salman rushdie

Semana oitenta e seis

Os lançamentos da semana são:

Os gêmeos (Crônicas de Salicanda – Volume 1), de Pauline Alphen (Tradução Dorothée de Bruchard)
Na floresta de Salicanda vivem os gêmeos Jad e Claris, que na noite em que completam três luadas perdem a mãe e passam a apresentar alguns poderes estranhos. Estamos no século XXIII, em um mundo de práticas quase medievais: o escambo impera e não há o menos sinal da tecnologia que conhecemos nos dias de hoje. Os irmãos não conhecem a história da humanidade, assim como não sabem por que a mãe desapareceu, e estão em busca de respostas.

O último suspiro do mouro, de Salman Rushdie (Tradução Paulo Henriques Britto)
Em 1988, o aiatolá Khomeini condenou Salman Rushdie à morte por ter escrito um livro que desagradou aos fundamentalistas islâmicos. A resposta do autor foi este romance: uma defesa contundente das virtudes do pluralismo e da tolerância, em oposição às pretensas verdades únicas e excludentes. O protagonista da história é o “Mouro” Zogoiby – filho único de uma família abastada da boemia artística de Bombaim –, que se encontra num momento de crise profunda. Sua mãe, uma pintora famosa, ama a beleza, mas o Mouro é feio e tem uma mão deformada. Ele se apaixona por uma mulher casada e ambos acabam sendo expulsos de casa, levando a um pacto suicida que não funciona como o esperado. O Mouro decide aceitar seu destino e mergulha numa vida depravada em Bombaim.

A educação de uma criança sob o Protetorado Britânico, de Chinua Achebe (Tradução Isa Mara Lando)
“Onde quer que haja Alguma Coisa, Alguma Outra Coisa virá ficar a seu lado”. Formulado pela tradição imemorial da cultura igbo, o provérbio citado pelo nigeriano Chinua Achebe nesta coletânea de ensaios poderia resumir sua própria visão de mundo como romancista e pensador. Instantâneos autobiográficos e bastidores da criação literária, bem como reflexões históricas e culturais, dialogam de modo fecundo com as opiniões do autor de O mundo se despedaça acerca da tumultuada política de seu país, mostrando que realidade e ficção são faces complementares da experiência. Achebe, um dos escritores mais importantes da literatura contemporânea, analisa as conseqüências funestas do colonialismo sem jamais dispensar a lucidez, o bom humor e a ironia.

Clara dos Anjos, de Lima Barreto
Livro-chave para a interpretação da obra de Lima Barreto, Clara dos Anjos narra as desventuras de uma adolescente pobre e mulata seduzida por um malandro branco. Os subúrbios do Rio de Janeiro no início dos anos 1920, desempenham papel central num enredo de conexões históricas e sociológicas que, na habilidosa construção da narrativa, converte o triste fim da protagonista numa crítica feroz da alegada “democracia racial” brasileira. A edição traz textos elucidativos de Beatriz Resende, Lúcia Miguel Pereira e Sérgio Buarque de Holanda, e notas elaboradas por Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Galdino.

Diário de Oaxaca, Oliver Sacks (Tradução Laura Teixeira Motta)
Como são e o que fazem cientistas quando se vêem longe de seus laboratórios e perto do habitat de seus objetos de pesquisa? O que explica seu entusiasmo quase juvenil pela descoberta de um novo espécime? Ao narrar sua experiência junto a um grupo de aficionados por samambaias que se desloca de Nova York a Oaxaca, no sul do México, para ver as pteridófitas mais raras do mundo, Oliver Sacks nos mostra como o romantismo é inerente à ciência e homenageia os grandes pioneiros da biologia, como Alexander on Hulbold e Charles Darwin, cujos relatos célebres de expedições são até hoje lidos com entusiasmo.

A águia que não queria voar, de James Aggrey e Wolf Erlbruch (Tradução Sergio Tellaroli)
A águia, rainha das aves, é símbolo de nobreza e poder. Já a galinha não teve a mesma sorte. E que, na imaginação das pessoas, ser águia significa encarar o sol de frente e alçar grandes voos. Ao passo que ser galinha…Bom, além de mal sair do chão, elas têm de se contentar com os grãozinhos de milho que recebem. Majestade e submissão se encontram nesta bela história da águia que, criada como galinha, se recusa a voar. Escrita para os povos africanos — que, dominados pelos europeus, deixaram de acreditar na riqueza da sua cultura e na capacidade de tomar o seu destino nas próprias mãos –, esta fábula nos lembra que, mesmo adormecida, a grandeza humana não se deixa extinguir nem mesmo pela mais severa opressão.

