O ar que me falta, acompanha uma playlist imersiva criada pelo autor. Ela possui dois lados — A e B —, compostos por músicas citadas no livro e algumas com ligação direta a eventos ou situações descritas na obra. Uma viagem por vários gêneros musicais. Entenda a composição de cada um dos lados pelas palavras do autor:" />

Conheça a playlist imersiva de "O ar que me falta", de Luiz Schwarcz

Luiz Schwarcz

O novo livro de memórias de Luiz Schwarcz, O ar que me falta, acompanha uma playlist imersiva criada pelo autor. Ela possui dois lados — A e B —, compostos por músicas citadas no livro e algumas com ligação direta a eventos ou situações descritas na obra. Uma viagem por vários gêneros musicais. Entenda a composição de cada um dos lados pelas palavras do autor:

Música para os meus ouvidos

O Lado A da playlist de O ar que me falta

Quem leu meu livro sobre depressão, silêncio, família e holocausto deve ter notado que a música teve papel crucial na minha vida, e continua tendo. Foi e é minha resposta, ou saída, para o silêncio com o qual inundei minha existência, ora intencionalmente, ora sem querer. Por isso foi tão difícil escolher as canções para uma playlist.

Este lado A não se ocupa das músicas citadas no livro — que compõem a playlist Lado B —, mas tenta apenas encontrar canções sobre os temas e situações que aparecem no texto. Há uma profusão de rock‘n’roll, gênero que ouvi demais na adolescência e na vida madura. Quis ter todos os discos, precisava ser o roqueiro completo. Em suma, fui um baita de um maníaco roqueiro (e não o oposto).

Várias músicas representam a saudade paterna e o luto que talvez nunca tenha superado. “September Song”, “Espelho”, “Naquela mesa” e “I’ll See You in My Dreams” entram nessa categoria. Mostram por que este livro quase foi um livro só sobre meu pai, que teria sido intitulado O silêncio do meu pai. A linda “Yes, I Have Ghosts”, de David Gilmour, também foi escolhida pensando na vida e na culpa de André.

O silêncio está presente em canções como “The Sound of Silence” e em “Way to Blue”. Nesta, Nick Drake — cuja trajetória foi tragicamente breve — pergunta sobre como achar o caminho para o paraíso (explicação para a palavra “blue” por parte de muitos críticos). A interpretação mais literal nos remete à busca de um espaço para a tristeza. Seria “Way to Blue” premonitória ou só uma canção tão linda quanto triste?

O mesmo silêncio presente em várias das canções desta lista é parte fundamental tanto da música de piano de Bach e seus contemporâneos como das composições de Paulinho da Viola e Cartola. Quando estou melancólico, recorro ao diálogo com eles, e me conforto sentindo-me acompanhado.

A escolha de uma música para uma playlist é puramente subjetiva. “Copo vazio” me pareceu uma canção-metáfora maravilhosa para representar a psicanálise, tão importante em minha vida e na cura da minha depressão. “José”, de Caetano Veloso, foi escrita a partir da fábula de José no Egito, recontada por Thomas Mann. Para mim ela é uma canção sobre depressão.

É curioso também como as músicas podem se comunicar entre as playlists. “Coisas do mundo”, de Paulinho da Viola, que está no Lado B, parece muito com “Both Sides Now”de Joni Mitchell, presente no Lado A. São canções sobre a humildade e o espanto perante o mundo, e como ele pode parecer e ser tão incompreensível e vazio. Meu pai adorava “Both Sides Now” na voz de Neil Diamond. Quase escolhi essa versão, como homenagem a André, mas a original é muito melhor. E tenho certeza de que meu pai nunca atentou para a letra, bem mais reflexiva com Joni Mitchell.

Beethoven, que dá nome a um capítulo do livro, aparece aqui com um trecho da sonata A tempestade. Esta é uma prova musical — tão eloquente como qualquer prova clínica — de que o compositor mais genial de todos os tempos sofria de transtorno bipolar.

Por fim, algumas informações importantes: “Jeremy” é uma canção sobre bullying, feita em homenagem a um rapaz que se suicidou depois de sofrer assédio intenso na escola. Houve reação da família contra a música, que é muito forte, mesmo sem mencionar explicitamente o ocorrido.

