Confissões de um monstro de duas cabeças

Ana Maria Bahiana

“… e acima de tudo: América, este lugar estranho, enorme, onde eu me encontrava vivendo agora e que eu sabia que não compreendia. Mas eu queria compreender. Mais que isso, eu queria descrevê-lo.”

(Neil Gaiman, prefácio da edição 10 anos de American Gods)

Neil Gaiman é um expatriado, como eu. Expatriados vivem em situações limítrofes, não necessariamente entre dois mundos, mas em dois mundos, simultaneamente. Carregamos dentro de nós a terra onde nascemos, e colocamos sobre ela o manto da terra onde viemos parar, a terra que, consciente ou inconscientemente, escolhemos porque era ao mesmo tempo tão parecida conosco e tão diferente de nós.

Somos monstros. Temos duas cabeças e dois corações e nossos olhos veem em dobro. Amamos e odiamos em estéreo.

Eu disse outro dia para um amigo recente: vi seu filme duas vezes, uma vez com os olhos brasileiros, outra vez com os olhos americanos.

Eu faço muito isso.

Quando cheguei aqui em Los Angeles, na Califórnia, eu odiei tudo. O céu enorme, as ruas enormes, a secura, o deserto, a falta do verde bandeira, o horizonte sem montanhas de granito, o mato sem cigarras e sem flamboyants. Eu não sabia dirigir, não conhecia viva alma na cidade, não sabia nem onde a cidade começava ou terminava. E ia ter que criar um filho aqui, um filho nascido no Brasil, agora longe dos amigos de escola, dos avós, das primas.

Eu queria dar meia volta e voltar, mas ao mesmo tempo sabia que não ia fazer isso. Eu só não sabia o que fazer do meu ódio.

Depois de umas boas semanas dessa angústia, eu me vi numa tarde de verão parada num carro no estacionamento da Will Rogers Beach, que é o ponto final de Sunset Boulevard. O sol, num tom entre o alaranjado e o púrpura que eu conheceria tão bem, vinha descendo devagar bem no meio do para-brisa do carro, deslizando preguiçosamente para o horizonte. Uma neblina lilás, úmida e cheirosa, que também em breve ia ser minha grande companheira, vinha subindo do mar.

Meu primeiro pensamento foi: Ah, é por isso que se chama Sunset, a rua termina no pôr do sol.

Meu segundo pensamento foi: Nossa, o sol está indo para o Japão.

Nesse exato momento, tudo mudou. Minha cabeça, minha alma, meus olhos, todos os meus sentidos giraram num caleidoscópio, criando novos ângulos, novas perspectivas, sobrepondo imagens, conectivos, emoções. O sol estava indo para o Japão, para nascer novamente depois da linha do tempo, onde as horas mudam e a noite se torna dia. Eu estava no último limite continental antes do abismo do Pacífico, uma costa desconhecida, o outro lado do diálogo África-Europa que tinha me formado e me definido.

Eu não sabia nada. Eu estava parada no sem-pulo de uma experiência tão nova que não tinha nem nome, numa cidade tão jovem que não se importava em ser inusitada e que, francamente, não tinha tempo para gente com muita bagagem pesada. Eu estava querendo entender um lugar violentamente novo com ideias trazidas do passado.

Acho que foi ali, naquela praia, naquele pôr do sol, que me nasceram a nova cabeça e a nova alma. Foi ali que virei o monstro que, como Neil, tinha fome de entender. Mais que isso: tinha volúpia de descrever. Com novos olhos, na borda do Pacífico, onde o Novo Mundo ia acabar para virar o dia de amanhã, lá depois do horizonte.

É difícil compartilhar a experiência do expatriado com quem não é. É difícil explicar a natureza e a intensidade desses dois amores, o modo como fronteiras se tornam irrelevantes, mas sabores, odores e pessoas se tornam essenciais.

Amo Los Angeles e a Califórnia, hoje, com o mesmo amor que tenho pelo Rio de Janeiro e o Brasil, só que diferente.

Tudo isso veio à tona, como um vulcão, nas longas horas que se seguiram às eleições norte-americanas. Que por sua vez já se seguiam às longas horas das eleições municipais no Rio de Janeiro.

Como explicar racionalmente algo que mais se parece com um fenômeno geológico?

Num ser de duas cabeças e dois corações, assume o controle quem pode agir mais rápido, mais eficientemente. Vivi, vivemos, sob a bota de muita gente ruim. Sobrevivemos a todos, mas a que custo? Mas o custo é sempre baixo, tem que ser baixo, na perspectiva do futuro, para onde o sol está indo sempre, lindo e implacável.

O Rio é meu coração que ficou no passado, e que pulsa num ritmo doce, às vezes doído. Los Angeles e a República da Califórnia – que mais uma vez se levantam dizendo não, somos uma gente misturada demais, aberta demais para aceitar retrocessos – são meu coração do futuro, onde estão meu filho e minhas netas e quem mais virá dos ramos dessa árvore, dessa nova árvore, um carvalho do canyon, espécie nativa destas terras, que sobrevive a incêndios, secas, terremotos e tiranos.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70(Ediouro, 2006) e Almanaque 1964(Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Neste post
Acesse a Letrinhas nas redes sociais