A destruição será televisionada

Claudio Angelo

O cineasta inglês Adrian Cowell.

 

“A revolução não será televisionada. Não será televisionada. Não terá replay, irmão. A revolução será ao vivo.”

Os versos do hino de libertação negra do poeta e músico americano Gil Scott-Heron não haviam completado uma década em 1980, quando o documentarista britânico Adrian Cowell convenceu a BBC a bancar um projeto ambicioso. Ele passaria os dez anos seguintes nas selvas do Brasil, filmando a ocupação humana numa fronteira aberta apenas cinco anos antes, o Estado de Rondônia. A revolução até poderia não ser televisionada, mas a destruição seria.

Décadas antes de o cineasta Richard Linklater acompanhar por dez anos a infância de seu personagem no ficcional Boyhood, Cowell estava seguindo em tempo real as aventuras e desventuras dos colonos vindos do centro-sul do Brasil para tentar prosperar naquele canto da Amazônia. O resultado do esforço é a série A década da destruição, imprescindível para quem quiser entender por que o Brasil fez o que fez com a maior floresta tropical do mundo – e por que ameaça repetir a mesma trilha de erros da ditadura agora que os militares voltaram ao poder e retomaram o controle da região.

A colonização de Rondônia começou com a abertura da rodovia BR-364, que ligava São Paulo a Cuiabá e a Porto Velho. A obra foi iniciada por JK e concluída em 1967. Mas foi apenas após 1970, quando o regime militar começou a incentivar (primeiro via assentamentos do Incra e depois por incentivos fiscais à pecuária) a ocupação da Amazônia, que Rondônia se transformou numa fronteira. Em 1960 a população do Estado era de 70 mil pessoas. Em 1980, quando Cowell iniciou suas filmagens, era de 491 mil, tendo mais do que triplicado na década de 1970.

No período em que o cineasta trabalhou na Amazônia, a floresta tropical brasileira assistiu ao que o narrador de um dos filmes chama de “a maior quantidade de matéria viva destruída de qualquer momento da história”. Cowell teve o privilégio dúbio de testemunhar o desastre ambiental causado pela pavimentação da BR-364, financiada pelo Banco Mundial, a partir de 1982; o avanço da frente de colonização pela rodovia RO-429, que avança numa perpendicular rumo à Bolívia e para dentro do território dos índios uru-eu-wau-wau; a dizimação de uma etnia inteira, vitimada por doenças e expedições punitivas dos colonos (nos anos 1990, apenas um terço da população original sobrevivera); e a ascensão e morte de um líder comunitário acreano chamado Chico Mendes.

Um dos filmes, Nas cinzas da floresta, conta a história da colonização a partir do ponto de vista de dois personagens: os colonos Renato e Goiano, que vêm de Mato Grosso na esperança de tornar-se fazendeiros na própria terra no município de Ouro Preto D’Oeste. Goiano morre; Renato fracassa. A terra é ruim, e as culturas que a família era acostumada a plantar no sul não produzem. A família acaba abandonando a terra e Renato vai trabalhar de meeiro numa fazenda no sul do Estado, retornando à vida de empregado da qual tentara escapar. É irônico, aponta o narrador, que aquele semideserto até pouco tempo atrás fosse ocupado pela floresta mais rica do planeta. Fazendas de gado lutavam, sem sucesso, contra as pragas – em especial a vegetação nativa que rebrotava.

Imagem do filme Nas cinzas da floresta.

 

Um outro personagem surge para apontar a burrice que é criar gado na Amazônia. É o ambientalista gaúcho José Lutzenberger, que faz as vezes de apresentador do filme e é visto ora conversando com os produtores, ora brigando com os agentes do governo sobre a insustentabilidade criminosa daquela colonização, com seu português carregado de sotaque, ora testemunhando no Congresso Americano sobre o desastre ambiental e social que o Banco Mundial ajudara a financiar na Amazônia. Cerca de 60% das terras desmatadas haviam virado pasto sujo, sem serventia ou haviam sido abandonadas e reocupadas pela mata.

