Como elas nos olham

Marcílio França Castro

 

Sempre temo não lembrar, nunca mais lembrar, então é preciso pedir as canetas. Durante 5 km caminho pela cidade e vou tomando emprestadas as canetas, como no poema de Armando Freitas Filho. Desço a Afonso Pena até a Carandaí, paro na banca da esquina. O poema cita um jornaleiro. Na minha banca está uma moça – sua caneta vem na ponta do barbante. Passo o vendedor de loterias, o baleiro, a funcionária do teatro (que está na rua para fumar). O poema menciona um frentista, um chaveiro, a caixa de um supermercado. Falo com o guarda do parque, sua caneta não funciona. O poema também tem sua caneta imprestável. O poema cita um florista, e eu também tenho a minha, com sua esferográfica gasta (treinada em frases de amor). Adiante, as meninas do Habib’s têm uma caneta com lanterna; no poema, quem solta faísca é o amolador. No café Nice me cedem uma bic – no poema ela é de todos. Em qualquer ponto do meu percurso, sempre solicito uma folha de bloco, um guardanapo. No poema, os papéis se desmanchariam: são notas à beira-mar. O poema de Armando se chama “Canetas emprestadas” e está no livro Rol, lançado em 2016. Tem 14 estrofes, escritas com 14 canetas (a correspondência não é exata). Seus versos reconciliam os pés com as mãos, a geometria da escrita com a da caminhada. Um ofício sucede o outro; sua convivência, como a das poetas que o poema evoca, é fraterna: uma caneta deve continuar (e borrar) a história da outra. Enquanto ando, misturo as canetas do poema com as minhas, os personagens dele com os meus – às vezes até pressinto o mar. Há algo, porém, que apenas na minha caminhada posso perceber, e com a última caneta me apresso em registrar: é o modo como elas nos olham – elas, as pessoas que emprestam as canetas. Pois, ao escutarem o seu pedido, sorriem levemente; elevam a cabeça e te olham. Olham com gravidade e doçura, como se te entregassem a chave de uma casa – a casa em que você vai morar.

 

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Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em estudos literários pela UFMG, publicou, entre outros, Histórias naturais e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional.

 

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