Caranguejeira

Jarid Arraes

Crédito da imagem: L.L.

 

Meu cabelo tava bem preso em duas tranças que se arrochavam atrás da minha cabeça. Com o braço direito, eu puxava a mochila da escola, daquelas de rodinha, daquelas que todo mundo tinha e que eu chorei um choro de duas semanas pra mainha comprar. A estampa era do Piu-Piu, a mochila toda azul claro e amarela. Azul eu amava, amarelo não. E amarelo era o Piu-Piu inteiro. Mas a mochila do Piu-Piu era a mais barata no meio das que andavam pela calçada. Não era feia. Mainha disse que eu não precisava contar pra ninguém que eu não queria mesmo, de verdade, aquela.

O que eu também não queria mesmo, de verdade, era passar o feriado na casa de vó. Encher minha mochila com roupa, colocar lá dentro meu creme Neutrox enrolado numa sacola da budega, contar quanta calcinha precisava praquela semana. Mainha sempre dizia pra levar duas calcinhas pra cada dia, pra dois banhos. Mas eu tomava um banho só. Passava o dia todo brincando, me sujando, sentando no chão, deitando no chão, e só tomava banho antes da janta, que era a hora da família inteira.

Cheguei lá pensando nisso, na família inteira. Se era semana de estar inteira, eu também ia encontrar minha prima. Quatro anos maior que eu. Tão feliz no inteiro daquela casa.

Cada uma puxou pro pai. Meu pai do cabelo enrolado, o cabelo todo enroladinho grudado no corpo, no peito, até no suvaco. O pai dela não sei como era assim pra contar direito, mas ela não parecia com minha tia. Ela tinha o cabelo liso e da cor do tronco do pé de manga. Era meu pé de fruta favorito e eu também gostava daquele cabelo que ela balançava quando andava. Só que mesmo gostando dessa parte que era dela, eu não encontrava sossego na inteireza.

Quando cheguei na casa de vó, minha prima foi quem abriu a porta pra mim. Deve ter me curiado pela janela que dava pra rua, vó não deixava criança abrir a porta. E eu não gostei de ser encontrada por ela antes de ser encontrada por outra pessoa. Oi, Taisinha, ela mostrou os dentes sem que parecesse um sorriso. Parecia gato avisando pra sair de perto, quase se atracando em você. Mas oi, Naná, cadê vó, tchau, mainha.

Deixei vó e mainha conversando na porta. Era carnaval, Mainha nunca tinha viajado pra parte nenhuma. Ia pra Várzea Alegre ver como era o carnaval de lá. Criança não vai pra carnaval, Taís. Meu choro de cinco dias não adiantou. Antes de ir pra casa de vó, brinquei todos os dias imaginando o carnaval. Minhas barbies sambando que nem a mulher da televisão. Sem brilho e sem fantasia. Então pensei que a mulher sambando na televisão tava sem nada, só coberta por brilho aqui e ali. Minhas barbies sambaram peladas.

Não levei brinquedo pra casa de vó. Da última vez que levei, Naná quis brincar também e pegou o brinquedo pra ela o tempo todo. Foi como se eu não tivesse carregado nada comigo, só que eu ficava agoniada do juízo, imaginando que Naná ia quebrar o que era meu só pra me ver chorar. Eu me acabava no choro e meu pai sempre brigava. Deixe de coisa, menina. Naná só tá brincando. Deixe ela brincar. E minha escolha era ir pro quintal. A primeira coisa que fiz assim que cheguei naquele dia.

Faraó me esperava já com o rabo abanando que nem doido. Corria pelo quintal na maior alegria do mundo. Era meu melhor amigo naquela casa todinha, por isso era quem eu abraçava segundo. Primeiro só vó, que me recebia. Mas Faraó fazia da minha chegada uma comemoração pessoal, como se eu tivesse ido passar os dias com ele. Com o tempo, foi virando isso mesmo. Faraó ouvia as histórias que eu contava. Botava a cabeça deitada nas minhas pernas. Comia manga junto comigo. Eu amava comer manga com ele, os dois tudo sujo, a tarde escapando, uma ruma de formiga vermelha em fila passando na nossa frente e eu com medo de ser picada. Doía e eu pensava como pode um negocinho desse tamanho fazer doer tanto numa menina. Mas toda vez que eu ia pra casa de vó, não era a dor da formiga que continuava ardendo, era a vontade de chorar que minha prima me entregava na mão, desse jeito, como quem diz se vira aí com isso, chora se você não tiver vergonha nenhuma na cara, já que tu chora por qualquer coisinha. Taisinha.

