Com Baudelaire à mesa

Marília Garcia

 

Um pequeno detalhe, uma palavrinha pinçada nas quase 700 páginas da nova edição bilíngue de As flores do mal, de Baudelaire, com tradução do poeta Júlio Castañon Guimarães, pode dar a ver o caráter crítico do gesto de tradução.

Gosto da imagem do tradutor como alguém que lê com uma lupa na mão. Não sabemos o que ele vê ampliado, podemos apenas intuir o processo a partir do resultado. Talvez a lupa permita à leitura esta visada crítica (já dizia Haroldo de Campos, a tradução como crítica) e é nos detalhes que o tradutor constrói as balizas da sua leitura (sintaxe, vocabulário etc.) E haja baliza para a empreitada de traduzir Baudelaire!

A palavrinha que pincei na floresta dessas flores do mal foi o hélas, expressão tão rasgada que traz ao poema ecos do romantismo, expressão de lamento que em português ora aparece como “oh”, ora como “infelizmente” e mesmo como “ai de mim!” (espécie de fóssil dentro do poema!). Dessa vez, o hélas estava num dos meus versos favoritos da vida. Um desses versos que ecoam em situações diferentes e dão sentido às coisas. Baudelaire está cheio de momentos assim: a cidade fervilhando, a multidão no ato, as nuvens e o abismo no alto, a passante que passa cheia de graça, o olhar panorâmico enxergando os tipos da cidade e o longo e demorado spleeeen...

O hélas está no poema “Cisne”:

 

“A velha Paris já não existe (a forma da cidade
muda mais rápido, hélas, do que o coração de um mortal)”.

 

Faço aqui uma tradução rápida de sentido, mas tropeço nesta palavra que não sei traduzir. É possível entender aqui por que Baudelaire é considerado o primeiro poeta moderno, mas também o último romântico: na velocidade da cidade, o lamento de um hélas; a tensão exposta, desnudada. Mistura de um clássico (como diz a blague citada por Júlio Castañon na introdução ao livro) com um jornalista da época.

Procurei algumas soluções para esses versos; na da portuguesa Maria Gabriela Llansol, o hélas vira um “é assim” conformado, em consonância com o clima do spleen:

 

 “O velho Paris mudou___
É mais plástica a cidade
Que um coração mortal__
É assim”

 

Na de Ivan Junqueira, o hélas foi excluído:

 

“Foi-se a velha Paris (de uma cidade a história
Depressa muda mais que um coração infiel)”

 

E na nova tradução de Júlio Castañon Guimarães:

 

“Paris é outra (a forma das cidades muda
Mais rápido, bem mais, que um coração mortal).”

 

Ele manteve o literal da palavra (na métrica e som), o exagero da expressão e, ao mesmo tempo, encontrou uma maneira de atualizar o tom melancólico (sem a afetação que um hélas traduzido poderia gerar). É uma solução que também se conforma, mas vai além ao reforçar o sentido das mudanças. “Hélas” vira “bem mais” e produz um efeito crítico. Talvez este detalhe possa dizer muito sobre esta nova tradução do livro.

Publicado em 1857, As flores do mal passou por muitos momentos de recepção, desde a censura da época até ter se transformado no grande monumento da modernidade. Ganhou importantíssimas leituras ao longo dos anos (de Mallarmé a Benjamin, passando por Friedrich) e, em português, já teve várias traduções (algumas integrais).

Em 1917, o poeta Apollinaire disse (num texto que acompanha esta edição) que Baudelaire era “filho” dos narradores Laclos e Edgar Allan Poe, por sua liberdade em retratar os costumes da época. Podemos dizer, por outro lado, que ele é o “tatatataravô” de todos nós por ter, entre outras coisas, estabelecido nosso idioma poético. Uma nova tradução da obra faz esse tatatataravô entrar em circulação outra vez na língua, agora pela voz de um importante poeta contemporâneo como o Júlio Castañon Guimarães. Baudelaire vem sentar à mesa com todos nós e só temos a agradecer pela companhia.

***

Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

 

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