Carniça Sapecada

Jarid Arraes

Foto por Jarid Arraes

 

as unhas começaram a apodrecer primeiro ganharam tons de roxo tons de verde e tons de azul além de camadas finas do que parecia ser uma pele amarelada e catinguenta como a glândula anal de um cachorro e não adiantava cortar lixar passar esmalte ou procurar manicure o que de início incomodava pela aparência meio nojenta logo virou um problema de dor e não dava pra tocar nos cabelos digitar escrever tomar banho qualquer ato que exigisse o uso dos dedos e que tocasse as carninhas laterais porque tudo causava uma dor insuportável sem aguentar pediu ao doutor que as arrancasse confiando que cresceriam novamente.

os primeiros dias foram de mais alívio mas as amenidades sempre duram pouco não demorou a perceber que a dor já estava descendo pelos dedos alcançando ambas as mãos as articulações ora estavam como dobradiças enferrujadas há muito não utilizadas ora estavam que nem caldo de bila e ela não conseguia sequer segurar um copo de água sequer uma caderneta ou arrastar um pote pra outro lugar tudo pesava causava ardência.

o doutor recomendou exames apareceram as inflamações óbvias resultados que apenas indicavam sintomas como se não fosse tudo evidente tudo fácil de constantar teve que pedir licença do serviço porque já não podia cumprir a mais básica das funções quanta coisa dependia das mãos e nunca havia reparado quanto constrangimento passava porque não podia apertar as mãos dos outros porque precisava esperar que alguém abrisse portas e torneiras tentava preservar os dedos os pulsos seguir as recomendações do doutor que pedia paciência e repouso e por mais remédios que tomasse nada mudava as mãos não melhoravam.

então foram ficando escuras as mãos se na segunda tinham uma cor azulada na sexta pareciam dois pedaços de carne passada do ponto olhava pra suas mãos e não as reconhecia aquelas coisas não podiam ser parte de seu corpo eram dois troços nojentos mortos pareciam bichos com tentáculos os dedos sem unhas a carne acinzentada e o cheiro de carniça era carniça aquilo não era só ceroto não tinha outro nome.

o doutor não sabia como explicar podia ser gangrena parecia ser gangrena mas de onde surgiu tudo aquilo não fumava não bebia fazia caminhada comia folhas escuras os exames mostravam os sintomas mas não uma causa todo o resto do corpo estava saudável funcionando perfeitamente quarenta e sete anos alguns amigos os pais falecidos emprego estável bom era estável até o problema aparecer e nenhum cachorro ou gato.

as mãos pararam de doer mas o incômodo passou do cotovelo pra cima até os ombros do mesmo jeito impedindo que ela levantasse os braços que trocasse de roupa sozinha que dormisse sem acordar dezenas de vezes entre gemidos amaldiçoando a vida.

os amigos se revezavam com algumas ajudas e ela teve que aprender a se virar com a boca e com os pés assistia vídeos tentando imitar as habilidades de quem não tinha braços e mãos era difícil mas só enquanto não encontrava a cura ela dizia pra todo mundo pelo menos o todo mundo que lhe via e tinha a disposição de tomar café lhe encarando com canudinho.

os braços ficaram roxos cinzas pretos fedia tanto que nenhum banho disfarçava era como se carregasse um animal atropelado esmagado debaixo da quentura dentro da roupa emagreceu vinte quilos ficou tão no cambito que nenhuma roupa lhe servia mas tinha vergonha de sair pra rua comprar roupas novas contava com os amigos mas percebia que até mesmo os amigos mais antigos e mais próximos já não eram tão amigos e também não julgaria porque faria exatamente o mesmo tinha o estômago fraco não sabia como não inguiavam.

estava sozinha com seus dois membros perdidos e com a vida perdida por isso mesmo demorou pra notar que as unhas dos pés já estavam podres também e por mais que quisesse se culpar por não ter ido logo ao doutor distraída com os braços de carne sapecada a verdade é que ele não sabia o que fazer o processo estava se repetindo a doença a maldição estava subindo pelos pés pelos tornozelos pelas batatas das pernas chegando aos joelhos que mal conseguiam se dobrar até parar nas coxas.

olhando seu reflexo no espelho parecia uma visage braços e pernas com aparência de podres fedidos murchos e enrugados num corpo de quarenta quilos braços e pernas meio pretos meio roxos os pontos roxos no fundo ainda lhe davam alguma esperança podiam indicar alguma coisa a barriga era branca como sempre com o umbigo no meio daquele jeito pra fora não fundo como as pessoas geralmente acham mais bonito.

se não doesse tanto se não fosse a total incapacidade de funcionar de preparar sua própria comida caminhar por aí beber chá com o dedinho pra cima deitar numa banheira imaginária porque não tinha banheira poderia até se resignar com a aparência de catrevagem.

mas já se passavam três meses desse inferno afinal quando os dedos começaram a cair primeiro os das mãos depois os dos pés ela podia jurar que existia um ser poderoso por trás disso orquestrando a ordem exata de toda a desgraça porque foi tudo perfeito foram-se os dedos depois mãos e pés depois caiu tudo aos pedaços até os cotovelos e joelhos não sem muito desespero grito choro pedido de socorro cada coisa em sua ordem.

 

***

Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora dos livros Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras. Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel. Redemoinho em dia quente (Alfaguara) ganhou o prêmio APCA de Literatura na Categoria Contos/Crônicas.

 

Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora dos livros Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras. Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel. Redemoinho em dia quente (Alfaguara) ganhou o prêmio APCA de Literatura na Categoria Contos/Crônicas.

Neste post