100 anos de Otto Lara Resende: leia "Ler é casto" e "Bom dia para nascer"

Neste 1º de maio de 2022, celebramos o  centenário de Otto Lara Resende, uma das principais referências brasileiras no ofício da escrita. Nascido em São João del Rei, Minas Gerais, se formou em direito e exerceu diversas profissões – de professor a adido cultural em Bruxelas e Lisboa – enquanto burilava uma relativamente pequena, porém significativa, obra literária. É autor de “O lado humano”, “A boca do inferno”, “A testemunha silenciosa” e “Bom dia para nascer”, entre outros títulos.

Abaixo, você confere dois textos que compuseram a trejetória litária do autor. 

 

Ler é casto

Ler é casto em todo o seu silêncio. A leitura é impartilhável. Quem lê está sério, mas feliz. É frio, ler; mas com cobertor, gostoso como defender-se do frio. Ler não tem pressa. É extremamente confidencial: só entre o autor e o leitor, mais ninguém. Ler é por isto um ato de confiança. Só com absoluta e estrita confiança um autor se deixa ler. E só o deixa por leitores fidedignos. Ler é extremamente honesto. Quem não tiver os requisitos não se apresente, nem se habilite. Ler tem um longo corredor, mas há paisagens ao fim e durante. Talvez o Éden. Toda leitura é um reencontro. O leitor lê-se a si mesmo, desenrola-se como uma bobina. A cada página que passa, você fica mais perto de você – e de um segredo que só a leitura sabe.

Bom dia para nascer (1991)

RIO DE JANEIRO - Eu não tinha a intenção de dizer logo assim de saída. Mas já que a Folha me entregou, confesso que sou mesmo antigo. Modelo 1922. Ano do Centenário da Independência, da Semana de Arte Moderna, do Tenentismo, da fundação do Partido Comunista, da inauguração do rádio etc. Suspeito que só eu e o rádio estamos funcionando neste mundo povoado de jovens. Mas juventude tem cura. Eu também já fui jovem. É só esperar.

Bem mais antiga é a origem do Dia do Trabalho. Começou em 1886, com a greve de Chicago. A policia, claro, compareceu. Resultado: 11 mortos - quatro operários e sete policiais. Primeiro e último escore a favor do trabalho. Três anos depois, em 1889, lembrando Chicago, os socialistas em Paris inventaram o Dia do Trabalho.

A data chegou depressa ao Brasil, mais subversiva do que festiva: em 1893. A recente República baixou o pau. Vem de longe o axioma: a questão social é uma questão de polícia. Só em 1938 surgiu aqui, oficial, o Dia do Trabalho. Também dia do pelego e do culto a personalidade do ditador. Em 1949, finalmente, a data virou lei. Lei e feriado.

Mês de Maria, mês das noivas, mês da flor-de-maio, maio sugere pureza e céu azul. "Só para meu amor é sempre maio" - cantou o primeiro poeta, o Camões . Um dos últimos, Drummond, escreveu uma "Carta aos nascidos em maio". Viu neles uma predestinação lírica, a que chamou "o princípio de maio".

Em maio, e no dia 1º, nasceram José de Alencar (1829) e Afonso Arinos (1868). Dois escritores, dois verdes. O indianista e o sertanista. Ambos enfática e ecologicamente brasileiros. Não será mera coincidência a data da certidão de nascimento do Brasil. A carta de Pero Vaz de Caminha é de 1º de maio de 1500. Como o Brasil também é Touro, está dificil de pegá-lo à unha. Mais poeta que escrivão, Caminha foi o primeiro ufanista. Também pudera: em 1500 tudo ainda estava por ser destruído.

Só depois chegaram a inflação, a corrupção e a dívida externa. Há dez anos, em 1981, para celebrar o Dia do Trabalho, houve a explosão do Riocentro. Planejada em segredo, ao contrário da implosão de ontem em São Paulo, vem agora a furo a farsa do inquérito militar. Dá até vergonha de ser brasileiro. Maio, porém, está aí. 1º de maio: bom dia para começar. Ou recomeçar.

 

 

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