Na casa do Leo — O corpo humano, de Philip Ardagh (Tradução Érico Assis)
Entre (não precisa bater!) e descubra: que os bebês têm mais ossos que um adulto; que os nossos ouvidos, além de responsáveis pela audição, promovem também o equilíbrio do corpo; por que o nosso pulmão esquerdo é menos que o direito. Uma casa repleta de curiosidades e diversão!

Beto e Bia em De Mentirinha, de Geoffrey Hayes (Tradução Érico Assis)
Beto adora brincar de pirata valente, mas é difícil viver suas aventuras com Bia, sua irmã menos, sempre atrás dele. Ela quer brincar junto, mas é pequena demais e não entende nada! Beto precisa dar um jeito de fugir dela. Quando ele finalmente consegue se livrar da irmã, descobre que brincar sozinho não é tão divertido.

O peixe e a passarinha, de Blandina Franco e José Carlos Lollo
Em um rio cercado de árvores viviam um certo peixe, que passava horas admirando o desenho das nuvens, e uma certa passarinha, que adorava observar a paisagem refletida na água. Quando um dia os dois resolvem comer a mesma minhoca na mesma hora dão início a uma longa amizade, que acaba se transformando em amor. Dos autores de Quem soltou o Pum?, uma história de um amor improvável mas não impossível.

Semana quarenta e sete

Os lançamentos da semana são:

Alex no país dos números, de Alex Bellos (Tradução de Claudio Carina e Berilo Vargas)
Os números têm fascinado a humanidade desde sua descoberta. Representados de diferentes modos pelas civilizações ao longo dos séculos, esses signos e suas relações se tornaram o fundamento do raciocínio abstrato, bem como de todas as atividades humanas em que é necessário contar. Os traços e marcas que permitiam aos primeiros pastores e agricultores o controle sobre a produção de seus rebanhos e plantações se transformaram na base conceitual da atual revolução tecnológica. Nas páginas desta surpreendente viagem pelo país da matemática, tal como a Alice de Lewis Carroll, Alex Bellos conduz o leitor por entre uma multidão de seres inusitados. Em meio a números com poderes maravilhosos, números que se atraem e se repelem, números que representam a plenitude da divindade e números repetidos que desafiam o acaso dos dados, o autor demonstra que a matemática é uma ciência tão importante quanto divertida. Alex Bellos, que fala português, vem ao Brasil para o lançamento do livro. Haverá bate-papo em São Paulo e Rio de Janeiro, com oficina de cubo mágico.

Três sombras, de Cyril Pedrosa (Tradução de Carol Bensimon)
Joachim e seus pais — Louis e Lise — vivem distantes do resto do mundo. A vida é tranquila e cheia de pequenos prazes na casinha rodeada por colinas. Mas um dia três sombras surgem no horizonte, montadas em cavalos, com capas negras e os rostos cobertos por capuzes. Sua presença silenciosa aos poucos se torna onipresente, aterrorizando a família e levando Louis à terrível conclusão de que as três entidades estão ali para buscar Joachim. Então Louis recusa-se a aceitar as engrenagens do Destino, e parte com o filho em uma viagem febril e desesperada. Nessa jornada quase alegórica, retratada com o traço preciso de Cyril Pedrosa — que ora revela a inocência de um olhar, ora ameaça à espreita —, pai e filho atravessarão lugares inóspitos povoados por seres trapaceiros e imorais, enquanto tentam, de todas as maneiras possíveis, escapar do encontro com a morte.

O jantar fatal e outros mistérios médicos, de Jonathan Edlow (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza)
No ritmo das séries televisivas de grande sucesso ER e House, e inspirado nos contos de sir Arthur Conan Doyle protagonizados por Sherlock Holmes, o professor de medicina em Harvard e renomado especialista em emergências neurológicas Jonathan Edlow conta quinze histórias de mistérios médicos que — por sua complexidade ou rara ocorrência — desafiam os melhores “detetives”. Entre doenças esquecidas nos antigos compêndios de medicina que subitamente se manifestam no coração dos Estados Unidos e supostos chás medicinais que na verdade são tóxicos, o dr. Edlow ainda nos apresenta, em linguagem clara e acessível, a história das moléstias diagnosticadas, e as aventuras da descoberta dos mais diversos males e patógenos.

