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A disposição dos livros

Marcílio França Castro

Detalhe de “Le Derby d'Epsom”(1821), de Géricault. Museu do Louvre, Paris.

 

Começo pela dívida. Aqui estão os livros que tratam da dívida, esse fantasma que sempre impulsionou a literatura. Histórias de escritores endividados, ensaios sobre jogo e dinheiro. Não é muita coisa, tive que garimpar bastante para reuni-los. Ao lado, essa pequena coleção sobre o suicídio, com estudos e biografias. São os únicos que tomam um pouco de sol. Os livros sobre o deserto e viagens ao deserto, logo na sequência, vieram parar aqui por acaso. Por falta de espaço, talvez, por terem chegado tarde. Mas no fim achei que o conjunto criava sua lógica. Mantive todos na mesma prateleira. Na parte de baixo, como você pode ver, estão os livros de alquimia, magia, cabala. Bruxaria, tarô, astrologia. Os métodos divinatórios, o Corpus Hermeticum. Chamo-a de seção hermética, e é das minhas preferidas. Nela incluí a história do xadrez. Por atração, vieram para cá ainda esses livrinhos sobre grafologia e tatuagens, o que, de modo muito espontâneo, funcionou como trampolim para a psicanálise e a antropologia. E daí para a história da ciência, a física, a astronomia. São poucos títulos, mas selecionados a dedo. Os livros que me interessam pouco ou quase nada estão atrás destes – já nem me lembro quais são.

Vamos mudar de estante. Aqui estão os escritores comentando outros escritores. Livros com entrevistas, artigos. Ficcionistas comentando poetas, poetas comentando pintores. Filósofos escrevendo sobre todos. Alguns compêndios com manias e hábitos de escritores. Picuinhas biográficas, fofocas literárias. Encaixei entre eles esse volume sobre a história da visão. Nas prateleiras de cima, juntei mitologias e história do conto. Fabulários antigos, histórias naturais, bestiários. Antologias de relatos curtos, sem classificação. Como a estante é funda, deu para pôr aqui na frente essa fileira de livros pequeninos, cada um sobre um tema. O critério é só o tamanho.

Não adotei em nenhum lugar o critério de cor, exceto para alguns livros de arte, os maiores. E deve ter sido de modo inconsciente. Ao longo dos anos, fui descobrindo afinidades entre os títulos, criando novas divisões. Separei um canto para os raros, outro para os carunchados. Acho que nunca terão o luxo de uma restauração. Abri uma seção de livros do Oriente, outra de livros obscenos. Tendo a esconder aqueles que, por um motivo ou outro, se tornaram detestáveis. Há um espaço para os escritores tardios, outro para os bêbados. São inúmeros. E um para os que gosto de ver antes de dormir. As estantes estão sempre em movimento, de acordo com meus interesses imediatos, meu humor. Recentemente, desfiz várias repartições apenas para compor uma nova, dedicada ao silêncio. Já fiz isso com a guerra, os sonhos, a história do papel.  Uma vez tentei organizar uma seção exclusiva para casais. Como Sartre e Beauvoir, Sylvia Plath e Ted Hughes. Tentei também reconciliar desafetos e inimigos literários. Gide e Proust, por exemplo. Ou Verlaine e Rimbaud, que foram do amor à tentativa de homicídio. Entendi que seria perigoso; rapidamente desisti.

Por fim, queria te mostrar essa ala. É talvez a parte com os volumes mais elegantes. Aqui guardo livros sobre livros, sobre manuscritos, bibliotecas. Sobre o alfabeto e a história do alfabeto, sobre livrarias, sobre queima de livros. Sobre livros estranhos, desaparecidos. Manuais de caligrafia e tipografia. Estão aqui também, como você pode ver, os livros com iluminuras, e livros sobre as margens dos livros. Sobre notas de rodapé, manículas, colofões. E também sobre anjos e demônios, sobre o tempo e a solidão. Tem ainda esse volume imponente com a história da pontuação. Os poemas de Safo, que você vê aí no centro, se deram muito bem com toda essa companhia. Poderíamos ficar dias aqui, e ver o resto da ficção, e a poesia. Mas a divisão é quase toda por nacionalidade, não tem graça nenhuma.

Se alguém me pergunta se já li tudo isso, respondo que os livros não existem para ser lidos, mas para fazer companhia. Basta sua presença para modificar o mundo. De vez em quando, claro, é preciso tocá-los, abri-los. Ler uma frase, um capítulo. Costumo pescar palavras, ver as gravuras, e então devolvê-los à sua quietude. De modo geral, é o bastante. Mas repare nessa mesa branca, ali, nos livros soltos em cima dela. São volumes apartados da biblioteca. Estão um pouco inchados. Algumas de suas folhas podem até estar machucadas. Esses livros estão aqui porque foram submetidos a um esforço extremo. Foram lidos de uma só vez, da primeira à última palavra, sem pausa, sem meditação. Como os jóqueis fazem com seus cavalos nos páreos decisivos, fustigando-os até a linha de chegada. Uma a uma, as páginas desses livros foram abertas, o ar as inundou; cada linha refletiu sua parcela de luz. Esses livros estão completamente esgotados. Deixo-os aí, descansando, numa espécie de quarentena. Nem todos se recuperam. Alguns mal conseguem voltar para as estantes.

 

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Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em estudos literários pela UFMG, publicou, entre outros, Histórias naturais e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional.

 

Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em estudos literários pela UFMG, publicou, entre outros, Histórias naturais e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional.

 

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