20 escritoras extraordinárias

8 de março é um dia para celebrarmos as conquistas políticas, econômicas e sociais das mulheres que, ao longo dos anos, lutaram por seus direitos e espaços. Na literatura, temos autoras notáveis que empoderaram a si e a muitas outras mulheres no mundo, e merecem todas as homenagens. Mais ainda: merecem ser lidas e reconhecidas o ano todo para que inspirem uma nova geração de escritoras, de cineastas, de cientistas, de executivas, enfim, de mulheres talentosas que podem ser o que quiserem. Pensando nisso, selecionamos vinte escritoras extraordinárias, clássicas e contemporâneas, brasileiras e estrangeiras, de ficção, poesia e não ficção, que inspiram e mostram que a literatura feita por mulheres é universal. Confira!

1. Hilda Hilst

Homenageada da Flip deste ano, Hilda Hilst é a autora para conhecer em 2018. Nascida em Jaú (SP) em 1930, formou-se em Direito pela USP e, aos 35 anos de idade, mudou-se para a chácara Casa do Sol, próxima a Campinas - onde hoje fica a sede do Instituto Hilda Hilst. Lá, na companhia de dezenas de cachorros, ela se dedicou integralmente à criação literária, entre livros de poesia - onde mais se destacou -, ficção e peças de teatro, se tornando uma das vozes mais trangressoras da literatura brasileira. Em 2017, a Companhia das Letras lançou a coletânea Da poesia, que reuniu pela primeira vez sua obra poética completa. Em maio deste ano, será a vez de sua prosa ganhar uma coletânea, Da prosa. 

2. Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda Ngozi Adichie é uma das autoras mais celebradas atualmente. Nasceu em Enugu, na Nigéria, em 1977, e vive entre seu país natal e os Estados Unidos. Escreveu os romances Meio sol amarelo, que ganhou o National Book Critics Circle Award e o Orange Prize de ficção em 2007, Hibisco roxo, e Americanah, que será adaptado para a TV pelas atrizes Lupita Nyong'o e Danai Gurira. Além de grande romancista, Adichie ganhou grande notoriedade com seus ensaios sobre feminismo: Sejamos todos feministas (e-book gratuito para download), inspirado em sua palestra no TED, e Para educar crianças feministas, pequenos textos em que fala sobre igualdade de oportunidades para mulheres e homens. Em 2017, os contos da escritora ganharam pela primeira vez uma edição brasileira, reunidos em No seu pescoço. Sua obra, que aborda temas como imigração, racismo, família e feminismo, foi traduzida para mais de trinta línguas e apareceu em inúmeras publicações, entre elas a New Yorker e a Granta

3. Rebecca Solnit

Rebecca Solnit é considerada criadora do termo mansplaining - quando um homem interrompe uma mulher para explicar alguma coisa que ela já sabe. Escritora, historiadora e ativista, tem dois livros publicados no Brasil: Os homens explicam tudo para mim (Editora Cultrix) e A mãe de todas as perguntas, lançado no ano passado pela Companhia das Letras. Neste livro, ela parte das ideias centrais de maternidade e silenciamento feminino para tecer comentários indispensáveis sobre diferentes temas do feminismo: misoginia, violência contra a mulher, fragilidade masculina, o histórico recente de piadas sobre estupro e outros mais. Ao todo, Solnit escreveu mais de quinze livros sobre feminismo, história indígena e ocidental, poder popular, mudança social e insurreição, entre outros temas contemporâneos. Nascida e criada na Califórnia, é colunista da revista Harper’s e colaboradora do jornal The Guardian.

4. Lilia Moritz Schwarcz

Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga e historiadora, e leitura obrigatória para qualquer pessoa que se interessa pela História do nosso país e questões da sociedade (seja do passado ou atual). É professora titular no Departamento de Antropologia da USP, Global scholar na Universidade de Princeton (EUA) e curadora adjunta do Masp. Autora premiada, ganhou o prêmio Jabuti de Livro do Ano em 1999 com As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. Dirigiu a coleção História do Brasil Nação em seis volumes, lançados pela Objetiva/ Fundação Mapfre, sendo três deles indicados para o Jabuti. Sua bibliografia não para de crescer: além de obras como O espetáculo das raçasO Sol do BrasilNem preto nem branco, muito pelo contrário, entre outras, escreveu com a historiadora Heloisa M. Starling o livro Brasil: Uma biografia, onde traçam um retrato de corpo inteiro do país, mostrando como o longo processo de embates e avanços sociais inconclusos definiram o Brasil. Em 2017, publicou a monumental biografia Lima Barreto: Triste visionário, resultado de mais de dez anos de pesquisa sobre a vida e a obra do autor de Policarpo Quaresma. Atualmente, Lilia Moritz Schwarcz também mantém uma coluna semanal no site Nexo. 