Encontrei uma alusão a “The Chain”, do Fleetwood Mac, num fórum da internet sobre música e bipolaridade. Mesmo carregando o transtorno, nunca havia notado que era muito mais que só uma canção de amor. Ao ver um bipolar nível 1 — o grau mais sério da doença — dizer que essa era a melhor música para representar seu estado, entendi como o sentido de urgência, que fala da necessidade imediata e ilimitada do amor, é uma das imagens mais fortes sobre o transtorno bipolar. “If you don’t love me now, you will never love me again”. Apavorante.

 

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Num livro há infinitas canções

Guia para o Lado B da playlist de o Ar que me falta

Nesta playlist encontram-se todas as músicas citadas no livro, do “Adagieto” da Sétima sinfonia de Beethoven — o movimento sinfônico da minha predileção — às músicas que menciono ter ouvido ou tocado para os meus pais, como “Je T’Aime moi non plus” e “My Way”. Aparecem também “Domingo no parque”, a Partita No 1 de Bach — que foi tocada no recital de Besançon citado no livro — e uma canção do musical O Rei Leão, com Elton John. Há uma passagem do livro em que narro ter chorado pateticamente ao assistir à peça, em péssimo estado, em Nova York. “I am happy just to dance with you” faz parte de “A hard day’s night”, o primeiro LP que ganhei na minha vida.

E, claro, abrindo os serviços, a canção-epígrafe “Canto chorado”.

Melodias inspiradas nas rezas judaicas importantes estão representadas por versões clássicas: “Kol Nidrei”, de Max Bruch, e “Kaddish”, de Maurice Ravel. “Az a Szép”, canção cigana húngara que meu pai adorava e cantava sempre, se completa com a música de piano de Bela Bartók, compositor também húngaro, que neste caso se baseou em canções folclóricas romenas, mas com um acento húngaro inconfundível. Lembra-me até certo ponto a melancolia da minha infância, ou minha solidão juvenil. Se comunica com as peças de piano de Bach e outros compositores de sua época que estão em ambos os lados. Entre a música barroca e a contemporânea há mais proximidade do que se pode imaginar.

O trecho da Sagração da Primavera não tem tematicamente nada a ver com o livro, mas lembra o medo infantil que sentia ao ouvir os pés do meu pai baterem na cama, durante a sua insônia.

O “Va, pensiero” de Verdi entra aqui porque imaginei que meu pai deve ter cantado essa composição quando era membro do coro da Ópera de Budapeste. Além disso, a ária que trata do cativeiro dos judeus na Babilônia — obra monumental do grande compositor italiano, considerada o hino não oficial do país — era uma das favoritas de André.

Coloquei aqui uma ária de La Boheme de Puccini, escolhida por trazer um dueto de amor, como imaginei, num romance inacabado, Luar ausente, citado no final de O ar...

Há músicas sobre separação (It’s All over Now, Baby Blue) e sobre a morte de crianças (“Kindertotenlieder”). Representando minha adolescência e a coleção de discos de rock vem “Baba O’Riley”, do The Who.

Lado B traz também grandes clássicos da bipolaridade musical, como as peças do Carnaval de Schumann. A primeira delas representa o heterônimo melancólico do compositor, batizado de Eusebius, e a outra sai direto da mente de Florestan, o maníaco. Vale reparar como só com notas o genial compositor diz tanto sobre a doença que acabou causando sua morte.

“Roll Right Stones”, do Traffic, é mais uma canção sobre o espanto com o mundo, mas que também marca meu encontro amoroso com a Lili. Nós a ouvíamos sem parar no início do namoro.

“Superbacana”, de Caetano Veloso, se junta a “O bom”, de Eduardo Araújo (na playlist Lado A), para retratar minha arrogância pré-depressão. Passando por grandes clássicos sobre depressão e tristeza (“Paint It, Black” e “Lonesome Road”), esta pequena viagem musical termina com o astral para cima, assim como lado A. “Ombra mai fù” fala de uma sombra de árvore que traz paz, impossível de ser profanada por raios e tempestades. E “Lanterna dos afogados” é sobre uma luz no túnel dos desesperados, sobre o reconhecimento da importância do amor na cura da depressão. “Tô te esperando, vê se não vai demorar”.

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, O ar que me falta, entre outros.

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