Bilotos

Jarid Arraes

Conto publicado na edição "Ilusões de férias", da Revista Época.

 

Foto tirada por Jarid Arraes em Juazeiro do Norte, Cariri, CE. A fotografia foi clicada enquanto a autora escrevia o livro Redemoinho em dia quente.

 

Comia o baião com o prato preguiçoso sobre as pernas esticadas, quase deitada no chão de cimento vermelho. O único pequi, inteiro, dentro da boca, fazendo bola na bochecha direita.

A mãe avisava dos espinhos toda vez, mas Nayara não se importava. Tinha uma pontadinha de curiosidade, uma vontade de morder o caroço do pequi e saber como eram os espinhos contra a língua. Só pra ver um pouquinho, só pra sentir se espetavam, se doía uma dorzinha gostosa. Uma agoniazinha.

Imaginava a teima da boca quando o irmão entrou na carreira, procurando o almoço. A bermura cheia de carrapicho. Cheiro de mato, lama e uma catinga que fez a comida virar resto.

Nayara botou o prato no chão e ficou acompanhando os movimentos na tela da televisão de tubo. Queria ser como aquela atriz, a do cabelo feito luzes.

Aí a mãe gritou da cozinha.

— Ô Glaydson, pega aqui teu prato.

O pequi de Nayara todo roído, cheio de marca de dente, deitado no baião quase acabado.

Levantou e foi deixar o prato na pia. Olhou as costas da mãe, cobertas de verrugas. Os braços cobertos de verrugas. As mãos, o pescoço, as pernas, os pés. Nunca tinha visto, mas talvez a bunda também fosse coberta de verrugas. A barriga era, já tinha visto. Só que nem a mãe, nem o pai, falavam sobre as verrugas. Era como se aqueles negocinhos fossem coisa comum, mas Nayara sabia que não eram. Ninguém mais tinha um corpo todo feito delas.

Tudo bem uma verruga na mão, que dá pra arrancar com um facão quente. Até vai uma verruga na cara, que pode até ter um cabelo. Mas ser inteira verruga, e sair esfregando as verrugas nas coisas de casa, e dormir numa cama com as verrugas raspando no pano, e até mesmo ter dois filhos, que vão sair de um corpo cheio de verrugas, isso não era comum, não era normal.

Mas ninguém falava disso naquela casa.

Nayara via o irmão brigar por causa da mãe e suas verrugas. Na escola, que ele ia uma vez na vida e outra na morte, sempre tinha alguém que tirava onda. Glaydson não se aguentava, era esquentado demais, e aí acabava em bagaceira. Ficava pior ainda, porque se espalhava a notícia. O filho da mulher cheia de verruga que desceu a pêia em fulaninho, o filho da mulher cheia de biloto, o filho da mulher lá.

Ela não queria voltar pra escola. Quando aquele mês acabasse, queria deixar de ser a filha de um corpo embilotado. Queria ser outra coisa só sua. Mas a mãe obrigava aula por aula. Se o irmão não quisesse ir, dava pra aguentar, podia achar serviço com o pai, mas Nayara era outra história. Quando acabassem as férias, tinha que voltar e tinha que ter estudo, e fazer alguma coisa da vida, e ser diferente dela, da mãe, porque ser comadre de quem tem sítio, é dono do sítio, dono dos bichos, do terreno, de tudo que tem lá, e limpar, e dar satisfação, e ainda cuidar da própria casa e da própria vida, isso não é destino que se deseje. Nayara tinha que estudar, quem sabe fazer um concurso da Prefeitura, morar em Juazeiro.

Mas nada disso Nayara queria.

Só deixou o prato na pia e se escorou ao lado da mãe. Olhou a cara enverrugada, os olhos verdes quase escondidos pelos bilotos que só poderia contar com uma paciência danada. Aí perguntou como se fosse coisa besta.

— Mãe, por que mãe tem tanta verruga?

A mãe abriu a torneira e o resto de comida começou a boiar na água que se juntava avexada. O pequi todo marcado de dente.

Respondeu com os olhos no caroço roído:

— Quando eu era menina, Nayara, engoli espinho de pequi.

 

***

Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora dos livros Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras. Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel. Redemoinho em dia quente (Alfaguara) ganhou o prêmio APCA de Literatura na Categoria Contos/Crônicas.

 

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