5. Ana Cristina Cesar

Poeta, jornalista, tradutora e crítica literária: Ana Cristina Cesar nos deixou um grande legado com seus escritos. Nascida no Rio de Janeiro em 1952, tornou-se uma das mais importantes representantes da poesia marginal que florescia na década de 1970. Em sua obra, conjugava a prosa e a poesia, o pop e a alta literatura, o íntimo e o universal, o masculino e o feminino - pois a mulher moderna e liberta, capaz de falar abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, derramava-se numa delicadeza que podia conflitar, na visão dos desavisados, com o feminismo enérgico, característico da época. Em 2013, seus poemas estrearam na Companhia das Letras no volume Poética, que reuniu toda a sua produção de poesia, publicada em livros como Cenas de abril, Correspondência completa, Luvas de pelica A teus pés - além de poemas inéditos e dispersos. Em 2016, ano em que foi homenageada na Flip, lançamos Crítica e tradução, volume que reune textos, artigos e ensaios de Ana sobre poesia, ficção e cinema. 

6. Angélica Freitas

Se falamos de Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst, que foram tão importantes em falar do feminino em seus poemas e prosa, não podemos esquecer de Angélica Freitas, uma vozes mais destacadas da poesia atual. Seu primeiro livro, Rilke Shake, foi lançado em 2007 - e deverá ganhar uma nova edição ainda em 2018 pela coleção Poesia de Bolso. Já sua coletânea mais conhecida, Um útero é do tamanho de um punho, publicada originalmente em 2012, foi relançada no ano passado pela Companhia das Letras. Neste livro, Freitas reúne poemas escritos a partir de um tema central: a mulher. A autora subverte as imagens absolutamente gastas do que se espera do gênero feminino, anunciadas em capas de revistas e em vitrines de lojas de departamentos, e joga luz - com inteligência, sagacidade e senso de humor aguçado - sobre o nosso tempo.

7. Virginia Woolf

Virginia Woolf não poderia ficar de fora da nossa seleção. Foi um dos maiores nomes do romance modernista e uma de suas vozes femininas pioneiras, que influenciou escritores em diversos países graças a livros como Ao farol, As ondas e Orlando. Esteve à frente, com o marido Leonard, do círculo intelectual que viria a ser conhecido como Grupo de Bloomsbury, do qual fizeram parte, entre outros, o economista Keynes e o filósofo e matemático Bertrand Russell. Da autora, o selo Penguin-Companhia publicou dois livros: Orlando, considerado seu romance mais popular, e Mrs. Dalloway, grande marco do romance modernista, pioneiro na exploração do inconsciente humano por meio do fluxo de consciência de suas personagens. Virginia Woolf é uma autora clássica que não pode faltar na sua estante. 

8. Caitlin Moran

A romancista e jornalista britânica Caitlin Moran é uma autora para agradar a quem gosta de ficção e não ficção. Em 2012, o selo Paralela publicou no Brasil Como ser mulher, um divertido manifesto feminista onde Moran relata suas experiências como mulher, da infância até a vida adulta, e discute temas importantes para a mulher moderna, mostrando que nunca houve época melhor para ser mulher, mas ainda temos muitos desafios a ser enfrentados. Três anos depois, a Companhia das Letras lançou Do que é feita uma garota, uma espécie de "romance de formação" de uma adolescente britânica lidando com sua família, as desecobertas sexuais e também as descobertas do que é ser mulher. Com seu humor, Caitlin Moran consegue falar de forma leve sobre temas tão difíceis, às vezes, de abordar. 

9. E. Lockhart

As personagens de E. Lockhart são garotas que todas as meninas e mulheres deveriam conhecer. Em seu primeiro livro publicado pela Seguinte, O histórico infame de Frankie Landau-Banks, conhecemos a história de uma garota que não se conforma em ficar de fora de uma sociedade secreta formada só por garotos. Enquanto fala sobre mudanças no corpo, amizade e amor, Lockhart também levanta discussões sobre gênero e poder. Uma daquelas histórias para mostrar que as mulheres (meninas, adolescentes e adultas) são capazes de fazer o que quiserem. Da autora, a Seguinte também publicou Mentirosos, um suspense moderno e sofisticado narrado por Cadence, uma garota que sofreu um misterioso acidente e deve tentar recuperar as memórias para entender o que aconteceu com ela e sua família. E, por último, Fraude legítima, onde uma série de mortes e eventos estranhos deixa todos em dúvida sobre o que duas garotas são capazes de fazer.

