4 oficinas que sempre sonhei e nunca vou fazer

Luisa Geisler

Ilustração por Undrey.

 

Desde que comecei a escrever, tenho dado oficinas. Participei de muitas — dei aulas em muitas, com outros autores, em outros países, em outros idiomas. Não me acho experiente e acho que a cada oficina, aprendo e saio com ideias diferentes sobre como fazer. Gosto de inventar exercícios para criação de diálogos, para descrições, proibindo palavras, usando espaços mentais diferentes.

Há limites em relação ao que pode acontecer num encontro, ética a se levar em consideração. Há coisas que um professor pura e simplesmente não pode causar num aluno. Ou coisas que até pode causar, mas terá que arcar com consequências um pouco indesejáveis — ou pior, consequências desconhecidas. Sei que esse parágrafo soa um pouco vago, mas ele vem como introdução de uma lista secreta que tenho na minha mente. Uma lsita de oficinas que acho que desafiaria alunos, que traria resultados interessantes — mas que são inviáveis. Esta é a lista de oficinas que sonho em fazer e sei que nunca vou fazer.

 

  1. Uma oficina bêbada

Não quero incentivar alcoolismo aqui — por favor, não. E sei que há uma associação grande entre escritores, criatividade e uso de drogas, a que não subscrevo. Inclusive, eu mesma já experimentei com drogas e escrita e só me gerou vergonha e edição longa demais. Há mitos de pessoas que conseguem, eu não sou uma.

Ou seja, essa é uma oficina na qual as variáveis “consequência” e “incontrolável” são pesadas demais. Outro problema técnico é o fato de que bebo e fico com sono — na segunda taça de vinho, estou me aninhando num cantinho.

Por outro lado, imagina as pessoas começarem a escrever de forma espontânea, sem trava, sem nada, “metendo o louco” mesmo, sem julgar. Imagina fazer crítica do texto do coleguinha sem pudor nenhum (por outro lado, desrespeitoso e com cada vez menos atenção). Imagina todo mundo finalmente confessando que não leu o mais novo internacional. Um dos meus problemas ao dar oficina são os pedidos de desculpas dos alunos, ou excesso de explicações. Eu criaria uma regra: a cada pedido de desculpas, um shot. Por outro lado, as pessoas tendem a falar mais quando bêbadas. Ou seja, as explicações aumentariam.

 

  1. Uma oficina “virando a noite”

Talvez seja a ideia mais viável. Seria uma oficina de doze horas, de dez da noite a dez da manhã. Mais de um professor ao longo da noite, diferentes exercícios, intervalos com café e açúcar pra botar as pessoas a se mexer.

Talvez esse seja o mesmo raciocínio da oficina bêbada, de baixar as proteções. Mas ao ficar com sono, a gente questiona menos. Confesso que morro de inveja daquelas pessoas que escrevem um livro inteiro de madrugada. Pensa em doze horas escrevendo direto. De novo, cairíamos no problema de “o quanto de edição seria necessário no futuro?”

De novo, meu maior problema recai na minha capacidade de gestão — no fato de pegar no sono fácil. Meu cérebro dá uma apagada perto das onze das noite. Começo a tropeçar, falar enrolado. Se consigo dar a volta até a uma da manhã, acordo de novo, mas preciso cruzar um vale. Talvez outro professor pudesse ajudar com o vale — até porque não tenho exercícios suficientes.

 

  1. Uma oficina com campeonato de erros da norma culta

Uma oficina não só sem editar — mas aquele que errasse mais na norma culta, sairia com a oficina de graça. Erros de ortografia, de gramática. Não sei se todo mundo já leu Flores para Algernon, mas é essa a ideia. Escrever “errado” de propósito. Quando a gente não leva as palavras e regras a sério, quando a gente tenta explorar sons e sentidos, resultados interessantes surgem.

Clichês? Vamos usar todos. Diálogos malfeitos? Bota o volume no 11. Personagens acachapados? Todos. O problema: ferir muitos egos. Muita gente ia ficar brava, achar desrespeitoso, sentir que não estava aprendendo nada. Mas nem sempre uma oficina é para aprender, ela é para dar um empurrãozinho. É proibido acertar.

 

  1. Uma oficina que envolva experiências físicas

Morro de inveja de palestrantes motivacionais. Pessoas que conseguem convencer todos a correr em labaredas. Imagina falar pra todo mundo “pensa no seu enredo” e aí empurrar a pessoa numa piscina. Imagina mandar todo mundo ficar sob o ar-condicionado e escrever sobre calor.

O problema aqui é que muita gente pode se machucar. Muita gente pode acreditar demais na ideia da oficina, não saber o próprio limite. Muita gente pode mentir algum tipo de condição física, ou achar que não importa. De novo, eu, Luisa, morreria de culpa se uma pessoa pegasse gripe. Mas imagina que demais falar pra uma pessoa massagear a outra e enquanto isso, pensar numa cena de briga.

Essas ideias ficam livres por aí. É possível que só eu tenha essas restrições, medos e culpas — ou talvez um mero termo de autorização resolva. Confesso que não dispenso completamente um dia fazer uma versão light de cada uma delas. Acho que foi a Angélica Freitas (acho) quem uma vez fez uma oficina numa fazenda em Pelotas? Foi? Eu não consigo achar informações agora. Eu mesma tenho medo de me responsabilizar pelas pessoas. Bom. Em tempos de pandemia, só se reunir já é arriscado o suficiente. Mas me contem: vocês virariam uma madrugada escrevendo comigo?

 

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Luisa Geisler nasceu em 1991 em Canoas, RS. Escritora e tradutora, é também mestre em processo criativo pela National University of Ireland. Pela Alfaguara, publicou Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014), De espaços abandonados (2018) e Enfim, capivaras (2019), além de Corpos secos, romance distópico de terror escrito a oito mãos com Natalia Borges PolessoMarcelo Ferroni e Samir Machado de Machado. Foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura por duas vezes, além de finalista do Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti.

 

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