Eu não podia passar o dia inteiro com Faraó. Escolhia a tarde. Almoçava na mesa grande com Naná e vó e depois me danava pro fundo da casa. Mas até chegar essa hora, o tempo me botava com minha prima, com as histórias que ela contava, suas coisas, seu diário com cadeado, tudo que ficava me mostrando e dizendo olha o que meu pai me deu, e isso foi minha tia, esse eu comprei num shopping de Fortaleza, você já foi pra praia, Taisinha?

Eu não sabia como era o mar. Sabia de ver na televisão, mas não de conhecer o mar pessoalmente, dar a mão ao mar, reparar na cara dele, no cabelo azul meio verde com as pontas brancas, que nem cabelo de barbie sereia. E como eu não sabia quem era o mar, eu ouvia pela boca de Naná. Uma boca que falava tudo o que queria e ninguém nunca dizia deixe disso.

Ela sempre tinha muita coisa pra falar sobre mim. Meu cabelo era o assunto favorito. Na opinião dela, a melhor coisa era alisar, porque aí o trabalho todo acabava pela metade. O trabalho mesmo vira alisar a bucha, Taisinha. Já tinha visto o cabelo de uma mulher sendo alisado, era fedorento o produto, a mulher reclamava de queimar um pouco, mas nada de mais, né, Taisinha, porque sair com o cabelo liso vale a pena. Não muito bonito, não assim liso natural. Pela ponta dá pra saber que é cabelo de bucha.

Depois de dois dias, minhas tranças já tavam moles e espichadas de tanto eu rolar no chão com Faraó e não tomar cuidado quando ia tomar banho. Mainha disse que era pra desfazer, que era pra usar o creme. Mas eu já tinha um abuso daquele creme, o cheiro, até o formato do tubo. Não tinha outro pra comprar, mainha? Ela nem respondia. Comprava o que queria, a mochila de rodinha era um milagre na minha vida de coisa vinda de loja. Pras minhas tranças não tinha milagre. O jeito era soltar, lavar com xampu, eu usava um xampu pra cabelo preto que saía bem preto do tubo e eu achava lindo, depois gastar meia hora penteando o cabelo lascado de creme.

Eu não sabia fazer os cachinhos que mainha formava com o dedo. Ela deixava bem enroladinho e prendia tudo junto num rabo de cavalo. Já eu sabia pentear a cabeça encremada e deixar solto, nem prender direito eu sabia, nem pra fazer um cocó. Todo rabo de cavalo ficava frouxo.  

Dessa vez, parece que Naná ficou de butuca nas minhas tranças e ali só esperando a oportunidade. Porque quando eu saí tomada banho, eu vi aquele sorriso de gato e não demorou pra que ela mangasse do meu cabelo já seco. Será que não é bom pedir ajuda pra vó, tá estranho esse cabelo, tá parecendo uma caranguejeira.

Aí lembrei de uma vez que fui pra casa de minha tia e uma caranguejeira apareceu no quarto. Grande, cabeluda, feia. Feia é pouco. Nojenta. Mainha correu pra matar, a bicha correu com as pernas ligeiras. O povo todo da casa não dormiu, todo mundo preocupado, e se essa bicha vem na minha cara, eu é que não prego o olho, quem tiver coragem, ó. Horrorosa, parecia feita de cabelo espinhento. Tive tanto medo, parecia o cramunhão virado numa aranha.

Eu fui olhar no espelho se meu cabelo parecia com aquilo. Minha tentativa de fazer os cachos enrolados tinha dado pernas pro meu cabelo, mais pernas que as pernas de uma aranha. Meu cabelo era preto. Tinha um monte de fiozinho se jogando pra fora. Bem muito, bem muito volume, que nem a bunda da caranguejeira. Eu olhava e caranguejeira, caranguejeira.

