À sombra do homem - uma fábula

Claudio Angelo

Houve quem protestasse, mas fato é que aquele país elegeu um chimpanzé (Pan troglodytes) como Presidente da República. Num pleito livre e soberano, portanto legítimo, a maioria dos votantes consagrou o macacão.

O que realmente se passava na cabeça dos habitantes naquele momento de surto coletivo é algo que os sociólogos e psicólogos até hoje discutem. Mas ali, no calor dos acontecimentos, a coisa toda pareceu fazer sentido. Afinal, por definição, macaco não rouba, diferentemente de uns políticos que meteram a mão na cumbuca e traumatizaram o povo. Pouca gente parou para pensar se isso se devia à boa índole do antropoide ou à simples inexistência de dinheiro nas florestas africanas.

Alguns acharam, também com razão, que a figura do símio os libertaria: estava ali, mais do que o homem em seu estado de natureza, o próprio estado de natureza. Seu sonho de um país sem superego, onde não tivessem que cumprir regra social nenhuma, nem frear no pardal, nem moderar as piadas machistas, estava finalmente ao alcance de três toques de botão. Um, sete, confirma. (Dezessete é o número do macaco, como três é o do burro, juro que não inventei isso, se não acredita olhe no Google.)

Os empresários eram o grupo mais animado. A candidatura do chimpanzé prometia implementar a Lei da Selva na economia e, sendo ele um autêntico representante da selva, ninguém tinha por que duvidar. “Vamos libertar o espírito animal do empresariado”, prometia o futuro ministro da Economia. E emendava, com um sorrisinho maroto: “Podem confiar, de animal a gente entende.”

Para quem esboçava alguma preocupação com o ineditismo da experiência, analistas políticos corriam a esclarecer: calma, gente, o chimpanzé não vai governar sozinho. Há todo um exército de tratadores em volta. Gente muito séria, disciplinada, que não é dada a aventuras. Fora que se não der certo a gente tira, né? Temos prática nisso. E, olha, se lhe dermos tempo suficiente, até ele consegue compor um soneto de Shakespeare batendo aleatoriamente no teclado do computador. Vejam quem é o outro candidato! “Methinks it is a very hard choice.”

O chimpa levou no segundo turno.

A cerimônia de posse foi meio constrangedora. Como esperado, o chimpanzé nada fez além de emitir vocalizações sem sentido e bater no peito. Mas a maioria do eleitorado, ainda em transe pela vitória, não apenas não se importou, como passou a urrar, pular e bater no peito também, imitando seu ora líder supremo. Em breve as redes sociais seriam inundadas com o bordão “o macaco tá certo!” a cada decisão errada, a cada barbaridade dita ou feita pelo presidente ou por seus auxiliares. Quem ousava questionar era chamado de “especista” em linchamentos virtuais. Teve deputado da oposição que precisou sair do país. A tropa chamou de viadagem. “O macaco tá certo!”

Os tratadores, aboletados em posições confortáveis no governo após anos e anos trabalhando no sol e recolhendo merda no zoológico, de repente se deram conta de que havia chegado seu grande momento. O plano era perfeito: com um presidente inimputável, dependente deles até para comer, bastava sorrir e acenar. Não precisariam dar um tiro, nem brandir o cassetete. Não tomariam o poder; eles eram o poder. Em off, vazavam à imprensa que não concordavam com os métodos do símio, sim, era um selvagem, não, não participamos dessa decisão, olha, francamente, há divisões no grupo, mas sabe como é, a urna é soberana, pode deixar que a gente modera ele. Sorria e acene.

A imprensa não sabia como agir. Claro, tinham consciência de que se tratava de um macaco, que jamais diria uma frase com sentido e que jamais faria algo diferente de atirar fezes no interlocutor. Mas era o presidente, afinal: o cânone jornalístico manda cobrir, registrar cada discurso, botar cada urro na primeira página. Em breve os repórteres passaram a achar normal ir ao quebra-queixo na porta do palácio e levar um tolete na cara. Estavam orgulhosos de sua nobre missão de contar aos cidadãos do país, todos os dias, a mesma verdade inescapável de que o presidente era um chimpanzé. “E daí?”

Uma jornalista veterana, macaca velha de cobertura presidencial, botava uma cara séria no noticiário da noite e começava a discutir a direção da merda: “Hoje o presidente atirou com a pata esquerda, de baixo para cima. Foi um avanço em relação a dois dias atrás, quando ele usou a direita (o chimpa era destro) e o tolete veio em linha reta, tão rápido que ninguém conseguiu fugir.” “Hoje o presidente recuou e não jogou cocô no embaixador da China, apenas agitou galhos e bateu na mesa.” A repórter era uma otimista e acreditava piamente que as coisas estavam melhorando. O presida definitivamente estava evoluindo. Em mais um ano ou dois desenvolveria um hioide e quem sabe começaria a formar frases. E aí ninguém seguraria esse país.

Os tratadores ficavam satisfeitos com a cobertura: enquanto os jornais seguissem discutindo etologia, ninguém atentaria ao fato de que, na real, não havia ninguém governando o lugar. As lembranças do trabalho extenuante limpando jaulas iam ficando para trás e eles passavam a sonhar com um segundo mandato. Ou, melhor ainda, com um mandato vitalício.

