A literatura ou a vida

Juan Pablo Villalobos

Em março de 2003 eu morava em Xalapa, no México, e estava prestes a terminar a faculdade em Literatura Espanhola. Tinha 30 anos de idade e o percurso até chegar nesse momento havia sido longo e com muitos rodeios: primeiro, estudei Administração e Marketing, trabalhei uns anos fazendo pesquisas de mercado e só aos 25 anos aceitei que isso me faria infeliz (já estava acontecendo). Cinco anos antes, no verão da Copa de 1998, numa praia de Rosarito, perto de Tijuana, eu havia tido uma iluminação e concluído que essa obstinação por ler e escrever que eu cultivava desde os 15 anos de idade era a razão da minha existência. Sim, eu estava um pouco bêbado naquele dia. E provavelmente tinha fumado um (só provavelmente).

Em março de 2003 eu já tinha confirmado que realmente o que eu queria fazer era ler e escrever e estava passando pela etapa de leitura mais prolífica de minha vida: lia o dia inteiro, lia tudo, as novidades e as lacunas de minha cultura literária, além dos livros da faculdade. Logicamente, eu também escrevia: contos e ensaios. Na faculdade havia um concurso literário todo ano e em cada um daqueles cinco anos que passei em Xalapa enviei um conto e um ensaio. E nunca ganhei. (É mentira, ganhei um segundo lugar de ensaio uma vez, mas fica melhor, mais dramático, dizer que jamais ganhei.) O que eu fiz naqueles anos foi o típico processo de iniciação e formação que todo aspirante a escritor deve viver.

Lembro com muito carinho das discussões nas aulas e nos corredores da faculdade, da erudição dos professores e dos colegas, nossas aversões declaradas, que eram a manifestação do que achávamos ser o bom gosto literário (eu estava especializado em falar mal do Carlos Fuentes – na verdade, ainda faço isso). Também das visitas de escritores à faculdade: impossível esquecer o dia em que Augusto Monterroso deu uma palestra pra gente.

Em Xalapa, uma cidade de porte médio, o contato que podíamos ter com escritores de verdade era limitado. Tínhamos o melhor dos mexicanos em casa e nas aulas, isso é verdade: Sergio Pitol, que seria Prêmio Cervantes em 2006, ainda mora ali. Mas éramos ambiciosos e queríamos conversar, debater, discutir, com os autores que líamos. Naquela época sem redes sociais, no entanto, já havia uma ferramenta para chegar nesses autores, inclusive nos mais inacessíveis: o e-mail. Mas você precisava conseguir o endereço.

Meu amigo Omar e eu estávamos obcecados com certo escritor espanhol. De fato, nossa amizade havia começado ao descobrir que gostávamos dele. Era um escritor considerado difícil, literário demais, um escritor para minorias, um escritor só para escritores. Nossa cumplicidade havia se construído na ideia, bastante arrogante, de que só eu e ele o havíamos lido. Éramos uma seita: uma seita de dois integrantes, sim, mas uma seita mesmo.
Graças a um professor, e utilizando a inocente mentira de que eu e Omar publicaríamos uma revista literária, demos um jeito de conseguir o endereço eletrônico de nosso autor favorito. A revista era apenas um projeto que discutíamos no bar, entre cervejas. O que a gente queria era ter contato com ele, sentir a presença dele próxima, trocar ideias. No final das contas ele era o líder da nossa seita, né?

Escrevemos a ele falando que gostaríamos de fazer uma entrevista e explicando as características de nossa revista como se ela realmente existisse – afinal, ter estudado Marketing devia servir pra alguma coisa. Para nossa surpresa, ele respondeu rapidamente e de maneira muito amável, aceitando. Enviamos uma coisa parecida a um questionário: na nossa arrogância, tínhamos a pretensão de fazer uma entrevista de vanguarda. Ele topou a brincadeira e respondeu coisas muito interessantes. Copio aqui – traduzida – uma das respostas que ele nos enviou no dia 11 de março daquele 2003:

“Na minha opinião, a literatura nos permite compreender a vida. Mas precisamente porque nos permite compreendê-la, nos deixa fora dela. É duro, mas às vezes é o melhor que pode acontecer conosco. A leitura, a escrita, procuram a vida, mas podem perdê-la precisamente porque estão totalmente focadas na vida e na própria procura.”

Empolgado com a resposta, eu decidi escrever de volta para pedir um conselho pessoal. Meu plano era terminar a faculdade e pedir uma bolsa para estudar um doutorado na Espanha. Uma vez na Espanha, estudar, continuar escrevendo, procurar emprego numa editora ou numa revista literária. E, acima de todas as coisas, virar escritor. Ele respondeu de novo rapidamente, mas desta vez não de maneira amável.
Falou que o que eu queria era o mesmo que muitos, mas muitos mesmo, queriam.

Muitos mais bem preparados do que eu.
E mais experientes.
E que ainda assim nem eles às vezes conseguiam.
E que, no final das contas, esse problema era meu.
E que ele tinha muitos problemas próprios para ainda por cima ter que se preocupar com os meus.

O tempo passou. Fui morar na Espanha para fazer o doutorado. Acabei largando o doutorado, mas virei escritor. E quando eu achava que havia esquecido aquele e-mail que tanto tinha me magoado, comecei a pensar nele de novo com bastante frequência.

Publiquei meu primeiro romance em 2010, uma época em que o acesso aos escritores havia mudado completamente por causa das redes sociais. Eu tinha Facebook. Eu, assim como muitos colegas, estava (e continuo a estar) a um click de distância de qualquer leitor. Comecei a receber mensagens de pessoas que tinham lido meus livros. Comentários. Elogios. Críticas. Repreensões. Pedidos de conselho. Pedidos de ajuda (algumas vezes muito concretos e desconfortáveis). Às vezes nem tinham lido meus livros, só sabiam que eu era escritor.

Como lidar com isso?

Continuará...


Revisão: Andreia Moroni

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal. 
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