Chris Ware agradece

Érico Assis

Chris Ware por Seth Kushner

 

Chris Ware ganhou o Grand Prix do Festival d’Angoulême, maior evento de quadrinhos da França, no último dia 23 de junho. Assim, ele entra para a lista de pouco mais de 50 autores que já levaram o troféu, uma espécie de reconhecimento pela carreira. Vindo do país que mais respeita quadrinhos no mundo, dá para dizer que é o prêmio dos quadrinistas de maior respeito no mundo.

Este ano, não houve Festival d’Angoulême presencial. O evento costuma acontecer no fim de janeiro; a pandemia não deixou. Os organizadores até programaram uma edição interina para o final de junho, mas resolveram cancelar. O Grand Prix de Chris Ware foi anunciado pela internet. A torcida é que o Festival volte a reunir gente na cidadezinha do oeste francês em janeiro de 2022. Pela regra do Grand Prix, Ware vai produzir um dos cartazes e terá uma exposição solo.

O Le Monde chamou de “um Grand Prix proustiano”. Foi o jeito do jornal de Paris apresentar o ganhador norte-americano aos franceses. O tema da memória é caro tanto a Proust quanto a Ware, sim, mas o adjetivo também serve para dizer que o norte-americano tem alguma chose de francês. Ainda dói um pouquinho nos gauleses conceder um prêmio do país a quem não é de lá, nem mesmo europeu. Ware sabe disso, e comenta na carta abaixo com humor. Ele não é, porém, o primeiro ianque imundo a receber o Grand Prix, que já foi dado a Will Eisner, Robert Crumb, Art Spiegelman, Bill Watterson e Richard Corben.

O problema de o Grand Prix só ter sido dado a três mulheres entre 54 galardoados – e o fato de que, este ano, Ware concorria com duas autoras, Pénélope Bagieu e Catherine Meurisse – foi para baixo do tapete.

Ware não precisava de um Grand Prix. Não porque não merecia, mas por causa de uma situação estilo Bob Dylan e o Nobel de Literatura: o premiado é maior que o prêmio. O norte-americano de 53 anos já é considerado o melhor quadrinista em atividade no mundo por grande parte dos colegas, inclusive os franceses. Jimmy Corrigan e Building Stories são revoluções de forma e conteúdo que estão acontecendo ao vivo na nossa geração, e “Lint” – o trecho de Rusty Brown que conta vida, existência e morte de um canalha – é a Nona Sinfonia dos quadrinhos. Bagieu, Meurisse, outras e outros, talvez merecessem um empurrão nas carreiras com um Grand Prix, o que Chris Ware não precisa.

Ware também sabe disso. Seja como for, ele fez sua cara de Charlie Brown na meia idade, respirou e fez um típico discurso à moda “Que puxa!”. É engraçado, à moda autodepreciativa do autor. Sem mais, Chris Ware:

 

Quando eu era garoto, eu ficava no porão da casa da minha avó desenhando gibi em pedaços de papelão. Quando acabava um desenho, eu subia as escadas, sem fazer barulho, passava o papelão por baixo da porta da cozinha e trancava a respiração, esperando a resposta da vovó. Como era uma pessoa educada, ela ria num tom um pouco mais alto que o devido, ou dava algumas palavrinhas de incentivo mesmo que o meu desenho fosse imbecil. Satisfeito, eu voltava para minha mesinha e (para infelicidade dela) desenhava mais um.

Desde os tempos em que aquela versão juvenil do mercado editorial se transformou em gráficas e em livros de adultos, eu venho passando desenhos por baixo de portas e por cima de oceanos para leitores educados, com quem eu compartilho pouco mais que a vida e uma linguagem de desenhinhos, e me pergunto se eles não compram meus livros apenas por educação.

Mas, agora, acho que eu sei. Caramba! O que eu digo?

Aqui, dos Estados Unidos, onde os quadrinhos nem se qualificam como arte – nem a nona das artes – fico com imensa gratidão pelo país de vocês ser doido a ponto me dar uma honraria como essa, sem falar na licença de todos meus coleguinhas do cartum mundo afora em me conceder esta honraria. Ler a lista dos que já foram galardoados é ler a lista dos meus heróis, e embora eu acredite firmemente que a concorrência é diametralmente oposta à arte, também entendo o pendor humano para expressar afeto por coisa que deixam a vida mais, digamos assim, vivaz. Não que eu possa dizer a mesma coisa do que eu faço, mas pelo menos eu tenho essa enorme lisonja de ter sido colocado lado a lado com tantos dos meus colegas do cartum – a quem peço desculpas – sobretudo a minha talentosas e superiores colegas Pénélope Bagieu e Catherine Meurisse.

Não há dúvida de que os quadrinhos vieram da imprensa, que transforma desenho em lixo quase no exato momento em que ele nasce. Mas os quadrinhos não são apenas arte e lixo. Eles também são uma maneira precisa – inquietante de tão precisa – de reproduzir o modo como condensamos nossas experiências, como cada um tenta entender o outro e, acima de tudo, como lembramos da vida. Infelizmente, também passamos a maior parte da vida lembrando de decepções, com apreensão quanto ao futuro e em luto por aqueles que perdemos, e nesse meio tempo deixamos a beleza à nossa volta passar batida.

Até onde sabemos, nós, humanos, somos a única espécie da Terra que enxerga de olhos fechados; é o que fazemos toda noite. Também é uma coisa que fazemos (mais ou menos) acordados, rearranjando e editando a nossa própria história, em um comprometimento vitalício que resulta na única “coisa” que vamos levar conosco do nascimento até o último suspiro. Pensando de outro modo, o que escritores, artistas e cartunistas fazem no cavalete ou na escrivaninha é a mesma coisa que todo mundo faz. O que muda é a pilha de porqueira que a gente deixa para os filhos jogarem fora, que é maior.

Há, contudo, vantagens artísticas nesta linguagem pictográfica e descartável: se uma pessoa não entende um quadro ou uma escultura, a culpa é da pessoa por ser ignorante em história da arte. Se a pessoa não entender um gibi, ela vai supor que o quadrinista é um imbecil. Nós, quadrinistas, estamos acostumados a acharem que somos imbecis; é o que possibilita uma conexão mais honesta com o leitor e emoções genuínas. A maioria dos cartunistas trabalha enquanto seus amigos estão na gandaia ou dormindo. Sabemos que é difícil, sabemos que pegamos pesado. Que exige anos e anos de foco e de empenho.

Portanto, na saída de uma pandemia em que todo mundo teve que viver (rá!) como um quadrinista (trancados dentro de casa, passando bilhetinhos por baixo da porta), fico muito animado ao ser levado a sério não apenas por vocês, mas também por um país que leva a arte e a escrita mais a sério do que qualquer outro. E dado que minha nação atrasada quase largou a democracia de mão nesses últimos quatro anos, fico ainda mais honrado e comovido. Liberté! Fraternité! E, acima de tudo: merci.

 

Rusty Brown: volume 1, o álbum mais recente de Ware, está previsto para este semestre pela Quadrinhos na Cia, com tradução brilhante de Caetano Galindo.

 

Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o Blog com textos sobre histórias em quadrinhos. É autor de Balões de Pensamento (Balão Editorial), uma coletânea de textos lançados aqui no Blog. Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Minha coisa favorita é monstro e Sapienshttp://ericoassis.com.br/

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