Cada texto, um amigo

Djaimilia Pereira de Almeida

Foto: Djaimilia Pereira de Almeida

 

Dei comigo, há semanas, a pensar pela primeira vez que qualquer texto podia continuar a ser escrito para sempre. Nunca tinha pensado na ideia de um texto que continuamos a escrever a vida inteira, sempre o mesmo, texto que, no limite, pode ter apenas um parágrafo.

Pensei no que seria passar a vida com esse texto; vê-lo transformar-se, à medida que nos transformássemos, corrigi-lo, acrescentá-lo, emendá-lo, reescrevê-lo para sempre.

Mais comum é a ideia de que alguns autores passaram a vida inteira a escrever o mesmo livro. Mas esta é uma possibilidade diferente: a de envelhecermos na companhia de um único texto, como envelhecemos na companhia de certas pessoas, que aprendemos a amar e vamos odiando, conhecendo, desconhecendo, ao longo de uma vida inteira.

Mais e mais, esse texto se parece com uma das pessoas da nossa vida, pois é difícil conceber uma relação tão longa com alguma coisa diferente. Mas um mesmo texto escrito durante toda a vida pode parecer-se com uma casa, que nos levou a vida a construir, enquanto fomos vivendo nela, e onde nos fomos safando, apesar de tudo o que não estava pronto, resignados quanto às paredes por pintar e ao soalho velho. Em Portugal, usa-se a expressão “obras de Santa Engrácia”, para referir obras públicas para sempre adiadas. É assim com esse texto contínuo, que não acabamos nunca, porque não pode ser acabado, e porque nunca o podemos desabitar.

Parece-se com uma casa, com um lugar, nunca abandonado, e a vida com ele com aquela que têm as pessoas que nasceram e morreram na mesma vila ou, até, no mesmo quarto. Mas não precisa de ser um conforto, um porto de abrigo. Concebo que possa ser um problema perene, que não somos capazes de abandonar nem de resolver.

Concebo que qualquer texto tem a qualidade potencial deste texto e pode, como ele, nunca estar, nem ver-se, terminado; que este texto-gente, texto-abrigo, possa ser escrito ao longo de toda uma vida.

Ele não difere de todos os textos que damos por terminados. Mas vistas as coisas assim, a palavra "fim" é apenas uma interrupção forçada, na medida em que podíamos continuar o que escrevemos preservando um mesmo fôlego contínuo, até à morte, igualmente soluçado, por vezes sôfrego, por vezes brando: texto que podemos esquecer numa gaveta anos a fio e, depois, lembrarmo-nos dele, sem que tenha deixado de ser escrito durante esse lapso, em que o abandonámos, como a um amigo.

Escolhemos parar, mas poderíamos não o fazer. Escolhemos recomeçar, mas poderia ser diferente. E não porque buscaríamos um ideal qualquer de perfeição, mas apenas porque não estava feito e escrevê-lo se tinha misturado com a vida. Mediria a passagem do tempo, das idades, das várias formas tomadas pela nossa vida, como acontece com os objectos e as pessoas que nos acompanham e se vão tornando parecidos com as marcas que temos no rosto, também eles gradualmente doentes, poucos ágeis. Talvez esse texto envelhecido não se encaminhasse, de modo algum, à legibilidade e à clareza mas, cada vez mais, à doença, ao entorpecimento, ao silêncio. E tendo-nos acompanhado uma vida, talvez se fizesse, no final, incapaz de ser lido ou partilhado, como os pensamentos que morrem connosco, sem que ninguém os decifre.

Se vivêssemos no mesmo texto toda uma vida, talvez no fim não sobrasse nada que se conseguisse ler. E nem uma só palavra. O texto perene talvez não possa ser lido e se preencha tanto do que nele escrevemos como dos não-ditos, das exclusões, das omissões, dos silêncios. Não valeria como nosso testamento, contradizendo a suposição de que seria a nossa melhor autobiografia. Subsistiria não enquanto testemunho, mas enquanto alguém, alguma coisa, que nos conheceu por dentro. Talvez, no final, não restassem palavras, porque não as tínhamos encontrado, ou porque tínhamos apagado todas.

Se qualquer texto contém esta virtude da sua continuidade, o que é então o fim se não a interrupção que nos permite dizermos que estamos vivos, concluindo alguma coisa? E, no entanto, o texto perene revela-nos a condição de amizade da literatura, a maneira como cada texto é um amigo, mesmo quando nos massacra. Se ele não termina nunca, é possível que até a nossa morte fosse para este amigo apenas uma interrupção reversível, uma questão de achar quem o continuasse. E, ele mesmo, texto-estrada, um género de espírito, pronto a habitar outra casa, onde outros viveriam, construindo-a, sem nunca conseguir acabá-la.

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Djaimilia Pereira de Almeida (Luanda, 1982) é autora de Esse cabelo (2015), Ajudar a cair (2017) e, mais recentemente, Luanda, Lisboa, Paraíso (Companhias das Letras Portugal, 2018; a ser publicado no Brasil em 2019). Vive em Lisboa.

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