10. Lygia Fagundes Telles

Com quinze obras lançadas pela Companhia das Letras, como os livros As meninas e Antes do baile verde, Lygia Fagundes Telles é considerada pela crítica - e pelos leitores - uma das mais importantes escritoras brasileiras. Nascida em 1923, em São Paulo, Lygia começou a publicar ainda na adolescência, com o livro de contos Porão e sobrado (1938). Antes de se dedicar exclusivamente à literatura, estudou direito e educação física. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1985 e em 2005 recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa. Sua obra aborda temas clássicos e universais como a morte, o amor, o medo e a loucura. Leitura mais que recomendada para todos. 

11. Martha Batalha

Uma das novas autoras da literatura brasileira que merecem ser lidas é Martha Batalha. A autora de A vida invisível de Eurídice Gusmão nasceu em Recife, mas cresceu no Rio de Janeiro, e atualmente vive nos Estados Unidos. Em Nova York, completou o mestrado em Publishing da New York University e recebeu a maior distinção do curso, a Oscar Dystel Fellowship. Mas Batalha deixou de lado sua carreira no mercado editorial para se dedicar à escrita, e daí veio seu livro de estreia. A vida invisível de Eurídice Gusmão foi vendido para dez países antes mesmo de sair no Brasil, e acompanha a história das irmãs Gusmão no Rio de Janeiro dos anos 1940. Enquanto Eurídice se esforça para ser a dona de casa e esposa perfeita, Guida desaparece de casa sem deixar notícias. Capaz de falar de temas como violência, marginalização e injustiça com humor, perspicácia e ironia, Marta Batalha é acima de tudo uma excelente contadora de histórias. A autora também prepara um novo romance, Nunca houve um castelo, que deve chegar às livrarias ainda no primeiro semestre de 2018. 

12. Nicole Krauss

Agora em 2018, a Companhia das Letras publicou o romance mais recente de Nicole Krauss, Floresta escura. Nascida em Nova York em 1974, Krauss é filha de mãe britânica e pai norte-americano, ambos judeus, e o judaísmo é um tema constantemente abordado em sua obra. No caso de seu último livro, a escritora acompanha duas personagens em suas viagens inusitadas para Tel Aviv, uma jornalista e um advogado, pessoas distintas cujas histórias se cruzam com as lembranças de um hotel e sua relação com o judaísmo e a literatura. De Nicole Krauss, também publicamos A memória de nossas memórias e A história do amor

13. Elizabeth Strout

Falando em autoras norte-americanas contemporâneas, Elizabeth Strout é um nome que você precisa conhecer. Ela nasceu em Portland, nos Estados Unidos, em 1956. Filha de professores e formada em direito, publicou seu primeiro livro, Amy and Isabelle, em 1998, romance Finalista do PEN/Faulkner Award e do Orange Prize e adaptado para a televisão, com Elisabeth Shue no papel principal. Seus livros mais recentes incluem Anything is Possible (2017), The Burgess Boys (2013), e Meu nome é Lucy Bartonpublicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2016, onde a internação de uma escritor no hospital e a inesperada visita de sua mãe desencadeia lembranças de sua infância pobre. Agora em março, chega às livrarias um de seus romances mais aclamados, Olive Kiteridge, livro vencedor do prêmio Pulitzer de ficção que deu origem à premiada minissérie da HBO de mesmo nome, com Frances McDormand no papel principal.

14. Maria Valéria Rezende

Maria Valéria Rezende chamou atenção em 2014 tanto por vencer o Prêmio Jabuti de Melhor Livro do Ano com o romance Quarenta dias, publicado pelo selo Alfaguara, quanto por sua trajetória. Nascida em Santos, em São Paulo, permaneceu na cidade até seus 18 anos. Em 1965, entrou para a Congregação de Nossa Senhora, Cônegas de Santo Agostinho, e passou a se dedicar à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste, vivendo em Pernambuco e depois na Paraíba, até 1986 e, desde então, em João Pessoa, onde está até hoje. A carreira literária de Maria Valéria Rezende começou tarde. Seu primeiro livro, Vasto mundo, foi publicado apenas em 2001, seguido por O voo da guará vermelhaModo de apanhar pássaros, entre outros. Com Outros cantos, seu livro mais recente, recebeu o Jabuti de Melhor Romance em 2015 e o prêmio Casa de Las Américas. 

