Como o chocolate, a poesia

Marília Garcia

 

Outro dia assisti a um festival de poesia on-line organizado no México reunindo poetas de várias partes do mundo para pensar em uma questão colocada pelos organizadores: “La poesia salvará al mundo.” De início, achei que se tratava de uma pergunta, afinal, a poesia pode salvar umas horas do meu dia (ou do seu) e pode inventar novos mundos dentro desse mundo (como diria o poema de Ron Padgett que cita o de Paul Éluard); e também criar espaços de sobrevivência e convivência, um quadrado de respiração no meio do caos das coisas. A poesia pode ser uma ponte que se estende até outras pessoas e, pouco a pouco, vai costurando laços afetivos e construindo afinidades e formas de ver as coisas. Ora, já é bastante coisa e talvez o poema seja um salva-vidas de um mar distante, desconhecido, ainda por explorar – mas salvar “o” mundo? Sabemos que, na bolsa de valores culturais (e há tanto tempo que é difícil mensurar), o poema ocupa um lugar “de crise”, lugar em perpétua crise.  

O debate é interessante e bem mais amplo do que isso (penso, por exemplo, no trabalho teórico de Marcos Siscar que analisa como marca inerente da poesia moderna o caráter crítico/de crise do poema). Seja como for, embora o título do festival fosse afirmativo (tirado, por sua vez, de um livro de Jean-Pierre Siméon), havia nele uma espécie de provocação em relação aos dons e possibilidades da poesia. Se por um lado, a poesia não serve para nada no mundo em que vivemos (mundo da eficiência, rapidez, espetacularização etc.), por outro, há uma espécie de negatividade reafirmada em torno da inutilidade do poema que parece estar no extremo oposto.

Então, lembrei de dois poemas que pensam o valor da poesia a partir de um critério bastante justo: o chocolate. Olha que não há mais metafísica mundo senão chocolates, diria Álvaro de Campos. O primeiro deles, “Soneto da poesia de chocolate”, da americana Bernadette Mayer, com tradução minha:

 

quando meus filhos eram pequenos
nunca tínhamos doce em casa mas
quando íamos a uma leitura de poesia
eu sempre comprava barras de chocolate
para tornar a poesia palatável ou
mais interessante ou então para eles
ficarem relativamente quietos, só dava errado
se a leitura fosse longa demais, aí 
era um sufoco, mas nesse caso bem que eu merecia
não é? depois de um tempo se soubesse
que a leitura seria longa eu levava duas barras
então comecei a pensar em longas leituras
como sendo leituras de duas-barras-de-chocolate, e em alguns casos
levava duas barras só para garantir, e às vezes acabava guardando uma

                   a poesia é como o chocolate
                   o chocolate é como a poesia

 

 

O segundo poema, da portuguesa Benédicte Houart, leva a questão para outro lugar: aqui o chocolate não é para quem saboreia o poema, mas para quem escreve. E os direitos autorais de quem escreve sequer dão para uma barra de chocolate:

 

com os direitos de autor
do meu primeiro livro de poesia
comprei um m&m amarelo
(amendoins cobertos de chocolate)
duvido que alguém tenha saboreado os meus poemas
com tanto alarido

com os direitos do segundo
comprei dois m&ms
fiquei abundantemente contente e 
de queixo bem lambuzado
como convém

cada m&m lembrava-me o álvaro
que dizia, e passo a citar
come chocolates, pequena, e
eu, citando novamente,
comia chocolates, pequenos

com os do terceiro
que ainda não escrevi
já me cresce água na boca
reservei m&ms na mercearia
e pus a boca em pause
embora muito a contragosto

bem vejo como este poema é prosaico
as minhas desculpas
os direitos de autor não dão
para mais metáforas do que isto

(e, de resto, ele tinha razão, o álvaro
o mundo é uma gigantesca pastelaria
onde uns comem, outros veem comer)

 

Com direitos autorais tão parcos, não é possível fazer metáforas muito valiosas e, assim, o poema fica ao rés-do-chão, falando de coisas miúdas e sem grandes pretensões ou dotes épicos. O mundo é uma imensa confeitaria e, nele, a poesia não vai salvar nada; está apenas ao alcance da mão, dos olhos, da boca. Como o chocolate.

(Em tempo, deixo o link de duas mesas do festival mexicano: uma com o poeta argentino Ezequiel Zaidenwerg e a espanhola Amalia Bautista; e outra com os mexicanos Paula Abramo, Maricela Guerrero e Luis Felipe Fabre.)

 

***

Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

 

Neste post