"Amazona": a hora e a vez da nova mulher brasileira

Por João Pombo Barile*

 

 

É bastante conhecida a afirmação de Ezra Pound de que "os artistas são as antenas da raça". Segundo o poeta norte-americano, literatura não se faz apenas com criatividade. É preciso também sintonia com a época: saber captar os sinais que estão no ar.

A frase de Pound me veio à mente assim que terminei de ler Amazona, de Sérgio Sant’Anna. Ao criar a história de Dionísia, Sérgio escancarava, de maneira precisa e já em 1986, grande parte das contradições do novo país que nascia com o fim do regime militar. Numa narrativa que lembra as vezes um filme de Glauber Rocha, Sérgio tocava naquela que é, ainda hoje, uma das grandes feridas abertas da violenta e misógina, mas sempre cordial, sociedade brasileira: o lugar da mulher.

"Eu queria escrever uma paródia, não só do gênero folhetim, como a de um best-seller típico da época", conta Sérgio, fazendo menção a um gênero de livro bastante popular, e que podia ser encontrado nas casas da classe média tupiniquim daqueles anos. Uma literatura, de gosto duvidoso, que mescla sexo, poder, drogas, dinheiro, ação e muitos clichês. Quem já leu Sidney Sheldon ou Harold Robbins sabe do que estou falando.

Desnecessário dizer que um autor da qualidade de Sérgio jamais conseguiria mimetizar este tipo de livro produzido em série. E o resultado não poderia ser outro: um retrato, direto e cruel, da provinciana e elitista sociedade brasileira. E que tem, para nossa desgraça, uma atualidade assustadora.

Mas aqui, atenção: Amazona não é um testemunho ou documento de época. Nada disso: literatura nunca foi sociologia. E o mestre Sant’Anna, desde sua estreia há 50 anos, sempre soube disso. A linguagem é a sua grande força: cada frase é lapidada. Cada palavra escolhida a dedo. Impossível ler o romance de Sérgio sem pensar no grande contista, autor de clássicos como O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. Sérgio, no entanto, desmistifica o processo de criação do romance. "Para ser sincero, queria que o livro fosse mesmo um best-seller. Aliás, o Affonso Romano de Sant´Anna, na revista Playboy, não só o colocou entre os melhores livros de 1986, como disse que ele tinha tudo para ser um dos mais vendidos", conta.

Tirando sarro com a cara tanto da direita, quanto da esquerda, no livro de Sérgio sobrava para todo mundo. O economista Delfim Netto, o czar todo poderoso daqueles anos de chumbo, é citado nominalmente. Ele é o entrevistado de uma revista masculina, do tipo que alternava pautas ditas sérias como as previsões sobre o futuro da nossa economia, com o nu frontal, escancarado e, às vezes, cabeludo, de belas mulheres. "No livro, que considero uma comédia escandalosa, eu podia, saindo da ditadura, gozar todas as instituições brasileiras", explica Sérgio.

Já a esquerda é tratada com não menos ironia. Algo raro naquele período, quando livros de memórias e testemunhos dos anos da ditadura experimentavam um boom de vendas: basta pensar que O que é isso companheiro?, de Fernando Gabeira, ou Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva, estavam na lista dos mais vendidos. Em Amazona, Sérgio cria a OBA (Organização dos Bancários Anarquistas), uma grande gozação com os grupos clandestinos criados durante o regime militar. Com muito bom humor, satiriza a paranóia, a mania de reuniões e outros hábitos destes grupelhos de esquerda que muitas vezes tinham tão poucos participantes que não conseguiam encher nem uma Kombi.