Às vezes, num dia de mais estresse, o animal eriçava os pelos e ameaçava estraçalhar o presidente da Câmara Baixa do Parlamento. Ato contínuo, saltava sobre um repórter ao ser questionado, mordendo-lhe o braço. No dia seguinte, porém, abaixava a cabeça, esticava a patinha e fazia um grunhido-arfado de submissão. Todo mundo achava fofo. O Homens do Mercado lembravam que aquele breve destempero não tinha nada a ver com a implementação da Lei da Selva, que seguia de vento em popa. Empresários e agronegócio esfregavam as mãos de satisfação. Miquinho mais bonitinho do pai!

Mas a realidade é teimosa e um dia sempre bate à porta. Parceiros comerciais do país começaram a notar que não havia ninguém governando. A Lei da Selva, vejam só, estava atingindo em cheio a própria selva e pondo outros países em risco. O chimpanzé reagia como de praxe, urrando, esmurrando a mesa e atirando o que tivesse à mão em seus interlocutores. O povo, brioso, denunciava a intromissão estrangeira pulando, arfando e batendo no peito. “O macaco tá certo!”

E aí veio o caso dos filhotes. O macacão tinha uma obsessão com seus filhotes. Como bom replicador darwiniano, ele entendia que a descendência é tudo. Mas só quem leu os clássicos da primatologia, como O macho demoníaco, de Richard Wrangham, e In the shadow of man, de Jane Goodall, sabe quão longe chimpanzés podem ir para proteger os seus. O Pan troglodytes é uma espécie extremamente agressiva, capaz de levar a busca por dominância social, recursos e fêmeas a extremos. Chimpas dominantes têm vários filhotes com várias fêmeas e, na vida deles, vale tudo para maximizar o bem-estar do clã. Até mesmo, como mostrou Wrangham, organizar milícias para destruir rivais. Antes de haver Adriano Nóbrega, havia o chimpanzé.

O presidente símio ia ficando mais agressivo à medida que sentia ameaças crescentes a seus filhotes e fez como seus ancestrais sempre fizeram: botou o governo inteiro a serviço do seu clã. Se pudesse falar, diria “não me venham com esse mimimi de Hobbes e Rousseau, esta é a ordem natural das coisas!” Ao mesmo tempo, o projeto de implementação da Lei da Selva começou a naufragar e a economia passou a fazer água. Comentaristas que haviam apoiado a Lei da Selva no começo passaram a sussurrar que desmontar o Estado era uma ideia abandonada desde a década de 1980.

Silenciosamente, os tratadores entraram em pânico: fatalmente a população descobriria que não havia ninguém no comando. A situação era muito frágil. Qualquer choque externo poderia botar tudo a perder e eles teriam de voltar à vida dura e mal-remunerada do zoológico. Não, aquilo não podia ficar assim. Os tratadores precisavam tomar uma decisão: ou bem depunham o chimpa, pediam desculpas e chamavam novas eleições, ou bem empunhavam armas e davam um golpe, mantendo seu macaquinho amestrado formalmente no comando. “Methinks it is a very hard choice.” Resolveram pedir mais cargos.

E aí veio o choque externo. Um vírus misterioso e altamente letal surgiu em outras selvas e se disseminou no país. Chimpanzés têm um histórico péssimo em lidar com epidemias – veja como manejaram a Aids e o ebola, dois vírus surgidos em seu habitat natural. Nosso chimpa não tinha o ferramental cognitivo para lidar com qualquer ameaça que transcendesse o limite do clã, menos ainda com uma ameaça que ele não conseguisse ver a olho nu. Apesar de ter teoria da mente e alguma capacidade de planejamento de longo prazo e abstração, o Pan troglodytes é regido pela experiência imediata. Diante da epidemia, enquanto seus concidadãos morriam como moscas, ele só conseguia proteger os filhotes, urrar e atirar fezes em quem ousasse criticar seu governo. O ministro da Economia, estranhamente auxiliado pelo agredido presidente da Câmara Baixa, tentou acelerar a implementação da Lei da Selva. Parecia um ato de suicídio político.

“É o fim”, conformaram-se os tratadores. E já dobravam seus uniformes para retornar ao zoo. Mas aí veio a surpresa.

A população. Contrariando as previsões dos tratadores, o bom senso e o próprio instinto de sobrevivência, a população do país não reagiu. Não só isso: os que não estavam recolhidos em suas casas com medo do vírus foram às ruas – não para pedir a saída do presidente, mas para apoiá-lo. Gritavam suas palavras de ordem. “O macaco tá certo!” “Fora especistas!” “Antes livres do que vivos!” Às vezes eles próprios se infectavam e morriam, mas seguiam defendendo o símio supremo. Bestializados.

Naquele momento os tratadores entenderam que nunca mais precisariam se preocupar. O país enfim se convertera naquilo que eles eram treinados a administrar: um zoológico. Salvo alguma surpresa, tudo que eles precisariam fazer dali para a frente era enterrar os mortos, esperar o fim da epidemia e lidar com os sobreviventes como sempre fizeram com seu chimpinha de estimação. Sorria, acene, dê umas pancadas de vez em quando. E jogue uma banana.

*** 

Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como NatureScientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

 

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