Da dívida que temos para com as abelhas

Marcílio França Castro

 

Quando inventaram o microscópio, no começo do século 17, foi de uma abelha a primeira ilustração feita com o auxílio das lentes. Saiu publicada em livro em 1630, em Roma. Alguns anos antes, aparecera também em uma espécie de pôster científico dedicado ao inseto. O autor do desenho era Francesco Stelluti, um estudioso de astronomia e matemática que tinha formação em direito e se interessava por literatura. Stelluti ajudou a fundar aquela que seria a primeira sociedade científica moderna, a academia dos “Linces” – nome escolhido por evocar a agudeza de visão característica do felino. Hoje ela tem sede no Palácio Corsini, em Roma. Galileu, com quem Stelluti tinha amizade e se correspondia, era um de seus membros.

O desenho de Stelluti exibe um trio de abelhas em tamanho seis vezes maior que o natural – de frente, de lado, de dorso. Mostra ainda alguns pedaços destacados do corpo. Dá para ver detalhes das antenas e das patas. A forma alienígena da cabeça, o gradeado dos olhos, as pelugens. O tracejado das asas e a engenharia da língua, pronta para sugar. Quem topa com a imagem avulsa, em uma reprodução qualquer da internet, supõe que seja parte de um tratado de história natural. No alto, à esquerda, está o número 52 da página; há uma legenda no rodapé. Se, porém, por curiosidade, a pessoa resolve verificar o livro inteiro, em vez de um volume científico, vai encontrar um compêndio literário – a tradução, para o italiano, da obra do poeta romano Aulo Pérsio Flaco. São seis sátiras arranjadas em verso. Há uma introdução biográfica, um prólogo, alguns epigramas. Logo depois da primeira sátira, vem a parte das abelhas: além da ilustração, um rol de notas científicas preparadas pelo naturalista Federico Cesi, parceiro de Stelluti na Academia e no estudo. Um verbete de enciclopédia completo no meio de versos antigos.

A tradução de Pérsio, feita do latim, é assinada pelo próprio Stelluti. Na mesma época, o poeta era traduzido e estudado também em Paris. Pérsio viveu em Roma no primeiro século da era cristã. De formação estoica, foi contemporâneo de Lucano, que era seu leitor e admirador, e de Sêneca, por quem não nutria muita simpatia. Segundo seus biógrafos, possuía um temperamento sóbrio e modesto. Seu estilo, que ecoa o de Horácio, podia ser veemente, mas não tão indignado como o de Juvenal, nem tão desbocado como o de Marcial – ambos apenas um pouco mais novos do que ele.  Escreveu contra Nero, mas sem mencionar o nome do imperador. Pérsio morreu com menos de trinta anos. De sua produção, só sobreviveram as sátiras – publicadas postumamente, agradaram de imediato aos letrados e às pessoas comuns. Seus outros escritos foram destruídos por recomendação de seu melhor amigo e mentor, Lúcio Cornuto, que não queria vê-lo passar vergonha.

A edição de Stelluti era dedicada ao cardeal Francesco Barberini, bibliotecário da Santa Sé e sobrinho de Maffeo Barberini – o papa Urbano VIII, coroado em 1623. A folha de rosto traz um pórtico que estampa, na parte inferior, um lince, e no alto, sustentado por dois anjos, o escudo da família papal: um triângulo de abelhas. O emblema era relativamente recente e havia sido adotado pelos Barberini para dar à sua heráldica um ar de operosidade e nobreza, em substituição às três moscas identificadas com o nome original da família – “Tafani”, ou mutucas, em italiano. A insólita inserção das abelhas no livro tem, pois, motivação publicitária. Pensando em obter apoio financeiro do cardeal para os projetos da academia, Stelluti e Cesi tentaram unir o útil ao agradável. Cesi tinha o plano, jamais concretizado, de fazer uma enciclopédia de história natural. Começar por um estudo sobre abelhas seria a estratégia mais conveniente para agradar ao cardeal e ao papa. Uma menção à cidade de Areti, no fim da primeira sátira, supostamente ligada à história dos Barberini, serviu de pretexto para o encarte – uma conexão de resto totalmente descabida. 

Tal como qualquer pessoa, qualquer objeto, o desenho de Stelluti, visto com atenção, dá ensejo a várias histórias. Afinal, são três abelhas ou uma só, observada de ângulos diferentes? Do ponto de vista do cientista, o desenho atesta a força de um método – sua novidade e maravilha. Do ponto de vista do papa, funcionaria como uma espécie de selo oficial, com alguma importância na evolução dos papéis timbrados. Do ponto de vista do poeta, talvez se pudesse dizer que foi um aceno póstumo do acaso, uma homenagem ao seu estoicismo e senso de virtude. No cruzamento desses pontos de vista, me agrada a ideia de que a abelha de Stelluti é o primeiro ente a saltar de um manuscrito para o livro impresso, o primeiro a ingressar na era moderna. Mais do que isso, teria um papel na história dos próprios pontos de vista – ou da visão. Tal como a lua, que, sob o olhar do telescópio, deixou de ser lisa e uniforme e espalhou rugas pela geografia do cosmo, a abelha, entre as criaturas da Terra, foi aquela que nos propiciou a vertigem do tamanho – uma chave para alterar o pensamento, o modo de ver e de sonhar. As abelhas são responsáveis por mudar a escala da nossa imaginação.

 

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Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em estudos literários pela UFMG, publicou, entre outros, Histórias naturais e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional.

 

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