Por Robert Darnton*
Em recente viagem ao Brasil, conversei com Lilia Moritz Schwarcz, uma das melhores antropólogas e historiadoras do país. Nossa conversa acabou convergindo para os dois temas que ela estudou com maior profundidade — racismo e identidade nacional.
Visitei o Brasil pela primeira vez em 1989, quando a economia estava quase paralisada pela hiperinflação, tiroteios irrompiam nas favelas e Lula, herói do movimento sindical mas ainda inseguro como político, realizava sua primeira campanha à presidência. Tudo aquilo me pareceu fascinante e assustador. Na minha segunda viagem, alguns anos mais tarde, conheci Lilia e seu marido, Luiz Schwarcz, que começava a transformar a editora que tinha fundado, a Companhia das Letras, numa das melhores casas editoriais da América do Sul. Eles me proporcionaram um dia repleto de brasilidade, que guardo na memória como uma das experiências mais felizes da minha vida: pela manhã, um passeio com seus filhos pelo parque mais importante de São Paulo, onde famílias de todas as cores faziam piqueniques e brincavam iluminadas por um sol deslumbrante; no almoço, um excursão por especialidades brasileiras nunca sonhadas por minha filosofia culinária (mas como não era dia de feijoada, nada de orelhas ou rabos de porco); uma partida de futebol internacional (o Brasil ganhou da Venezuela e as arquibancadas explodiram de alegria); e por fim, incontáveis caipirinhas e um espetáculo intimista de Caetano Veloso no auge do lirismo e das provocações políticas.
Desde então, nunca mais deixei de ficar maravilhado com a energia e a originalidade da cultura brasileira. Todavia não finjo compreendê-la, especialmente por estar em constante mudança. E eu não falo português. Posso apenas fazer perguntas em inglês e me esforçar para apreender as respostas. Teria o mito do Brasil como um “gigante adormecido” se tornado uma profecia que cumpriu a si mesma? “Ele despertou”, dizem hoje. A economia está em franca ascensão, o sistema de saúde se expande, a alfabetização melhora a cada dia. Há também profecias de ruína, pois a história econômica do Brasil lembra ciclos de crescimento e queda impostos sobre séculos de escravidão e empobrecimento. De qualquer modo, Lula está chegando ao final do segundo e último mandato como presidente. Seja qual for a opinião dos brasileiros sobre sua nova política externa, mais assertiva, que inclui o cultivo de relações amigáveis com o Irã (a maioria da população não parece interessada no assunto), em geral eles concordam que Lula gerenciou bem a economia e fez muito para melhorar a vida dos pobres. Seu mandato termina em outubro e ele está apoiando Dilma Rousseff, ex-chefe da Casa Civil de seu governo, cujas chances de vitória estão em grande parte amparadas na popularidade do presidente. O primeiro debate da nova campanha presidencial, ocorrido em 5 de agosto, foi um evento cordato — indicação, me garantem, de uma democracia saudável, que deixou para trás os tempos dos golpes. Agora os estrangeiros estão fazendo novas perguntas sobre o caráter deste novo grande poder. Transmiti a Lilia alguns dos questionamentos mais comuns.
Robert Darnton: A ascensão do Brasil como um dos protagonistas no cenário mundial suscita questionamentos sobre a identidade nacional do país. Alguns são hostis, como o que você diz ter encontrado em sua última viagem aos EUA: como você pode viver num país tomado por favelas e violência? Qual sua resposta a isso?
Lilia Moritz Schwarcz: É curioso como o Brasil hoje tem uma nova imagem no exterior. Costumávamos ser vistos como “exóticos”; um país de capoeira, candomblé, carnaval e mulatas. Continuamos a ser vistos como exóticos, mas esse exotismo ganhou um novo ingrediente: a violência, até mesmo uma nova estética da violência, especialmente no modo como o Brasil é retratado em filmes contemporâneos, como Cidade de Deus. O fascínio que muitas pessoas de fora do Brasil têm pelas favelas é ambíguo. Por um lado as favelas são vistas como comunidades violentas, sujeitas a líderes violentos alheios à autoridade do Estado. Por outro, são apenas “diferentes” — panoramas de uma cultura alheia à cultura dominante, com maneiras particulares e especiais de comemorar, dançar, jogar futebol. Não temos favelas por todos os lados, mas é o que gostam de pensar os estrangeiros. Criamos uma nova espécie de turismo, que inclui uma “favela tour”. É tudo falso, mas os turistas vivem a ilusão de experimentar um outro mundo. E você, Bob? Tem medo de andar por certas regiões de Nova York? Seria o Harlem um tipo de favela?