Oriente, Ocidente, de Salman Rushdie (Tradução de Melina R. de Moura)
Salman Rushdie é um equilibrista habituado à corda bamba entre dois mundos que parecem mais distantes entre si no tempo que no espaço — o Oriente e o Ocidente. Tem, portanto, um olhar privilegiado sobre cada um deles, o que lhe permite enxergar detalhes que escapariam a um observador convencional. Nos nove contos deste livros, o escritor indiano observa essas duas culturas com olhos afiados e irônicos, montando um caleidoscópio de situações que atravessam séculos e continentes. De Hamlet a Isabel de Castela, de Colombo ao dr. Spock, passando por assaltantes anônimos, espiões e proletários, indivíduos invariavelmente fora do lugar dão a estas páginas colorido e vitalidade raros na literatura — e são a prova definitiva de que não há fronteiras para a fabulação de Rushdie.

Mosca Espanhola, de Will Ferguson (Tradução de Celso Mauro Paciornik)
Jack McGreary é um jovem que vive na minúscula, pobre e pacata cidade de Paradise Flats. Quando dois novos golpistas chegam ao local e começam a agir, Jack é o único que reconhece o truque, mas, em vez de entregá-los, termina por ajudá-los. Encantado com a promessa de uma vida de aventuras com os profissionais do engodo Virgil Ray e srta. Rose, espécie de Bonnie e Clyde sem armas, Jack decide deixar sua antiga vida para trás e partir com eles. Juntos, os três aplicam golpes por todo o país, dos mais simples aos mais sofisticados, com um único lema: não é crime se dão o dinheiro para você. Jack é rapidamente absorvido por essa vida de dinheiro, bebida e jazz, e, usando seu talento nato, planeja o maior golpe de todos: a Mosca Espanhola.

Pompeia, de Richard Platt (Ilustrações de Manuela Cappon; Tradução de Érico Assis)
Era uma vez um modesto casebre no sul da Itália. Por volta de 750 a.C., ele se transforma em uma fazenda que, com o passar do tempo, vai sendo engolida por uma cidade vibrante que cresce ao seu redor — Pompeia. Aos poucos, surgem cada vez mais sinais de que o modo de vida romano tornou-se dominante por lá. Até as forças da natureza rebelam-se: o abalo de um terremoto é apenas o prenúncio de algo ainda mais devastador… Essa é a emocionante história narrada neste livro. Ao acompanhar o dia a dia de uma casa em Pompeia, de séc. VIII a.C. aos dias de hoje, você conhece não só uma parte da história do antigo Império Romano, como também as pessoas que lá viveram e trabalharam, e entende suas crenças e hábitos. Acompanhe em detalhes o crescimento dessa fascinante cidade por meio de desenhos detalhados e textos explicativos.

O livro dos monstros!, de Fran Parnell (Ilustrações de Sophie Fatus; Tradução de Heloisa Jahn)
O que você faria se de repente encontrasse um monstro? Tentaria se esconder? Fugiria? Ou será que diria “oi” na maior calma? Pois nestas histórias você vai ficar frente a frente com vários deles: um abominável homem das neves, um ogro emplumado, um monstro aquático faminto e outros seres de dar medo. E vai acabar descobrindo que eles são cheios de truques e também que nem todos são tão terríveis assim — alguns só precisam de um pouco de compreensão. Inspirado em histórias populares do mundo inteiro, das montanhas do Nepal às planícies da América do Norte, este livro vai fazê-lo passar pela emoção de encontrar algumas criaturas pavorosas — e gostar da experiência!

O rato me contou…, de Marie Sellier (Ilustrações de Catherine Louis; Carimbos e caligrafia chinesa de Wang Fei; Tradução de Eduardo Brandão)
Um dia, no início do mundo, o Grande Imperador do Céu convidou todos os animais a visitá-lo no topo da montanha de Jade. Doze animais compareceram — e acabaram se tornando os doze signos do horóscopo chinês. O que realmente aconteceu naquele dia? O rato, que estava presente, é que vai contar essa história. Ao final do volume, tabelas trazem os anos correspondentes a cada um dos signos chineses.

