História casual do papel” (parte 3)." />

Algo no quarto escuro

Marcílio França Castro

Da série “História casual do papel” (parte 3).

 

Pintura em seda que retrata Madame Li, de Han. Museu do Palácio Nacional, Taipei. Dinastia Qing.

 

Cerca de um século antes da era cristã, o imperador chinês Wu, da dinastia Han, escreve um poema de lamento pela morte de madame Li, sua concubina favorita. É uma espécie de elegia à amada; Ezra Pound foi um dos que o traduziram. O poema é todo sensorial. Como um fantasma, a mulher sobrevive naquilo que toma o seu lugar: a poeira no pátio, as folhas secas, a memória de seus passos. O silêncio da seda – que não farfalha mais. Atribui-se ao imperador Wu a inauguração da rota da seda, a rede de comércio que serviria para insuflar a economia, as viagens entre os continentes. Data também da época de Wu o mais antigo fragmento de papel de que se tem notícia, um farrapo de fibras de cânhamo hoje exposto na parede de um museu de Xian, a antiga Chang’an, capital do império. Seda e papel têm berço comum e histórias próximas, de fascínio e migração. Algumas vezes se cruzam: na matéria de um livro, nos trapos, no dinheiro. Em Chang’an, quase mil anos depois do reinado de Wu, o papel está mais fácil de fabricar, mais popular. A seda continua preciosa e cara. Yu Xuanji, poeta e calígrafa, que vive na cidade, escreve: “Abro as janelas à trilha dentre os bambus/Finas sedas tornaram-se embrulho de livros”[i]. No reino íntimo de Yu, em sua hierarquia poética, a seda serve ao papel, assim como o pincel à mão, e a correspondência à poesia. Dizem os seus versos: “À mão, a pedra e o pincel se sujeitem/Cartas, poemas distingam teu dia”. Por ser mulher, Yu não pode se submeter aos concursos públicos, não pode pleitear um posto na administração do império. Contra a restrição, sua resposta é irônica e certeira: “Pena: os robes em seda me cobrem a poesia”. A seda que veste as mulheres é a mesma que esconde os poemas e protege os livros – seus corpos de papel. De Chang’an a Roma, vestidos de seda seduzem os homens; perturbam-lhes os sonhos, a imaginação. Creio que há nesses versos uma pulsão libertária, um veneno sutil que se infiltra entre os materiais para corroê-los de dentro para fora. Se o papel em alguma medida suplanta a seda, consegue ainda criar uma fantasia alternativa a ela. Um duelo secreto de filigranas no interior dos versos. No quarto escuro do poema, a volúpia da seda cede à fúria do papel. Assim o poema do imperador vai sendo – lentamente – reescrito.

 

[i] A tradução dos poemas aqui citados é de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao.

 

Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em estudos literários pela UFMG, publicou, entre outros, Histórias naturais e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional.

 

Neste post