A virada

Érico Assis

 

Eu tinha oito anos e o gibi era Super-Homem n. 45. Naquela época ainda se escrevia “Super-Homem”. Superman é coisa de hoje.

Página 17: Super-Homem acaba de encontrar os dois sujeitos que torturaram sua amiga, Lana Lang, e que sequestraram seus pais, Jonathan e Martha. Sempre sorridente, Super está puto: “Comecem a falar, animais, antes que eu esmague sua cabeça como ovos podres!”

Os sujeitos não sabem de nada. “O-o q-que você tá dizendo, cara?”

Corta. Os olhos de Lex Luthor. Corta. Os dedos de Lex Luthor apertam o botão vermelho, o que diz “Fogo”. Corta. A fábrica abandonada onde Super encontrou os sujeitos. Corta. Uma explosão.

Viro a página. Superman, mais puto, destrói as portas do escritório de Lex Luthor e berra o nome do inimigo. “LUTHOR!”

Virei duas páginas? Confiro. Não. Essa é a página 18. Esqueceram de colocar uma página entre esta e a anterior? Talvez. Não falta um recordatório tipo “Nas Empresas Luthor…” ou “Minutos depois…”?

Não, parece que é isso mesmo. Virei a página e, nessa virada de página, Super-Homem concluiu que Lex Luthor estava metido com a tortura, o sequestro e a explosão. Veio voando até a porta de Luthor. Mais puto. E rápido, muito rápido. Não foi minutos depois, foi segundos depois. Não, mais rápido. Super-Homem atravessou Metrópolis numa virada de página.

Minha cabecinha de oito anos demorou uns instantes para fazer a ligação, mas chegou lá. Não faltou página, não faltou recordatório, não faltou explicação. Hoje eu até posso me perguntar como o Superman se deu ao trabalho de achar uma capa vermelha nova entre a explosão e o escritório do Luthor. Mas não vou dar bola: Superman cruzou a cidade numa virada de página. Mais rápido que o meu raciocínio. Caramba.

Essa Super-Homem é da mesma época em que Watchmen e Cavaleiro das Trevas estavam revolucionando. A primeira aboliu balões de pensamento e narrador onisciente, a segunda tinha a ginga certa entre páginas de dezesseis quadros e splashes. Fizeram muito mais, mas deram o pano de fundo para todo tipo de quadrinho explorar linguagem, tentar coisa nova, fugir do convencional, surpreender o leitor.

Eu não tinha lido nem Watchmen, nem Cavaleiro. Eu tinha oito anos. Eu lia Super-Homem.

Aliás, tinha começado a ler Super-Homem há uma ou duas edições. Notei que aquele desenho bonito do Quarteto Fantástico e da Tropa Alfa tinha aparecido nas capas do Super e fui atrás. Antes, Super era um negócio complicado, feio, cheirando a naftalina. Descobri que tinham recomeçado as história do zero e que quem tinha feito isso, o cara que desenhava bonito, era um tal John Byrne.

E vi que esse Superman cruzava a cidade, cruzava páginas, cruzava a minha cabeça e me deixava tonto numa virada de página. Caramba.

Elipses. Muito tempo depois eu ia descobrir que isso se chama elipse. Quadrinhos bons brincam com as elipses.

Reencontrei essa virada numa reedição recente do Superman de Byrne. Na reedição, não é nem uma virada – viraram páginas adjacentes, como está aí em cima. Funciona do mesmo jeito.

No texto de introdução, Byrne escreve que, para ele, Superman começou no seriado de tevê dos anos 1950 e só depois virou herói dos gibis. Foi assim que Byrne o conheceu, quando tinha uns sete anos.

Byrne conclui: “Quem sabe daqui uns 30 anos alguém vai chegar no processador de texto e escrever que o Super-Homem estreou em uma minissérie chamada O Homem de Aço [em que Byrne reiniciou Super do zero], que foi sua apresentação a um mundo de encanto e de fascínio que vai durar pelo resto da sua vida!”

Que é exatamente o que eu estou fazendo.

(Vinte e nove anos depois do texto, que é de 1991.)

Não posso dizer que nunca mais larguei Superman, nem que nunca mais larguei quadrinhos do John Byrne. Os dois tiveram vários momentos bem largáveis e eu caí fora. Volto de vez em quando.

Mas uma das coisas que ainda me agarra aos quadrinhos é aquela virada de página.

 

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Escrevi um livro. Ou melhor, estou escrevendo um livro desde 2010 – aqui mesmo, nestas colunas para o Blog da Companhia. Uma coletânea com as primeiras 50 vai ser lançada este ano, com o título Balões de Pensamento (editora Balão Editorial). As colunas foram revisadas, em alguns casos foram atualizadas e vêm com ilustrações inéditas de cinco autores do quadrinho nacional. Tem uma sobre o John Byrne.

Balões de Pensamento sai em dezembro. Você pode saber mais e pré-adquirir seu exemplar na campanha de financiamento coletivo.

 

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho Minha coisa favorita é monstrohttp://ericoassis.com.br/

 

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