Semana vinte e cinco

Os lançamentos desta semana foram:

Contos completos de Lima Barreto (Organização de Lilia M. Schwarcz)
Com organização, introdução e notas de Lilia Moritz Schwarcz, esta edição reúne os 149 contos do autor, resgatados por meio de pesquisas em manuscritos, edições originais, jornais e revistas da época. Tanto os contos menos conhecidos quanto alguns mais famosos, como “A Nova Califórnia” e “O homem que sabia javanês”, ressaltam o aspecto autobiográfico que, segundo a organizadora, perpassa toda a carreira de Lima Barreto.

Vergonha, de Salman Rushdie (Tradução de José Rubens Siqueira)
Vergonha conta a história da disputa pelo poder entre dois homens: o eminente oficial do Exército Raza Hyder e seu primo, Iskander Harappa, cada qual autoritário a sua moda. Ao redor das truculentas figuras estão Sufiya Zinobia e Omar Khayyam Shakil. Sufiya é a filha de Hyder, nascida depois da morte do esperado primogênito e desprezada desde o primeiro instante. Com a capacidade sobrenatural de absorver a vergonha e as emoções reprimidas de todos, a menina ruboriza a ponto de queimar as mãos de quem a toque. Ela se casará com o médico Omar Khayyam, dando início à união simbólica do excesso de vergonha com a falta absoluta dela. Conduzindo o enredo de volta às esferas principais do poder, ou seja, aos efeitos que esse casamento absurdo irá provocar na disputa entre Raza e Iskander, Rushdie demonstra de maneira inequívoca que um povo regulado pela vergonha acaba recriando um cenário de violência.

A vida secreta da guerra, de Peter Beaumont (Tradução de José Viegas)
Neste relato pouco usual da guerra contemporânea, Peter Beaumont, jornalista e correspondente internacional do Observer, mostra que a privatização dos conflitos bélicos por pequenos grupos armados e a fragmentação de Estados nacionais instáveis transformaram a guerra em um modo de vida, o que representa um desafio quase intransponível para exércitos “tradicionais”. A vida secreta da guerra é resultado de um dos mais corajosos trabalhos de jor-nalismo investigativo dos últimos anos, que levou o autor a viajar muitas vezes sozinho e sem guarda-costas para os lugares mais perigosos do mundo e permitiu uma rara proximidade e intimidade com os entrevistados.

O rei do picles, de Rebecca Promitzer (Tradução de Érico Assis)
A cidade de Elbow é conhecida por apenas duas coisas: chuva e picles. Chove todo dia em Elbow, principalmente no verão, e sem parar. E é de lá que vem o Chili Herman Língua do Diabo, o picles mais potente já criado pelo homem e o prato oficial da cidade. Mas Bea e seus amigos – as únicas crianças que não foram viajar nas férias de verão – vão descobrir que Elbow tem um terceiro ingrediente: mistério. Movidos pela curiosidade e pelo tédio, os Condenados da Chuva então se unem para desvendar os motivos do assassinato de Herman, o adorável dono da fábrica de picles.

Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto
Apoiando-se no tema do racismo e da exclusão social, este romance de estreia de Lima Barreto discorre sobre a incapacidade do país de incorporar os negros na sociedade e traça um panorama histórico e social do começo do século XX. Resgatando a atualidade de Lima Barreto sob o viés da crítica literária, Alfredo Bosi defende na introdução do livro que Recordações é um dos grandes romances da literatura brasileira. Essa edição traz também um prefácio de Francisco de Assis Barbosa, historiador que fez um importante estudo sobre o autor, valendo-se de dados biográficos e contextualizando o livro à época em que foi publicado. E, ainda, mais de cem notas elaboradas por Isabel Lustosa, que comenta fatos históricos e nos revela quem eram as pessoas e os lugares retratados no livro.

