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Créditos a quem merece créditos – parte 2

Érico Assis

 

Na última coluna, defendi que é errado atribuir o crédito de um quadrinho como Batman/Fortnite a uma pessoa só e que isso vale para todo quadrinho do estilo super-herói, norte-americano, industrial etc. Em listas de mais vendidos como a do jornal O Globo ou do Publishnews, Batman/Fortnite é atribuída ao roteirista Christos Gage, uma de pelo menos seis pessoas envolvidas na produção da HQ.

Atribuir crédito de uma HQ apenas a roteirista tampouco é convenção. Tal como a crítica de cinema destaca o diretor, a convenção nos quadrinhos feitos por equipes foi, durante décadas, o crédito às duplas sertanejas roteirista & desenhista: Lee & Kirby, Claremont & Byrne, Fraction & Aja e outros.

Mas isso também está em revisão. As editoras mudaram, os autores mudaram, a crítica mudou e, o mais importante, o jeito de fazer quadrinhos mudou. E o jeito de fazer deveria ditar o jeito de creditar.

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Comecei a estudar como se faz HQ nas caixinhas de créditos das revistas de herói: “roteirista”, “desenhista”, “arte-finalista”, “colorista”, “letreirista”. É a ordem da linha de produção.

Roteiristas podem bolar a história por conta própria, com mais ou menos detalhes, com mais ou menos orientações para o desenho. Roteirista e desenhista também podem bolar juntos, embora normalmente o prazo não possibilite muito entrosamento.

Os primeiros roteiros que vi na vida foram os de Alan Moore. Eles são famosos pela extensão e pelo detalhamento. Descrições exaustivas de quantos quadros a página deve ter, a posição dos personagens em cada quadro, orientações de cenários, figurino, enquadramento, angulação e iluminação, além do conteúdo de todos os balões e recordatórios já pensado para o desenhista dar espaço. Às vezes, Moore ainda enviava esboços a lápis para se fazer claro.

No extremo oposto, há o Método Marvel, ou “roteiro Stan Lee”. Não era exatamente um roteiro, mas um argumento que descreve início, miolo e fim da história. Às vezes menos. O desenhista era encarregado de bolar todas as imagens que contam a história e como elas se dividem em páginas, em quadros, o ritmo etc. Balões e recordatórios eram bolados por roteirista depois de ver a página desenhada.

Havia desenhistas que gostavam da liberdade do Método Marvel. Havia desenhistas que gostavam da precisão do Método Moore. Nos dois métodos, havia desenhista que não seguia o roteiro. O método Marvel gerou brigas quanto a quem era mais responsável pela criação de tal ou tal coisa. No método Moore, alguns desenhistas se sentiam escravos de Moore.

O roteiro moderno entre os norte-americanos é um meio termo entre os dois métodos. Traz a decupagem da história de ponto a ponto, beat a beat, e costuma adiantar todo o texto dos balões, mas deixa a liberdade para o desenhista manejar a câmera e cuidar de tudo mais que for visual. Também se tem liberdade para a decupagem e texto mudar de acordo com o que se conseguiu nos desenhos.

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O crédito à moda dupla sertaneja vinha da concepção de que as duas funções do começo eram as essenciais, “criativas”, e que as outras eram “técnicas”. Limitações da tecnologia realmente não davam muito espaço para colorista e letreirista inventar, mesmo que o modo como as cores e os balões conduziam o olhar do leitor e colaboravam com a narrativa já fossem artes.

Hoje, em que esta parte “técnica” é majoritariamente digital e os processos de impressão são outros, a gama do que colorista e letreirista pode fazer a serviço da narrativa é muito maior. No caso dos coloristas – color artists, em algumas editoras – há até reconhecimento financeiro, com divisão de royalties que antes era restrita apenas aos “criativos”. Letreiristas ainda não entraram nessa.

Faz pouco tempo que publicações começaram a destacar nome de colorista e letreirista na capa. As de The Wicked + The Divine, por exemplo, estampam os nomes Gillen/McKelvie/Wilson/Cowles, ou roteirista/desenhista/colorista/letreirista. A crítica especializada começou a reconhecer a importância de coloristas do passado, como a de John Higgins em Watchmen, até então comumente creditada a Alan Moore (roteiro) & Dave Gibbons (desenho e letras). Letreiristas como Aditya Bidikar, que se adaptam a cada projeto, são tratados com o devido valor.

(Arte-finalistas – os caras que passavam o nanquim sobre o lápis – estão em extinção devido ao avanço da tecnologia de desenho direto no digital.)

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Como também comentei na última coluna, créditos vêm de convenções. O que eu tento defender nesta é que a convenção está mudando e que os peso de todas as figuras envolvidas num quadrinho em linha de produção mudou. A forma de fazer, repito, devia ditar a forma de creditar.

Há outras maneiras de fazer quadrinho. Há autores que fazem toda a linha de produção sozinhos ou sozinhas. Tem roteiros desenhados, balões antes dos desenhos, há quem nem siga uma linha. Mas, quando esta linha existe, não dá para pensar na figura (romântica) do diretor de cinema que coordena toda uma equipe para concretizar sua visão. A visão é literalmente de vários. O crédito deveria ser de todas estas visões.

Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o Blog com textos sobre histórias em quadrinhos. É autor de Balões de Pensamento (Balão Editorial), uma coletânea de textos lançados aqui no Blog. Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Minha coisa favorita é monstro e Sapienshttp://ericoassis.com.br/

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