a linha arrebenta, deixando-o escapar. Ele corre até a casa dos avós, com a esperança de voltar, rearmar a vara e “ajustar as contas com o monstro”. Claro que, ao alcançar o mesmo ponto do rio, o menino não encontra mais nada, apenas o silêncio da água. Sua tristeza só não é completa pois o peixe, como ele diz, “com o meu anzol enganchado nas guelras, tinha a minha marca, era meu”. Esse menino foi José Saramago, que narra neste livro uma aventura de infância que, para ele, culmina em um despertar da lucidez. Ilustrado pelo espanhol Manuel Estrada, este pequeno conto autobiográfico se torna uma fábula de extraordinária beleza e sabedoria.

Bombaim: cidade máxima, de Suketu Mehta (Tradução de Berilo Vargas)
Uma das cidades mais populosas do mundo, Bombaim permanece neste início de século XXI a principal porta de entrada do complexo multiculturalismo da Índia. Com uma mistura de memórias, reportagem e relato de viagem, Suketu Mehta investiga como as numerosas castas, etnias e religiões do gigante asiático coexistem no espetáculo de miséria e luxo da capital econômica do país. Educado nos Estados Unidos, o autor retorna à cidade da infância com um olhar ao mesmo tempo distanciado e afetivo, fascinado pela tragédia de suas favelas gigantescas e pela rotina sanguinária de pistoleiros, prostitutas e policiais. As produções milionárias de Bollywood, bem como os meandros do conflito entre indianos e paquistaneses, fornecem um agitado pano de fundo aos dramas dos protagonistas desse relato, que nos joga num vertiginoso labirinto de violência, sexo, religião, poder e dinheiro.

Semana quarenta e seis

[Novidade: agora é possível acompanhar a lista de livros que a Companhia lançará nos próximos meses]

Os lançamentos da semana são:

Zeitoun, de Dave Eggers (Tradução de Fernanda Abreu)
Abdulrahman Zeitoun decide ficar em Nova Orleans para salvar sua casa durante a passagem do furacão Katrina. A tempestade daquela noite é intensa e a devastação enorme; mas a água escoa rápido. Até que uma torrente invade a cidade. E é então que os efeitos do temporal começam a se tornar mais dramáticos. Neste relato verídico, com cenas tão absurdas que parecem saídas de uma história ficcional, Dave Eggers dá voz a uma família de imigrantes para mostrar como a mistura de desinformação, paranoia e atuação política desastrosa transformaram um cataclismo natural numa injustiça humana de proporções inimagináveis.

O país do Carnaval, de Jorge Amado
A narrativa começa no navio que traz de volta ao Brasil o jovem filho de fazendeiro Paulo Rigger, depois de sete anos em Paris, onde cursara direito e absorvera comportamentos e ideias modernas. Nos primeiros dias que passa no Rio de Janeiro, Rigger tenta compreender um país onde já não se sente em casa, um país que tenta timidamente superar seu atraso oligárquico e ingressar na era industrial e urbana. Sintonizado com os dilemas de seu tempo, o primeiro romance de Jorge Amado já revela uma literatura vívida e calorosa, em que a veia satírica convive com uma profunda compreensão das limitações humanas.

Jakob von Gunten — Um diário, de Robert Walser (Tradução de Sergio Tellaroli)
Composto sob a forma de diário, e publicado em 1909, Jakob von Gunten é o relato da trajetória do jovem de origem supostamente nobre que ingressa no Instituto Benjamenta para aprender a servir. Walser escreveu-o ao longo de 1908, em Berlim, onde, três anos antes, chegara a frequentar ele próprio instituição semelhante. Recheado de elementos autobiográficos, o diário de Jakob von Gunten descreve seu relacionamento conflituoso com o colega Kraus, modelo absoluto de humildade e subserviência, e com os misteriosos proprietários da instituição educacional: o diretor e sua enigmática irmã, mestra adorada. Do conflito do jovem Jakob entre uma suposta grandeza de berço e a certeza de que não será nada na vida, entre o orgulho familiar e o aprendizado da humildade, Walser extrai uma das narrativas mais intrigantes do século. Escritor admirado por Kafka, Thomas Mann, Robert Musil, entre outros, o autor é fonte de inspiração para os maiores nomes da literatura contemporânea.