Os ensaios, de Montaigne (Tradução de Rosa Freire d’Aguiar)
Personagem de vida curiosa, Michel Eyquem, Seigneur de Montaigne (1533-1592), é considerado o inventor do gênero ensaio. Herdeiro de uma fortuna deixada pelo avô, um comerciante de peixes abastado, foi alfabetizado em latim e prefeito de Bordeaux. A certa altura, retirou-se para ler, meditar e escrever sobre praticamente tudo. Esta edição oferece ao leitor brasileiro a possibilidade de ter uma visão abrangente do pensamento de Montaigne, sem que precise recorrer aos três volumes de suas obras completas. Selecionados para a edição internacional da Penguin por M. A. Screech, especialista no Renascimento, os ensaios desta edição passam por temas como o medo, a covardia, a preparação para a morte, a educação dos filhos, a embriaguez, a ociosidade. Trata-se da primeira edição brasileira que utiliza a monumental reedição dos ensaios lançada pela Bibliothèque de la Plêiade, que, por sua vez, se valeu da edição póstuma dos ensaios de 1595. Leia um texto de Rosa Freire d’Aguiar sobre a tarefa de traduzir este clássico.

Irmãos, de Yu Hua (Tradução de Donaldson M. Garschagen)
Irmãos conta cerca de quarenta anos de uma pequena cidade chinesa, narrados a partir da vida de dois meninos, Song Gang e Li Carequinha, que se tornam irmãos quando o pai de um se casa com a mãe de outro. Inseparáveis, eles não poderiam ser mais diferentes: um é irrequieto e aproveitador, e o outro, puro e dedicado; um deles vira milionário e mulherengo, até se tornar o homem mais poderoso da Cidade de Liu, e o outro, permanece operário e marido fiel, até seu triste fim. Uma crítica ácida e espirituosa à realidade chinesa por meio de uma história familiar. A violência do regime maoísta e o tsunami da nova economia ganham uma narrativa em que o humor e a tragédia caminham juntos e apontam para os contrastes atuais de um país em que imperam o controle político, a liberalização econômica, a miséria e uma prosperidade que parece não ter limites.

Com mil diabos, de Ernani Ssó (Ilustrações de Edgar Vasques)
Há muito tempo, quando os bichos falavam pelos cotovelos, um escritor resolveu escrever um livro sobre diabos. Depois de meses de pesquisa, desanimou: as histórias eram danadas de bobas. Mas, muito tinhoso, esse escritor foi em frente; pensou até em fazer um pacto com o próprio coisa-ruim. Ainda bem que isso não foi necessário, pois Ernani encontrou seis histórias deliciosas sobre esse anjo rebelde, que na verdade tem tantos nomes quanto faces diferentes. Tem história em que ele parece muito maldoso mas revela um coração mole; em outras é horroroso até o fim – porém, no final das contas, acaba em geral levando a pior por uma incrível falta de esperteza. Escritor de mão-cheia e extremamente zeloso, Ernani faz um extenso trabalho de pesquisa para encontrar as melhores narrativas, que são depois recontadas à sua maneira, preservando a oralidade da contação de histórias.

Freedom

Por Luiz Schwarcz

Cerulean warbler, o pássaro estampado na capa de Freedom.

Bem, para os que querem saber como me virei com os encontros simultâneos em Frankfurt, sobre os quais comentei no meu último post, a resposta é simples. Um luxo total: aluguei um carro com motorista, tive que pagar por uma taxa mínima de duas horas, e utilizei o transporte por 15 minutos. Saí correndo do encontro com a minha amiga (e agente da William Morris) Raffa, em que falamos mais sobre a filhinha dela do que de qualquer livro novo. O que mais me interessava nessa agência era uma grande reportagem sobre o oceano Atlântico, escrita por Simon Winchester, que já havíamos comprado nas vésperas da Feira. Terminado o encontro, lá fui eu, acompanhado pela Ana Paula*, devidamente choferados, para o coquetel em homenagem a Jonathan Franzen.

Por conta do sucesso de Freedom nos Estados Unidos, e por causa do folclore do lançamento na Inglaterra — onde milhares de erros tipográficos, motivados pela utilização de um arquivo errado, fizeram com que a edição fosse praticamente tirada do mercado, e ainda mais pelo fato do autor ter tido seus óculos arrancados do rosto em plena noite de autógrafos em Londres por dois gaiatos que deixaram um pedido de resgate (dos óculos!) de 100.000 dólares, tendo sido perseguidos por helicópteros da polícia e presos —, Franzen era das grandes estrelas da festa.

