Ao mestre com carinho

Lilia Moritz Schwarcz
Luiz Schwarcz

Foto: André Gomes de Melo

Hoje o Brasil amanheceu de luto e há de ficar assim por muito tempo. Acaba de falecer Antonio Candido, o “Professor Antonio Candido”, que era como todos o chamavam: título que ele recebeu por mérito acadêmico, carinho e eleição de todos os que o cercavam. Afinal, ele foi o mestre de muitas gerações e nesse lugar há de ficar. Para sempre...

Antonio Candido fez sua formação em literatura brasileira na Universidade de São Paulo. Sua primeira posição, porém, foi como Professor Assistente em Sociologia, “acaso” que teria toda a importância na sua produção como crítico literário e no seu empenho em não tratar a literatura como fenômeno isolado. Se cultura nunca foi entendida, por ele, como um reflexo fácil do contexto, também não era um fenômeno isolado. Dizia o mestre que era preciso dar conta de uma espécie de triângulo, onde estava a obra, mas também seu contexto e ainda sua recepção.

Mas a carreira do Professor se fez na Literatura, área em que ele lecionou de 1964 a 1984 e fez inúmeros discípulos. Na USP, em Yale, em Campinas, por onde Antonio Candido passava deixava seu rastro de cometa luminoso.

O mestre foi também um crítico atuante. Escreveu para a revista Clima (1941-44), para a Folha da Manhã (1943-45), para o Diário de São Paulo (1945-47), além de ter sido membro-fundador da União Democrática Socialista, da Associação Brasileira de Escritores, do Partido dos Trabalhadores e de ter organizado o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo.

A atuação de Antonio Candido como escritor e crítico é memorável, no único e melhor sentido que o termo tem: vai ficar na nossa memória. No seu Introdução ao método crítico de Sílvio Romero (1945), o Professor mostrou como o jurista de Recife, doutor em darwinismo racial, tinha um método quase nervoso, e inquiria o nosso Brasil de finais do século XIX. Em Formação da literatura brasileira (1959), mostrou como éramos um “ramo” mais franzino da produção mundial das letras, mas que era esse pedaço que nos competia. Ditou norma, sedimentou cânones e criou uma história para que pudéssemos nos debruçar e abraçar. Em Parceiros do Rio Bonito (1964), Candido fez uma linda etnografia de nossos camponeses e analisou seus “mínimos alimentares” e hábitos cotidianos que falavam de um Brasil profundo ­– e que vive em todos nós. Em Um funcionário do império, trata da vida de um tio da família. Nela, traça a história de um personagem “menor”, que não teve sucesso na vida, mas que nos ensina como história se faz não apenas com grandes protagonistas. Seus ensaios, no livro O discurso e a cidade (1995), fizeram de obras como Memórias de um sargento de milícias e O Cortiço momentos memoráveis de reflexão sobre nossa nacionalidade. Estava aí seu conceito de “dialética da malandragem”, contida no personagem de Manuel Antônio de Almeida, Leonardo Patarra, que, não fazendo nada de errado, também não realizava nada certo.

Enfim, esses são poucos, uma amostra pequena dos muitos e fundamentais livros que o Professor Antonio Candido nos legou. Sua obra é feita de consistência, muitas lições, várias palestras, diversos livros fundamentais e tantos conselhos.

O Professor recebia a todos na sua casa sempre com imensa cordialidade, muita inteligência e curiosidade. Fazia qualquer um sentir que era a pessoa mais interessante do mundo e escondia como, de fato, era ele o maior exemplo sentado à frente de todos nós. Antonio Candido era também muito espirituoso: sempre tinha uma piada pronta para contar, um episódio divertido para lembrar. Falava baixo, prestava atenção em tudo e era dessas pessoas com uma imensa capacidade de escuta. Uma figura humana rara e que vai fazer muita falta.

Antonio Candido foi casado e teve a sorte de ter como parceria de vida Gilda de Mello e Souza. D. Gilda, como todos a chamavam. Inteligente, sensível e muito linda, ela escreveu também ensaios essenciais, como “O Tupi e o Alaúde”, acerca de Macunaíma de Mário de Andrade, e um livro visionário sobre a moda no Brasil, O espírito das roupas. Formavam um casal muito especial, e cercado por suas três filhas igualmente iluminadas: Ana Luísa, Laura e Marina. Todas intelectuais que hoje nos ajudam a pensar o nosso país, rever seu passado, projetar o futuro.

Escrevi este pequeno texto num impulso, e apenas com a lembrança forte que guardei do Professor Antonio Candido. É impossível resumir uma vida bem vivida como a dele sem esquecer de algo fundamental ou deixar de mencionar uma faceta que não conheci. Melhor lembrar de Riobaldo, em Grande sertão: veredas, lamentando a morte da mãe: “Morreu num dia chovedor, aí foi grande a minha tristeza [...] Ela morreu, como a minha vida mudou para uma segunda parte. Amanheci mais e menos”.

Depois da morte de Antonio Candido, o Brasil amanheceu como se inaugurasse uma “segunda parte”, um segundo tempo. Amanheceu em luto e diferente: algo faltava. Que a falta que Antonio Candido hoje nos faz se transforme em memória, boa memória.

Lilia Moritz Schwarcz

* * *

Em meu nome e no de todos os colegas da editora, expresso a tristeza de perder não só um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve, mas também um grande amigo da Companhia das Letras. Junto com ele e Gilda de Mello Souza (a D.Gilda) compartilhamos horas instrutivas e deliciosas, quando recebemos o apoio fundamental para a construção do que a Companhia das Letras é hoje. Generosidade é quase tudo o que um grande intelectual precisa ter. Para com seus temas, com colegas, alunos, e para com o mundo em geral. O que poderia caracterizar melhor Antonio Candido do que seu exemplo de generosidade infinita? 

Luiz Schwarcz

* * * * *

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP e Global Scholar na Universidade de Princeton (EUA), além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca), O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia) e Brasil: Uma biografiaescrito com Heloisa M. Starling, entre outros. Em junho, lança Lima Barreto: triste visionário

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. 

 

Acesse a Letrinhas nas redes sociais