Ilusões pesadas, de Sacha Sperling (Tradução de Reinaldo Moraes)
Aos dezoito anos, Sacha Sperling causou sensação na exigente cena francesa com este romance de estreia, de forte inspiração autobiográfica. A intensidade dos relatos sobre amor, sexo e drogas na adolescência chegou a lhe render a alcunha de “Rimbaud pop”. No livro, um garoto que mal completou quinze anos já se sente vivido o bastante para contar sua vida, em especial tudo que se passou com ele um ano antes, numa fase de profunda crise existencial. E ele tem mesmo o que contar, começando por suas explorações sexuais com garotas e com um garoto de sua idade, o pasoliniano Augustin, que tem um pé na delinquência e virá a ser seu primeiro grande amor. Não faltam as epifanias nem sempre luminosas, obtidas às custas de muito álcool e drogas, desde maconha até cocaína, passando por anfetaminas e calmantes de farmácia.

O jornalista e o assassino, de Janet Malcolm (Tradução de Tomás Rosa Bueno)
Janet Malcolm, uma das mais importantes jornalistas americanas do século XX, narra a história de um médico, Jeffrey MacDonald, condenado pelo assassinato da esposa e das duas filhas, e que moveu uma ação inaudita contra um jornalista, Joe McGinniss, que escrevera um livro sobre ele, baseado em entrevistas feitas durante o julgamento e na prisão. Colocando em pauta temas tão polêmicos quanto a ética do jornalismo e a liberdade de imprensa, a clássica reportagem de Janet Malcolm sobre a ética jornalística inaugura a série Jornalismo Literário de Bolso, mais econômica. A edição inclui posfácio de Otavio Frias Filho.

Semana quarenta e três

Os lançamentos da semana são:

Cláudio Manuel da Costa, de Laura de Mello e Souza
O mineiro Cláudio Manuel da Costa, consagrado pelos versos de Vila Rica, poema dedicado à fundação da capital “das Minas Gerais”, é revisitado de maneira inovadora nesse perfil biográfico escrito por Laura de Mello e Souza, que pesquisou inventários, escrituras e processos judiciais para reconstituir os passos do poeta no Brasil e na Europa. O leitor é transportado à Minas Gerais do século XVIII, onde Cláudio Manuel da Costa exerceu a carreira de advogado paralelamente à de poeta, engajando-se também no movimento da Inconfidência Mineira. Leia o post que Lilia Moritz Schwarcz fez sobre uma das muitas controvérsias que marcam a vida do poeta.

Onde os homens conquistam a glória, de Jon Krakauer (Tradução de Ivo Korytovski)
Jon Krakauer, autor de Na natureza selvagem, reconstitui a trajetória de Pat Tillman — astro do futebol americano que se tornou um dos principais ícones do patriotismo pós-11 de setembro ao abrir mão de uma carreira milionária para servir no Afeganistão. Tillman foi morto acidentalmente por um colega após uma sequência de manobras equivocadas de sua unidade de combate. A reação oficial foi um cínico encobrimento da verdade aprovado pelos mais altos escalões do governo e uma série de investigações que resultariam ineptas não fosse a determinação de Dannie Tillman em descobrir o que acontecera com seu filho. Em uma pesquisa de fôlego, Krakauer reconstrói a trajetória de Pat Tillman e expõe a farsa arquitetada para encobrir aquele que se tornaria um dos mais emblemáticos escândalos militares da era Bush.

O negócio do Brasil, Evaldo Cabral de Mello
Sessenta e três toneladas de ouro: esse foi o preço que Portugal pagou aos holandeses para que eles devolvessem o Nordeste aos lusitanos; essa negociação teria sido o arremate de uma guerra que já havia sido vencida pelos portugueses, que mesmo assim sentiam-se vulneráveis ao rivalizar com a principal potência econômica e militar do século XVII. A tese heroica de que os holandeses foram expulsos mediante a valentia dos portugueses, dos índios e dos negros é revista nessa reconstituição histórica feita por Evaldo Cabral de Mello, um dos maiores historiadores brasileiros, especialista em história regional e no período de domínio holandês em Pernambuco no século XVII.

Semana quarenta e um

Os lançamentos da semana são:

Lições de filosofia primeira, de J. A. Giannotti
Giannotti compõe um roteiro didático diferente das “introduções à filosofia” usuais. Em vez de apresentar um desfile mais ou menos apressado de nomes, conceitos e sistemas, o autor prefere concentrar-se nos momentos que conduziram à grande crise do século XX, quando pensadores como Heidegger e Wittgen-stein solaparam as bases do discurso filosófico tradicional. Dividido em duas partes, dedicadas respectivamente aos pensadores clássicos e contemporâneos, o livro percorre as principais questões da metafísica desde Platão e Aristóteles, proporcionando a estudantes e especialistas um excelente guia para a prática e o ensino da filosofia.

Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, de Xinran (Tradução de Caroline Chang)
Xinran, jornalista e autora do best-seller internacional As boas mulheres da China, retorna às histórias verídicas de mulheres chinesas que a tornaram mundialmente conhecida. Desta vez ela aborda com delicadeza um dos aspectos mais cruéis e polêmicos da sociedade chinesa contemporânea: em dez capítulos, são apresentadas dez histórias marcadas pela interrupção da relação mãe-filha. Após relutar, Xinran decidiu abordar esse delicado tema e dedicar um livro às centenas de milhares de mães chinesas que se viram levadas a rejeitar — e até mesmo a matar — suas bebês: pela primeira vez, elas teriam suas histórias ouvidas. São, é claro, histórias alarmantes, como a vez em que a própria autora testemunhou uma parteira afogar uma menina recém-nascida num balde de água suja. Juntos, material humano, dados históricos e informações estatísticas compõem um envolvente panorama de tristes experiências de maternidade e confirmam a autora como uma das principais vozes a traduzir a complexa realidade chinesa para o público-leitor ocidental.

Apego, de Isabel Fonseca (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza)
Aos 46 anos, Jean Hubbard é uma profissional de sucesso que leva uma vida doméstica relativamente feliz. Jornalista formada em Oxford, escreve colunas sobre saúde e bem-estar para inúmeras publicações e é casada com Mark, homem igualmente bem-sucedido, proprietário de uma das mais criativas agências de publicidade da Inglaterra. A harmonia cotidiana se dissolve quando Jean intercepta uma carta indecorosa remetida pelo escritório londrino de Mark. Em vez de apresentar sua descoberta e inquirir o marido, Jean decide acessar um endereço de e-mail fornecido pela signatária da carta e encontra fotos picantes da suposta amante. Tomada por um misto de ciúme, curiosidade masoquista e dependência, Jean começa a se corresponder com a moça, passando-se por Mark. Num crescendo de drama e suspense, Fonseca compõe um painel delicado e surpreendente da meia-idade, mostrando que a maturidade e o sucesso não trazem necessariamente segurança ou amadurecimento emocional.

Mortalha para uma enfermeira, de P.D. James (Tradução de Daniel Estill)
Mortalha para uma enfermeira é um dos primeiros e mais elogiados livros de P. D. James, tido pelo New York Times como “a narrativa de mistério em sua melhor forma”. Os métodos inteligentes e minuciosos de investigação de Adam Dalgliesh, o charmoso inspetor da Scotland Yard que protagoniza uma série de romances da autora, serão postos à prova por intrigas que envolvem algumas mortes misteriosas em Nightingale House, escola de enfermagem anexa a um renomado hospital do sul da Inglaterra. O assassinato de duas jovens estudantes inaugura a série de crimes. A primeira vítima foi envenenada e a segunda era uma bela aluna que, descobre-se, estava grávida de três meses. No cenário de um sombrio casarão vitoriano, com a atmosfera pesada dos ambientes hospitalares, os principais suspeitos serão os estudantes, professores e médicos — justo aqueles que deveriam proteger vidas.

Um lugar incerto, de Fred Vargas (Tradução de Dorothée de Bruchard)
Para o delegado Jean-Batiste Adamsberg seria apenas uma curta estada do outro lado do canal da Mancha, mas a participação em um colóquio sobre crimes ligados à imigração reservou surpresas macabras. Dezessete pés foram encontrados, dentro de sapatos, junto ao cemitério de Highgate. O local é famoso. Corre a lenda que Highgate tem um “mestre”, uma entidade vampiresca que assombra o cemitério e tem ligação com ninguém menos que Bram Stoker, o criador do conde Drácula. Mas Adamsberg tem de retornar à rotina em Paris, onde irá se confrontar com um crime não menos assustador e repulsivo: o corpo de um velho jornalista é encontrado em pedacinhos, estripado em sua residência em um subúrbio de luxo. Pouco depois, descobre-se que um crime semelhante aconteceu recentemente na Áustria. Nessa galeria de personagens, crimes e lugares sinistros, só a imaginação e a argúcia de Adamsberg são capazes de deslindar as relações que ligam suspeitos, épocas e paisagens tão incertos quanto sombrios.

Grande, pequeno, de Blandina Franco (Ilustrações de José Carlos Lollo)
Muito adulto jura de pés juntos que nunca fez aquelas coisas que criança sempre faz — pintar a parede com canetinha, vestir uma capa e pular da cadeira, tentando voar, enfiar o dedo no nariz… Pois os autores deste livro revelam alguns segredinhos de infância de personagens insuspeitos: um campeão de natação que perdeu a sunga na piscina; a freira carmelita que usava vestido de chita, o segurança grandão que no teatro da escola fez papel de abelhinha; e muitos mais. Ser grande ou pequeno é mesmo curioso. E só depende do ângulo de que a gente está olhando. Dos mesmos autores de Quem soltou o Pum?.

12