Cão, cachorro

Marília Garcia

Ilustração 3D de um tardígrado de fruttipics/ GettyImages

 

“Poesia tem que ter estrela?”, pergunta Glauco Mattoso num livrinho delicioso da coleção Primeiros Passos. Em outras palavras, quais seriam os ingredientes para um poema ser poema? Aquilo que se diz, o modo como se diz ou o próprio dizer? Existe algum detalhe “poético” que transforme o texto ou a princípio tudo caberia num poema?

Jacques Roubaud define (e poderia ser uma resposta à pergunta do Glauco Mattoso): “o poema diz o que ele diz dizendo”, ou seja, não daria para separar o tema do modo de dizer ou do próprio dizer. Poesia não tem que ter estrela (ou um assunto poético), mas quando dois poemas escolhem ter estrelas (ou luas!), eles podem dizer coisas muito diferentes entre si.

Se a “lua” de Drummond reafirma o poético de modo irônico e autoderrisório (“mas este conhaque/ mas esta lua/ me botam comovidos como o diabo”), já a lua que a poeta inglesa Mina Loy imaginou (também nos anos 1920) seria uma paisagem prateada futurista: o poema “Baedeker Lunar”, espécie de “guia turístico” da lua, contém imagens em tons de branco, um lúcifer prateado, oceanos ovais, distritos de luzes brancas, anúncios “estreléticos”.

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Recentemente, conversando com a poeta mineira Carina Gonçalves sobre uma antologia que ela estava organizando só com poemas que falavam de cachorro (ou que tivessem algum cachorro passando), demorei a lembrar que eu tinha um poema que poderia entrar nesta “cachorrística”; mas, nele, estava um “cão” e não um “cachorro”.

Por que será que na época usei “cão” em vez de “cachorro”? Lendo a última coluna da Noemi Jaffe neste blog, sobre a escrita simples, objetiva e concreta, outra vez me ocorreu esta dúvida. O “cão sem plumas” do João Cabral não é um cão, mas um rio (e no poema há um “cachorro” atravessando a rua), mas estando tão próximo da geração de 45 era natural a escolha por um vocábulo mais literário.

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Não queria terminar sem deixar de lembrar dois lançamentos recentes que pensam bastante nas palavras (dois livros excepcionais, aliás!).

O primeiro é uma plaquete da coleção Megamíni, Para quando faltarem palavras, de Luiza Mussnich. Ele é todo feito de listas de palavras, espécie de caderno de notas e restrições para usar em situações determinadas (“palavras para usar numa churrascaria”, “palavras para desconversar”, etc.) ou para usar em poemas. Listas que são os próprios poemas. E não falta uma lista das

 

palavras para não usar num poema

sinergia
bela
musa
lua
reflexo
coração
infinito

 

(curiosa e ironicamente, o poema usa todas elas ao mesmo tempo.)

O outro é a Primavera das pragas, de Ana Carolina Assis, livro todo atravessado por bichos e pragas de vários tipos, caranguejos, pássaros, lesmas, fungos, líquens, sardinhas etc. Na abertura, deparamos com o ser mais resistente do mundo, “o tardígrado”, capaz de resistir a condições extremas por um mecanismo de desidratação que faz com que ele sobreviva (já foi enviado ao espaço sideral e voltou com vida).

Como escrever um poema contendo uma palavra tão estranha, trazida do campo científico? O poema de Ana Carolina conta a história de uma menina que joga sal nas lesmas da praia das pedrinhas (em plena Baía de Guanabara) para desidratar os bichos. O poema diz o que diz dizendo. E, assim, se apropria da força e da resistência do tardígrado.

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Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

 

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