No carro, super ocupado com meus afazeres relativos à orquestra sinfônica de São Paulo, esqueci de avisar a Ana Paula que, na noite anterior, num jantar da editora de Franzen, ouvi de seu editor americano, Jonathan Galassi, o seguinte: “Luiz, ainda não convide Franzen para ir ao Brasil. Ele está super requisitado aqui em Frankfurt e vai negar. Em dezembro, quando você estiver em Nova York, faço um jantar para vocês e aí o convidamos. Eu até, quem sabe, gostaria de ir junto”.

Ao chegar no bar, levemente atrasados, eu ainda tinha o celular colado à orelha, quando vi a Ana dirigir-se ao autor e, sem mais delongas, dizer: “Nice to meet you, mister Franzen, we are your brazilian publishers and we want to invite you, once more, to come to Brazil, for the launching of Freedom”.

Ela não poderia ter sido mais direta. Só tive tempo de desligar o telefone, colocar uma mão na cabeça e replicar: “But only if you want to, don’t worry, we can speak about it later…bla bla bla”.

Franzen não se importou com a abordagem direta da Ana, e, sorrindo, comentou que mais duas pessoas da editora já o haviam convidado: a editora Maria Emília, que chegara antes de nós, e que também não fora alertada por mim, e a Joana Fernandes, responsável pelo marketing, e que em Nova York, duas semanas antes, havia se postado numa fila de autógrafos só para poder dizer: “Mister Franzen, I work at your Brazilian publishing house, please come to Brazil!”. Deu certo, elas conseguiram convencer o jovem e badalado autor, e quem sabe Liberdade será lançado por aqui em grande estilo. Espero…

Fiquei apenas dez minutos na festa de lançamento de Freedom. Como escrevi na semana passada, tinha que chegar ao jantar da editora Hanser cedo, para sentar-me com David Grossman. Antes disso, fiquei outros 5 minutos no coquetel da editora Shangai 99; tempo suficiente para pedir desculpas, marcar outro encontro e seguir para a sala ao lado, a fim de grudar no meu querido amigo israelense. O Frankfurter Hof possui um pavilhão só com salas para recepções, que comporta todos esses eventos simultâneos.

O jantar foi o que de mais bacana me aconteceu em Frankfurt neste ano. Além dele, algumas contratações importantes e a leitura confidencial das primeiras cem páginas das memórias de Salman Rushdie sobre o período da Fatwa tomaram o resto dos meus dias. Sobre o novo livro de Rushdie, o jantar e minha amizade com Grossman, pretendo escrever mais, logo mais.

*Ana Paula Hisayama trabalha na Companhia das Letras e é responsável por negociar os direitos de obras publicadas no exterior.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Luka e os videogames

Por Daniel Galera

O novo romance infanto-juvenil de Salman Rushdie, Luka e o Fogo da Vida, incorpora elementos da linguagem narrativa dos videogames. Luka Khalifa, o menino de doze anos que protagoniza a história, penetra num mundo paralelo derivado da imaginação do pai, ele mesmo um famoso contador de histórias. As regras do mundo real são alteradas aqui com a mesma liberdade que estamos acostumados a ver em quase todos os mundos fantásticos da literatura, de Carroll a Tolkien: animais falantes, deuses que interagem diretamente com os homens, deslocamentos impossíveis, a “magia” como justificativa suficiente para toda e qualquer ideia e ação mirabolante, cenários onde tudo é espantosamente maior e mais significativo do que poderia ser na natureza e na civilização que conhecemos. A novidade aqui é mais um acréscimo do que uma invenção original: as regras do mundo da fantasia são ligeiramente influenciadas por elementos da lógica narrativa dos videogames. Luka precisa coletar vidas para poder morrer e seguir “jogando”; enxerga contadores numéricos em seu campo de visão, indicando o número de vidas restantes e os níveis ou fases da história, que obedecem a um critério de dificuldade progressiva; precisa “salvar” o progresso em pontos-chave da narrativa, sob pena de recomeçar do início caso as vidas terminem etc.