Numa das cenas mais marcantes – e proféticas – do documentário, Lutzenberger lamenta a destruição produzida no Estado no final da década de 1980, que deixou os colonos vindos do Sul tão miseráveis quanto eram quando chegaram. E explica que a floresta, após um determinado grau de perturbação, pode entrar em colapso repentino após ser desmatada em “20% ou 30%”. “Eu tenho medo que nos encontremos muito próximos de um ponto de colapso”.

As câmeras da BBC também acabaram televisionando uma pequena revolução ocorrida no final da década. Sob intensa pressão internacional, o governo democrático que assumiu em 1985 criou em 1989 um órgão especial para tomar conta da Amazônia, o Ibama. O monitoramento por satélite de queimadas começou a ser feito. Fiscais de helicóptero passaram a multar desmatadores e a apreender equipamentos. No ano seguinte, num novo governo, José Lutzenberger se tornaria ministro do Meio Ambiente. O Brasil pareceu ter enfim decidido mudar a escrita da Amazônia.

Não mudou, como sabemos. Apesar da atenção do governo e da comunidade internacional, a destruição seguiu em patamares elevados durante toda a década de 1990. As forças predatórias levadas pela ditadura 20 anos antes através das estradas que ligaram a Amazônia ao Brasil se aclimataram na região e adquiriram dinâmica própria. Esta só seria quebrada a partir de 2005, quando um misto de vigilância por satélite, fiscalização inteligente, punição e corte de crédito a ilegais derrubou as taxas de desmatamento por oito anos.

O estrago já estava feito então. Em 1975, segundo o Inpe, havia menos de 30 mil quilômetros quadrados de floresta desmatada na Amazônia. Hoje são mais de 800 mil. Perdemos 20% da maior floresta tropical do planeta em troca de quase nada: 63% das áreas desmatadas viraram capim de baixíssima produtividade – a mesma cifra estimada pelos filme de Adrian Cowell. Em Rondônia o desastre foi ainda maior: o Estado perdeu 40% de suas florestas. Novos estudos, ainda preliminares, sugerem que o colapso da Amazônia possa acontecer com um desmatamento total de cerca de 25% da floresta, exatamente a mediana da previsão de Lutzenberger. Há indicações tenebrosas de que em algumas áreas da Amazônia já haja emissão líquida de carbono – o maior sinal de que o colapso começou, já que a regra é que a floresta absorva e fixe esse elemento.

E, para provar o axioma de que nada é tão ruim que não possa piorar, os militares estão de volta à gerência.

Dispostas a continuar de onde pararam em 1985, as Forças Armadas iniciaram em 2020 a retomada da Amazônia, por meio do Conselho Nacional da Amazônia Legal, presidido pelo general Hamilton Mourão. A justificativa é a mesma conversa vintage dos anos 1970: a Amazônia está para ser invadida por potências estrangeiras cobiçosas da nossa água (é sério) e só o Exército poderá nos salvar. Os órgãos criados pela democracia para tomar conta da região, o Ibama e o ICMBio, foram escanteados. O monitoramento do Inpe é transparente demais e está sob ameaça. Tropas ocuparam a floresta em maio, sob a desculpa formal de combater crimes ambientais (o que não fizeram) e agora estão sendo mantidas indefinidamente na região.

O ministro do Meio Ambiente do regime (cujo nome eu evito citar porque, como diz Elio Gaspari sobre algumas entidades, “se chamar atrai”) alega que a antipolítica ambiental é necessária para “cuidar das pessoas” da Amazônia, supostamente abandonadas por 30 anos de “governos de esquerda”. É uma mentira abjeta, desmontada por quaisquer 20 minutos dos filmes de Cowell. Neste momento de trevas para o país, para a floresta e para os parcos avanços civilizatórios que fizemos desde a redemocratização, assistir aos documentários do cineasta inglês é algo que todo cidadão brasileiro deveria fazer. O planeta, premido pela crise do clima, não precisa de mais uma década da destruição por aqui.

 

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Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como NatureScientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

 

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