As vozes da rádio

Djaimilia Pereira de Almeida

Foto: Djaimilia Pereira de Almeida

A minha banda-sonora favorita é a rádio. Talvez seja porque os meus pais se conheceram na rádio, em Angola, onde ambos trabalhavam. Ouço horas de rádio todos os dias e fico aflita se me escapa um programa que costumo ouvir. Preciso da energia das vozes, como alguém escreveu alguma vez, não me lembro quem.

Ouço repetidas vezes o mesmo programa, as mesmas entrevistas. Decoro-as, mesmo que não me tenham interessado muito. São um teatro de ouvido, com os seus silêncios, clichés, gargalhadas, sorrisos roucos. Quero crer que aprendo com o som das vozes, mesmo sem estar concentrada no que dizem. Gosto de ouvir entrevistas e programas antigos e comparar o que as pessoas disseram com o que dizem agora: registar como o tempo as mudou, como se tornaram amargas quando eram amistosas; como são agora resolvidas, quando antes eram amargas.

Sinto que conheço as vozes da rádio, que conheço quem fala, de tanto as ouvir. São a companhia de tanta gente sozinha, e a minha também. O que mais me espanta é a maneira como nunca me cansam, quando talvez me cansasse conversar com as mesmas pessoas ao vivo, que nunca encontrarei.

Na rádio, a música interessa-me pouco. Prefiro ouvir as pessoas falar. E dou conta de que, tal como os corpos e as figuras, as vozes nos são ou não simpáticas, afins. Que há aquelas com as quais os nossos ouvidos estão em sintonia, que existem os timbres que mais se ligam à nossa alma.

Tenho na família uma avozinha que, tal como eu, ouve rádio o dia inteiro e dedica discos aos amigos e à família todos os dias, sempre com muitos beijinhos repenicados. Passa o dia em casa, cheia de dores e solidão, e as vozes das rádios regionais são mais suas amigas do que as pessoas amigas. Enchem-lhe a casa e a vida a ponto de se ter tornado uma personagem dessas estações, cujos radialistas já conhece e amadrinhou.

A mim, que vivo da solidão mas não gosto dela, a rádio dá-me uma noção do tamanho da minha casa. Ando com um pequeno rádio atrás, onde anotei a caneta as estações que prefiro, como os homens quando levam a telefonia para o futebol; ou ouço programas no telefone, enquanto arrumo, limpo, tomo banho, passo a ferro, rego as plantas, cozinho, ou até enquanto vejo televisão sem som.

Com o passar dos anos, lembro-me do lugar onde estava quando ouvi certo programa, como todos regressamos ao passado ao sabor das canções da nossa vida. Comovo-me, meço a minha vida pela vida das vozes da rádio, que com o tempo envelhecem, também, e se tornam mais graves, armadas, às vezes tristes.

Ouço entrevistas feitas a pessoas que entretanto morreram. Como ouvi a Paula Rego numa entrevista também antiga há dias, as vozes dos mortos também saltam das paredes como lagostas vivas como acontece com os quadros pintados pelas pessoas que já morreram. Continuam vivas e mordem-nos, comovem-nos, ensinam-nos. Não há limite para o que podemos aprender com as vozes uns dos outros, nem há propriamente palavras: as lições do timbre, das pausas, das provocações conseguidas com as oscilações de tom, de volume.

Se já souber uma entrevista de cor, sou capaz de escrever ao som dela, enquanto a ouço pela enésima vez. O que começou por ser novidade, tornou-se repetição, compasso, melodia.

Num mundo com tanta disputa, as vozes da rádio dão-nos uma dimensão da vastidão do humano, da nossa diversidade, da paleta de emoções e mundividências. A companhia da rádio não é como a companhia das imagens ou das palavras, mas mais compassiva. A partir da quinta audição do mesmo programa, não importa se concordamos, porque deixamos de querer discordar ou aprender. E então as vozes tornam-se um espelho da espécie, um elo. Não tenho como agradecer a todos os que fazem rádio por esse mundo fora e iluminam os meus dias.

Regresso às suas vozes com a alegria de quem visita a família e se sente em casa. Se estou nervosa, as vozes acalmam-me e arrumam o lugar onde estou, arrumam o dia, ajudando a que tudo volte a cair no lugar certo quando parecia desarranjado. Acho que é porque não nos vemos, como uma lembrança da importância da distância na sincronia, da proximidade na escuridão.

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Djaimilia Pereira de Almeida nasceu em 1982. É autora de Esse cabelo (2015) e de Ajudar a cair (2017). Vive em Lisboa.

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