A obscena senhora H – parte 1

Ana Lima Cecilio

Ilustração de Olga Bilenky

Ilustração de Olga Bilenky

 

Na mês da Flip 2018, convidamos Ana Lima Cecilio para apresentar brevemente Hilda Hilst, escritora homenageada desta edição. Dividido em quatro partes, o perfil “A obscena senhora H” dá uma amostra da biografia da autora que será publicada pela Companhia das Letras.

***

Lygia Fagundes Telles conta que, quando viu Hilda Hilst (1930-2004) pela primeira vez, ela era “uma jovem muito loira e fina, os grandes olhos verdes com uma expressão decidida. Quase arrogante”. Era 1949, e as duas se encontraram em um vetusto chá em homenagem a Lygia. Hilda se apresentou, dizendo-se poeta, e a Lygia ocorreu “a poética imagem da haste delicada de um ramo tremente de avenca, aquela planta um tanto rara e muito cultivada pelas freiras”.

Arrogância, delicadeza, uma beleza impressionante, uma nuvem de fumaça de cigarro. Se pessoalmente Hilda guardava todas essas características, tão diversas e tão complementares, não é diferente para quem lê um verso seu pela primeira vez.

Autora de mais de vinte livros de poesia, onze de prosa, oito peças de teatro e uma notável coleção de crônicas — um conjunto que começou a ser desvendado ao grande público apenas poucos anos antes de sua morte —, Hilda Hilst queixou-se a vida inteira da falta de leitores. O ressentimento que escapava nas diversas entrevistas que deu ao longo da carreira foi um ingrediente importante, mas não o único, na construção de uma personagem viva e vária, que ao longo dos anos e de tantos encontros foi tomando um vulto às vezes maior que a própria obra.

A jovem de dezenove anos que Lygia Fagundes Telles conheceu era uma espécie de fruto estranho nascido do encontro de Bedecilda Vaz Cardoso, uma jovem portuguesa criada na cidade de Santos no início do século XX, com Apolônio de Almeida Prado Hilst, um homem muito bonito, de uma família tradicional de Jaú, no interior de São Paulo, que publicava poemas nos jornais de sua cidade. A mãe, mulher independente que criou sem pai seus dois filhos, apostou todas as fichas na educação da menina, “para que nunca dependesse de homem nenhum”. Hilda frequentou os melhores colégios da elite paulistana, espantada com a religiosidade das freiras, procurando um deus muito próprio, ao mesmo tempo que recusava qualquer tentativa tradicional de compreendê-lo. Talvez tenha vindo daí a imagem da avenca de Lygia.

***

Continue a leitura: "A obscena senhora H"  — parte 2, parte 3

***

Ana Lima Cecilio é formada em filosofia pela USP e trabalha no mercado editorial há quinze anos. Foi editora do selo Biblioteca Azul, no qual publicou autores como Balzac, Beckett, Elena Ferrante e Hilda Hilst, e foi uma das organizadoras das obras completas de Machado de Assis pela Nova Aguilar. Hoje é editora da Carambaia e prepara a biografia de Hilda para a Companhia das Letras.

Neste post
Acesse a Letrinhas nas redes sociais