15. Carol Bensimon

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre em 1982. Começou sua carreira literária escrevendo contos, que foram publicados no jornal Zero Hora e em revistas como Ficções e Bravo!. Estreou nas livrarias com as narrativas de Pó de parede (2008, Não Editora), seguido do seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água, primeiro livro seu publicado pela Companhia das Letras e que ganhou a Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Literária. Em 2013, integrou a edição "Os melhores jovens escritores brasileiros" da revista inglesa Granta. No mesmo ano, lançou seu segundo romance, Todos nós adorávamos caubóis, que acompanha duas amigas em uma road trip pelo interior gaúcho. No final de 2017, saiu o seu terceiro e mais recente livro, O clube dos jardineiros de fumaça, que tem como pano de fundo a descriminilização da maconha na Califórnia. 

16. Alice Munro

Fundadora da livraria mais famosa do Canadá e dona de uma das carreiras mais respeitáveis da literatura de língua inglesa, Alice Munro recebeu o Nobel de Literatura em 2013 - primeira vez que o prêmio foi destinado a um escritor especializado em contos. Em seus textos, personagens femininas protagonizam histórias arrebatadoras sobre sedução, violência, os mistérios do passado, a finitude e promessas de felicidade intensa. De sua extensa obra, a Companhia das Letras publicou três de seus livros: Felicidade demaisO amor de uma boa mulher (vencedor do National Book Critics Circle Award de 1998) e Vida querida

17. Elvira Vigna

A prosa de Elvira Vigna ocupa um lugar único na literatura brasileira. Na contramão de tudo que soa tradicional ou corrente, a autora vem, desde o fim dos anos 1980, trilhando um caminho próprio, na criação de um universo pessoal que parece se expandir a cada romance ou conto que publica. Com uma linguagem cortante e antissentimental, e uma visão de mundo cáustica e desiludida, os personagens de Elvira caminham trôpegos por cenários de devastação afetiva, emocional e pessoal. Em 2016, Elvira Vigna ganhou o prêmio APCA de melhor romance com Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, seu último livro. Em 2015, ficou com o segundo lugar do Prêmio Oceanos com Por escrito. Outros romances de destaque são O que deu para fazer em matéria de história de amor e Nada a dizer

18. Helena Morley

Helena Morley é o pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, nascida em 1880 em Diamantina, Minas Gerais. Estudou na Escola Normal e casou-se, em 1900, com Augusto Mario Caldeira Brant, com quem teve seis filhos. Seu livro Minha vida de meninaaclamado por escritores como Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, teve traduções para o francês e o inglês, esta última feita pela poetisa americana Elisabeth Bishop. O livro é o diário de uma garota de província do final do século XIX. Publicado pela primeira vez em 1942, antecipa a voga das histórias do cotidiano e dos relatos confessionais de adolescentes ao traçar um retrato bem-humorado da vida em Diamantina entre 1893 e 1895. Da estagnação econômica ao surgimento de inúmeras modalidades de trabalho entre a escravidão e o regime salarial, Helena Morley compõe um painel multicolorido, desabusado e inconformista de um momento histórico singular no Brasil. 

19. Susan Sontag

Importante escritora, crítica e ativista norte-americana, os livros de Susan Sontag foram traduzidos para mais de trinta línguas. Escreveu ensaios e romances, onde abordou temas relacionados à arte, filosofia e política, além de dirigir filmes e peças. Além de publicar no Brasil títulos como A vontade radical, Diante da dor dos outros e Sobre a fotografiaa Companhia das Letras também publicou os dois volumes de seus diários, selecionados por seu filho David Rieff depois de sua morte em 2004.

20. Svetlana Aleksiévitch

Em 2015, Svetlana Aleksiévitch ganhou o Nobel de Literatura pelos seus relatos emocionantes e chocantes, que transitam entre o jornalismo e a história oral. Nascida na Ucrânia em 1948, ela se especializou em ouvir e observar, deixando o relato dos fatos a cargo de seus próprios entrevistados. É com sensibilidade que ela conta os horrores do acidente nuclear de Tchernóbil em Vozes de Tchernóbil; que revela detalhes nunca antes imaginados da Segunda Guerra Mundial em A guerra não tem rosto de mulher; e dá voz a pessoas comuns em O fim do homem soviético

 

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