Cinema: varinha de condão ou espelho?

Ana Maria Bahiana

Cena de Wings, primeiro longa a ganhar o Oscar de Melhor Filme.

Esta época do ano, por aqui, é muito animada e muito esquisita. A partir de novembro do ano anterior, entidades mais variadas – da minha Associação de Jornalistas Estrangeiros em Hollywood à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, passando por todos os sindicatos de mão de obra especializada – escolhem e premiam seus “melhores do ano”.

Como escolher “melhores” é sempre um gesto que traz em si mesmo a semente da falha – “melhor” para quem? Segundo o quê? –, os meses se passam num frisson de excitação, frustração e uma certa angústia, especialmente se você está do lado de dentro desta indústria poderosa e maluca. Para fãs de cinema e TV, a coisa adquire uma vibe de Copa do Mundo, onde se torce por quem mais nos agrada/representa. Para quem está cá dentro, a coisa é bem mais complicada. Executivos, agentes e produtores tem a tendência de votar estrategicamente – como esta indicação ou prêmio pode alavancar a carreira do meu filme ou série? Como isso pode me ajudar a lançar o filme nos mercados internacionais? Como isso vai aumentar meu poder de barganha para projetos futuros?

Além dos interesses pessoais, contudo, há um outro elemento que, para mim, que sou ao mesmo tempo observadora e participante, é absolutamente fascinante: o modo como esse processo de escolher e premiar “melhores” reflete o que está se passando na sociedade em geral, e como a definição de “melhor” está repleta de outras ansiedades e temores.

Olhando para a história das principais premiações, duas coisas ficam bem claras: quem dá o peso a nomes e títulos não é o prêmio, é o tempo, a visão retrospectiva da história. Por exemplo: em 1977, Rocky, um Lutador, ganhou um Oscar de melhor filme, batendo, entre outros, Taxi Driver, de Martin Scorsese; ou, talvez ainda mais dramático, em 1942, Como era verde o meu vale ganhou o Oscar de Melhor Filme, passando a perna em Cidadão Kane, que tinha nove indicações e saiu da festa com uma solitária estatueta por Melhor Roteiro.

Não se trata exatamente de “melhores”, então – se trata de algo mais sutil que tem a ver com os traumas e esperanças coletivas da cidade, do país, do mundo. O primeiro filme a receber um Oscar, Wings, em 1928, trazia um novo ponto de vista para uma nova, terrível invenção: o aeroplano, e seu uso como elemento de destruição, na Primeira Grande Guerra. Em 1943, Mrs. Miniver, um drama sobre a vida na Inglaterra sob o ataque cerrado do Reich, levou a seis Oscars, inclusive a principal láurea – e seu diretor, William Wyler, alistou-se para servir como documentarista no front europeu, quando os Estados Unidos entraram na guerra.

A luta pelos direitos civis expressou-se nos prêmios a In the Heat of the Night, em 1968; a guerra do Vietnã aparece com clareza desde 1978 e The Deer Hunter, de Michael Cimino, e vai até os anos 1980 com Platoon. A era Obama trouxe 12 Anos de Escravidão e Moonlight para o centro das conversas. O que o trauma de um ano de trumpismo, insegurança, conflitos sociais e raciais, o desvelar de uma cultura de assédio e violência sexual poderá fazer com escolhas aparentemente tão descoladas de tudo isso?

As escolhas, até agora, manifestam tudo isso, especialmente a vontade, aliás, a necessidade de expressar um universo de criação mais diversificado e mais inclusivo. A trajetória de um filme pequeno como Corra! – primeira obra, com baixo orçamento e zero estrelas, de um comediante tornado realizador, Jordan Peele –, de fevereiro de 2017, até as listas de melhores do ano e indicações em todos os prêmios revela quanto poder de fogo tem um mergulho pessoal e simbólico no racismo, para sempre um ponto sensível da sociedade norte-americana, tornado ainda mais doloroso com a ascensão da extrema-direita.

A ele se juntam explorações da sexualidade, com BPM e Me chame pelo seu nome, e obras feitas por mulheres – Lady Bird, da atriz e diretora Greta Gerwig; Mudbound, da diretora Dee Rees; e Mulher Maravilha, de Patty Jenkins – ou títulos centrados em personagens femininas fortes e complexas, como Três anúncios para um crime, The Post, A forma da água e The Florida Project.

E isso apenas nos prêmios de cinema. Na TV e adjacências, a safra de 2017 é claramente definida por mulheres no comando da narrativa: The Handmaid’s Tale, Big Litlle Lies, The Marvelous Mrs. Maisel.

São todos bons títulos – e há mais, muitos mais, é claro –, mas sua qualidade é apenas um dos elementos que os trouxe até aqui. Algo neles tem algo de catarse, de espelhamento, um superpoder, quase, de mostrar, de forma simbólica, tudo aquilo que está fervendo, fermentando, mal digerido, mal resolvido, na alma coletiva. 

Francis Ford Coppola gosta de dizer que o cinema, por seu poder de condensar e expressar ideias e sentimentos, acaba trazendo coisas imateriais para o plano da realidade. Mas eu acho que, cada vez mais, ele está se tornando não a varinha de condão, mas o espelho.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

 

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