Com a estrutura dos folhetins do século 19, Amazona é dividido em capítulos curtos. Com uma prosa deliciosa, que faz lembrar às vezes o estilo digressivo do Machado de Memórias póstumas de Brás Cubas, e outras o estilo malandro de A vida como ela é, de Nelson Rodrigues, a obra retrata o poder que a mulher vinha conquistando na patriarcal sociedade brasileira. "Eu pensei, sim, em fazer da Dionísia a nova mulher brasileira", conta Sérgio, "E quem primeiro sacou que ela estava dentro da linhagem das mulheres da literatura brasileira foi o Silviano Santiago, numa resenha para a revista IstoÉ quando o livro foi lançado pela primeira vez. Já quem se lembrou de Capitu foi o André Nigri, no posfácio da nova edição, para satisfação minha".

Escrito alguns anos depois de sua chegada de Belo Horizonte, onde viveu por quase duas décadas, o livro é também uma homenagem à sua cidade natal. O escritor carioca vivia seu maior período de criatividade.  Basta lembrar que, ao mesmo tempo em que escrevia Amazona, compunha A tragédia brasileira, considerado por ele sua obra-prima. “Eu estava num momento muito turbulento da minha vida. Frequentava quase todos os dias o teatro. E escrevia muito", relembra.

Difícil saber como o romance de Sérgio será lido pelas gerações nascidas depois da ditadura. A década de 1980 virou pré-história. Uma pesquisa publicada no início de janeiro deste ano, pelo jornal Folha de S.Paulo, mostrou que 65% da população brasileira não sabe o que foi o AI-5. E não duvido, nem um pouco, de ter gente ai achando que AI-5 é nome de um novo modelo de smartphone.

Mas pode acreditar: naqueles anos a tanguinha de crochê de Fernando Gabeira era mesmo motivo de espanto para muitos. E Ipanema parava para ver. A peça era ainda bandeira de luta para outros. E ninguém, nem nos piores pesadelos, podia imaginar que uma onda conservadora ia tomar o mundo outra vez. Os caretas, na gíria da época, tinham perdido. E para sempre. Liberdade sexual andava de mãos dadas com liberdade política. Na história de Sérgio, Dionísia acredita que a política do corpo poderá mudar o corpo político. A perversa, e esquizofrênica, combinação "liberal na economia e conservador nos costumes" era inconcebível. Ingenuamente, acreditávamos que a sexualidade ia resolver todos os nossos problemas. Amazona retrata bem o clima daqueles anos. Era a hora e a vez da nova mulher brasileira. Que finalmente deixara de ser Amélia e começava a ter o controle de sua própria vida. A bela, recatada e do lar tinha ficado para trás.

Em artigo no Valor Econômico, o jornalista Ivan Martins chamou a atenção para a “estranha” atualidade de Amazona. Prefiro outra palavra: incômoda.

Quando o livro foi publicado pela primeira vez, ninguém no país tinha coragem de cultuar torturador ou distorcer fatos históricos para defender, por exemplo, o AI-5. Duvidar que a democracia fosse o único caminho possível para resolver nossos problemas era coisa, simplesmente, de maluco.

A leitura do romance de Sérgio faz pensar sobre o que significaram estas três décadas do tal regime democrático brasileiro. E que conseguiu mexer tão pouco no privilégio dos donos do poder. Passados 33 anos, vários dos personagens de Amazona seguem assombrando o país. Mudança, mesmo, só nos nomes.

O banqueiro Avelar hoje atende pela alcunha de homem de mercado. O policial Severino não seria mais integrante de esquadrão da morte. Viraria miliciano. E claro: não temos mais Delfim, mas continuamos sendo tutelados por um outro czar na economia.

Pensando bem, Dionísia hoje bem que poderia se chamar Marielle.

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João Pombo Barile é jornalista e graduado em filosofia pela USP. Em São Paulo, trabalhou nas editoras Nova Cultural, Abril e Larousse e foi colaborador da revista Bravo e do jornal O Estado de S.Paulo. Em Belo Horizonte, trabalhou nos jornais O Tempo, Hoje em Dia e na revista Veja BH. É diretor do Suplemento Literário de Minas Gerais e dirige, desde 2011, o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura.

 

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