Esse é o tipo de proposta que pode terminar em desastre, como se vê com frequência nas tentativas de adaptar videogames para o cinema. Mas Rushdie, felizmente, não parece ter partido da convicção de que seria possível escrever uma narrativa em prosa que pudesse ser lida como se joga um videogame. A intenção é mais sutil e muito menos ambiciosa. Tem se a impressão de que ele quis apenas incorporar ao livro alguns elementos reconhecíveis de um universo que encanta sucessivas gerações de jovens desde o início dos anos 1980, entre eles seu próprio filho, a quem o livro é declaradamente dedicado.

Não existe como transpor a experiência interativa dos videogames para a linguagem escrita. Toda vez que Luka era atropelado por um Super-Rato, numa das sequências mais “gamísticas” do romance, o autor nos informa que ele “perdia uma vida e se via de volta no ponto de partida”. Não há nada nesse dado narrativo que reproduza a sensação de estar jogando um game, morrer num obstáculo qualquer e ter que retornar a um ponto anterior para tentar superar de novo esse trecho do jogo. O fato de que Rushdie nem se dá ao trabalho de tentar emular essa experiência na prosa não é, ao contrário do que possa parecer, preguiça ou desconhecimento do assunto. Pelo contrário. Ele decerto queria escrever um livro envolvente, e não chato. E um livro que dependesse da interação do leitor e o carregasse para páginas anteriores em caso de fracasso seria um livro insuportável.

Assim, as manifestações do universo dos games na prosa do romance são apenas piscadinhas para o leitor entendido, ou simplesmente elementos fantásticos de um mundo que também inclui tapetes voadores de Scheherazade e luta na lama entre deusas da Antiguidade. Os companheiros que Luka acumula na jornada lembram muito os “sidekicks” dos jogos, com suas habilidades especiais (como é o caso das Transmutantes, dragoas que mudam de forma para superar determinados obstáculos) e itens. Os obstáculos que Luka encontra em sua jornada pelo Mundo da Magia precisam ser interpretados e resolvidos de forma semelhante ao que ocorre em muitos jogos eletrônicos, ainda que a experiência interativa (com seus aspectos especiais de imersão, agência etc.) se perca, pois na prosa nunca precisamos “fazer” nada, somos apenas “informados” de que a solução foi encontrada e implementada para que a história (o jogo) avance. A procura constante pelos “checkpoints” (“Onde é que salva?”, Luka pergunta mais de uma vez a outros personagens) ganha contornos ligeiramente cômicos por sua repetição ao longo do livro, chamando a atenção para a sua superficialidade dentro do contexto da escrita. Os exemplos são inúmeros. Se Rushdie não é ele próprio um entusiasta dos videogames, é certo que passou horas e horas observando seus filhos jogarem.

De certa forma, o que Rushdie acaba fazendo no livro é dedicar aos videogames um lugar de honra ao lado das incontáveis referências literárias, religiosas, mitológicas e históricas que formam a tapeçaria de Luka e o Fogo da Vida. Há um trecho, no início, em que os videogames são descritos como a principal fonte de histórias do pequeno Luka — depois do próprio pai, é claro. Não é nos livros que ele encontra “uma variedade quase infinita de realidades paralelas”, e sim nos videogames, onde essa variedade de histórias “começara a ser vendida sob a forma de brinquedos”. Algum defensor mais radical dos videogames como uma arte poderá bufar diante do rótulo de “brinquedo”, mas os videogames são, sim, brinquedos. A questão é que não são apenas brinquedos. São também um meio de expressão e um suporte para narrativas de todo tipo e pronfundidade. Soraya, a mãe de Luka, desdenha das “caixas de realidade alternativa” porque “na vida não há níveis de dificuldade, apenas dificuldades”. Mas assim como uma comédia romântica pode expressar verdades sobre a vida dentro de um esquema de convenções narrativas em boa parte irreal, os games, com suas lógicas próprias, podem nos oferecer histórias que representam a vida de um modo particular. O livro de Rushdie reconhece isso e estende a mão ao jovem leitor para quem os videogames são tão importantes quanto os livros, os filmes e as histórias que seus pais lhes contavam para dormir. Somente por isso, já merece ser saudado.

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Daniel Galera é escritor e tradutor. Publicou Dentes guardados, Mãos de Cavalo e Cordilheira, entre outros. Seu último livro é a graphic novel Cachalote, feita em parceria com Rafael Coutinho. Seu site é http://www.ranchocarne.org/.
A resenha acima foi escrita especialmente para o Blog da Companhia.

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