Naná tava sentada na cama que dava de frente pro banheiro, olhando pra mim bem séria, esperando a primeira lágrima, a primeira de todas, aquela que escorre do olho não porque você deixa, mas porque o corpo empurra, o corpo parece que precisa botar pra rua aquela água pequena, não aguenta. Quando a gente fica triste, o corpo produz mais água do que já tem dentro dele. Não cabe, a gente pode morrer afogado. Aí a primeira lágrima é jogada no meio do tempo e as outras seguem. Elas querem te ajudar, mas não parece ajuda. Parece uma fileira de formiga vermelha picando sua testa, que se enruga toda. Parece que sua cara vira outra cara, espremida. Naná queria ver, que eu sei. Ela que tinha feito meu corpo alagar. Eu disse então pro meu corpo, segura a água, segura. Saí rápido do quarto, fui abraçar Faraó.

Naná não pisava no quintal. O chão de caquinho de azulejo não era um lugar pra ela. Num canto tinha o cocô de Faraó, no outro tinha a lata de lixo. O pé de manga lá no fundo, na terra. E ela tinha medo de Faraó, que vô dizia ser da raça Pastor Alemão.

Corri pra Faraó, me joguei sentada, abracei ele e chorei. Faraó ficou parado cheirando minha orelha toda coisada de creme. Lambeu, continuou quieto. O tempo passou e a noite alarmava a hora da janta enquanto eu chorava no ombro de Faraó.

Vó veio me chamar, chamou com raiva, seu vô já chegou, vai deixar seu vô esperando na mesa, menina, oxe. Eu não queria que vô olhasse pro meu cabelo e pensasse numa caranguejeira. Nem pai, nem vó. Mas fui, o corpo com o açude mais seco. E eu só olhava pro prato. Naná comia e contava como era em Fortaleza, as amigas, Meireles, outras palavras que eu não quis gravar. Menina entojada. Queria bater nela, puxar o cabelo e arrastar a cara dela no chão, queria, não, queria que ela pedisse desculpa e falasse que só comparou o meu cabelo com aquela aranha por brincadeira, e que risse, e eu risse, pode ser, e depois não sei.

No outro dia de manhã, pai veio falar comigo. Tava triste, Taís, que que foi. Saudade de sua mãe, não fique, falta pouco pra voltar pra casa, só alguns dias, carnaval não dura muito.

Olhou pro meu cabelo todo bagunçado pelo travesseiro. Pensei caranguejeira, caranguejeira. Ele levantou, me deixou sozinha boiando na água do meu corpo que subia devagar. Voltou avisando que Fátima ia pentear meu cabelo.

Senti a espera como um tempo maior do que o choro da mochila junto com o choro do carnaval. Ela só me chamou pra fora do quarto quando o almoço tava feito. Antes dela chegar, Naná já tinha entrado e saído do quarto que nem uma desgramada. Eu não vou mexer na sua mala, Naná. Não precisa me pastorar, Naná. Eu falei com raiva por dentro, mas minha voz saiu igualzinha a voz de mainha quando repete e repete e se cansa de repetir.

Então Fátima entrou no quarto, olhou pro meu cansaço. Em pé, de frente pra mim, deu um sorriso pra baixo, que é mais sorrido com o olho. E aí reparei que o cabelo dela parecia o meu, mas nunca vi solto. Ela era legal, me dava doce de banana, banhava Faraó. Limpava a casa que nem sombra, dava pra achar que ela nem existia. Vivia na cozinha como eu vivia no quintal. Saía de lá quando era a hora da janta. Dava tchau, Dona Terezinha, tchau, Seu Orlando, tchau, até amanhã se Deus quiser, há de querer. Eu nunca tinha pensado que o cabelo dela era igual o meu.

Não sei se Fátima já tinha pensado que meu cabelo era igual o dela, mas ela soube fazer que nem mainha. Me botou pra tomar banho, não passou nem creme que sobrasse na orelha, nem creme pouco demais. Penteou com a mão leve, sem puxar, sem doer nadinha, e foi enrolando um monte de cacho de cima até a ponta. Disse fique quieta vendo desenho até secar, não vá ficar se melando no chão junto com o cachorro.

Mas Faraó era quem mais merecia me ver.

 

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Nascida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 12 de fevereiro de 1991, Jarid Arraes é escritora, cordelista, poeta e autora do premiado Redemoinho em dia quente, vencedor do APCA de literatura na categoria contos, e dos livros Um buraco com meu nome, As lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis. Atualmente vive em São Paulo (SP), onde criou o Clube da Escrita para Mulheres e tem mais de 70 títulos publicados em literatura de cordel.

 

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