3 mitos que todo mundo acredita sobre escrever um livro

Luisa Geisler

Foto por Kelly Sikkema
 

 

Já foram cinco livros. Um livro de contos, quatro romances — além de um sexto livro, Corpos secos, escrito a oito mãos, e já escrevi sobre esse projeto em alguns posts anteriores (link para parte 1, parte 2 e parte 3). Ganhei o concurso de originais Prêmio SESC de Literatura de 19 para 20 anos com o Contos de mentira e foi assim que comecei. Eu não tinha grandes contatos ou grandes meios (não que tenha agora). Desde então, segui escrevendo. Não quero me gabar, mas alguns dos livros foram premiados, traduzidos internacionalmente e tal e tal. Racionalizei e expandi muito de meu método de escrita com uma oficina de criação literária na PUC-RS (com Luiz Antonio de Assis Brasil, que resumiu muito da oficina em seu livro Escrever ficção). Mas foi só isso. Nunca segui grandes manuais, cada livro teve um processo muito único em relação ao que eu queria produzir.

Sei que parece pouco, mas meu primeiro livro faz aniversário de dez anos em 2021. Loguinho ele vira um pré-adolescente cheio de ranho e espinhas… Eles crescem tão rápido! E desde aquela época, converso com autores estabelecidos, iniciantes e aspirantes a autores. Comecei a notar em algumas crenças ou mitos em que todo mundo parece acreditar. Se não todo mundo, pelo menos os que estão começando. Resolvi, então, reunir alguns aqui e ver se pode ser de ajuda para mais pessoas além dos que frequentam meus leitores em eventos literários.

 

3. Publicar e escrever livros dá muito dinheiro

O autor ganha 10% do preço de capa. Sendo generosos, um livro custa cerca de 50 reais. Uma tiragem inicial de autor brasileiro numa grande editora é de 3000 exemplares. Se eu vender todos os livros de cada tiragem, façam as contas. Isso se eu vender todos os exemplares, veja bem. Não estou nem incluindo no cálculo autores que pagam parte da tiragem, autores com tiragem menores em editoriais independentes.

Pensem em quanto vocês gostariam de ganhar por mês, dividam por 5 e calculem quantos livros teriam que vender por mês. Isso se estivermos falando de um cenário em que livrarias estão pagando editoras (link 1 e link 2).

— Ah, mas Luisa — você argumentará —, você não vende muito. Não vende bem como o Raphael Montes. É por isso.

Pois eu mandei uma mensagem para o Raphael Montes, best seller, amigo e ídolo pessoal, e ele também não se vira só com os direitos autorais. Não darei detalhes, mas o registro no WhatsApp existe. Não é o direito autoral que paga o aluguel dele também.

— Ah, mas Luisa — você argumentará —, você não tem um segundo emprego. Você só fala de livro.

Eu trabalho com livro. Eu traduzo, edito, escrevo sob encomenda, faço leituras críticas, dou oficinas e aulas, palestras, roteiro, obras adaptadas. Além desses, faço muitos trabalhos que nem são tão literários assim. Em resumo: não conheço autor algum que viva de direito autoral. Eu, pessoalmente, nem sequer conto com esse dinheiro.

Nunca se demita de um emprego CLT para publicar um livro.

 

2. Todos os processos para escrever um livro são iguais (existe um certo e um errado)

Posso dizer por experiência própria que os meus processos, cada processo em cada livro, foi diferente. Eu tenho um estilo em que me reconheço: faço um planejamento e pesquisa e vou fundo no personagem, defino o final. E só aí começo. E depois reviso muito. Essas três partes são igualmente longas, e uma só existe porque a outra veio antes. Mas este é meu método.

Alguns livros demoraram mais que outros, alguns precisaram ser reestruturados. Alguns autores são mais espontâneos que outros. Alguns gostam de descobrir o final junto com o leitor.

Pessoalmente, acho interessante ler sobre o processo de criação alheio só para dizer “olha, que interessante!” e se alguma ideia puder funcionar comigo, adaptar. Mas já dizia a vovó: cada um cada um. Se funciona, se sai um livro no final, o processo é válido.

 

1. É um trabalho solitário.

Por mais que os filmes (e próprios livros) mostrem uma pessoa trancada num quarto escuro com um copo de uísque, cinzeiro e uma máquina de escrever. Escrever, e ainda mais escrever um livro, envolve escuta. Publicar um livro é torná-lo público.

É claro que ninguém vai escrever por você; é claro que você não vai conseguir escrever e conversar ao mesmo tempo; é claro que se você passar o tempo todo falando do projeto e não escrevendo, este projeto não irá para frente. Sim. Mas note que disse que não é um trabalho “solitário.” A solidão envolve se sentir só. Estar sozinho, produzindo? Claro. Estar sozinho, relendo? Claro. Não solitário.

O processo de escrita envolve várias pessoas. Envolve pessoas que discutem a ideia e ajudam a achar furos nela. Envolve pessoas que leem uma primeira versão. Existe, finalmente, leitores deste livro. Um livro não existe sem um leitor. Já olhou as páginas de agradecimentos? Tem desde pesquisadores de referência, amigos e familiares até psiquiatras. Você não está sozinho na escrita.

É claro, não adianta querer buscar amigos para fazer sushi num grupo de pessoas que fazem ragu caseiro. Você pode até achar, mas do jeito mais difícil. Se você busca leitores de confiança, se não tem um universo cheio de leitores ao seu redor, também não se sinta… sozinho. É a norma. Busque oficinas, grupos online, pessoas com quem conversar, pessoas com interesses de leituras afins. A literatura é uma forma de conexão.

Isso quer dizer que você está escrevendo para os outros? Não. Isso quer dizer que você tem que agradar os outros? Por favor, não. Isso quer dizer que você tem que escrever o que acha que os outros querem ouvir? Por favor, não. Tentar agradar os outros é o mapa do fracasso. Mas quer dizer que você pode contar com pessoas para ajudar o texto a ser a melhor versão do que é pra ser. Essas pessoas existem.

 

Esses três mitos são os que me ocorreram porque são os mais comuns. Deixem nos comentários (ou nas redes sociais da Companhia) mitos e dúvidas que já ouviram a respeito de escrever. Se já ouviram algum absurdo, também. Quem sabe não fazemos uma série?

 

***

Luisa Geisler nasceu em 1991 em Canoas, RS. Escritora e tradutora, é também mestre em processo criativo pela National University of Ireland. Pela Alfaguara, publicou Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014), De espaços abandonados (2018) e Enfim, capivaras (2019), além de Corpos secos, romance distópico de terror escrito a oito mãos com Natalia Borges PolessoMarcelo Ferroni e Samir Machado de Machado. Foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura por duas vezes, além de finalista do Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti.

 

Neste post
Acesse a Letrinhas nas redes sociais